Crónica do Pato BravoNem sempre se ganha com o “marketing político”
Só que, acto eleitoral após acto eleitoral, os “votantes” vão avaliando os “discursos” e as “práticas”. E, perante o olhar para a realidade vão alterando as suas opções e outros vão optando pela abstenção.
Por S.P.
Na última conversa, agora à segundas, no Pato Bravo, foram muitos os temas que estiveram sobre a mesa, mas aquele que mais marcou a minha reflexão que trago para esta crónica, foi este tema da política e do “marketing político”.
Por exemplo, nas últimas eleições autárquicas, aqui no Barreiro, assistimos, em termos de “marketing político” a uma das melhores campanhas políticas de sempre ao nível local, quer feita pelo PCP, quer feita pelo PS. O próprio PSD deu uns sinais da sua graça e o BE não deixou de “investir” na promoção tímida do seu candidato.
O PCP, pode dizer-se, apresentou pela primeira vez um Programa Eleitoral, onde, sem dúvida, perspectivava um projecto de cidade – Uma Cidade Verde – e, na verdade, a sua campanha foi, em termos de edição de documentos aquela mais bem conseguida e estruturada.
Para além disso o PCP investiu em “outdoors” e numa divulgação, nunca vista, da imagem do seu candidato Carlos Maurício.
Mas, por outro lado, o PS, também, desenvolveu uma “campanha agressiva”, tendo, nos últimos dias da Campanha apostado em dar “rostos” ao seu projecto político ( com empresários, desportistas, jovens,etc), para além de, na verdade, ter lançado uma série de projectos e ideias inovadoras nas formas de pensar e viver a cidade.
A aposta na qualidade
Uma das razões porque o PS venceu as eleições autárquicas foi porque, na verdade, apostou fortemente no “marketing político” apresentando “produtos” de alta qualidade – ideias para uma cidade moderna, propostas de cidadania activas.
O PCP perdeu as eleições porque, após décadas de gestão, apresentou um projecto que, na verdade, apesar da sua qualidade, não foi suficiente para conseguir fazer esquecer, a ausência de diálogo com os agentes locais, nem sequer conseguiu galvanizar alguns sectores que sempre lhe estiveram próximos.
Barreiro dos Cidadãos
Outra das razões que conduziu o PS à vitória foi o facto de este partido ter, com as suas dinâmicas e propostas, ter conseguido galvanizar personalidades que mesmo sem serem militantes, acreditaram no projecto, e nas propostas de mudança, com um novo modelo de gestão ( muitos deles, até, ex-votantes ou votantes do PCP, que deixaram de acreditar na hipótese do PCP ser a força capaz de conduzir a novos rumos).
O PS venceu porque colocou a fasquia elevada, nos projectos de cidade, na valorização da cidadania – o Barreiro aos cidadãos.
O PCP perdeu porque os “votantes” deixaram de acreditar na política do eterno e repetido “presta contas” ( uma espécie de faz de conta de “participação” e de vivência da cidadania).
O PS venceu porque a franja do eleitorado que tudo decide no Barreiro nas autárquicas sonhou com os sonhos do PS.
O PCP perdeu porque a franja do eleitorado que tudo decide no Barreiro ficou cansada de populismo e do autismo.
O Barreiro rejeitou a ideia de “uma cidade municipalizada”.
Uma visão estratégica da cidade
Todos sabemos que, a política local, no Barreiro, ao longo de décadas foi marcada pelo “Ciclo Pendular”, isto é : o PS vencia as Eleições Legislativas, o PCP vencia, logo de seguida, as Eleições Autárquicas.
Foram as Eleições Autárquicas de 2001 que colocaram uma “viragem” neste Ciclo Pendular, facto que demonstrou, igualmente, que o tecido eleitoral do Barreiro está em profunda transformação e na procura de novos caminhos.
A questão que se coloca, nos dias de hoje ( embora ainda existam as próximas Legislativas como ponto de referência e pontapé de saída) é saber se o “Ciclo Pendular” teve o seu ponto final em 2001, ou se foi apenas uma “paragem”, um ponto de referência para as mudanças que o futuro pode anunciar.
Se o “marketing político” nas últimas autárquicas foi decisivo para o PS, na verdade, é preciso não esquecer que houve um elemento estruturante desse marketing político que o PS não pode, desde já, e até ás próximas eleições autárquicas ignorar, ou seja, o PS soube desenvolver uma “visão de helicóptero da gestão da cidade”, apresentou macro projectos e deu uma dimensão da cidade com capacidades, energias e vontades de galvanizar os agentes locais.
O PS não pode esquecer essa sua linha estratégica.
E, sem dúvida, essa linha estratégica está implícita na implementação do Plano Municipal do Ambiente, na revisão do PDM, na elaboração do Plano Estratégico de Desenvolvimento do Barreiro – uma ideia para o Barreiro de 2020.
A estratégia do “presta contas”
Mas o PS parece que tem medo de dar a devida dimensão deste seu discurso inovador, desta visão que permite pensar o Barreiro em grande, no contexto da região.
Se o PS, descer o seu discurso para o nível do “presta contas” ( como fez na última Assembleia Municipal do Barreiro, através de António João Sardinha) está a colocar-se ao nível da gestão que marcou o Barreiro nas últimas décadas, fase essa que o PCP ( mal ou bem), nas últimas autárquicas já tinha superado.
Se o PS descer discurso a essa visão do quotidiano, sem projectos, sem ambição, está a defraudar quem lhe deu o voto, porque está a esquecer os sonhos que lançou em 2001.
O PS vai ser julgado pelo que prometeu, pelas ideias que lançou, pelos sonhos que induziu e, até, hoje, na macro política local dos socialistas, apesar do PS ter dado passos positivos na conceptualização desse sonho, dando-lhe conteúdo em debates e em propostas concretas ( caso da Avenida que vai ligar Casquilhos a StºAndré, ou nos avanços do projecto das Cordoarias, ou até na implementação do Masterplan) o facto é que, por vezes, parece que o PS tem medo de erguer estas bandeiras, que foram aquelas que lhe deram a vitória nas últimas autárquicas ( ou seja uma nova ideia de cidade).
O PS parece estar mais apostado em dizer que fez o arranjo de um Polidesportivo, ou que promoveu muitos espectáculos, que mesmo sendo coisas reais do quotidiano ( não é muito diferente daquilo que o PCP fez no último mandato antes de perder as eleições, sem entrar em análises de carácter qualitativo ou quantitativo).
Claro que o PS deve dizer o que foi feito, não deve ter vergonha do que fez. E deve divulgar o que fez. Isso compete aos eleitos.
Mas o PS parece estar a jogar à defesa, quando devia jogar no ataque.
Ou estão esquecidos que o último mandato de gestão PCP, foi um daqueles que o PCP fez obra e lançou projectos ?! Têm dúvidas ?
Projecto com ambição
O PS ganhou as eleições de 2001 porque se apresentou como um partido com ambição, com sonhos, com ideias inovadoras e de modernidade.
Os barreirenses acreditaram nesse projecto, porque os barreirenses querem o melhor para o Barreiro.
O PCP perdeu não porque não tivesse feito obra (porque só a politiquice barata, leva a afirmar que o PCP não fez nada pelo Barreiro), mas porque pensou muitos anos o Poder Local como antipoder central e como meio de “controlar” a cidade.
O PCP pensava a cidade como projecto local ( basta pensar o Auditório Municipal Augusto Cabrita, que sendo um projecto de qualidade, de dimensão Europeia – como alguém disse) não tem condições de se afirmar como um espaço de referência, nem condições para competir na AML.
Mas, o PS foi incapaz de denunciar isso, antes pelo contrário alimentou a ideia que é um “espaço de excelência”.
O PCP perdeu porque acordou tarde, muito tarde, para a apresentar uma nova ideia de cidade, e galvanizar os barreirenses para esse projecto.
Nas últimas eleições autárquicas ganhou o “marketing político” que, sem dúvida, influenciou o eleitorado urbano.
Mas será que nas próximas autárquicas o “marketing político” vai ser decisivo?
O diálogo com o Poder Central
E, já agora, o PS tem outra bandeira que, até hoje, pouco, ou nada soube potenciar, ou seja o diálogo que foi gerado com o Poder Central.
O novo tipo de relações do Poder Local com o Poder Central.
Uma dinâmica política que já deu alguns contributos para o a valorização da vida local.
Nunca tantos Secretários de Estado e tantos Ministros se deslocaram ao Barreiro, como aconteceu no actual mandato. O Barreiro é uma cidade que abre pontes com a outra margem.
E, uma acção política, como esta, com relevo, não é valorizada pelo PS, parece até que é ignorada.
Autárquicas vão ser a doer
O PS se não inverter a pirâmide da sua estratégia política está a dar trunfos ao PCP.
O “marketing político” nem sempre dá as vitórias políticas.
E, uma coisa vai ser certa, nas próximas autárquicas o “marketing político” no Barreiro vai ser a doer.
O PSD já começou a lançar os seus “outdoor’s” de forma fulminante.
O PCP apresenta um candidato “filho da terra” facto que influencia certos sectores autóctones e uma franja do eleitorado que vota nas autárquicas.
O PS não pode esquecer que nas autárquicas o eleitorado urbano que vota nas legislativas opta, em grande parte, pela abstenção.
Neste momento tudo indica que os candidatos a Presidente da Câmara Municipal do Barreiro vão ser : Emídio Xavier, PS; Carlos Humberto, PCP, ambos já confirmados. Bruno Vitorino, PSD e Mário Durval, Bloco de Esquerda, serão outros prováveis candidatos.
Iremos comentar em outra nota, em breve. Hoje, ficamos por aqui, nestas notas emergentes de uma conversa animada no Pato Bravo ...













