InferênciasA AMB e as estratégias de acção política (I)
Há uma política de Educação Musical no concelho do Barreiro?
A última reunião da Assembleia Municipal do Barreiro é, de certa forma, um reflexo do “micromundo político” barreirense, ali, de facto, emergem as estratégias de acção política, os modos de fazer política, na cidade, pelos diferentes protagonistas.
O que caracteriza a acção, ou por outra, o que dá essência à acção – o fazer política – é o sentido que emerge na “intencionalidade” colocada no “processo do fazer” pelos diferentes “protagonistas da acção” : numa acção com conteúdo, numa acção que visa alcançar resultados.
As “políticas culturais” começam a emergir como um campo de conflitualidade.
Por António Sousa Pereira
Nesta primeira abordagem vamos comentar os “impactos” das “intencionalidades” dos discursos políticos proferidos na Assembleia Municipal do Barreiro no que diz respeito ao “sentido cultural da cidade”.
Para quem observa, torna-se evidente que há duas forças políticas que agem com “intencionalidade” e há uma força política que age com “ingenuidade”.
O PCP e o PSD têm estratégia, e intencionalidade nos seus discursos os quais reflectem análise e procura de caminhos e confrontos políticos.
O PS age com ingenuidade, parece que está um pouco mergulhado na ideia – “isto está no papo, a maioria absoluta está garantida” – e, portanto, basta que Emídio Xavier lhes dê “respostas” que tudo fica arrumado e esclarecido.
O PS tem a responsabilidade política, porque é poder, de dar respostas, mas todas as respostas têm, devem ter, em substância, a perspectiva da sua visão de cidade, de forma pluricultural e pluridisciplinar.
Analisemos os factos, neste caso os “discursos”, porque são os factos – o dito e o não dito - que permitem dar conteúdo ao “agir” dos “protagonistas”.
Barreiro e Lopes Graça
O PCP é a força política que, nota-se, tem preocupações em preparar as suas participações nas da Assembleia Municipal – apresentando um conjunto de moções e distribuindo “missões” políticas com “conteúdo” e visando alcançar objectivos.
Maria João Quaresma, apresenta uma moção sobre o 10º aniversário da morte de Fernando Lopes Graça, sem dúvida uma efeméride que merece ser evocada e, porque, na verdade, Fernando Lopes Graça é um nome que o Barreiro não esquece ( pelas memórias da resistência, pelos dias da liberdade e pelo seu significado na cultura musical portuguesa ), nem deverá esquecer ( para tal basta pensar Dulce Cabrita).
Esta moção foi aprovada, por unanimidade. Sem discussão. Sem qualquer contestação ou comentário.
E, mais, à frente, nesta mesma reunião, Helder Madeira, veio questionar, e bem, mesmo muito bem, com plena eficácia política, sobre a eventual suspensão das “Bolsas de Estudo Fernando Lopes Graça”.
Pode ser coincidência. Pode ser mero acaso. Mas...será que em política há coincidências?
Ou seja, apresenta-se uma moção, que vai merecer, por razões óbvias, o apoio de todas as forças políticas. Deixa-os votar, e, depois : toma lá que é democrático !
Na verdade, assim, como quem não a quer a coisa, interroga-se sobre os “fundamentos” do esvaziamento de um “projecto cultural” que tem como patrono o nome do Maestro, deixando no ar a ideia que tal poderá ser uma ofensa à memória do Maestro, que o Barreiro deveria perpetuar e honrar-se em ter o seu nome ligado no âmbito de “políticas culturais”, na promoção da música.
Emídio Xavier, vem dizer, em resposta, que as ditas Bolsas não estão suspensas, porque continuam a ser entregues, mas que, de facto, por outro lado, esclarece, claramente, que estão suspensas porque não têm sido atribuídas novas bolsas, justificando tal apenas por razões “economicistas”.
As heranças do PCP
O que esta discussão deixa claro é que, após três anos de mandato, o PS continua em relação a algumas heranças do PCP, a não saber o que fazer, nem sequer definiu soluções alternativas.
Então o PCP ataca, e bem, como que justificando que tudo o que dinamizou, na sua gestão, como projecto cultural, fosse algo de adquirido e intocável.
O que o PCP quer dizer é o mesmo que refere, quando fala de obras, ou seja diz ao PS : assim como fizeram as obras que nós vos legámos, e, neste caso, portaram-se bem, deveriam fazer a mesma coisa em relação a outros projectos. Acabar, sem justificação, é uma prova da vossa incompetência política.
O PS encolhe-se, cala-se, quase que temendo e, de certa forma, parecendo estar a dar razão ao PCP.
A verdade é que ao longo deste tempo o PS não estudou o assunto, não o enquadrou em qualquer estratégia cultural inovadora ou alternativa.
O PS ou acaba com as “Bolsas” ou continua com o projecto ?
Se não cria novas “Bolsas” e limita-se a renovar as que existem é porque não sabe o que fazer, ou então, o pior e mais grave, é que, talvez, possa já ter decidido acabar com as “Bolsas”, deixando que o tempo faça o seu trabalho, e não tem coragem política de assumir que decidiu acabar, dado que teme os reflexos de uma decisão desta natureza.
O PS só age, de facto, assim porque não foi capaz de perspectivar políticas e soluções alternativas.
Esta discussão é a ponta do “iceberg” das formas de fazer política cultural na cidade e um exemplo, claro, que tudo, em muita coisa, apenas, continua como “gestão da herança”, da gestão PCP.
O PSD sobre este assunto nem pia. Nem vale a pena tocar no assunto, porque, pensa que isto é lá uma guerra entre eles – PS e PCP.
Mas devia intervir, devia questionar sobre as políticas de promoção e Educação Musical na cidade.
O PSD se quer se afirmar como alternativa ao PS, no futuro, tem que ser capaz de começar a questionar todas as políticas.
E, mesmo sendo “muleta” não pode continuar a funcionar como um grupo de pressão, tem que começar a analisar políticas e a propor políticas alternativas, se as tiver ou, então, começar a perspectivá-las.
O PS, a bancada PS, calou-se, manteve um silêncio rigoroso. Assim como quem cala consente. Emídio Xavier prestou esclarecimentos mas, de facto, não deu respostas.
O que é preciso saber é se as Bolsas de Estudo Fernando Lopes Graça se inserem em alguma estratégia de desenvolvimento da Educação Musical na cidade ?
Se inserem numa estratégia, então, quer dizer que existe um Programa, com objectivos de curto, médio e longo prazo? Qual e a quem se dirige ?
Há promoção de Educação Musical nas Escolas ? Há políticas de apoio à criação de Escolas de Música nas colectividades e associações, ou de estímulo para aquelas que existem?
Ou a política de promoção musical no concelho limita-se ao apoio ao apoio à Banda Municipal do Barreiro, à Camerata Musical, à Escola de Jazz, à Banda do União de Coina, ao Grupo Coral TAB ( as heranças do PCP) e agora ao Grupo Coral da UTIB ( criação dos socialistas) ?
São as Bolsas de Estudo Fernando Lopes Graça um prémio de mérito, reconhecimento da excelência, na aprendizagem musical ?
Se são, então, porque limitar esse “reconhecimento de excelência” à música, porque não abrir ao Teatro, ao Desporto, às Artes Plásticas, etc. ? Porque não existem Bolsas de Estudo noutras áreas?
Dulce Cabrita Versus Fernando Lopes Graça
Mas, no meio de tudo isto, há culturalmente, coisas mais tristes e mais dolorosas – ignorar o peso da memória.
Por exemplo, o Barreiro, ao longo destes anos, até hoje, mesmo até aos dias de hoje, foi incapaz de promover nesta cidade, um concerto com a barreirense Dulce Cabrita, uma bela voz mezzo-soprano, de quem Fernando Lopes Graça disse o seguinte: “Dulce Cabrita tem sido a intérprete eleita das minhas obras vocais, com uma seriedade e um profissionalismo exemplares”.
Dulce Cabrita que já fez em Tomar, em Lisboa, no Algarve, nos Açores, um espectáculo, acompanhado de uma exposição que proporciona um contacto directo com a obra do Maestro Lopes Graça.
Dulce Cabrita, uma barreirense, cujo nome e obra são indissociáveis da obra de Fernando Lopes Graça, nunca teve possibilidades de, na sua terra natal, divulgar, a obra de Fernando Lopes Graça, com quem, antes do 25 de Abril, realizou um Concerto na SDUB “Os Franceses”.
E, mais não fosse, para homenagear Augusto Cabrita e Fernando Lopes Graça, promover um Concerto com a Dulce Cabrita, no chamado AMAC ( que parece esconder o nome do seu patrono), tal de facto nunca foi feito.
E, como a memória é curta, já agora, recordemos que em 1997 (ainda o PCP era responsável pela gestão do concelho do Barreiro), Dulce Cabrita, com o apoio do Montepio Geral, lançou o CD – “Guirlanda : Fernando Lopes Graça – Dulce Cabrita (Mezzo soprano e Fernando Lopes Graça (piano)”, o qual foi motivação para diversos concertos realizados em diferentes pontos do país, ano que assinalava os 90 anos de Lopes Graça, completamente esquecidos e ignorados no Barreiro.
Por isso é que há coisas que, podem ser apenas coincidência, mas que não na prática podem ser interpretadas, apenas, e nada mais como meros exercícios de táctica política.
Por hoje, ficamos por aqui, mas vamos continuar a nossa reflexão, com base nos “ditos” dos Deputados Municipais...há muito para pensar, um verdadeiro filão.













