InferênciasEMEF - Amar a cidade e Modernizar a Cidade
As ruas do Barreiro, de facto, há muito que não viam as cores azuis dos operários.
E, sem dúvida, numa terra marcada ao longo de décadas pela força e querer da cultura Operária, foi com emoção que se escutaram os gritos de protesto e o sentimento de luta dos Operários da EMEF
Por Jornal Rostos
Num comunicado distribuído pelo Sindicato Nacional dos Trabalhadores do Sector Ferroviário/CGTP-IN e Comissão de Trabalhadores da EMEF, afirma-se, com justiça, que “o Barreiro ficará a ganhar com a continuação da actividade da EMEF” e salienta-se “porque é do interesse local a existência destas Oficinas como grande empregador na cidade do Barreiro, a intervenção dos órgãos autárquicos e das forças vivas da cidade, serão uma ajuda importantíssima à luta dos trabalhadores da EMEF”.
Afirma os subscritores do referido comunicado que “pela nossa parte vamos continuar a lutar até à obtenção de uma solução e certamente, vamos contar com a solidariedade e apoio dos barreirenses que amam a sua terra”.
Ser solidário
Neste mesmo comunicado, várias personalidades da vida local, declaram o seu apoio solidário e apoio á luta dos trabalhadores da EMEF.
Júlio Dinis, Director da Delegação do Barreiro da Escola Bento Jesus Caraça; Helder Madeira, membro da Assembleia Municipal do Barreiro/PCP; Joaquim Matias, Gestor e Vereador da Câmara Municipal do Barreiro/PCP; Manuela Fonseca, Professora Adjunta da Escola Superior de Educação de Setúbal; Carla Marina Santos, Professora e Vereadora da Câmara Municipal do Barreiro/PCP; Rui Ferrugem, Economista e Vereador da Câmara Municipal do Barreiro/PCP.
Pessoalmente, também aqui expresso o meu apoio solidário aos trabalhadores da EMEF e reconheço que é justo que os trabalhadores do sector ferroviário lutem pela salvaguarda dos seus postos de trabalho e para que na nossa cidade, o sector Ferroviário continue a manter a sua presença.
Uma curiosidade que me despertou este comunicado foi o facto de nos subscritores não constarem apoios explícitos de personalidades de outras forças políticas.
Será que Mário Durval, do Bloco de Esquerda, não está solidário com a luta dos trabalhadores da EMEF?
Será que Bruno Vitorino, do PSD, não está disponível para dar a cara pela salvaguarda dos interesses dos trabalhadores da EMEF?
Será que Eduardo Cabrita, Presidente da Assembleia Municipal, eleito pelo PS, não está disponível para manifestar a sua solidariedade com os trabalhadores da EMEF ?
Será que Emídio Xavier, Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, não está solidário com a luta dos trabalhadores da EMEF?
Será que não há Deputados Municipais eleitos pelo PS, ou mesmo pelo PSD, que não estão solidários com a luta dos trabalhadores da EMEF ?
Será que não Vereadores da Câmara Municipal do Barreiro, eleitos pelo PS ou mesmo pelo PSD, que não estão solidários com a luta dos trabalhadores da EMEF?
Se esta é uma luta que pretende mobilizar a cidade para o apoio aos objectivos referenciados no comunicado, porque não alargar a expressão dos apoios de forma aberta a outras correntes de opinião?
Porquê fechar o campo? Porquê não dar a esta luta a dimensão social que ela parece merecer ?
Pelas perguntas que um dos subscritores coloca ficamos com a ideia que a Câmara Municipal do Barreiro ignora esta luta e não está solidária com os trabalhadores da EMEF.
Em entrevista que fizemos a Emídio Xavier, interrogámos sobre esta luta e se tinha sido convidado para subscrever algum texto para o referido comunicado. O autarca esclareceu que não foi convidado para expressar a sua opinião.
E, mais ainda (ver texto da entrevista, na edição de “Rostos on line”) esclareceu que tem vindo a desenvolver esforços quer junto à Administração da EMEF, quer da CP, de forma a que os postos de trabalho e a presença da EMEF no Barreiro seja garantida, bem como os postos de trabalho.
Emídio Xavier manifestou a sua solidariedade com os trabalhadores da EMEF e, simultaneamente, apontou o dedo acusador à gestão CDU/PCP que ao elaborar o PDM em vigor, terá criado expectativas à REFER e CP, ao prever que na zona onde estão instaladas as Oficinas da EMEF possam ser viabilizados empreendimentos imobiliários.
Preservar o Património
São estas coisas que não dão para entender. Já não estamos no PREC.
O que está em causa são os postos de trabalho, é a defesa de uma empresa, é o reconhecimento de um valor patrimonial da nossa cidade, então, porquê procurar dar a ideia que há uns bons que defendem os interesses do Barreiro e outros que se calam e não estão solidários?
Se recordarmos as epopeias das lutas da Quimigal, da Equimetal, da MOMPOR, e de tantas outras empresas, somos capazes de sentir que é doloroso e negativo para estas lutas dar um sentido único a estes movimentos sociais.
No final, os trabalhadores ficam sem nada e apenas foram utilizados como “carne para canhão” e para objectivos que nada tinham a ver com os seus legítimos anseios e aspirações.
Revisão do PDM
De facto se o objectivo é lutar pela EMEF e pela manutenção desta empresa na cidade, em primeiro lugar, é preciso exigir que na Revisão do PDM, agora em marcha, sejam re-analisadas as perspectivas futuras que se propõem para os terrenos onde está da EMEF.
Será que os Vereadores do PCP/CDU já levantaram esta questão nas reuniões de Câmara?
Em segundo lugar, é preciso debater, com honestidade e clareza, dentro de uma estratégia do sector ferroviário, qual o papel que se pretende para as Oficinas da EMEF, no Barreiro, e se podem, ou não, ter outra dimensão, até alargando as suas missões.
Em terceiro lugar, é preciso equacionar, do ponto de vista do património histórico, naquela zona, o que pode e deve ser preservado, atempadamente, antes que as instalações comecem a degradar-se.
Recordo o calor humano que Augusto Cabrita colocava exigindo a preservação e conservação das “Rotundas” existentes naquele espaço, património único, digno de ser considerado património nacional, senão mesmo mundial.
E, de facto, a serem preservados, que projectos, que objectivos museológicos e como perspectivá-los no contexto de uma “cultura ferroviária” e como valorizar numa perspectiva de projecção da imagem de cidade na região e no país.
Em quarto lugar, sermos todos, de facto, sem sectarismo balofos, capazes de dar a esta “luta” um sentido de preservação de valores da cidade e da nossa identidade – quer valores patrimoniais, quer na preservação de postos de trabalho.
Amar o Barreiro, sim!
É por tudo isto, por se querer partidarizar a vida da cidade que, por vezes, o Barreiro fica para trás, vai ficando para trás porque, na verdade, as “partidarites” parecem soar mais alto do que os interesses dos trabalhadores e os interesses da cidade.
Apoiar os trabalhadores da EMEF e a salvaguarda do património ferroviário do Barreiro, com frieza e sentido de desenvolvimento da cidade é, sem dúvida, um dever de todos os que amam o Barreiro.
E amar o Barreiro é um privilégio de todos os que gostam de aqui viver, sentem, esta terra como sua, e acreditam que vale a pena viver aqui e trabalhar por um Barreiro moderno, renovado e com os olhos no futuro.
Foi bonito ver os trabalhadores da EMEF na rua.
É pena que os trabalhadores e assuas legitimas lutas continuem a ser usados com objectivos diferentes daqueles que os motivam a gritar : pelo pão e pelo trabalho !
António Sousa Pereira













