Saltar para o conteúdo
Inferências

InferênciasTempo de pensar a “cidade cultural”

As vivências culturais no Barreiro, durante décadas, foram marcadas por algumas linhas condutoras que, naturalmente, tinham a ver com o “pensamento dominante” e, de certa forma, este “pensar” influenciava o “modelo cultural” da cidade.
6 min de leitura

Por António Sousa Pereira

O modelo cultural vigente assentou em várias “linhas estratégicas” que de certa forma, por vezes, sufocava os agentes locais e as suas capacidades de “fazer cultura”.
A acção cultural assentava, essencialmente, em dinâmicas “municipalizadoras da cultura” e, como tal, não abria espaço para o desenvolvimento de uma cidadania participada.
Claro, que, foram vividas experiências que, pelas suas características e, acima de tudo, pelos “agentes envolvidos” contribuíram, de forma positiva, para dar uma nova dimensão às vivências culturais e impuseram novas dinâmicas, como foi o caso do projecto “A Viagem”, que transcendeu a dimensão meramente autárquica, envolvendo, particularmente, a Comunidade Educativa. Mas, também, foi um projecto contestado por uns e estimulado por outros.
A matriz ideológica dominante, durante décadas, influenciou, muitas vezes, as estratégias de acção cultural, ora influenciando, ora condicionando, de forma reducionista iniciativas que poderiam ter sido mais abrangentes.
A acção cultural na cidade, de certa forma, era um “reflexo do espelho” das estruturas municipais, que ao longo dos anos, sempre, tudo condicionaram e às quais os agentes culturais foram “obrigados a colar-se” para poderem sobreviver ou existir com alguma visibilidade.
Por vezes, alguns “agentes culturais” da cidade que optavam por atitudes “inconformistas”, sentiam, posteriormente, na pele as consequências directas dessas suas “intencionalidades culturais”.
Nunca devemos esquecer que sempre que há “intenção cultural”, há vontade de fazer cultura.
Naturalmente, quem tinha opções estratégicas que perspectivavam, regra geral, a exigência de “submissão cultural” a projectos e a Planos de Desenvolvimento ( raramente elaborados com a participação dos públicos alvo), obviamente, que não podia tolerar quando esses “agentes” assumiam “atitudes libertadoras”, apostando no pleno exercício da cidadania.
Este modelo, que dominou as vivências culturais, durante três décadas, influenciou formas de estar, motivou modelos de relações humanas, gerou grupos de interesses, criou subsidiodependências, marcou “culturalmente” os agentes culturais da cidade.

Tempo de perguntas

Neste começo de um novo milénio, quando se fala na elaboração de um Plano Estratégico e procura projectar-se o Barreiro de 2020, seria interessante reflectir-se, por um lado sobre a “estratégia cultural” que herdámos, por outro lado na “estratégia cultural” que somos, e, a partir daí, sermos capazes de influenciar a “estratégia cultural” que desejamos projectar no futuro.
Onde se enquadram as dinâmicas culturais da cidade no modelo de cidade de 2020 que está a ser pensado e projectado?
Que lugar para as políticas culturais no Plano Estratégico?
Que “referências culturais” pretendemos desenvolver, a curto, médio e longo prazo ?
Que “cidade cultural” queremos legar aos nossos filhos?
Qual o papel que pretendemos reservar e que assumam os agentes locais na promoção das vivências culturais?
Queremos agentes culturais emancipados, ou agentes culturais submissos?
Há um debate cultural, adiado, um debate que está por fazer, sobre as dinâmicas culturais vividas desde o 25 de Abril e as pontes que estão a ser feitas com os dias de hoje, e, obviamente, as perspectivas que se colocam nesse pensar o Barreiro de 2020.
Está, ainda hoje, por fazer uma avaliação dos reflexos das “políticas culturais” e dos “aparelhos culturais” que foram geradas por um “pensamento dominante”, durante três décadas.
Este debate não pode, nem deve ser adiado, nem deve ser ignorado.
É preciso, na verdade, ter a coragem de pensarmos e reflectirmos sobre os reflexos do passado na actualidade.
Há coisas feitas que foram positivas. Há coisas feitas que deixaram marcas.
Para encontrarmos respostas, naturalmente, primeiro temos que colocar muitas perguntas.
Colocar perguntas é, à partida, o passo necessário para se obterem respostas.
Chegámos aqui, e, agora, para onde queremos ir ?
Será que temos medo de fazer a ruptura com um “modelo de gestão cultural” que ao longo de décadas sufocou a cidade?!

O novo Milénio

O projecto cultural da cidade tem que assentar em três pilares essenciais : área dos saberes; área das tradições; área da educação.
À margem destas três áreas deverá existir na horizontal – a animação cultural.
Quando se fala em “área dos saberes” significa a existência de uma estratégia que tenha por base a promoção de instrumentos geradores de diferentes saberes – livro, artes, fotografia, teatro, etc.
Quando se fala em “área das tradições” tem a ver com as dinâmicas de salvaguarda do património – humano, paisagístico, urbano, memórias da cidade.
Quando se fala em “área da educação” tem que ver com as dinâmicas das escolas, ligação da escola à comunidade e a motivação para a afirmação do conceito de “aprendizagem ao longo da vida”.
Por fim a “animação cultural” deverá ser equacionada, com base no estímulo de parcerias, no mecenato cultural, e, não limitar-se a ser desenvolvida, como foi durante décadas, meramente como uma “agência promotora de espectáculos”.
Estes são parâmetros de reflexão, notas para um debate de ideias que deveria mobilizar a cidade, visando promover a cidadania, a participação de “agentes culturais” e “sujeitos culturais”.
Tem que existir a coragem de discutir a “cidade cultural” que somos e que queremos.
Tem que existir a coragem de fazer a ruptura e rasgar com o “modelo” que foi herdado.
Tem que existir a coragem de gerar parcerias, motivar os cidadãos a participar.
Por exemplo, o associativismo não pode ser olhado, eternamente, como um parente pobre, nem tem que viver com base numa relação “cultural paternalista”.
As vivências culturais da cidade têm que ser o resultado do “esforço positivo” dos agentes locais, dos sujeitos, das empresas e das autarquias, no sentido de promover modificações, valorizar a identidade, estruturar formas de vivência quotidiana – de dia e à noite – na certeza que “cultura” tem valores que contribuem para humanizar a cidade.
E, de facto, humanizar a cidade, é promover estratégias de acção que geram estruturas, promovem vivências, dão qualidade e sentido aos nossos dias, conscientes que um “ Projecto Cultural” nunca é um modelo acabado, edifica-se, transforma-se, renova-se com os movimentos da história, sempre tendo como referência a promoção da sociabilidade e da liberdade – humanizando a cidade!

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção