InferênciasE agora, Emídio Xavier ?!
Ficou claro que a “unidade baseada na diversidade” vai continuar a ser a linha condutora dos socialistas no concelho do Barreiro.

Por António Sousa Pereira
O Partido Socialista no concelho do Barreiro tem vivido, nos últimos anos, em torno da consolidação de uma ideia estratégica “unidade baseada na diversidade”.
Uma ideia estratégica lançada, nos princípios dos anos 90, pelo seu líder histórico Aires de Carvalho que conduziu, de alguma forma, a que todos colocassem o essencial à frente do acessório, ou seja, antes demais, e, em primeiro lugar, lutar pela conquista da liderança política no concelho do Barreiro.
O confronto na escolha do candidato à Presidência da Câmara Municipal do Barreiro que colocou sobre a mesa os nomes de Emídio Xavier e António João Sardinha, resultou na vitória da proposta, então, apresentada por Aires de Carvalho.
Escolhido Emídio Xavier, de novo, “a unidade baseada na diversidade” foi a linha motora da acção política.
No entanto, a perda de Aires de Carvalho veio gerar um vazio político que, tal como escrevi na altura, Emídio Xavier conseguiu “estancar” ao dar a cara e assumir a liderança concelhia do Partido Socialista, evitando situações de crise e dando continuidade a essa linha estratégica “unidade baseada na diversidade”.
Mas, também é verdade que, ao longo deste tempo, de alguma forma o Partido Socialista tem vivido à “sombra de falsos unanimismos e consensos”, registando-se, numa ou noutra situação, pequenos sinais que pareciam fazer querer emergir situações de rupturas, e, até, por vezes, ficava a sensação que se pretendia exigir a “cabeça de Emídio Xavier”.
O tempo foi passando e apesar de algumas contestações, sem significado, o facto é que Emídio Xavier foi consolidando o seu perfil político, assumindo-se, cada vez mais como o rosto do concelho do Barreiro.
O rosto político do PS
O resultado das eleições Europeias vieram demonstrar que o Partido Socialista consolidou a sua base social de apoio no concelho do Barreiro, foram, na realidade, a meio do mandato, a primeira grande vitória política de Emídio Xavier, que, desta forma, tornou politicamente incontestável a sua recandidatura e assumiu-se, de forma clara, como o rosto político do PS no concelho do Barreiro.
No entanto, o facto de ser Presidente da Câmara e acumular a Presidência da Comissão Concelhia esta é uma situação que tem gerado algum vazio na acção partidária, pelo que, algumas vozes críticas vinham a exigir, numa ou noutra conversa, mesmo em artigos de jornais, a necessidade de “clarificação política”, uns contestando a “municipalização” do PS, outros criticando a eventual “partidarização” da autarquia.
A Emídio Xavier faltava-lhe o seu braço político partidário, que se apoiava em Aires de Carvalho.
Surgiram alguns pretensos herdeiros desse capital político. Mas sem consequências.
A evolução da situação política nacional, com a demissão de Ferro Rodrigues e a apresentação de três candidatos ao cargo de Secretário Geral, veio gerar uma dinâmica interna, promover o debate de ideias e pôr fim aos “unanimismos e consensos”.
No Barreiro, tal como em todo o país, os militantes daquele partido tomaram opções, participando num debate intenso, que sem dúvida “contribuiu para a clarificação política do PS”.
E, como afirmava José Sócrates, em vésperas da votação – “Haverá uma linha que vai ganhar e outra perder”.
Socráticos linha dominante
A forma como o processo relativo ao Congresso estava a decorrer no Barreiro, apesar dos representantes das diferentes candidaturas, afirmarem que perante os resultados finais não “existem leituras a fazer”, e recusavam que fossem feitas leituras, a verdade, é que em política, há sempre leituras que podem e devem ser feitas. Pode, ou não, interessar que essas leituras sejam feitas.
Como refere José Sócrates “o debate não dilacera o PS, contribui para a clarificação política do PS” e, acrescenta, que “haverá uma linha que ganha e uma linha que perde, neste Congresso”.
Ora, o que vale para a interpretação dos números ao nível nacional, irá valer ao nível regional e mesmo ao nível concelhio.
No Barreiro votaram 269 militantes, uma das maiores votações de sempre, segundo nos revelam alguns militantes históricos daquele partido.
Desta votação ficou claro que 198, optaram pelo apoio a José Sócrates, enquanto 69 militantes optaram pelo apoio aos outros candidatos - Manuel Alegre ( 36 votos) e João Soares ( 33 votos).
Os apoiantes de José Sócrates obtiveram 73.61 % dos votos expressos ao nível do concelho do Barreiro, enquanto os apoiantes de Manuel Alegre, ficaram-se pelos 13.38 % e João Soares, contrariando a sua tendência nacional, obteve 12.27 % dos votos.
Ou seja, os apoiantes de Manuel Alegre e de João Soares ficaram-se, em conjunto, pelos 25.65 % dos votos.
Apesar de ser dito e redito que não há leituras a fazer desta votação, existe uma primeira leitura política que pode e deve ser feita: os Socráticos são a linha dominante no concelho do Barreiro e esta vitória, está distribuída por militantes da Secção do Barreiro, que corresponde a 55.56% dos votos e da Secção do Lavradio que corresponde a 44.44% dos votos.
Esta votação permite uma primeira leitura política ao nível local, ou seja, que estão criadas condições para que se mantenha a estratégia de acção política no concelho do Barreiro que o PS tem vindo a manter nos últimos anos, prosseguindo, portanto, o desenvolvimento da ideia estratégica “unidade baseada na diversidade”.
Até porque, a expressão “antisocrática” fica-se pelos 25 %, contando com o peso político que daí emerge, ser uma voz crítica, actuante e participante.
Emídio Xavier desta forma obtém a sua segunda vitória política, depois de ter “ganho” o concelho nas últimas eleições Europeias, agora “ganhou” o PS.
A ponta do iceberg ?
Existe um dado curioso nas votações ou seja verificar-se a votação em José Sócrates obteve mais 9 votos que a votação obtida pela lista de candidatos a Delegados de apoio à moção de José Sócrates, liderada por Emídio Xavier.
Um dedo apontado a Emídio Xavier ? A ponta do iceberg?
A deslocação desses 9 votos no apoio à lista de apoio a João Soares, liderada por Cabós Gonçalves, dá a este militante histórico do PS, de certa forma, a expressão do reconhecimento da militância deste histórico e fundador do PS Barreiro, mas também um sinal que é nessa “votação” que se espelham as posições mais críticas a Emídio Xavier.
António Cabós Gonçalves é, politicamente, o segundo vencedor no concelho do Barreiro, porque, na verdade, é através da sua votação que emerge, como sinal político, a necessidade de continuar a ser dada uma atenção especial, no sentido de prosseguir no concelho do Barreiro, o desenvolvimento da ideia estratégica “unidade baseada na diversidade”.
Portanto, ao nível local, a partir de agora, internamente, o PS tem a casa arrumada.
A etapa que se abre é a preparação das próximas autárquicas.
Emídio Xavier pode tomar algumas decisões mas terá sempre, na verdade, que ter como referência essa herança histórica que se define pela linha orientadora – “unidade baseada na diversidade”.
Todos colocam, na ordem do dia, a possibilidade de Emídio Xavier poder vir a integrar um governo liderado por José Sócrates, caso o PS ganhe as eleições de 2006.
Este cenário coloca em reflexão a composição da lista que irá candidatar-se às próximas eleições autárquicas para a Câmara Municipal do Barreiro.
Um debate que está aberto. Mas que, sem dúvida, a partir de agora, pelos resultados registados em torno do Congresso do PS, vai ser um debate pacífico, com algumas “negociações” que irão ter como “núcleo central” a Secção do Lavradio, dada a importância política que esta Secção volta a protagonizar na vida política concelhia do PS, retomando a tradição “airista”.
José Sócrates, em vésperas de ser eleito, afirmou : “É falso dizer que o PS tem vícios aparelhestícos” e simultaneamente criticava aqueles que “fazem carreira no aparelho protestando contra o aparelho”.
Estas são duas realidades que todos conhecem e fazem o quotidiano do PS.
Nessa mesma entrevista, José Sócrates afirmava : “Um líder que nasce em combate, que nasce de uma batalha política é um líder mais forte que um líder que nasce de um concílio de notáveis”.
Esta uma reflexão que deixa clarificações para quem as quiser encontrar.
Ficam estas reflexões porque, na verdade, elas são essenciais para pensar o futuro e fazer sentir o presente, nas lutas que se seguem...
Citando ainda José Sócrates, na mesma entrevista, ele afirmava – “não há questões internas dos partidos, há questões de democracia” – talvez por essa razão resta colocar a pergunta : E agora, Emídio Xavier?













