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Inferências

InferênciasPS – começo de um novo ciclo

Emídio Xavier – Bruno Vitorino: o confronto do futuro !

O Partido Socialista conquistou nas últimas eleições autárquicas a Presidência da Câmara Municipal do Barreiro, após três décadas de oposição, derrotando aquela que foi a força dominante durante o século XX.
O Partido Socialista é, pois, nos dias de hoje, neste começo do século XXI, a força política que dirige os destinos do concelho do Barreiro.

9 min de leitura

Por António Sousa Pereira

Emídio Xavier foi quem, sob a liderança de Aires de Carvalho (quer queiram, quer não queiram reconhecer esta realidade política), conquistou a Presidência da Câmara Municipal do Barreiro e, pouco a pouco, mesmo perante diversas dificuldades e acidentes de percurso, acabou por afirmar-se como o rosto dos socialistas no concelho do Barreiro e o rosto do concelho do Barreiro.
Emídio Xavier é, concorde-se ou não com ele, o maior e o melhor trunfo do Partido Socialista para as próximas eleições autárquicas.
A Comissão Política do Partido Socialista, reunida no último fim de semana, aprovou, de forma clara, a proposta de recandidatura de Emídio Xavier e tomou uma decisão que consideramos justa, contrariamente, a opiniões que foram expressas, que são legítimas, (porque em democracia todas as opiniões são legítimas), mas que colocavam acima de tudo ambições pessoais ou interesses de “grupos”.
Esta decisão é, de certa forma, o fechar de um ciclo e a abertura de um novo ciclo.
Esta decisão, por um lado, reconhece a acção política de um homem que, em momentos de incertezas e dúvidas, foi capaz de dar um passo em frente e assumir a liderança de um partido que, subitamente, ficara “órfão” do seu líder histórico e carismático, dando continuidade a um trabalho e a uma acção política e apostando na consolidação da unidade interna dos socialistas e, simultaneamente, olhando para as responsabilidades que o PS tinha assumido perante a cidade.
Esta decisão reconhece, igualmente, o trabalho de um homem que, todos aceitam de uma forma global, soube ou procurou o mais possível, separar as águas entre aquilo que é a acção política de “dimensão partidária” e a acção política de “dimensão autárquica”.
Um autarca que soube respeitar as força políticas da oposição, atribuindo-lhes pelouros e responsabilidades, como nunca acontecera no concelho do Barreiro.
Um autarca que soube, de forma calma, gerir as crises e os conflitos, levando de forma disciplinada a água ao seu moinho.
Um autarca que, só por muita má vontade, não se lhe reconhece a capacidade de dialogar, respeitar as diferenças, a honestidade intelectual, e a simplicidade nas relações humanas ( sem marcas de populismo, nem de autismo).

As memórias de um processo

A recandidatura de Emídio Xavier à Presidência da Câmara Municipal do Barreiro marca, pois, na vida política dos socialistas, no concelho do Barreiro a abertura de um novo ciclo.
Mas será que o mandato de Emídio Xavier é uma perfeição ?
Daquilo que um observador pode registar é que, na verdade, este mandato foi marcado por diversas dificuldades.
O falecimento de Aires de Carvalho – que gerou uma ruptura no tipo de relações que caracterizavam a separação de águas, autarquia versus Partido Socialista.
O ruptura com os Vereadores do PCP – que não quiseram perceber que tinham perdido as eleições e que mantiveram sempre uma oposição de “terra queimada”.
A gestão de equilíbrios com o PSD – não com Mendes Costa, mas com Bruno Vitorino, um líder interveniente, crítico, irreverente e que não está na política a brincar. Talvez o seu próximo adversário na candidatura à Presidência da Câmara.
O afastamento de Madalena Alves Pereira, uma figura notável, uma jovem promissora, que ainda muito certamente tem para dar ao Barreiro e que, poderá vir a tornar-se uma futura candidata à Presidência da Câmara e, porque não, desde já, assumir a próxima liderança do Partido Socialista. Era uma boa aposta, abrindo espaço a uma nova geração.
É uma jovem íntegra, intelectualmente com grandes capacidades, com uma visão de cidade que, na sua acção política foi, na verdade prejudicada por uma “máquina autárquica” envelhecida e que, ainda hoje, se mantém como uma herança que o PS não foi capaz de alterar.

Um projecto de cidade

Mas que traços deixa a gestão de Emídio Xavier ?
Por um lado, em primeiro lugar, o facto de pela primeira vez no Barreiro se iniciar a conceptualização de um Plano Estratégico para a cidade, assim como um Plano Municipal do Ambiente.
Em segundo lugar, a capacidade de diálogo com o Poder Central tendo proporcionado que algumas obras que durante anos estiveram na gaveta, finalmente, fossem concretizadas.
Em terceiro lugar, uma nova linguagem nas relações humanas e uma nova postura de diálogo com as instituições.
Em quarto lugar, a gestão das dificuldades financeiras de forma equilibrada, mantendo uma gestão orçamental, colocando acima de tudo a resposta aos recursos humanos e às empresas que mantêm relações com a autarquia.
Mas, faltou a Emídio Xavier força, ou condições para “transformar” a máquina autárquica que herdou do PCP, assim como, o necessário aprofundamento do debate em algumas áreas.
O Barreiro continua a ser uma cidade que carece de uma visão cultural, que a integre nas rotas da Região de Turismo de Setúbal e a projecte na AML. O Barreiro continua a pensar pequenino, ao mesmo tempo que pensa grande – Plano Estratégico.
Ou seja o Plano de Desenvolvimento Estratégico para o concelho do Barreiro, não é, não pode ser, apenas uma matéria de definições de ocupação do solo ou de planeamento.
Na discussão do Plano Estratégico tem que entrar a procura de um “modelo” de cidade, a procura de uma forma de motivar a cidadania.
E, na verdade, neste campo pouco se caminhou, a gestão nesta matéria foi muito verosimilhante ao que vivemos durante décadas.
Ou seja, faltou “coordenação” que promovesse o avanço de um modelo de gestão integrada. Porquê ?

PCP – volta estás perdoado !?

Assim, vai começar um novo ciclo, porque...em primeiro lugar, como Emídio Xavier tem referido por várias vezes, no final do novo mandato, caso venha a ser reeleito Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, não voltará a candidatar-se, deixando, desde já em aberto o cenário para outros tempos e outras gerações.
Em segundo lugar, Emídio Xavier, certamente, por razões diversas, tudo fará para não se candidatar à Presidência da Comissão Política Concelhia dos Socialistas, pelo que irá abrir-se aqui um espaço de diálogo entre o futuro líder dos socialistas e Emídio Xavier, separando, de forma clara as águas, e permitindo-lhe mais disponibilidade para as questões da autarquia, deixando as “guerras partidárias” para outros protagonistas.
Em terceiro lugar, então, se Emídio Xavier se recandidata, é porque de acordo com opiniões que diversas vezes expressou, reconhece que foi positivo o balanço que faz do seu mandato e no Partido Socialista existe esse reconhecimento.
Em quarto lugar porque o Partido Socialista se quer ser poder, ou continuar a ser o partido que lidera esta cidade tem que ser capaz de demonstrar, na prática, e não em palavras, que é diferente do PCP.
Porque como registo, refira-se que, em relação a algumas matérias, na cidade, há, quem diga – volta PCP estás perdoado ! E já é tempo de mudar.
Na circunstância o que vale ao PS é o mesmo que valeu ao PCP durante anos – a oposição, em termos pragmáticos, praticamente é inexistente.
O PCP preocupa-se com paragens de autocarros e outras coisinhas do quotidiano. Até parece que não foi poder durante décadas e desconhece os dossier’s que geriu...
O PSD, é, afinal, a força política que faz alguma oposição, de forma coerente e consequente, mas tem dificuldades de penetrar no eleitorado urbano de esquerda que marca o tecido eleitoral barreirense.
Bruno Vitorino sabe isso, já percebeu isso e, no último Congresso do PSD, apresentou uma moção, que, de facto, poderia estar em discussão em meios com uma cultura de esquerda.
Bruno Vitorino é das figuras políticas do Barreiro que melhor se posiciona e tem legitimidade política para enfrentar Emídio Xavier nas próximas eleições autárquicas, mesmo sabendo que não irá ganhar, será o momento do PSD começar a ganhar espaço político e afirmar-se como alternativa, dado que o PCP, tenderá a prosseguir o caminho de esvaziamento ( pelo menos não parece que uma ideia de CDU, esteja a emergir ou a desenvolver-se no concelho do Barreiro, único cenário que permitiria ao PCP recuperar caminhos e confrontar de frente o PS).

Um novo ciclo político

Estão pois a ser lançadas as bases de um novo ciclo político no concelho do Barreiro.
Um ciclo que irá passar por Emídio Xavier, no PS. Bruno Vitorino, no PSD. Mário Durval no Bloco de Esquerda.
O PCP está à espera. Não há nada de novo. Quanto muito poderia sonhar com uma “onda” de cidadania mas, saía do seu “controle” e, portanto, esta é uma missão quase impossível.
O novo ciclo que marca a abertura do novo século, para bem do Barreiro ( seja ou não aprovada a nova legislação eleitoral) passa pelo diálogo Bruno Vitorino – Emídio Xavier – Mário Durval, na construção de um “Compromisso de Desenvolvimento Municipal”, arrastando o PCP para a participação.
Não se trata de uma amálgama, trata-se de encontrar caminhos e plataformas de acção que motivem todos na construção da cidade.
Para isso Emídio Xavier tem que, naturalmente, caso seja reeleito, ser capaz de fazer o que adiou no actual mandato, sem medo de papões, nem de confrontos – muda a máquina e acaba com as “Quintas” ( a Câmaramac , a camaranet, a câmaranico, a câmarajotas, etc., etc.).
Ou seja, a aposta numa cidade que construa diferenças, respeite diferenças e seja capaz de abandonar, definitivamente, a máquina autárquica herdada, isto é, ser capaz de promover a cidadania participada. Uma cidade que não seja culturalmente municipalizada.
Aqui fica uma sugestão : Porque não, já no próximo ano, iniciar um projecto de desenvolvimento de práticas políticas assentes na elaboração de um Orçamento Participado ( vão a Santarém), rasgando com o “envelhecido” modelo de elaboração do orçamento herdado de décadas ,que é tudo a monte e fé em deus e depois é cortar!
O Bloco de Esquerda pode, se eleger para a Assembleia Municipal ser uma força política importante e estruturante, na critica, na elaboração de propostas e de promoção de diálogo participado.
E, por hoje, para já, fico por aqui...porque a festa vai agora começar.

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