InferênciasTeatro escreve-se com a palavra LIBERDADE
Assisti, nos últimos dias, a duas peças de teatro realizadas por dois grupos de teatro do Barreiro, dois grupos que, apesar dos condicionalismos dos espaços em que funcionam e das dificuldades que se colocam, nos tempos de hoje, em manter vivo um grupo de teatro, não desistem e resistem.
Por António Sousa Pereira
Estes dois grupos de teatro têm dois rostos : Luciano Barata e Graciano Simões. Dois homens que, desde jovens se apaixonaram pelo teatro e têm dedicado a sua vida a esta causa cultural.
As ideias que nós construímos sobre o quotidiano que vivemos não são invenção, emergem dos factos que vivemos, talvez por isso, talvez, a distância que vai entre a teorias e a práticas, são visíveis nos acontecimentos.
Luciano Barata tem sido um resistente, talvez, alguém que escolheu viver “na periferia” para a partir daí melhor amar a sua cidade e a arte que abraçou apaixonadamente.
A luta e a resistência de Luciano Barata faz-me recordar aqueles tempos em que o “Arte Viva” resistia de forma firme, nas “catacumbas” do Externato D.Manuel de Melo, e, aí, proporcionava aos barreirenses, aos sabádos, todos os sábados, momentos de fruição cultural e de grande dedicação ao teatro.
O “Arte Viva” manteve uma luta e resistência ao longo de décadas e, na verdade, acabou por vencer, impondo a sua presença na vida da cidade e obrigando os “poderes instituídos” a dar-lhe o devido reconhecimento atribuindo-lhe o estatuto de “companhia residente” no Teatro Municipal.
Já agora, sublinhe-se, um Teatro ao qual deveria, um destes dias, existir a coragem de atribuir um nome, pois, na verdade, há muitos nomes que mereciam ser perpetuados como referência cultural da nossa cidade.
Há nomes ligados ao teatro, à música. Neste caso deixo uma sugestão Teatro Maestro Ferrer Trindade.
O autor da Canção do Mar, eternizada por Amália Rodrigues e, ainda hoje, cantada deforma sublime por Dulce Pontes.
Teatro todo o ano
Estamos a viver, no Barreiro, o “Mês do Teatro”, uma proposta dinamizada pela, então vereadora Madalena Alves Pereira, com o objectivo de promover de forma descentrada actividades teatrais pelas mais diversas associações do concelho do Barreiro, e contribuir, simultaneamente, para estimular o gosto pelo teatro criando públicos e dando vida a espaços onde o teatro tem tradições.
Não sou propriamente defensor da realização do “Mês do Teatro”, promovido pela autarquia, até porque este tipo de iniciativas deveria partir de agentes locais, dos Grupos de Teatro ou de associações, com base em protocolos de cooperação com a autarquia e outras entidade, como é o caso da Mostra de Teatro do Lavradio, promovida há cinco anos a esta parte pela SFAL,uma associação com tradições no teatro, que marcou gerações e desde o século passado que esta actividade tem sido uma das vertentes daquela associação.
Por ali nasceram diversos nomes para o Teatro Manuel Alpalhão, Graciano Simões, Luís Ramos, Célia André, António Pequito, ou por ali, outros, marcaram presença de forma positiva, como é ocaso de Luciano Barata.
Por isso, uma colectividade com tradições no teatro, ou Grupos em acção na vida local, esses sim deveriam merecer todo o apoio e ser os agentes dinamizadores de Festivais ou projectos devidamente enquadrados no âmbito de uma estratégia de desenvolvimento das actividades teatrais, reconhecidas como de “interesse municipal”.
A autarquia, neste contexto, deveria ao longo do ano, isso sim, todos os meses, promover espectáculos nas associações, em diferentes freguesias e nos espaços municipais, mantendo uma dinâmica anual, descentrada e permanente.
Teatro – a luta pela cultura e cidadania
Mas, voltando um pouco atrás, quando iniciei este texto, tinha, essencialmente um objectivo prestar uma homenagem e dirigir algumas palavras, publicamente, a Graciano Simões e a Luciano Barata.
Graciano Simões, tem razões para se sentir feliz, pois, ao levar à cena a nova peça, com um conjunto de novos actores, certamente sente que lançou na terra as sementes para que o TEB –Teatro de Ensaio do Barreiro se mantenha em acção por muitos anos.
Talvez, daqui a uns anos, ele possa sentir a alegria de ver a sua Catarina – um actriz em potência – subir ao palco, com outros jovens para lhe dizer : “Avô valeu a pena sonhar e resistir”.
Por isso uma saudação a Graciano Simões por, ao longo dos anos ter lutado por um sonho que, está vivo e com perspectivas de futuro.
O Luciano Barata, ali, na periferia, sabe que pode continuar a olhar para a sua cidade, e, com bancada do Europeu, ou outro sonho qualquer, continua firme, de pé, acreditando que o seu “projector” um dia terá o seu espaço e a luz brilhará na periferia.
Neste mês do Teatro, de leituras dramáticas e sonhos de primavera, aqui fica este comentário aos resistentes.
Porque, afinal, foi resistindo que o “Arte Viva” ao fim de décadas alcançou o espaço e as condições de trabalho que actualmente lhe são proporcionadas.
Porque foi resistindo que o TEB chegou ao patamar de criar condições que lhe podem garantir continuidade.
Porque foi resistindo que o “Projéctor” foi sorrindo para a cidade, ali da periferia.
Porque foi resistindo que a Mostra de Teatro do Lavradio se foi mantendo e é uma referência, dentro das suas limitações, para os Grupos de Teatro de Amadores do Distrito de Setúbal.
Porque, na verdade, fazer teatro é contribuir para estimular a cidadania e o amor à liberdade, neste Março, quero saudar o Arte Viva, o TEB, o Projector e, porque não, a SFAL, porque mantêm viva esta arte e continuam a ser escola de públicos e de actores.
Uma cidade que mantém viva a actividade teatral é uma cidade que olha, de facto, o seu quotidiano com esperança, com criatividade e mantém vivo um sentido humanizado das suas vivências culturais.













