Crónica do Pato BravoPS – PCP : será o regresso do Ciclo Pendular? (II)
E, para já, o PS tem que partir para esta luta com uma meta política a conquista da maioria absoluta.
Por António Sousa Pereira
Repetindo o já dito, em crónicas anteriores, porque este facto não pode estar ausente da reflexão política.
O “Ciclo Pendular” que caracterizou a realidade política barreirense não pode, nunca, mesmo nunca, ser ignorado pelos socialistas. Ou seja, recordar que o PS ganhava as legislativas e depois perdia as autárquicas.
Há quem diga que “está no papo” porque em 2002 a diferença de votação entre o PS e o PCP se situava perto dos 6000 votos e, agora, nas eleições de 2005, a diferença aumentou para 7500 votos. Talvez seja importante verificar que a subida do PS foi feita, essencialmente, com eleitorado do “centro-esquerda” PSD ( o tal eleitorado que votou favoravelmente a Lei IVG e a Regionalização, ou mesmo em Mário Soares, na 2ª volta), um eleitorado que, normalmente, nas autárquicas nem vai votar. É só uma nota para reflexão.
Há também quem defenda que os resultados eleitorais do PS, agora em 2005, reflectem também, a confiança do eleitorado na acção socialista na autarquia. Haverá sem dúvida, para alguns, esse sentimento, mas então haverá quem esteja descontente porque até deram o voto ao PCP, que estava em declínio.
Mas, a pergunta que se coloca é a seguinte : Qual foi o trabalho na autarquia, em 1999, para as Legislativas, quando o PS ficou á frente do PCP, no Barreiro, com 3000 votos. Talvez o BEM – Barreiro em Movimento?!
È verdadeiro que o PS pode, e deve, politicamente, colocar a fasquia, para as próximas autárquicas na conquista da maioria absoluta, mas, para tal, tem que ter argumentos para solicitar ao eleitorado essa necessidade.
Uma das primeiras coisas que tem que fazer é demonstrar as diferenças que marcaram a gestão PS da gestão PCP.
Sublinhe-se, o PS deve lutar por alcançar essa meta da maioria absoluta, esse deve ser o seu patamar político, por um lado para esvaziar as possibilidades do Bloco de Esquerda eleger vereador, por outro lado para encostar o PCP à parede, dado que este partido coloca-se na corrida para conquista da Presidência da Câmara.
É importante, para os socialistas, verificarem que o PCP
estancou a sua tradicional queda eleitoral no concelho do Barreiro e subiu eleitoralmente à sua própria custa, aumentando 600 votos.
Uma estratégia para a cidade
Ao PS colocam-se alguns desafios na sua acção política, nomeadamente :
1º Apontar como meta política a conquista da maioria absoluta;
2º Procurar conquistar freguesias ao PCP para alargar a sua base de apoio na Assembleia Municipal do Barreiro;
3º Ter em conta a presença política do Bloco de Esquerda, cuja votação pode contribuir para alterar o tecido político e procurar tirar-lhe espaço de manobra;
4º Demonstrar como há diferenças na gestão entre o PS e o PCP, por exemplo, nas relações com o Poder Central;
5º Demonstrar que os projectos que apresentou para a cidade estão em génese, na conceptualização do Plano Municipal do Ambiente e na Revisão do PDM;
6º Afastar definitivamente o “fantasma do PCP” da sua acção política, agindo e não reagindo, marcando campos e não ignorando que esta força política tem condições de lhe fazer frente;
7º Ser capaz de assumir a liderança na vida política local, com a visão de quem tem uma visão estratégica, preocupando-se com a solução dos problemas que afectam o quotidiano dos cidadãos mas, ser capaz de pensar o Barreiro de 2020 e a sua modernidade;
8º Apresentar uma AGENDA DA CIDADANIA, motivando os cidadãos e os agentes locais para uma participação activa, vendo na autarquia um pólo de dinamização do desenvolvimento municipal e não autárquico, com uma estratégia que contribua para evitar a erosão da identidade barreirense;
9º O PS, enquanto partido, tem que sair para a rua e afirmar-se na vida da cidade, com voz própria, como força de esquerda, com valores e convicções de esquerda;
10º Assumir com consciência que uma coisa é fazer opinião outra coisa é promover ideias estratégicas;
Estes alguns tópicos para uma agenda política pela qual passa ainda a capacidade de o PS ser capaz de separar as águas entre o Poder Local e o Poder Central, porque daqui até às autárquicas muita água vai correr debaixo da ponte.
E se em relação ao governo PSD o PS manteve um diálogo positivo é natural que, agora, com um governo PS esse diálogo seja facilitado, mas, o PS local tem que saber ser em primeiro lugar colocar o Barreiro.
Por exemplo, seria inacreditável que o PS Barreiro se calasse perante um cenário de retorno da ETRI ( um fantasma que o PCP já lançou e, curiosamente, o PS Barreiro calou-se).
Emídio Xavier o líder (in)contestado
Emídio Xavier, actual Presidente da Câmara Municipal do Barreiro já anunciou a sua recandidatura à Presidência.
Apesar de se falar na possibilidade de ser chamado a funções governativas, dada a sua amizade com José Sócrates, e, naturalmente, pelas suas capacidades técnicas na área do Ambiente, é muito pouco provável que tal se concretize, até porque, Emídio Xavier é indispensável ao PS, para manter a unidade interna do Partido Socialista e, por outro lado, abandonar a autarquia seria deixar a meio um projecto que ele se empenhou, no sentido de apostar na modernização da cidade.
Seria voltar as costas à cidade que nele confiou e aos próprios socialistas que nele acreditam, como um exemplo de político que age por missão.
Seria, igualmente, abrir uma crise de sucessão que, eventualmente, originaria grandes prejuízos políticos para o seu partido e para o futuro imediato do Barreiro.
Mas, o autarca conhece o partido que tem, conhece os projectos estruturantes que estão em marcha, e sabe que a sua continuidade no Barreiro é indispensável, por muito gozo e realização pessoal que lhe desse arrancar para outros legítimos voos.
Mas, como a vida é feita também de contingências e compromissos com a história, Emídio Xavier, de certeza, não vai abandonar o Barreiro nesta hora de encruzilhada.
O Barreiro, nesta fase da sua vida, e perante os desafios que o PS tem pela frente, quer no confronto com o PCP, quer no criar pontes com o novo governo, o que menos precisa é de um “Zé Manel” e que para suceder um “Zé Manel” esteja por aí, à espera, um qualquer “Lopes”.
Emídio Xavier tem pela frente grandes desafios. Em primeiro lugar a escolha da equipa. Uma equipa que tem que ser coesa, integrada nos objectivos, preocupada em arrancar no próximo mandato em avançar com reformas adiadas.
Será que pode contar com todos os actuais Vereadores? Serão que terá que apontar novas opções?
Emídio Xavier está um pouco numa situação como aquela do Imperador Romano, que colocava os infractores na arena e os obrigava a escolher entre duas portas : de uma saía um tigre, da outra saía uma dama. O infractor tinha que escolher : Tigre ou Dama? Mas não sabia o que estava por trás de cada uma das portas.
Mas uma coisa é certa a equipa que escolher também vai contar para enfrentar os desafios do futuro e conseguir a sua segunda vitória frente ao PCP.
A equipa poderá ser o espelho da afirmação, ou não, de um projecto político de curto e médio prazo.
Freguesias – um problema por resolver
Outro desafio do Partido Socialista será a aposta na conquista de mais freguesias e manter as que já conquistou.
Na frieza dos números, cruzando dados, e reflectindo sobre as bases sociais de apoio do PS e PCP, torna-se evidente que as Juntas de Freguesia continuarão a ser divididas entre estes dois partidos.
Parece ser, de alguma forma, claro, que Coina e Verderena são duas conquistas do PS que, dificilmente o PCP as consegue retomar.
Por outro lado, Santo António da Charneca é mas provável que se mantenha no PS que, eventualmente, o PCP a possa reconquistar.
No que diz respeito a Santo André e Alto do Seixalinho, parece pouco provável que o PS consiga derrubar o PCP.
As freguesias de Barreiro, Palhais e Lavradio, são aquelas onde o PS abriu brechas e pode sonhar com a eventual conquista, embora vá ser uma luta muito renhida.
Em Palhais se avançar o candidato que se fala do PS, é, de facto, um trunfo que pode ser importante para poder proporcionar uma vitória socialista.
Quanto ao Barreiro e Lavradio são freguesias onde, de forma mais clara, a relações de famílias e instituições se manifestam e aqui, os nomes dos candidatos, mesmo que sejam apenas para encher listas, contam muito na captação de votos, são freguesias onde as “tradições” mais influenciam o eleitorado.
O PS precisa ganhar freguesias para obter uma situação mais sustentável na Assembleia Municipal.
Pela cidadania política
O Barreiro foi e é uma terra onde há pessoas que se motivam para participar na vida da cidade. Há uma diferença entre participar e aparecer.
Uma cultura de esquerda é, devia ser mobilizadora para a participação.
Assim como o PCP para se lançar á reconquista da Presidência da Câmara carece de ser capaz de criar o espaço CDU, não como cosmética, mas como espaço de acção política, também o PS, de facto, tem que ser capaz de motivar cidadãos a participar no projecto de cidade.
Certamente que o PS não quer construir uma cidade só para os socialistas, mas quer uma cidade para todos os barreirenses, para isso tem que ser capaz, desde já, e até às eleições autárquicas abrir espaços de debate que contribuam para que, no Barreiro, se sinta que há “novas fronteiras”.
Uma coisa é o debate institucional. Outra coisa é o debate de cidadania política.
Uma coisa é opinião. Outra coisa é ideia.
O PS precisa de provar á cidade que é um partido com ideias e que o que apresentou ao eleitorado em 2001, como programa para uma década, está em marcha, com pequenos passos, mas vai andando ( e há exemplos) ou ficou na gaveta.
A finalizar : o PS é de facto a força política melhor colocada para reconquistar a Presidência da Câmara Municipal do Barreiro, pode até apontar como meta a conquista da maioria absoluta, mas não pode embandeirar em arco, porque vai ter um adversário que vai explorar todos os descontentamentos – na comunidade Educativa, na vida associativa, no tecido empresarial, na vida cultural e desportiva.
Porque, se muita coisa mudou, se hoje há relações diferentes na cidade, também, há um silêncio que resulta do “medo” de afrontar o poder e, a existência destes sinais, não abonam nada a uma gestão de esquerda e socialista, porque, este era, na verdade, o tipo de relação que muitas vezes marcou a gestão PCP : silêncio e subserviência.
E o povo, que é soberano, cansou-se...













