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Inferências

InferênciasEMEF - Amar a cidade e Modernizar a Cidade

Os trabalhadores das Oficinas da EMEF saíram à rua, manifestando-se e lutando contra a ameaça de despedimento e eventual encerramento daquelas instalações.
As ruas do Barreiro, de facto, há muito que não viam as cores azuis dos operários.
E, sem dúvida, numa terra marcada ao longo de décadas pela força e querer da cultura Operária, foi com emoção que se escutaram os gritos de protesto e o sentimento de luta dos Operários da EMEF
7 min de leitura

Por Jornal Rostos

Num comunicado distribuído pelo Sindicato Nacional dos Trabalhadores do Sector Ferroviário/CGTP-IN e Comissão de Trabalhadores da EMEF, afirma-se, com justiça, que “o Barreiro ficará a ganhar com a continuação da actividade da EMEF” e salienta-se “porque é do interesse local a existência destas Oficinas como grande empregador na cidade do Barreiro, a intervenção dos órgãos autárquicos e das forças vivas da cidade, serão uma ajuda importantíssima à luta dos trabalhadores da EMEF”.
Afirma os subscritores do referido comunicado que “pela nossa parte vamos continuar a lutar até à obtenção de uma solução e certamente, vamos contar com a solidariedade e apoio dos barreirenses que amam a sua terra”.

Ser solidário

Neste mesmo comunicado, várias personalidades da vida local, declaram o seu apoio solidário e apoio á luta dos trabalhadores da EMEF.
Júlio Dinis, Director da Delegação do Barreiro da Escola Bento Jesus Caraça; Helder Madeira, membro da Assembleia Municipal do Barreiro/PCP; Joaquim Matias, Gestor e Vereador da Câmara Municipal do Barreiro/PCP; Manuela Fonseca, Professora Adjunta da Escola Superior de Educação de Setúbal; Carla Marina Santos, Professora e Vereadora da Câmara Municipal do Barreiro/PCP; Rui Ferrugem, Economista e Vereador da Câmara Municipal do Barreiro/PCP.
Pessoalmente, também aqui expresso o meu apoio solidário aos trabalhadores da EMEF e reconheço que é justo que os trabalhadores do sector ferroviário lutem pela salvaguarda dos seus postos de trabalho e para que na nossa cidade, o sector Ferroviário continue a manter a sua presença.
Uma curiosidade que me despertou este comunicado foi o facto de nos subscritores não constarem apoios explícitos de personalidades de outras forças políticas.
Será que Mário Durval, do Bloco de Esquerda, não está solidário com a luta dos trabalhadores da EMEF?
Será que Bruno Vitorino, do PSD, não está disponível para dar a cara pela salvaguarda dos interesses dos trabalhadores da EMEF?
Será que Eduardo Cabrita, Presidente da Assembleia Municipal, eleito pelo PS, não está disponível para manifestar a sua solidariedade com os trabalhadores da EMEF ?
Será que Emídio Xavier, Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, não está solidário com a luta dos trabalhadores da EMEF?
Será que não há Deputados Municipais eleitos pelo PS, ou mesmo pelo PSD, que não estão solidários com a luta dos trabalhadores da EMEF ?
Será que não Vereadores da Câmara Municipal do Barreiro, eleitos pelo PS ou mesmo pelo PSD, que não estão solidários com a luta dos trabalhadores da EMEF?
Se esta é uma luta que pretende mobilizar a cidade para o apoio aos objectivos referenciados no comunicado, porque não alargar a expressão dos apoios de forma aberta a outras correntes de opinião?
Porquê fechar o campo? Porquê não dar a esta luta a dimensão social que ela parece merecer ?
Pelas perguntas que um dos subscritores coloca ficamos com a ideia que a Câmara Municipal do Barreiro ignora esta luta e não está solidária com os trabalhadores da EMEF.
Em entrevista que fizemos a Emídio Xavier, interrogámos sobre esta luta e se tinha sido convidado para subscrever algum texto para o referido comunicado. O autarca esclareceu que não foi convidado para expressar a sua opinião.
E, mais ainda (ver texto da entrevista, na edição de “Rostos on line”) esclareceu que tem vindo a desenvolver esforços quer junto à Administração da EMEF, quer da CP, de forma a que os postos de trabalho e a presença da EMEF no Barreiro seja garantida, bem como os postos de trabalho.
Emídio Xavier manifestou a sua solidariedade com os trabalhadores da EMEF e, simultaneamente, apontou o dedo acusador à gestão CDU/PCP que ao elaborar o PDM em vigor, terá criado expectativas à REFER e CP, ao prever que na zona onde estão instaladas as Oficinas da EMEF possam ser viabilizados empreendimentos imobiliários.

Preservar o Património
São estas coisas que não dão para entender. Já não estamos no PREC.
O que está em causa são os postos de trabalho, é a defesa de uma empresa, é o reconhecimento de um valor patrimonial da nossa cidade, então, porquê procurar dar a ideia que há uns bons que defendem os interesses do Barreiro e outros que se calam e não estão solidários?
Se recordarmos as epopeias das lutas da Quimigal, da Equimetal, da MOMPOR, e de tantas outras empresas, somos capazes de sentir que é doloroso e negativo para estas lutas dar um sentido único a estes movimentos sociais.
No final, os trabalhadores ficam sem nada e apenas foram utilizados como “carne para canhão” e para objectivos que nada tinham a ver com os seus legítimos anseios e aspirações.

Revisão do PDM

De facto se o objectivo é lutar pela EMEF e pela manutenção desta empresa na cidade, em primeiro lugar, é preciso exigir que na Revisão do PDM, agora em marcha, sejam re-analisadas as perspectivas futuras que se propõem para os terrenos onde está da EMEF.
Será que os Vereadores do PCP/CDU já levantaram esta questão nas reuniões de Câmara?
Em segundo lugar, é preciso debater, com honestidade e clareza, dentro de uma estratégia do sector ferroviário, qual o papel que se pretende para as Oficinas da EMEF, no Barreiro, e se podem, ou não, ter outra dimensão, até alargando as suas missões.
Em terceiro lugar, é preciso equacionar, do ponto de vista do património histórico, naquela zona, o que pode e deve ser preservado, atempadamente, antes que as instalações comecem a degradar-se.
Recordo o calor humano que Augusto Cabrita colocava exigindo a preservação e conservação das “Rotundas” existentes naquele espaço, património único, digno de ser considerado património nacional, senão mesmo mundial.
E, de facto, a serem preservados, que projectos, que objectivos museológicos e como perspectivá-los no contexto de uma “cultura ferroviária” e como valorizar numa perspectiva de projecção da imagem de cidade na região e no país.
Em quarto lugar, sermos todos, de facto, sem sectarismo balofos, capazes de dar a esta “luta” um sentido de preservação de valores da cidade e da nossa identidade – quer valores patrimoniais, quer na preservação de postos de trabalho.

Amar o Barreiro, sim!

É por tudo isto, por se querer partidarizar a vida da cidade que, por vezes, o Barreiro fica para trás, vai ficando para trás porque, na verdade, as “partidarites” parecem soar mais alto do que os interesses dos trabalhadores e os interesses da cidade.
Apoiar os trabalhadores da EMEF e a salvaguarda do património ferroviário do Barreiro, com frieza e sentido de desenvolvimento da cidade é, sem dúvida, um dever de todos os que amam o Barreiro.
E amar o Barreiro é um privilégio de todos os que gostam de aqui viver, sentem, esta terra como sua, e acreditam que vale a pena viver aqui e trabalhar por um Barreiro moderno, renovado e com os olhos no futuro.
Foi bonito ver os trabalhadores da EMEF na rua.
É pena que os trabalhadores e assuas legitimas lutas continuem a ser usados com objectivos diferentes daqueles que os motivam a gritar : pelo pão e pelo trabalho !

António Sousa Pereira

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