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Inferências

Dossier Autárquicas 2005 (III)Bloco de Esquerda – a novidade ou surpresa?

O Bloco de Esquerda é a grande novidade nas próximas eleições autárquicas, de certa forma vai ser a força política sobre a qual todos os olhares se vão debruçar, e, pode considerar-se que o resultado que o Bloco de Esquerda obtiver pode ser determinante para o futuro próximo, da vida política do concelho do Barreiro.

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Por António Sousa Pereira

O Bloco de Esquerda apresentou os seus candidatos à Presidência da Câmara Municipal do Barreiro, Mário Durval, e à Presidência da Assembleia Municipal do Barreiro, Humberto Candeias.
O Bloco de Esquerda é, pois, a grande novidade nas próximas eleições autárquicas, de certa forma vai ser a força política sobre a qual todos os olhares se vão debruçar, e, pode considerar-se que o resultado que o Bloco de Esquerda obtiver pode ser determinante para o futuro próximo, da vida política do concelho do Barreiro.
O Bloco de Esquerda nas eleições legislativas de 2002, obteve 4,67% dos votos, conquistando 2112 eleitores.
Nas últimas eleições legislativas atingiu o patamar dos 11,04%, alcançando 5349 votos.
Sabemos que as eleições autárquicas, no Barreiro, nunca, em nada, corresponderam às Legislativas, basta pensar o facto de durante anos sucessivo, o Partido Socialista vencer no Barreiro as eleições legislativas para, logo a seguir, perder nas eleições autárquicas.
No entanto, os resultados eleitorais permitem apercebermo-nos da base social de apoio dos diferentes partidos políticos no concelho do Barreiro.
O Bloco de Esquerda ao atingir o patamar dos 11% alargou substancialmente a sua base social de apoio e, é, sem dúvida, uma força política em emergência no Barreiro, tendo superado largamente o espaço que sempre garantiu que coincidiu, durante algum tempo, com a votação que herdou do espaço politico da UDP.
Esse tempo ficou para trás, embora, haja quem, metendo a cabeça na areia, seja capaz de pensar que o Bloco faz parte das mutações da esquerda e integra uma corrente de pensamento ao nível Europeu e mundial.

BE tem condições para eleger

Os bloquistas podem, na verdade, aspirar a eleger para a Vereação, embora, se considerarmos que as legislativas não se reflectem automaticamente nas autárquicas, essa possibilidade poderá, na verdade, ser uma meta que não é fácil alcançar.
Mas, potencialmente, o Bloco de Esquerda terá criadas condições políticas de, sem dificuldade, eleger para a Assembleia Municipal do Barreiro.
No Barreiro, embora o Partido Socialista seja a força política que está em melhores condições para conquistar a Presidência da Câmara Municipal do Barreiro, até porque, vai apresentar como candidato o actual Presidente da Câmara, Emídio Xavier, um trunfo que beneficia de forma directa ou indirecta uma força política, iremos, talvez, assistir ao último “round” de um processo eleitoral marcado pela bipolarização.
A votação do Bloco de Esquerda poderá, inclusivamente, influenciar qual a força política que pode conquistar a Presidência da Câmara.
Neste contexto, o Bloco de Esquerda vai sofrer os impactos do voto útil, dado que o eleitorado poderá ser confrontado com a necessidade de optar pelo PCP ou pelo PS.
O eleitorado do Bloco de Esquerda, num concelho marcado por uma cultura de esquerda, emerge, obviamente, de rupturas, essencialmente, com estes partidos políticos, embora, nas legislativas o Bloco tivesse captado alguns votos em eleitorado oriundo do PSD.

Onde está a irreverência do Bloco?

Os dois principais candidatos do Bloco de Esquerda, Mário Durval e Humberto Candeias, são dois activistas sociais, pessoas que sempre marcaram presença na vida local, são conhecedores dos problemas do Barreiro e continuam a agir em instituições ena comunidade.
No entanto, apesar de ter anunciado a participação de cidadãos independentes numa Comissão de Redacção do seu Programa, não se sente que exista uma onda em crescendo de apoio ao Bloco de Esquerda.
Ainda falta saber qual a capacidade de mobilização do Bloco na constituição de listas nas freguesias e que outros candidatos vai apresentar nas listas da CMB e AMB.
E, diga-se, talvez pela falta de recursos, apesar de ser uma força política que tem agido e mantido alguma acção política local, por vezes, parece que lhe falta estratégia para tomar decisões em momentos essenciais.
Por exemplo, nas recentes eleições legislativas, o Bloco de Esquerda promoveu um importante comício no Barreiro, Mário Durval foi um dos principais oradores, tinha sido, o momento político mais forte para anunciar a sua candidatura e perdeu essa oportunidade, podia ser por uma questão de gestão de tempos, mas nada aconteceu de relevante na actividade política feita pelo Bloco que justificasse ter perdido esse momento político.
Se durante algum tempo o Bloco de Esquerda criou alguns factos políticos, com irreverência e alguma criatividade agora, na verdade, apresenta-se muito formal.
Afinal, onde foi parar a irreverência do Bloco?

Que estratégias? Que políticas?

O Bloco de Esquerda quer afirmar-se a diferença, então, tem que começar a demonstrar qual é essa diferença.
Não basta dizer que não quer uma cidade de betão.
Não basta afirmar que não há uma nova centralidade a emergir em Coina.
É preciso dizer qual o seu projecto de cidade.
É preciso dizer quais as alternativas.
É preciso ser capaz de se afirmar como uma força politica que não luta, apenas pela eleição de um vereador, ou deputados municipais.
É preciso apresentar o seu modelo de cidade, o seu projecto de cidadania, contrapondo ao que considera que está errado.
Não basta ficar pela ideia de afirmar que é necessária promoção da participação dos cidadãos, é preciso, propor formas e metodologias de acção que considera fundamentais para atingir esses objectivos estratégicos.

BE a consciência critica

O Bloco de Esquerda vai ser, repita-se a grande novidade nas autárquicas 2005 e, sem dúvida, ao nível nacional, se na noite eleitoral poder anunciar eleição no Barreiro, nem que seja para a Assembleia Municipal do Barreiro, é uma bandeira que ergue, que terá, ainda mais peso, se o PS mantiver a Presidência da Câmara.
Será um elemento politico-ideológico na arrumação das forças de esquerda, pelo simbolismo do Barreiro, como terra de cultura de esquerda.
Por outro lado se o Bloco de Esquerda eleger quer na Câmara, quer na Assembleia Municipal, ou mesmo que seja só na AMB, poderá vira ter um papel importante e tornar-se uma força de charneira na vida politica local.
Mas para alcançar essa dimensão, não pode esperar pela eleição, tem que demonstrar a sua diferença.
Que politicas e que estratégias para o Barreiro do século XXI?
O Bloco de Esquerda pode ter, sobre os seus ombros, a responsabilidade de se assumir como a consciência critica, ser, afinal o “grilo falante” da esquerda barreirense, quer a Presidência da Câmara seja conquistada pelo PS ou pelo PCP.
O Bloco de Esquerda de qualquer forma, para lá chegar, tem muito que pedalar e o tempo urge…ainda por cima para quem não tem os recursos de outras forças políticas.
Está nas mãos do BE alcançar o patamar da eleição se não conseguir é por que algo mudou no país, ou, então porque os dirigentes locais perderam esta oportunidade histórica.

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