InferênciasOs barómetros e as eleições autárquicas
Por António Sousa Pereira
O último barómetro, editado a 29 de Julho, do Diário de Noticias/TSF/Marktest, permite-nos verificar um ligeiro crescimento do eleitorado social democrata, de alguma forma uma estabilização do eleitorado do PCP, um crescimento eleitoral do Bloco de Esquerda e uma descida do eleitorado socialista.
Reflectindo sobre estes números, é possível pensar sobre os reflexos destes comportamentos eleitorais, e, de alguma forma, equacionar cenários na vida política local.
Vejamos os números do “Barómetro” – PS : 43%; PSD : 31%; Bloco de Esquerda : 9%; PCP : 8% e CDS/PP: 4%.
PSD pode garantir eleição
A primeira abordagem que este “barómetro” nos permite equacionar é sobre a evolução do PSD, dado que permite, de alguma forma a Bruno Vitorino, começar a ver a probabilidade da sua eleição com alguma tranquilidade, mas, na verdade, perante estes números, a sua meta de lutar pela conquista de um segundo vereador, parece ainda estar distante e cada vez menos provável, até porque nem vai contar com os votos oriundos do eleitorado CDS/PP, que concorre com candidato próprio no Barreiro e começa a ser evidente o crescimento do Bloco de Esquerda, que poderá sonhar com a conquista de um Vereador.
Mas estes números, na opinião de alguns sociais democratas, podem ser um sinal de um cenário novo no Barreiro, distribuindo os Vereadores por 3x3X2X1, sendo o dois reservado ao PSD.
CDS/PP dificilmente vai eleger
O CDS/PP no barómetro tende a manter alguma instabilidade, embora, nos últimos tempos tenha estabilizado nos 4%.
Avaliando os resultados do CDS/PP ao nível do concelho do Barreiro, pelo números do Barómetro, é quase evidente que o CDS/PP não irá eleger no concelho do Barreiro, o que, sublinhe-se não é novidade.
Mas, ao participar no acto eleitoral o CDS/PP não deixa os seus eleitores sem opção e afasta-os da eventual tentação de votar PSD.
O CDS/PP no Barreiro, no essencial, irá contribuir para dar aos seus eleitores uma opção de voto e vai afectar o PSD que, em algumas eleições, já tem contado com o eleitorado do CDS/PP para aumentar a sua votação autárquica.
Bloco de Esquerda rumo à eleição?
Por outro lado, o Bloco de Esquerda, está numa fase de crescimento, e a manter esta tendência eleitoral, no tecido urbano, pode, eventualmente, começar a equacionar a possibilidade de pela primeira vez eleger no concelho do Barreiro.
No entanto, apesar de tudo, perante a frieza dos números e a influência real dos partidos na vida politica local, o Bloco de Esquerda ainda tem pela frente uma dura batalha eleitoral.
O Bloco parece estar a retirar mais eleitorado aos socialistas do que aos comunistas.
Mas o Bloco de Esquerda está a fazer uma aposta abrangente nas suas candidaturas às freguesias de tal forma que poderá, até, vir a tornar-se uma força decisiva, quer na definição da composição dos executivos, quer na manutenção actuais lideranças quer pelo PCP, quer pelo PS.
O Bloco de Esquerda começa, cada vez mais, a ser uma força politica que vai contar na vida politica local, e, é, sem dúvida, a grande expectativa que está criada nas próximas eleições autárquicas.
PCP continua a ser uma referência
O PCP, neste barómetro, apesar de perder eleitorado relativamente ao mês de Junho, parece continuar a manter a sua tradicional base eleitoral, pelo que, em termos locais, os comunistas continuam a poder continuar a perspectivar a luta pela conquista da Presidência da Câmara, tanto mais que o eleitorado do PCP nas autárquicas, no Barreiro, é mais fixo que o eleitorado socialista.
No entanto, continua a colocar-se o mesmo cenário, ou seja, que o PCP tem pela frente um adversário muito difícil de destronar.
Perante esta frieza dos números, é pois, cada vez mais provável que o PCP possa manter as Presidências das Juntas de Freguesia que actualmente são por si lideradas, perdendo eventualmente uma ou outra maioria absoluta, mas também, continua em aberto, o cenário de reforçar as suas posições, dado que ao nível nacional este partido tende a estabilizar o seu eleitorado e o líder Jerónimo de Sousa, está numa vga de popularidade. Mas, até Outubro, ainda muita água vai correr debaixo da ponte.
O PCP tem dois adversários – o PS e o Bloco de Esquerda, que lhe limitam as suas possibilidades de reconquista da Câmara Municipal do Barreiro, mas continuará a ser, certamente, a segunda força politica no concelho do Barreiro, com tendência para aumentar a sua influência.
O PS é poder e esse facto dá-lhe força localmente, apesar da sua perda eleitoral na vida política nacional, sendo um osso duro de roer para o PCP.
Por outro lado, o PCP não parece que esteja a gerar uma “onda de fundo” que permita perspectivar que a sua capacidade e mobilização vá para além do próprio PCP.
A CDU continua a ser um espaço com pouco conteúdo politico, apesar de todos os esforços que Carlos Humberto coloca em alargar e abrir o seu discurso politico.
O Bloco de Esquerda surge como uma alternativa à esquerda, na qual o eleitorado pode querer apostar para que o PS não alcance a maioria absoluta e, simultaneamente, para que não fique nas mãos do PSD, e este facto, vai, de alguma forma, retirar espaço politico ao PCP.
Aliás, nas candidaturas às freguesias o Bloco de Esquerda vai influenciar, de alguma forma que, nalguns casos o PCP mantenha a Presidência e noutros casos, que o PS também as possa manter.
Mas, a mesma leitura, pode ser colocada em relação ao PCP, ou seja, num cenário do PCP conquistar a Presidência, e o Bloco eleja, os eleitores pode optar por colocar fim ao PSD enquanto força politica de charneira no Barreiro.
Parece pouco provável um entendimento entre o PCP e o PS na vida autárquica local.
PS pode manter a liderança do concelho
O Partido Socialista vai certamente sofrer com a perda eleitoral que o PS está a registar, devido ao “fim” do estado de graça do governo.
Mas o PS, de alguma forma, pode continuar a equacionar que tem todas as condições para manter a liderança politica no concelho do Barreiro.
Há factores subjectivos que influenciam a vida politica nas autárquicas, nomeadamente os candidatos e a sua influência nas comunidades.
Não parece que o PS esteja galvanizar sectores sociais que vão muito para além do próprio PS.
O espírito do BEM – Barreiro em Movimento, que levou o PS à conquista da Presidência da Câmara Municipal do Barreiro, não existe. O BEM morreu.
Hoje o PS conta consigo próprio e conta com o facto de ser poder, factor que pode ser decisivo para manter a Presidência.
O maior trunfo do PS, sem dúvida, chama-se Emídio Xavier.
O segundo trunfo, poderá, eventualmente, chamar-se Luís Pedro Cerqueira, seja ou não candidato, porque foi quem abriu caminho para que hoje no Barreiro, haja, ao fim de 30 anos de democracia, uma reflexão sobre uma “ideia de cidade”.
O PS tem pela frente uma batalha decisiva. Se perder a liderança da Câmara Municipal do Barreiro vai entrar no deserto.
Mas se o PS perder não é o PCP que ganha, é o PS que perde, quer isto dizer que o PS tem todas as condições para continuar a liderar a Presidência, mas dificilmente chegará ao cenário de maioria absoluta, nem sequer da Assembleia Municipal.
Isto significa que, o PS pode apostar em tentar conquistar ou manter as freguesias, mas, acima de tudo, pelos números do barómetro tem um desafio central e nele deve colocar todas a suas potencialidades: manter a Presidência de Câmara!
Para querer mais o PS teria, sem dúvida, que ter sido capaz de dar vida a uma dimensão politica na vida local, estilo “estado gerais”, que não concretizou, envolvido em questões secundárias.
O PS manteve a sua unidade. Conserve-a. E aposte em Emídio Xavier, a sua tábua de salvação. Porque, na verdade, é ele que une os socialistas e continua a ter uma influência decisiva na vida da cidade.
E ficamos por aqui, nesta reflexão com base nos números do Barómetro, mas, na verdade, há mais para dizer, muito mais…
Por exemplo, em que medida a eventual candidatura de Mário Soares à Presidência da República, com o apoio anunciado do PCP e BE, pode, igualmente, ser um factor que politicamente poderá influenciar as eleições autárquicas.
Esta candidatura irá esbater, certamente, ao nível ideológico algumas barreiras e poderá influenciar opções do eleitorado urbano.
Pronto, por aqui fica esta reflexão…que seja um contributo para ajudar a animar o debate de ideias na vida politica da nossa cidade.













