Inferências“Barreiro” versus “Participação – E agora?
Este será o grande desafio que Carlos Humberto tem pela frente, ser capaz de criar condições para que vivamos numa cidade onde se respeitem as diferenças e onde, de facto, os cidadãos sintam que, podem viver e participar, independentemente das suas opções politicas, religiosas ou filosóficas.

Por Jornal Rostos
Aconteceram as eleições autárquicas 2005. Não se pode dizer que existam surpresas. Desde há muito que se colocava este cenário de 4-4-1, estando, apenas, em discussão quem iria conquistar a Presidência.
O PS por ser, na verdade, o partido no poder tinha, à partida, mais condições para alcançar a conquista da Presidência.
A CDU reconquistou a Presidência da Câmara Municipal do Barreiro, e, esteve a “uma unha negra” de conquistar a maioria absoluta.
O PS foi vítima das suas próprias incapacidades e, por tabela, sofreu os efeitos da acção política governamental.
O Bloco de Esquerda é a nova força política com representatividade na vida política local ( a qual ainda pode, eventualmente, crescer se vier a assumir, em algumas freguesias o papel de charneira, colocando membros em executivos de Juntas de Freguesia).
“Um resultado construído com uma profunda ligação às pessoas”
Na noite de balanço eleitoral, em títulos de textos, que publicamos no “rostos on line”, três frases mereceram uma nota especial e com elas vamos reflectir.
“Um resultado construído com uma profunda ligação às pessoas” – afirmou Carlos Humberto, eleito Presidente da Câmara Municipal do Barreiro.
Esta sua afirmação traduz, de forma clara, aquele que foi um trabalho político realizado ao longo de uma ano, de forma serena e permanente, de diálogo com instituições e de contactos com a população do concelho do Barreiro.
A cigarra e a formiguinha
Um trabalho político que nós, na altura própria, classificamos de “trabalho de formiguinha”, enquanto, outros, dissemos limitavam-se a ser a “cigarra”.
Aliás, no terreno, estiveram de forma consequente, duas forças políticas a desenvolver o trabalho de “formiguinha” – a CDU e o PSD.
A CDU soube construir a sua vitória, estabelecendo diálogos, abrindo portas, distanciando-se de erros cometidos, mas, simultaneamente, afirmando valores que caracterizam a identidade local – a participação ou o desejo de participação.
A CDU tomou consciência que, nas eleições de 2001, apesar de ter sido um mandato que fez obra, que apresentou um Programa Eleitoral, dos melhores de sempre, perdeu as eleições, porque confundiu o trabalho da Câmara com o necessário trabalho político partidário e municipal de ligação às populações.
E, tendo reconhecido que era preciso aprender com os erros, foi para a rua e, no terreno, soube construir uma rede de “afectividades”, não baseada na ideia que as “pessoas têm um preço” mas no princípio que as pessoas têm dignidade.
A CDU, talvez, tenha aprendido que a cidade é um espaço de todos, de comunistas, socialistas, sociais democratas, democratas cristãos, gente sem opções partidárias, mas feita de gente que aqui vive, aqui quer viver, e afirmar a sua cidadania.
Cidadania e Participação
Foi essa a mensagem que Carlos Humberto passou ao eleitorado, é, sem dúvida, essa a mensagem que a CDU terá que construir, porque, como se confirmou em 2001, não é só de obras que a cidade vive. A cidade vive de cidadania, de participação, de democracia.
E, após os votos contados, de facto, lidera a construção da cidade quem recebe o apoio maioritário do eleitorado,e, embora, sendo eleito por um partido, essa força, com os seus eleitos, deve transformar-se no rosto da cidade, mas não é a cidade, nem nunca será a própria cidade.
Aliás, este foi um dos dramas de Emídio Xavier, que querendo ser o Presidente de todos os barreirenses era “pressionado” para se transformar no Presidente do “Barreiro Socialista”.
A CDU venceu as eleições, estabilizou a sua base eleitoral de apoio e o seu crescimento político é relativo.
A CDU tem pela frente um grande trabalho, acima de tudo, ser capaz de construir a sua maior promessa eleitoral, ou seja, de construir uma cidade participada, onde a cidadania possa ser afirmada, independentemente do “cartão partidário” e, onde, todos os barreirenses sintam que podem ser mobilizados para a construção da cidade, uma cidade que se orgulhe, de facto, do seu passado de luta pela liberdade.
Porque, sem dúvida, a liberdade é uma das mais belas conquistas do 25 de Abril.
“Solidariedade ao nosso camarada Emídio Xavier”
Outra frase que emergiu na noite eleitoral, que registámos, foi oriunda da Secção Local do Lavradio do Partido Socialista - “Solidariedade ao nosso camarada Emídio Xavier”.
Ora, de facto, foi isso que faltou no Partido Socialista, durante algum tempo, senão muitas vezes, a “Solidariedade a Emídio Xavier”.
O Grande trunfo político que o PS tinha, no Barreiro, residia na “força política” de Emídio Xavier, e, na verdade, quer o PSD, quer a CDU, cedo perceberam isso e, muita da acção politica que desenvolveram assentou no desgastar a figura do líder concelhio do PS.
O PS não soube, ou não quis, proteger o seu líder, envolvido mais em preocupações de lugares e “pequenos poderes” internos, ou de “socialistas puros e duros”.
A CDU, chegou a colocar na rua, em manifestação, a palavra de ordem : “Está na hora – Xavier ir embora”.
Nunca se escutou, em qualquer acção do PS, uma resposta, afirmando : “Xavier amigo – Barreiro está contigo”.
O PSD apostou, claramente, no desgaste de Emídio Xavier, transformando-o no “pagador de promessas”. E escutou-se um silêncio.
Emídio Xavier um valor acrescentado ao PS
Hoje, de facto, alguns resultados eleitorais, nas freguesias, demonstram que Emídio Xavier tinha um capital político superior ao que o PS galvanizava, um dos exemplos flagrantes, pode ser verificado, com números, na freguesia do Lavradio e outras.
O PS não pode culpar ninguém de ser o culpado do desaire eleitoral, por isso, poderá ser justa, a tomada de posição da Secção Socialista do Lavradio.
O PS foi vítima de si próprio, de ter aprendido, rapidamente, em quatro anos, muitos erros que a CDU, foi cometendo ao longo de 27 anos, nomeadamente, a não ligação de forma eficaz ao tecido “vivo” da cidade, o confundir a gestão autárquica com gestão municipal, a incapacidade de perceber que o Barreiro é uma terra de esquerda e que ser esquerda, significa ter voz, ser insubmisso, ser cidadão de corpo inteiro, e não ficar submetido a qualquer potencial aspirante a “cacique”.
Barreiro não é terra de caciques
Porque o Barreiro, nunca foi, nem nunca será uma terra de caciques. È uma terra com cultura de esquerda e de liberdade. Foram muitos anos de resistência que passou de geração para geração.
Os frutos de acções autistas pagam-se nas urnas.
Ora, na realidade, Emídio Xavier, não foi o protagonista destas perspectivas de acção política, embora, naturalmente, querendo “unir o impossível”, estar bem com gregos e troianos ( como o fez na Assembleia Municipal) acabou por ser á principal vitima das “conciliações”.
Há momentos na vida que a ruptura é o único caminho. E quem escolhe, opta.
No Barreiro, uma coisa parece certa, nada será como dantes, porque nos últimos anos, todos aprenderam que a cidadania deve ser vivida, e a democracia tem que ser construída diariamente.
Se mais nada resultou da gestão PS, nestes quatro anos, pelo menos, esta ideia que as diferenças existem, e , que, de quatro em quatro anos, o eleitorado pode escolher, decidir e optar é um dado adquirido.
Só quem não quiser aprender esta realidade é que não aprende, em democracia não se é poder, está-se no poder.
O PS, também terá que perceber uma coisa, e aprender a lição, recordando, por exemplo, que, há quatro anos quando venceu as eleições, tal foi conseguido porque lançou muitas expectativas, juntou em torno de si “vontades e saberes”, as quais transcendiam a sua base partidária, abriu esperanças que não concretizou. Recordam-se do BEM ( mesmo que tenha sido um bluff),movimentou vontades, mas, após as eleições esfumou-se. Se calhar essa é uma das causas remotas.
O PS nestes quatro anos fechou-se dentro de si próprio e não percebeu, ou não quis perceber, que ser “dono do PS” não é ser “dono do Barreiro”.
O PCP perdeu em 2001, também, por estas razões.
Num concelho onde, a bipolarização é evidente e vai continuar a ser evidente, nas próximas eleições autárquicas que a partir de hoje, na verdade, já estão na rua outra vez, fica para quem quiser entender esta grande lição da “formiguinha” e da “cigarra”.
“Uma derrota estrondosa da arrogância no poder”
Outra frase que nessa noite eleitoral veio para a rua, foi proferida por Bruno Vitorino, líder concelhio do PSD, que foi eleito Vereador na Câmara Municipal do Barreiro e, poderá, de novo, colocar o Partido Social Democrata como o partido “charneira” no concelho do Barreiro.
Carlos Humberto manifestou a sua vontade política, no debate promovido pelo jornal “Rostos” de atribuir pelouros a todas as força políticas.
Será que o PS vai aceitar pelouros?
O PSD já se manifestou disponível para aceitar pelouros e cooperar com a CDU, como já o fez no passado, quer com o PS, quer com a CDU.
Mas o PS, será que tem estratégia?
Será que Emídio Xavier vai aceitar ficar na autarquia com Pelouro, depois de ter sido Presidente? O mais certo é seguir as pisadas de Carlos Maurício. É natural.
Perante o cenário actual de confronto político da CDU com o governo socialista é muito pouco provável que o PS tenha condições politicas para aceitar pelouros.
Aliás, nem parece que o PS tenha alguma estratégia sobre esta matéria. Uns quererão que o PS aceite pelouros, outros terão opinião contrária. Muita água vai correr…
Emídio Xavier, se ficar sem pelouro, pode, de facto, voltar a sua acção para a vida interna do PS e ser um pólo catalizador da “onda de solidariedade” que já emergiu no Lavradio.
PSD vai aceitar pelouro
Mas, voltando ao PSD, este partido vai ter, de novo, um papel importante na vida da cidade e, sem dúvida, a CDU precisa deste apoio.
Bruno Vitorino é um estratega de médio e longo prazo e sabe que, assumindo pelouro na autarquia, será um protagonista de politicas e abre caminho para colocar o PSD na rota da alternativa, ou pelo menos, “fazer politica” para que o seu partido possa crescer na cidade.
O crescimento do PSD, no Barreiro, vai beneficiar a CDU, porque esvazia espaço político ao PS.
A frase de Bruno Vitorino - “Uma derrota estrondosa da arrogância no poder” - sendo critica em relação à gestão socialista que, na sua opinião, perdeu as eleições devido à forma como exerceu o poder, não deixa de ser um “recado” para os novos “parceiros” nesta nova rota de quatro anos.
Carlos Humberto - força moral e política
Só que a CDU, tudo indica, aprendeu a lição e, embora, tal como PS, ali, devam existir sectores que estão, desde já, sedentos de “vingança” e com a ansiedade de colocar na gaveta as promessas do Pelouro da Participação, Cidadania e Democracia, tal, não será possível, porque, desta vez, a CDU, conta com um Presidente de Câmara que, com a sua vitória, por ele construída no terreno, com militância, tem força moral e força politica para levar em frente as promessas.
Ele acreditou na vitória, mesmo com dúvidas, sempre, mesmo quando lhe chamavam futuro vereador. E ficamos por aqui.
Carlos Humberto é um homem de partido, não chegou ao poder pelo poder, chegou ao poder pelo PCP e com o PCP, e, acima de tudo, desde a primeira hora, afirmando a participação como referência da acção política.
Bruno Vitorino, portanto, que tem uma visão estratégica vai, certamente, aceitar pelouro, e vai deixar espaço para a governabilidade na autarquia, naturalmente, estando sempre, atento e reforçando essa ideia de cidade – participação, cidadania e democracia, porque, com isto, quer a CDU, quer o PSD, irão isolar o PS, que se optar por não aceitar pelouros vai fazer uma travessia no deserto, da qual só sairá, se a CDU não cumprir, muito especialmente, esta grande promessa eleitoral de dar força à cidadania.
E a cidadania constrói-se com todos, naturalmente, também, com aqueles que a partir de agora, já o afirmam : “Sou comunista desde que nasci!”
António Sousa Pereira













