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Inferências

InferênciasEleições no PS - qual a influência na política local?

Uma pergunta que muitos colocam, mas que poucos ousam responder, ou que pelo menos não se vislumbram respostas da parte dos principais protagonistas, é, de facto, procurar saber se as eleições para o cargo de Secretário Geral do Partido Socialista de alguma forma tem reflexos na vida política local.
Não! Hum! Tudo bem.

10 min de leitura

Por António Sousa Pereira

No Barreiro, naturalmente, como em todo o país, se existem apoiantes dos três candidatos então é porque tal corresponde a formas diferentes, de olhar, sentir e viver o Partido Socialista.
No Barreiro, desde muito cedo, se gerou um movimento de apoio em torno da candidatura de José Sócrates, tendo desde logo como referência os nomes de Emídio Xavier, Presidente da Comissão Política Concelhia e Eduardo Cabrita, Deputado da Assembleia da República.
Os apoios à candidatura de Manuel Alegre surgiram titubeantes, sem grande força política, mas com a vontade de marcar presença e demarcar-se do “alinhamento geral”. João Pintassilgo foi desde a primeira hora o rosto de apoio a Manuel Alegre, outros nomes como Carlos Pires, não tomaram grandes opiniões públicas.
Os apoios à candidatura de João Soares surgiram desde a primeira hora com a força e o protagonismo de Cabós Gonçalves, que tudo tem feito no sentido de organizar apoios e motivar militantes para o apoio a João Soares. Madalena Alves Pereira, ex- Vereadora do pelouro da Cultura também consta irá surgir nos apoios a João Soares.

O direito à diferença

O jornal “Rostos” promoveu uma Mesa Redonda para a qual convidou um representante de cada candidatura, para que, em debate e troca de opiniões se colocassem em confronto as diferenças e o que separa as moções subscritas por cada um dos candidatos a secretário Geral.
Foi um debate animado. Uma conversa com pleno respeito pelas diferenças.
Foi um debate não de adversários políticos mas de pessoas que tendo a mesma visão ideológica do mundo, interpretam esse mundo com perspectivas tácticas ou estratégias diferentes e sentem o pulsar da vida política com uma dimensão mais calorosa, ou menos calorosa – afinal o direito de tendência consagrado nos estatutos do Partido Socialista.

Reflexos na vida local

Mas, será que a eleição do secretário Geral do Partido Socialista tem reflexos na vida política local?
Há quem diga que sim. Há quem diga que não.
Ficará a coesão local do PS abalada por este processo eleitoral e pelas diferentes opções?
Na opinião expressa pelos participantes na Mesa Redonda, quase todos acreditam que o debate em torno do funcionamento do Partido Socialista veio contribuir para que surjam novas dinâmicas, novas formas de abertura do Partido Socialista à comunidade, e dizem-nos mesmo “nada ficará como dantes”.
Um aspecto que procuraram referenciar é que a diversidade de opiniões não desvia os socialistas de manterem a sua unidade em torno do que consideram essencial, a afirmação do projecto político para a cidade e o trabalho pela consolidação da acção dos socialistas na transformação do Barreiro.
Nos debates ou sessões que temos acompanhado regista-se a pluralidade e diversidade de opiniões, a presença de uma cultura democrática e a afirmação do direito á diferença.

PS numa encruzilhada

Mas, para além dos discursos políticos, existe a vida real e como diz Cabós Gonçalves, em algumas das suas intervenções, o Partido Socialista é feito de seres humanos e como é próprio do ser humano, existem defeitos e virtudes.
A realidade é que estamos a um ano das próximas eleições autárquicas, um momento decisivo para que os socialistas possam consolidar a sua presença enquanto força política na cidade do Barreiro.
E, quer se queira, quer não queira, esta realidade política começa a marcar as vivências, quer do PS, quer do PSD ou mesmo do PCP.
O PCP não está a aguardar a realização do seu Congresso para arrumar a casa. A casa está arrumada, e, em breve, certamente, começará a sua acção política deforma mais intensa.
O PSD não tem problemas a resolver em termos locais. A sua liderança é clara e, na altura própria Bruno Vitorino vai começar a marcar a agenda, nomeadamente, quando da discussão das Grandes Opções do Plano para 2005.
O PS está numa encruzilhada. Não tem problemas de liderança. Tem um rosto que lhe dá força e credibilidade – Emídio Xavier.
No entanto, hoje, comenta-se o facto de Emídio Xavier poder ter os dias contados à frente dos destinos da Câmara Municipal do Barreiro, caso o PS venha a conquistar as eleições de 2006, podendo vir a integrar o governo de José Sócrates.
E, este é o problema central dos socialistas nos dias de hoje : Emídio Xavier avança ou não na candidatura à Presidência da Câmara ? E se avança é para ficar, ou vai partir para o governo ?
No caso deste segundo cenário se colocar, obviamente que, na preparação das listas, será necessário e, coloca-se como problema em aberto, garantir um número dois que dê continuidade ao projecto de cidade que tem vindo a ser liderado por Emídio Xavier.
Está a solução nos membros que compõem a actual vereação? Ou alguém terá que sair para que alguém entre ?
E caso Emídio Xavier opte por não avançar na sua candidatura, reservando-se para a Assembleia Municipal, que opção ou opções têm os socialistas?
Embora, para alguns pareça que não, será, sem dúvida, em torno dos apoios a José Sócrates, no concelho do Barreiro, que irão ser encontradas as soluções políticas.
Naturalmente, Emídio Xavier, quer enquanto líder concelhio do PS, quer enquanto Presidente da Câmara, tem uma palavra a dizer, e, sem dúvida, tem força política e força moral para influenciar as opções.

Entre o pensar e a acção

Mas, será que um partido que tem uma cultura democrática, afirma diferenças, pluralidade e diversidade, vai ficar de braços cruzados a aguardar que as decisões passem apenas por Emídio Xavier ou pelos apoiantes da candidatura de José Sócrates ? Este é outro osso duro de roer.
Emídio Xavier, obviamente, ninguém coloca em causa e todos, de forma plena aceitam e reconhecem que é o candidato natural do PS nas próximas eleições autárquicas.
Mas será que Emídio Xavier está disponível para, a qualquer preço, voltar a candidatar-se sem ter uma palavra a dizer sobre os restantes membros que irão constituir o Executivo Municipal ?
Será que Emídio Xavier, no respeito pelas diferenças, está disposto a aceitar, uma lista que não corresponda à assunção de um projecto político de cidade ?
O problema que todos, mais ou menos, comentam, é, na verdade, afinal, quem vai ser o número dois –quer por uma questão de continuidade no final do mandato, quer perante o cenário de uma opção governamental colocada a Emídio Xavier.
Eduardo Cabrita, naturalmente, não será opção, nem de número dois, nem de número um, caso Emídio Xavier, opte por outro caminho, até porque, os seus voos políticos são de outra dimensão – Assembleia da República e Governo.
Aliás, Eduardo Cabrita, pode considerar-se foi o grande protagonista político da candidatura de José Sócrates no concelho do Barreiro.
Luís Pedro Cerqueira, actual Vice Presidente, tem dado um contributo decisivo para a afirmação de um discurso de cidade, para perspectivar a cidade, um trabalho que o próprio PS não tem sabido enfatizar.
Talvez, como alguém dizia, há dias no almoço do Pato Bravo, “a nossa cultura não é uma cultura de pensar, é uma cultura de acção” e Luís Pedro Cerqueira pensa, projecta, planeia, sonha com uma cidade de 2020.
Este é um homem que o PS não devia dispensar na sua acção futura. No entanto, diz-se, por ser “independente”, que poderá ser o “sacrificado” na procura de soluções “consensuais”.
A Luís Pedro Cerqueira tem faltado força para dar visibilidade ao trabalho de bastidores que tem vindo a realizar e, de facto tem esse defeito, que muitos não gostam – ele é um homem que pensa.
Mas, sem dúvida, dificilmente, tem condições para protagonizar o número dois da lista.
Amílcar Romano, é um dinamizador da vida social, um político que tem como preocupações essenciais estabelecer pontes, abrir brechas no tecido social, estabelecer redes que estabeleçam relações entre a Câmara Municipal e os Agentes Locais.
Será que o PS, na actual fase, da consolidação da vida local pode dispensar um político desta dimensão?
Amílcar Romano é um político de acção. Pode-se concordar, ou não, com as suas opções, mas ele, acima de tudo, coloca uma forte dimensão política na sua actividade. Valorizar, valorizar, valorizar sempre...
No entanto, também, não parece ter sido capaz de afirmar um protagonismo que lhe dê força para, se colocar como o número dois na lista, apesar de ser um nome que alguns gostavam de ver nessa posição e outros, que afirmam, nem pensar em tal solução.
João Soares, é um trabalhador, um dinamizador de equipas de trabalho, entre o voluntarioso e o pensar, opta sempre por fazer. È um homem que faz e, de facto, tem sido um bom animador das suas áreas de acção.
Pode considerar-se um Vereador activo, um operacional.
Não parece querer caminhar para esse lugar, nem seria uma solução aceite. Existe algum consenso que é “um bom vereador”.
A pergunta que fica é, portanto, se alguns destes três pode ser o protagonista que, possa, efectivamente, posicionar-se como o “sucessor” de Emídio Xavier ?
Cada um que procure encontrar uma resposta, pois ao colocar-se a pergunta, começa a desbravar-se o caminho do futuro.

Uma ideia de cidade

É esta a encruzilhada do PS. E, na verdade, não vale a pena, adiar a solução. Ela tem que ser tomada.
E, sem dúvida, tudo isto, está a ser discutido e confrontado nas opções entre candidaturas ao Congresso do PS.
Uns para terem uma palavra a dizer, na diversidade.
Outros, para se posicionarem no seio do debate que procure soluções.
E, para quem estiver mais atento, certamente, nota que nada disto está ausente, nem deixa de ser questão central nos desafios que o congresso do PS coloca na dimensão local.
Emídio Xavier é sem dúvida o “nó górdio” de todo este processo, por ele passa a solução e ele tem o direito político e o dever moral de não abdicar de ser parte do problema e da solução. As suas opções serão decisivas.
Só que, o debate em torno do funcionamento do PS, que as moções colocam sobre a Mesa, levam a concluir que ele não pode, nem deve, ter desta “encruzilhada” uma visão reducionista – quem não está por mim, está contra mim. Até porque, ele sabe, como político sabe, que muitos que hoje estão com ele, amanhã poderão voltar-lhe as costas. É política.
Emídio Xavier tem sobre si um pesado fardo e, nesta hora, tem que ser capaz de demonstrar que acima de tudo o importante é que o PS seja capaz de dar coerência e consistência a um discurso de cidade.
O Barreiro, quem vive no Barreiro, que, sonha Barreiro, quem pensa Barreiro, precisa de ideias, projectos, sonhos...um discurso de cidade.
Uma cidade com um Plano Estratégico – uma cidade com pensamento.

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