Dossier Autárquicas 2005Reflexão sobre as políticas e estratégias (I)
Vamos iniciar um “dossier” de reflexão sobre as políticas, as estratégias, dos diferentes partidos políticos ao nível local, a propósito deste período pré-eleitoral.
Hoje iniciamos com uma reflexão sobre as políticas dos socialistas.
Por António Sousa Pereira
Estão definidos quatro candidatos à Presidência da Câmara Municipal do Barreiro. Fala-se noutras candidaturas, mas de momento, são estes que se estão na linha da partida, para as próximas eleições autárquicas que irão decorrer em Outubro.
Emídio Xavier, actual Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, eleito pelo Partido Socialista, foi o primeiro candidato anunciado.
Emídio Xavier, era incontestavelmente aquele que melhor estava colocado para assumir a candidatura dos socialistas.
Embora, inicialmente, existissem algumas reservas de alguns que, naturalmente (a política tem destas coisas), agora estão na primeira fila a expressar-lhe o seu apoio.
Era óbvio que esta era a candidatura que melhor servia os interesses do PS. Mesmo com o sacrifício pessoal de Emídio Xavier de, obviamente, ter que adiar o cenário de integrar uma pasta numa Secretaria de Estado, que, agora, provavelmente estaria ao seu alcance.
O PS coloca como meta, nas próximas autárquicas alcançar a maioria absoluta e, muitos socialistas, pela interpretação dos números das legislativas acreditam que esse cenário é possível de alcançar.
Na verdade, os socialistas atingiram, nas legislativas, no concelho do Barreiro, o maior resultado eleitoral de sempre alcançado pelos socialistas, mas, no essencial, os votos alcançados foram conquistados ao eleitorado PSD.
PS tem muito que pedalar
As eleições legislativas podem fazer antever algum cenário das autárquicas e, na verdade, o PS está colocado numa posição que lhe permite aspirar à maioria absoluta, mas, na realidade, tal não são favas contadas.
Uma coisa parece certa, o PS terá muito que pedalar para alcançar o seu objectivo político da maioria absoluta.
E, pode considerar-se mesmo que terá que lutar, seriamente, pela reconquista da Presidência, porque vitórias antecipadas não existem.
O Barreiro foi caracterizado, durante várias eleições, pelo chamado “ciclo pendular”, ou seja, o PS conquistava as legislativas e perdia nas autárquicas para o PCP.
Nas últimas autárquicas foi rompido este ciclo, numa vitória histórica, que deu a conquista da Presidência aos socialistas.
Para esta vitória dos socialistas contribuíram diversos factores : o cansaço do eleitorado da ausência de estratégia para a cidade, por parte do PCP, força política que liderava o concelho há décadas; o facto de o PS ter fomentado movimentos de opinião que abrangeram sectores sociais, que iam para além do espaço partidário dos socialistas; as propostas políticas dos socialistas ambiciosas e com perspectivas de futuro que davam uma nova dimensão à ideia de cidade, as alterações verificadas no tecido eleitoral barreirense ao longo de décadas.
As próximas autarquias vão ser um momento decisivo para avaliar, na verdade, em que medida os socialistas consolidaram a sua base social de apoio.
Como é que o cidadão comum avalia a gestão socialista? O PS deveria encomendar um estudo de opinião.
Recorde-se que, a meio do mandato, num estudo elaborado pelo jornal “Público” a ideia emergente era que – “pouco mudou”.
Emídio Xavier o sinal mais do PS
Na verdade, há aspectos positivos na gestão socialista que terão que ser suficientemente valorizados, de forma a que os eleitores compreendam algumas insuficiências, que são óbvias na gestão socialista.
Por exemplo, Emídio Xavier introduziu uma nova forma de relações entre o Poder Local e o Poder Central, estimulando o diálogo e conseguindo a cooperação institucional.
Esta linha estratégica da acção dos socialistas, regra geral, é pouco valorizada e, no entanto, significa uma mudança radical. Aliás, neste campo, vai dar-se uma parte do confronto político entre o PS e o PSD, ao nível local.
O PS que definiu uma linha de diálogo. O PSD que conhecendo os problemas locais procurou antecipar-se e agir como mediador.
Foram desenvolvidos amplos debates sobre o a elaboração do PMA - Plano Municipal do Ambiente e lançadas ideias para debate sobre a revisão do PDM – Plano Director Municipal, tendo como ponto de partida a elaboração do Plano Estratégico, projectando uma ideia de cidade para o ano 2020 e, naturalmente, perspectivando o enquadramento do concelho quer no âmbito da AML, quer na Península de Setúbal.
Mas que se sabe sobre isto ? Não houve qualquer estratégia de comunicação e, por vezes, de alguns socialistas, até havia a preocupação de comentar de forma leviana este debate de ideias – “Que me importa o Barreiro de 2020. Eu tenho é que resolver os problemas de hoje”.
Só que, esse foi um dos males do Barreiro. Durante anos não definiu uma estratégia para a cidade. Viveu-se avulso. Como resultado não se motivaram os agentes locais para darem o seu contributo numa ideia de cidade.
Que estratégias ?
É natural que, todos os que vivemos hoje queremos ver resolvidos os problemas que nos afectam o quotidiano, os quais nunca estarão totalmente resolvidos. Porque um salto qualitativo, abre o caminho para outras exigências.
Mas, é missão de um político, rasgar caminhos de futuro, apontar horizontes, perspectivar a construção do futuro.
Estes níveis de debate – PMA, PDM e Plano Estratégico foram desenvolvidos com uma abordagem inovadora, quer ao nível de preparação, com base na motivação de grupos de cidadãos e entidades, quer com base em novas tecnologias, no sentido de estimular a participação dos cidadãos.
Mas quem sabe de tudo isto. Foi preciso Luísa Schmidt, na revista do jornal “Expresso” dar opinião sobre esta matéria, das tecnologias da participação, para que o assunto ganhasse alguma visibilidade.
Esta foi outra mudança registada na gestão autárquica, ou seja, a necessidade imperiosa de gerir e pensar o concelho numa dimensão estratégica.
Mas será que foi assim em todas as áreas?
Não houve, parece-nos, capacidade de fazer entender que o planeamento estratégico não é um problema de “urbanismo”, mas é, isso sim, um problema de concepção de cidade de modelo de cidade.
Qual o papel do associativismo numa estratégia de cidade ?
Qual o papel da Escola numa estratégia de cidade?
Que integração estratégica dos serviços de saúde e solidariedade social no desenvolvimento da cidade?
E tantas, perguntas poderiam ser feitas, em torno da elaboração do Plano Estratégico, que, depois têm reflexos directos na forma e nos conteúdos da actualidade e que nada, mesmo nada, tem a ver com horizonte projectivo de 2020.
Isto é, pensar o Plano Estratégico, hoje, é já introduzir nas práticas quotidianas as linhas orientadoras do futuro.
E sobre isto pouco ou nada foi feito. E, apesar de haver quem considere que os eleitores são burros e que vão apenas atrás de festas e cantigas, na altura do voto, sempre há alguns que são menos burros que outros.
Basta aprender a lição do PCP.
No último mandato que perdeu as eleições o PCP fez obra, bastante obra, rasgou caminho para projectos concluídos na gestão socialista, fez espectáculos ( talvez menos que o PS, que nisso bateu todos os recordes, umas vezes com salas cheias, outras vazias, mas espectáculos não faltam) .
No final, perdeu, porque lhe faltou, ao longo dos anos, uma estratégia mobilizadora de curto e médio prazo para a cidade.
E, por vezes, ignoram que o Barreiro é uma cidade culta. E mesmo os “burros” do Barreiro, aqueles que andam por aí a dar vida ao associativismo, por vezes, também pensam.
Cidadania ou subserviência
Outra medida positiva, a registar na acção dos socialistas, foram as preocupações desenvolvidas na melhoria dos espaços urbanos, na limpeza e na criação de espaços verdes.
Os socialistas concretizaram todo o conjunto de obras, em curso, que estavam a ser dinamizadas pela gestão do PCP/CDU, assumindo, com sentido de estado, a realização desses projectos.
Noutras áreas o PS manteve muitas coisas, dando continuidade aos modelos existentes, herdados da gestão anterior, introduzindo apenas formas de estilo.
Será que o PS conseguiu conquistar para o seu lado aqueles cidadãos que “fazem” a cidade, ou apenas, mantiveram com os socialistas as normais relações institucionais, que se estabelecem com quem está no poder ? Ou seja cultivou o PS a promoção da cidadania ou uma cultura de subserviência?
A resposta a esta pergunta será encontrada após a leitura dos votos das autárquicas de 2005.
O PS tem um desafio na sua frente até Outubro : demonstrar que geriu de forma diferente a autarquia; provar que tem um projecto para a cidade.
A clarificação destes dois vectores são, só por si, suficientes para que o eleitorado ou penalize ou volte a acreditar nos socialistas. Até porque, em último recurso, Emídio Xavier, ao fim de quatro anos merece o beneficio da dúvida. E a equipa merece ?
Há quem pense que tudo fica fechado nos Gabinetes, ora hoje, vivemos num mundo aberto e isso é um drama…para alguns políticos.













