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Inferências

InferênciasConstruir ou destruir, eis a questão!

O PS viveu, durante muito tempo do seu mandato de gestão autárquica, dividido entre duas opções estratégicas – uma de “politicas populistas”, outra de “politicas estruturantes”.

10 min de leitura
Inferências Construir ou destruir, eis a questão!

Por Jornal Rostos

Aqui partilho convosco mais algumas reflexões sobre as eleições autárquicas 2005.
Um pensar causas e consequências.

O imediato e o longo prazo

Por vezes, quando são tecidos comentários ou se procuram justificações para a derrota dos socialistas, nas últimas eleições autárquicas uma das reflexões colocada, refere que na gestão autárquica houve um excesso de planificação do futuro e pouca preocupação com a resolução dos problemas que afectavam o quotidiano das populações.
Ou seja, esta reflexão pretende dar a ideia que os eleitores apenas estão preocupados com o “buraco” que está junto ao passeio das suas casas e pouco se incomodam ou interessam pelos projectos que perspectivam futuro.
È interessante verificar que, nas eleições autárquicas que o PS venceu, a reflexão era colocada ao contrário, em absoluto.
No mandato que o PCP/CDU foi derrotado pelo PS, na realidade, todos estão convictos que foi, de facto, um daqueles que mais obra foi realizada pelo PCP/CDU, quer na melhoria dos espaços públicos, quer no lançamento de projectos que seriam posteriormente concretizados pelos socialistas.
E, pelos vistos, pelo resultado nas urnas, os eleitores barreirenses exigiam da gestão autárquica mais que, só, e apenas, a realização de obras.
O PS fez a sua campanha eleitoral dando força à necessidade de ser desenvolvido um projecto de cidade, criticando a ausência de um Plano Estratégico, e, na verdade, lançando uma série de “ideias” que poderiam ser elementos estruturantes de um “ideia de cidade”.
E, pelos vistos, nas urnas, os eleitores barreirenses deram ao PS a confiança politica para que implementasse as suas propostas.
No decorrer do seu mandato os socialistas procuraram aprofundar essas ideias, colocaram em debate a elaboração do Plano Municipal do Ambiente, perspectivaram a realização de um Plano Estratégico e iniciaram a discussão sobre a Revisão do Plano Director Municipal.
Mas, os socialistas também realizaram obra, não só concretizando os projectos que tinham herdado do PCP/CDU, como lançando novos projectos e melhoramentos em espaços públicos, que lamentavelmente, se encontravam ao abandono há décadas ( recordo, apenas a zona junto à entrada da Escola Álvaro Velho).
Portanto, parece-me que, talvez, não seja este o caminho mais justo que pode ou deve ser seguido para procurar justificar os acontecimentos eleitorais de 2005.
Este é, como sempre, o caminho mais fácil, porque é o caminho da procura do “bode expiatório”.
Este caminho pretende afirmar que o PS perdeu as eleições porque andou por aí a propagar o “Barreiro 2020” e não resolveu os problemas reais da cidade.
Colocar o debate a este nível é reduzir a análise a critérios simplistas, a conversas de café, e, naturalmente, passar aos cidadãos um atestado de “menoridade política”, porque votam, apenas, interessados na resolução de “problemas imediatos” e são completamente indiferentes a ideias de desenvolvimento estruturante.

O diálogo com os eleitores

Ora como vimos, em dois actos eleitorais sucessivos, o eleitorado provou o contrário de tudo isto – o eleitorado acreditou em quem mais confiança lhe transmitiu, com ideias e com diálogo.
Em 2001, o PS saiu à rua, mobilizou vontades, uniu afectos e diferenças, lançou projectos e ideias, promoveu debates sobre a cidade, alargou a sua acção para além muito para além, da sua mera acção partidária.
Em 2001, o PCP/CDU estava autista, fechado dentro de si próprio, voltado de costas para os eleitores e instituições querendo “impor” à cidade a sua ideia de cidade, vivia o poder pelo poder.
Em 2001, o PCP/CDU confundia-se na sua acção politica com a própria gestão municipal.
Em 2005, o PCP/CDU saiu à rua, uniu vontades, construiu relações, dialogou com as populações, promoveu debates com e sobre a cidade, abriu a sua acção politica à comunidade.
Em 2005, o PS fechou-se dentro de si próprio, voltou as costas à comunidade, afastou de si cidadãos e até militantes foram “estigmatizados”, viveu o poder pelo poder.
Em 2005, o PS confundiu a sua acção política com a própria gestão municipal.
É caso, quase para afirmar – as mesmas causas, produzem os mesmos efeitos.
O que os eleitores retiraram ao PCP/CDU em 2001 foi a confiança politica.
O que os eleitores retiraram ao PS em 2005 foi, igualmente, a confiança política.
Ou será que, após mais de 30 anos do 25 de Abril, ainda não foi percebido que o Barreiro é uma cidade de gente “politicamente culta”, de esquerda, que sempre defendeu e defende a cidadania e a participação como valor e não como “encenação”, que não “vive” só de obras, nem de “espectáculos”.
O associativismo, a dimensão cultural dos cidadãos no Barreiro ( um concelho com elevado índice de licenciados, dos maiores no país), são exemplo de que esta é uma cidade que afirma, hoje como ontem – “nem só de pão vive o homem”.

Construir ou destruir, eis a questão!

A ideia que parece mais central neste processo é que, na verdade, os eleitores, como alguém referia há dias – “apreciam mais quem constrói
do que quem destrói”.
Em 2001 o PS desenvolveu uma campanha eleitoral pela positiva, com ideias, com projectos, afirmando-se como alternativa e não como alternância ao PCP/CDU.
Em 2005 o PCP/CDU desenvolveu uma campanha eleitoral pela positiva, não criticando o PS de forma aberta ( para isso teve o contributo do PSD) e procurando dialogar com a população e os agentes locais.
Em 2001 o PS afirmou-se como alternativa, em confronto político com o PCP/CDU.
Em 2005 o PS, na verdade, não parecia que era o partido que estava no poder, mas sim, de facto, parecia mais um partido que estava a combater o PCP/CDU, retomando, por vezes, ao nível da freguesias e não só, o discurso estafado que o “PCP/CDU destruiu o Barreiro”.
Será que, nos quatro anos de mandato, o Partido Socialista após ter conquistado a Presidência da Câmara Municipal do Barreiro, alguma vez, tomou plena consciência que era um partido que tinha responsabilidades políticas, mais que responsabilidades de poder?
O PS em quatro anos mais que afirmar o seu projecto e as suas propostas na cidade e para a cidade, andou distraído, com guerras de poder e com matérias marginais.
O PS colocou-se a si mesmo e aos seus dramas acima da cidade e esqueceu os cidadãos.

“Politicas Estruturantes” e “Politicas Populistas”

O PS viveu durante muito tempo do seu mandato dividido entre duas opções estratégicas – uma de “politicas populistas”, outra de “politicas estruturantes”.
O conflito entre estas duas opções estratégicas estão latentes nas “conversas de café” que comentam os “basismos” e os “doutores”.
Este conflito traduz uma realidade política local que, ao longo dos anos, tem marcado a vida politica barreirense, e, se traduz, na prática, na existência do chamado “ciclo pendular”.
O “ciclo pendular” tem décadas e como resultado político tem se caracterizado, no Barreiro, pela vitória eleitoral do PS nas legislativas e por, nas eleições seguintes, nas autárquicas registar-se a vitória do PCP/CDU.
Duas razões principais estão na origem deste “ciclo pendular” – os eleitores socialistas não acreditavam no PS Barreiro ( votavam muitos CDU nas autárquicas), porque o PS era um partido que não existia na vida da cidade e só renascia nas eleições autárquicas; por outro lado o PCP/CDU soube sempre melhor ligar-se à “vida real” da cidade e aos seus autóctones (aqueles que fazem o quotidiano da cidade).
As últimas eleições pareciam ter colocado fim a esse ciclo.
Mas, ao que parece, de novo, muitos socialistas, em 2005, optaram por votar no PCP/CDU, porque ficaram com “medo” de uma “cultura politica” que parecia estar a emergir, subtilmente, nas esferas do poder.
O líder concelhio do PS viveu, de forma permanente, neste quatro anos, a gerir estas conflitualidades estratégicas.
O Partido Socialista na gestão autárquica viveu dividido entre estas duas opções por um lado desenvolver uma visão estratégica e um projecto de cidade, por outro lado, os que apostavam em políticas populistas, de construção de “rede” e de “controle da cidade”.
Este é um problema de “cultura politica” de forma de encarar a cidade e a cidadania.
O PCP/CDU aprendeu com os erros e, de facto, não é por mero acaso que a sua primeira proposta politica, na pré campanha eleitoral, foi afirmar a criação do “Pelouro da Democracia e da Cidadania”.
O PS foi incapaz de se libertar da “cultura de oposição pela oposição” que caracterizou a sua acção política durante décadas.
O PS era o partido no poder só tinha que ter sido capaz de afirmar o seu projecto, divulgar o seu projecto de cidade, distanciar-se do PCP/CDU não pela negativa, mas pela positiva.
Acham que os eleitores vêem com bons olhos que pessoas que, ainda não há muitos anos estavam com o PCP /CDU, eram protagonistas das suas políticas, venham agora repetir a “cassete” que os comunistas comem criancinhas? Ou que aplaudam de forma entusiástica o candidato do CDS/PP quando ele falava de Moscovo?

Os “basistas” e os “doutores”

Ora nisto o líder concelhio do PS nunca entrou, nem a campanha do PS foi por este caminho (mas, na verdade, em algumas freguesias foi isso que aconteceu).
Emídio Xavier foi sempre um homem de diálogo. Nunca se discutiu tanto no Barreiro, sobre o Barreiro.
Mas não basta discutir, se o discurso sobre a cidade não tiver reflexos na vida da cidade.
Os socialistas mais que procurarem saber se o culpado da derrota é x ou y, deveriam ser capazes de aprender com os erros ( porque o PS, em quatro anos, aprendeu todos os erros que o PCP/CDU cometeu em 27 anos).
E a primeira lição, se não talvez a maior lição será entender que : a Câmara Municipal pode ser liderada pelo partido x ou y, mas a Câmara Municipal não é o partido x ou y; por outro lado o Partido enquanto força politica com projecto alternativo para cidade tem que ter vida própria e quem tem a liderança do partido x ou y, não é “dono” da cidade.
O PCP/CDU aprendeu esta lição…o discurso diz que sim, quanto ao resto o futuro o dirá.
O PS ainda está a tempo de aprender a lição, reflectindo e sendo capaz de, nessa reflexão juntar “basistas” e “doutores”…sobe pena de voltar, de novo, recomeçar o “ciclo pendular”.

Fim à “Cultura do Ódio”

Um a nota final. Será que no Barreiro, após estes quatro anos e tendo ficado demonstrado que, o eleitorado tem opções, e pode escolher quem lhe merece “confiança politica”, não será já tempo de, mais de 30 anos após o 25 de Abril, seremos capazes de cultivar uma “cultura de tolerância política” e acabar a “cultura do ódio”?
Não será já tempo de fazermos jus a esse orgulho de ser barreirense, estimulando e promovendo uma “cultura de liberdade”.
Estes próximos quatro anos vão ser, sem dúvida, um laboratório de “cultura politica”.
Cada qual que seja capaz de aprender com as lições da história…

António Sousa Pereira

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