Dossier Autárquicas 2005Reflexão sobre as políticas e estratégias (II)
Depois da abordagem que iniciámos sobre as estratégias do PS, hoje procuramos reflectir sobre o PCP.
Por António Sousa Pereira
No primeiro texto abordámos alguns tópicos relacionados com a acção dos socialistas.
Vamos então lançar alguns tópicos sobre as estratégias dos comunistas.
Carlos Humberto, pelo PCP/CDU, foi o segundo candidato que se apresentou como candidato à Presidência da Câmara Municipal do Barreiro.
Carlos Humberto é um conhecedor da vida local, sempre acompanhou de perto a vida política no concelho do Barreiro e esta é a sua terra natal.
Durante algum tempo estiveram sobre a mesa os nomes de diversos candidatos - Joaquim Matias ( actual Vereador da Câmara Municipal do Barreiro), José António ( Presidente da Junta de Freguesia do Alto do Seixalinho), chegou a circular o cenário de uma recandidatura de Carlos Maurício e até mesmo de Pedro Canário.
A candidatura de Carlos Humberto parece-nos ter surgido como síntese de contradições e foi, talvez, o candidato melhor colocado para contribuir para a “unidade interna” do PCP.
Carlos Humberto, sendo um político de há muito interveniente no concelho do Barreiro, é, na verdade, um bom trunfo para consolidar o eleitorado do PCP e, sendo, pela sua forma de ser e estar, um homem disponível para o diálogo, pode vir a captar alguns sectores que, ao longo dos anos, pelas mais variadas razões se foram afastando do PCP.
Há quem diga que Carlos Humberto é um candidato fraco, que não tem condições políticas para fazer frente a Emídio Xavier. São especulações.
Só o facto de ser colocada esta questão, ela mesma, introduz, na verdade, o cenário do reconhecimento que Carlos Humberto está na corrida para enfrentar o actual Presidente da Câmara.
É, na verdade, o PCP/CDU, a única força política que pode aspirar, a destronar os socialistas e, de alguma forma, procurar reconquistar o Barreiro, como bandeira e símbolo nacional do PCP.
Nas listas do PCP/CDU vão estar presentes como candidatos à Assembleia Municipal do Barreiro – Helder Madeira e Pedro Canário, dois ex- Presidentes da Câmara, que são dois valores acrescentados para alguns sectores do eleitorado barreirense afecto, de uma forma ou outra, por tradição ao PCP.
Helder Madeira porque unifica o eleitorado do PCP que sempre o olhou como uma figura carismática. Um nome ligado a famílias com raízes na cidade.
Pedro Canário porque pode arrastar consigo os sectores comunistas ligth ( alguns que nas legislativas votavam PS e depois nas autárquicas votavam PCP), alguns que nas últimas autárquicas com o seu afastamento, preferiram votar PS a votar Carlos Maurício.
PCP em fase de recuperação
O PCP nas últimas legislativas, no Barreiro, iniciou uma fase de recuperação eleitoral. Após um período de queda permanente pela primeira vez, não perdeu votos, antes pelo contrário aumentou a votação.
Na verdade a base eleitoral de apoio do PS, actualmente, no Barreiro, é superior à base eleitoral de apoio do PCP.
No entanto, o PCP está em condições políticas de tentar e pode lutar por alcançar o objectivo que se propõe de reconquistar a Presidência da Câmara. Não é coisa que esteja fora do seu alcance. Apesar de, alguns, pelas bandas do PS, pelo facto de aquele partido ter aumentado a votação e alargando a distância do PCP, considerarem que são favas contadas e que “está tudo no papo” e vem já por aí “mais uma maioria absoluta”.
O eleitorado do PCP, pelas ligações que este partido mantém a diversos sectores sociais, habitualmente, é mais interveniente nas eleições autárquicas, ou seja, a abstenção que, regra geral afecta todos os partidos, nas autárquicas o PCP é menos penalizado, porque o seu eleitorado mobiliza-se e mobiliza.
O PCP nas legislativas alcançou uma votação que lhe permite aspirar à reconquista do Barreiro, no entanto, será uma tarefa difícil, tudo depende daquilo que os socialistas fizerem e das equipas que apresentarem para a CMB, para a AMB e para as freguesias.
Nas autárquicas contam muito os intervenientes, e o voto, dos fazedores da vida da cidade.
Os erros do PCP
O PCP errou estrategicamente ao não ter assumido pelouros na Câmara Municipal do Barreiro, porque foi incapaz de compreender que perdeu as eleições.
Perdeu um espaço de intervenção e, por muito que acuse o Presidente da edilidade, terá que reconhecer, na prática, que enveredou por um caminho estrategicamente errado.
O PCP perdeu as eleições no Barreiro fruto do seu autismo, fruto da incapacidade de se ligar, de forma regular, aos agentes locais e dar espaço de participação aos cidadãos e continuou a essa estratégia após a derrota.
O PCP com pelouros poderia ter obrigado o PS a ser mais respeitador das propostas que apresentou ao eleitorado e hoje, obviamente, estava em condições de criticar, avaliar, com força moral na acção realizada.
O PCP optou pela rotura, querendo imitar as posições dos socialistas, nos últimos mandatos, de não aceitarem pelouros, só que o PS, agiu dessa forma já num período de decadência do PCP, enquanto o PCP esteve de pedra e cal o PS sempre assumiu e geriu pelouros. Alguns com algum sucesso.
A discussão da cidade
O PCP ao ser incapaz, ao longo da sua gestão, de promover a discussão da vida da cidade, e atrair sectores sociais, na verdade, ao longo dos anos foi “expulsando” da sua esfera de acção personalidades que lhe deram o benefício da dúvida até ao limite.
O PS aproveitou esta fragilidade introduzindo a ideia estratégica “o que é de todos por todos deve ser discutido”. Mas, será que o PS cumpriu ?
O PCP nunca soube potenciar, no Barreiro, verdadeiramente, o chamado espaço CDU.
O PS explorou o chamado BEM - Barreiro em Movimento( pode ter sido um bluff, mas funcionou politicamente).
Isto para sublinhar que na cidade, há, sem dúvida um espaço de intervenção que pela cultura do Barreiro é activo e intervém, nas dinâmicas autárquicas. Sendo importante o seu papel. Tanto quanto é possível perceber este espaço não está ganho actualmente, nem pelo PCP, nem pelo PS. O Bloco de Esquerda está a tentar explorar. Vamos ver para onde se desloca este sector onde participam cidadãos independentes e também votantes ( não militantes) de diversas forças politicas do PSD, ao PS e PCP.
Carlos Humberto, como político experiente, pelos primeiros sinais, vai apostar nessa estratégia, de abertura e diálogo, procurando demonstrar que o PCP aceita as diferenças e quer construir uma cidade onde todos possam agir, independentemente das suas opções.
Mas será que, Carlos Humberto, consegue, da parte de sectores mais fechados do PCP, impulsionar essa visão de acção política?
A resposta a esta pergunta será obtida após a contagem dos votos.
PCP e identidade local
O PCP tem uma vantagem em relação ao PS, no concelho do Barreiro, é um partido enraizado na vida local, na acção quotidiana, com ligações familiares e tradições na identidade local.
Mas o PCP tem que conseguir superar o seu erro histórico de querer confundir e misturar a ideia de identidade barreirense, com indebtidad com o ideal comunista. Aliás, de erro verosimilhante está a viver a estratégia do PS, que neste caso, não pretende confundir identidade barreirense com o PS, mas pretende colocar a identidade barreirense como causa da sua dimensão politica. Diferem na perspectiva.
Mas há um sector que na linguagem do PCP, poderá chamar-se a “pequena burguesia”, nos dias de hoje, no Barreiro, está mais virada para o PS.
Foi este sector do eleitorado, que nas legislativas vota PS ou até PSD, e, normalmente, nas autárquicas votava PCP, que se afastou para o PS nas últimas autárquicas.
A dúvida reside saber se este sector já foi definitivamente “conquistado” pelos socialistas, ou, se, na verdade, a gestão socialista gerou algumas ansiedades, que podem estar mal resolvidas.
Por exemplo, os professores no concelho do Barreiro, será que estão ganhos pela gestão socialista? Será que a realização da chamada “Feira Pedagógica” conseguiu superar a estratégia envolvente do Programa “A Viagem”?
E os grupos “intelectuais” da cidade, que estiveram sempre em “guerra aberta” com o PCP, embora, aceitando e partilhando algumas actividades, quer realizando exposições, quer promovendo iniciativas, será que hoje, estão, na verdade, satisfeitos com o modelo de cidade que está sendo construído?
Nos tempos do PCP, até por razões de conflitualidade, no Barreiro, existiam diversos pólos de “agit cultural” – a Galeria do Camarro, o espaços animados pelo Kira, a Artesfera, e, existiam colectividades que, de forma autónoma, agiam, e após anos de luta ( sem necessidade de abdicar dos seus valores) acabaram por merecer o justo reconhecimento do seu trabalho e acção pelo PCP. Será que hoje essas associações sentem que com a gestão socialista as coisas evoluíram ou registou-se um retrocesso?
Este debate sobre as vivências culturais e educacionais da cidade é um debate que continua em aberto.
O PCP tinha uma tendência para afunilar todas as iniciativas na autarquia, será que o PS se afastou desse modelo?
Uma cidade da liberdade
O Barreiro não é, nunca foi, uma terra de élites locais, nem de barões, mas é, sempre foi uma cidade com uma opinião pública forte, critica, compreensiva e irreverente.
Os empresários do Barreiro, pequenos ou médios, são homens e mulheres que vivem do seu trabalho. Lutam com os seus próprios recursos.
O Barreiro é uma cidade que sempre viveu com ideias, com valores, por isso, votava PS nas legislativas, por isso votava PCP nas autárquicas. Uma cidade à esquerda.
O eleitorado do Barreiro vota à esquerda, mesmo o eleitorado de direita no Barreiro, no essencial é de centro esquerda ( as últimas legislativas são a prova real).
O eleitorado do Barreiro aprendeu a exigir liberdade e democracia. O PCP tarde percebeu isso, por isso foi castigado.
Será que o PS abriu essa esperança de um novo modelo de cidade?
È, naturalmente, tudo isto que o PCP vai explorar, porque, politicamente, sabe que muita coisa funciona fruto da sua herança.
Quando um dia os políticos desta terra perceberem, definitivamente, que Barreiro, terra culta, de esquerda, se escreve com a palavra LIBERDADE, que, na realidade : No Barreiro a liberdade marca !
Talvez a cidadania ganhe outro rumo. É , por isso, que nas próximas autárquicas, de certeza, o PS vai ter que lutar para se manter, e o PCP pode lutar para o seu regresso.
Está tudo em aberto.
PCP e espaço CDU
O PCP nas Juntas de Freguesia que lidera soube manter-se de forma activa e firme, embora, por vezes, não sabendo distanciar-se e, portanto, sendo incapaz de, por vezes, manter as relações institucionais com a CMB, para além das guerrilhas partidárias.
Mas as Juntas de Freguesia lideradas pelo PCP, fizeram, de uma forma geral um trabalho no terreno que, certamente, nas próximas autárquicas vai ter reflexos.
Aliás, as Juntas lideradas pelos socialistas, também, fizeram um trabalho positivo, por vezes, para além das suas capacidades, e, não é que merecessem uma atenção especial, por parte da CMB.
Aliás, o compromisso de descentralizações, anunciado pelo PS e de um novo modelo de relações com as freguesias, foi matéria que não deu grandes passos no actual mandato.
Esta uma matéria onde poderiam ter existido saltos qualitativos, até porque existiam ideias e propostas de acção concreta.
Perante estes dados, parece que o PCP tem pela frente, por um lado espaço de manobra para explorar politicamente, mas, talvez, tenha que, em primeiro lugar, ser capaz de fazer alguma autocrítica sobre a sua gestão, por vezes, marcada populismo, outras de autismo, e, só então partir para uma nova etapa.
O PCP tem que conseguir gerar o espaço CDU, será que ainda vai a tempo?
O PCP tem que ser capaz de demonstrar que tem um modelo de cidade moderno e diferente da gestão PS?. Será que tem ?
O PCP tem condições politicas para sonhar na reconquista da Presidência da Câmara, tudo vai depender da estratégia que adoptar, da capacidade de demonstrar que tem força para atrair sectores da cidade que ao longo do ano afastou de si. Mas é uma batalha muito difícil.
O PS, apesar dos erros e limitações, tem um capacidade para manter as suas posições e, sendo poder, se souber gerir, sem criar inimigos, nem fantasmas ( no seu próprio seio, como aliás o fez o PCP) dificilmente será destronado.
Um dado que falta, quer no PCP, que no PS, é conhecer as equipas que vão surgir, quer para a CMB, quer para a AMB, quer para as freguesias.
E, o dado novo, que tanto pode ajudar o PCP, como ajudar o PS, ou vice versa, tanto pode prejudicar o PCP, como prejudicar o PS, é , o crescimento do Bloco de Esquerda.
Que embora, existam por aí uns cérebros que dizem que o BE, não vai eleger ninguém, a verdade é que, quer venha, ou não a eleger, a votação do BE ( se for sozinho às autárquicas, porque nunca se sabe se pode existir outro cenário), os votos do BE vão contar e influenciar quem vai ganhar a presidência, que, acreditem, tanto pode ser o PS, como o PCP.
É vida …mas há quem não acredite que há bruxas.













