InferênciasA AMB e as estratégias de acção política (II)
Pensar Barreiro – Pensar Governo ?
Talvez pelo facto de o Barreiro ser uma terra com uma forte referência política, que se projecta ao nível do país, talvez, este facto tenha, ao longo dos anos, determinado as estratégias de acção local.
Por António Sousa Pereira
Na última reunião da Assembleia Municipal do Barreiro, mais uma vez, este estigma, das relações do Barreiro com o Poder Central, foi tema de debate.
A recente conclusão e abertura ao trânsito da Passagem Superior na Rua da Recosta, foi o “leit motiv” que colocou, de novo, esta temática na agenda política local.
O PSD apresentou na reunião da Assembleia Municipal do Barreiro uma “saudação” ao Governo, à REFER e à Câmara Municipal do Barreiro, pelo empenhamento, na concretização deste melhoramento para a vida da cidade.
Aliás, Bruno Vitorino, líder dos sociais democratas, recordou, igualmente, a “acção diplomática” desenvolvida por Emídio Xavier, quando de uma visita ao Barreiro, do então Ministro Carmona Rodrigues.
Na circunstância, o Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, através de uma visita ao local da Passagem de Nível, procurou sensibilizar o Ministro para a importância da obra e a imperiosa necessidade que a mesma fosse realizada.
Uma acção de “diplomacia de influência” que, pelos vistos, deu os seus frutos, porque, finalmente, após muitos anos, a obra está realizada.
Uma acção que, na prática, prova que pelo diálogo positivo é possível que as coisas possam avançar com mais celeridade.
Se durante anos os autarcas do PCP optaram por promover manifestações, realizar Conferências de Imprensa, contra governos PS ou PSD, não obtendo resultados, agora, pelos vistos, conversando as coisas tomaram outro rumo.
Faça-se justiça a Pedro Canário que, na verdade, também tentou, encontrar uma solução, em diálogo com o então Ministro Ferreira Amaral. Mas, na verdade, enquanto ele dialogava, lá estavam os manifestantes a protestar.
Não se trata de considerar que não se deve protestar. Trata-se, isso sim, de sublinhar que quando a prioridade é fazer “protesto”, pelo protesto, apenas como uma arma política de combate ao Poder Central, não é crível que esse seja, sempre, o melhor caminho.
Esta obra, agora concluída, foi fruto da procura de uma solução e diálogo que envolveu três entidades – CMB, REFER e Governo.
Portanto, é natural que as três entidades mereçam ser saudadas e não parece que daí venha algum mal ao mundo.
Mas, como estamos num período de pré-campanha eleitoral então, obviamente, que não será “politicamente correcto” saudar o Governo. Coisas da nossa jovem democracia.
A posição do PCP até se compreende, faz parte de uma estratégia e, na verdade, este partido já veio, inclusivamente, sublinhar que considera esta obra uma cedência ao governo de direita e uma aberração – “provisória- definitiva”.
Embora, Daniel Cabrita, “vá lá”, salientou que a Câmara Municipal do Barreiro, até poderia ser saudada, pelo seu empenhamento.
Não se percebe, no entanto, a posição dos socialistas expressa pelo Deputado Municipal António João Sardinha, pois dá para se ficar com a ideia que o PS, quando se trata de influenciar é diplomático, quando se trata de agradecer é ingrato.
As eleições, senhor, as eleições !
Entre o agradecimento e a ingratidão
O PSD tem desenvolvido, ao nível local, uma estratégia de influência, no sentido de contribuir para a resolução de problemas do concelho. Será uma coisa má para o Barreiro ?
Naturalmente, como todas as forças políticas fazem, os sociais democratas procuram capitalizar a seu favor os frutos dessa acção política. Quem não faz?
A moção apresentada por Bruno Vitorino insere-se nessa estratégia, aliás, algo semelhante foi feito pelos socialistas quando o Governo PS desbloqueou o arranque das obras de construção do Tribunal do Barreiro.
E, também, neste caso, do Tribunal, o PCP, mantendo-se sempre coerente, ontem como hoje, marcou uma manifestação para receber o então 1º Ministro António Guterres com apupos e assobios, quando da colocação da primeira pedra.
Diziam, na altura, os socialistas, com indignação : “Só no Barreiro, só no Barreiro !”.
É por isso que, agora, não se percebem as razões dos “assobios” do PS à moção apresentada por Bruno Vitorino.
O PCP, com coerência, já se sabe que, seja de um governo PS ou PSD (ambos com políticas de direita) nunca merecerão um “aplauso”, antes pelo contrário...
Mas a posição dos socialistas só pode ser entendida à luz de estratégias eleitorais – o governo PSD tem que ser atacado e nunca elogiado.
Mas, amanhã, caso o PS ganhe as eleições para o governo e o PCP possa regressar à Câmara Municipal do Barreiro ( que não será um cenário impossível se o PCP conseguir no Barreiro, desenvolver uma estratégia que vá para além da seu espaço partidário), então, esperemos, se o governo desenvolver alguma obra no Barreiro, não surja uma moção idêntica dos socialistas na Assembleia Municipal.
Já agora, a propósito do PS ganhar a Presidência da Câmara ou o PCP regressar ao poder no Barreiro, há um aspecto que os socialistas têm que começar a pensar : nas últimas eleições o PS ganhou, por diferença mínima, porque para além de apresentar uma estratégia de mudança, conseguiu galvanizar na cidade forças e esperanças que transcenderam o PS. Já estão esquecidos do BEM ?! E dos cidadãos que sonharam uma cidade diferente ?!
Não esqueçam isso, porque se o PS contar apenas com o facto de hoje ser poder e com isso “levar tudo à frente”, basta-lhe, olhar para trás e pensar nos erros do PCP.
Os maiores erros do PCP, nas suas gestões, foram – numa primeira fase o sectarismo associado ao populismo e na segunda fase o autismo associado ao excesso de confiança, sendo incapaz de dar força e dimensão ao projecto CDU.
O PS no Barreiro terá que ser capaz, hoje, para reforçar as suas posições e manter-se à frente dos destinos do concelho, pensar, desde já, que não chega lá sozinho, ou seja se não for capaz de no Barreiro pensar um espaço “sem fronteiras”.
O drama do PS é que mais que “pensar Barreiro” por vezes pensava e começa a “pensar governo”. Isso foi no passado e pode ser no presente, ou futuro próximo, uma arma nas mão do PCP.
E este é um problema que os políticos locais, socialistas, terão que ser capazes de superar, porque se forem amanhã governo, deverão ser capazes de separar as águas. Basta pensar ETRI.
Emídio Xavier, nesta matéria, ao nível local, é uma “ilha” no PS, daí que seja um bom protagonista em diplomacia política, mas, depois, não pode aceitar, em silêncio, que o PS se cole incompreensivelmente à estratégia do PCP.
O PS terá sempre que colocar, enquanto força à frente dos destinos da cidade, primeiro o Barreiro, quer o governo seja PS ou PSD.
Por isso, não vem mal nenhum ao mundo, digam lá : Obrigado ao governo PSD.
Assim, amanhã terão moral e podem dizer : Obrigado ao governo PS.
Porque, afinal, já se sabe isso o PCP nunca dirá, seja qual for o governo, esteja na oposição ou à frente dos destinos do concelho ( como aconteceu quando estava e cá veio António Guterres).













