Caldeirada de PalavrasBarreiro – aprender a viver com as diferenças

Por Jornal Rostos
Caboz Gonçalves, PS; Pedro Gomes, PSD; Humberto Candeias, BE; José Encarnação, PCP/CDU, com moderação de Sousa Pereira, Director do jornal "Rostos" dão vida ao paienl "Caldeirada de Palavras" que mensalmente vai proporcionar o confronto de opiniões, troca de ideias, avaliação da vida local, criticas e sugestões.
Aqui divulgamos alguns resultados do debate, assim como na nossa edição impressa, mas, sublinhe-se, só assistindo se sente a riqueza e o valor humano deste painel.
Em Fevereiro, dia 16 regressamos...
Pedro Gomes, abriu o debate no recomeço do “Painel Caldeirada de Palavras”, colocando sobre a mesa a análise das últimas eleições autárquicas.
“O resultado das autárquicas, no Barreiro, foi uma surpresa para muita gente, não tanto surpresa pela vitória da CDU ( porque quem andava na rua, a certa altura, já se previa isso), mas pela dimensão da vitória.” – começou por referir Pedro Gomes, acrescentando – “Quero aqui dar os meus parabéns à CDU. Espero que sejam quatro anos que o Barreiro arranque, verdadeiramente arranque”.
Emídio Xavier mal tratado
“Acho que o Partido Socialista perdeu as eleições, não por não fazer trabalho, mas por não ter feito trabalho comparado com aquilo que havia prometido.
Gostava de deixar uma palavra de solidariedade, saudação e felicidades sinceras ao Engº Emídio Xavier que tem sido muito mal tratado por muita gente.” – salientou Pedro Gomes.
PSD não atingiu os seus objectivos
“No caso do PSD, claramente, não atingiu os seus objectivos, que era o segundo Vereador. Os votos não traduziram isso, mas, acho, sinceramente que apresentámos dois excelentes cabeças de lista, que fizemos boa campanha no Barreiro. Mas, não conseguimos os nossos objectivos, há que ser claro sobre isso, analisar, mas estar de consciência tranquila, pelo excelente trabalho do Bruno Vitorino, na campanha.
Parabéns, também, ao Bloco de Esquerda pela sua entrada nos órgãos autárquicos e esperar que todos juntos consigamos fazer um bom trabalho pelo Barreiro” – sublinhou Pedro Gomes.
Prestar uma homenagem sentida
Caboz Gonçalves, foi o segundo interveniente no painel, referiu que tinha acabado de chegar da Casa Mortuária do Lavradio, onde foi dar “o último adeus a um militante do Partido Socialista, que estava há algum tempo compreensivelmente afastado. Um lavradiense ilustre. Um homem que ajudou a fazer a plataforma industrial do Lavradio, o Engº Ulisses Freire, meu companheiro, alguns anos na Assembleia Municipal do Barreiro, a quem eu acho, não faz mal nenhum prestar uma homenagem, que é sentida e lembrar que, num tempo em que se exalta o potencial da juventude, a todos os níveis que as pessoas que já têm menos idade, fossem ouvidas.” – começou por referir.
Sociedade - dar outra atenção aos seus idosos
O meu partido como os outros partidos, como a sociedade em geral, em relação aos mais idosos tem uma atitude curiosa: a primeira é que são um encargo para o Orçamento da Segurança Social; a segunda é que são um entrave para as famílias, que lhes criam uma mão cheia de problemas; e, geralmente, também são postos nos armazéns, chamados lares.
Eu acho que a sociedade, deveria dar outra atenção aos seus idosos.
Neste particular o Barreiro teve um exemplo que me parece, relativamente, bem conseguido, que foi a experiência da Universidade da Terceira Idade. Parece-me interessante, podia sempre ser melhor, mas serviu para que umas centenas de pessoas se sentissem vivas.
Todavia há um conjunto de pessoas do Barreiro, eu destacaria, porque é paradigmático, o caso do José Caro Proença, que progressivamente vão sendo olhados de lado, são chatos, cujos saberes, a sociedade aproveita muito pouco.
Eu acho que os partidos deviam ouvir os seus maiores, os seus mais velhos.
A sociedade deveria ouvir os seus mais velhos.
Por exemplo, não faz sentido que os galardoados, com as Medalhas da Cidade, que são a expressão de uma carreira, de uma vida, recebam a medalha e…talvez alguém se lembre deles no dia em que morrerem.
Após a medalha e até que morram, regra geral ninguém fala deles, nem sequer, por exemplo, para se pronunciarem sobre quem no ano seguinte, ou nos anos seguintes, deve receber um galardão igual, e esta, é uma proposta de José Caro Proença, fez ao executivo anterior, e sei que já fez a este, isto, para dizer, que deviam ouvir mais os velhos.”
Partido Socialista perdeu por sua culpa.
“Sobre o resultado das autárquicas como se sabe eu não votei, pelas razões que expliquei na altura.
Gostaria que o Partido Socialista tivesse ganho, mas acho que o Partido Socialista perdeu exclusivamente por sua culpa.
A CDU ganhou, fazendo uma campanha muito inteligente, de grande modéstia, limpinha (aliás não precisava de fazer trabalho sujo, porque para isso estava cá o PSD ) e, aproveitando tudo isso…” – salientou Caboz Gonçalves.
“Estava a ver que isto não aquecia. Estava quase a dormir” – comentou Pedro Gomes.
“E, aproveitando tudo isso, numa postura muito inteligente do nosso amigo Carlos Humberto e a CDU, fizeram o trabalho de ir ouvindo as pessoas (aquilo que o Sousa Pereira chamou o trabalho de formiguinha, enquanto o Partido Socialista se comportou um pouco como a cigarra).
Portanto foi natural. Para mim não foi surpresa nenhuma, disse-o a várias pessoas, lamento que isso tenha acontecido. É injusto.
Aliás, o Pedro Gomes quase que disse isso, porque o Partido Socialista fez trabalho, que se irá ver no futuro, que já se está ver.” – referiu Caboz Gonçalves.
ETAR - PCP votou contra esta solução
“Ainda, hoje, vi algures aí num blog, alguém dizer, já se vê, está aí, finalmente, a Estação de Tratamento de Águas Residuais que vai tratar o Tejo. Está aí, já se vê o trabalho. Uma gaita.
O Partido Comunista sempre foi contra esta solução. Os mesmos vereadores do Partido Comunista que votaram contra esta solução, que foi levada à frente por grande impulso do Engº Emídio Xavier, eles que lutaram contra esta solução, foram para a Administração da SIMARSUL.
O ex- Presidente da Câmara Municipal do Barreiro e Deputado Municipal que sempre votou contra esta solução, depois foi para Presidente da Assembleia Geral de accionistas, representante do capital maioritário.
Essa solução que aí está, e esta boa nova, de nós termos a ETAR que, aliás, foi um excelente trabalho, devo dizer, do Arquitecto Miguel Amado, que é a cabeça mais visível do projecto (merece os parabéns), é, também resultado de um trabalho, de uma boa iniciativa do mandato anterior da Câmara Municipal do Barreiro.
Embora, no último período do mandato parece que meteu os pés pelas mãos e teve que ser o Presidente da Câmara Municipal da Moita, a desbloquear a situação com a Quimiparque. Isso é público, não sei se foi assim, mas foi o que veio a público.
E, mais, o nosso amigo Carlos Humberto irá inaugurar um conjunto de coisas que foram lançadas. O que é normal” – referiu Caboz Gonçalves.
“Coisa que não aconteceu no mandato anterior?” –questionou Humberto Candeias.
Carlos Humberto irá fazer um mandato ouvindo
“Pagou-se e inaugurou-se o Auditório Municipal. O Mercado de Santo André foi começado, acabado e pago pelo anterior executivo.
Vão inaugurar o Politécnico, a ETAR, a Esquadra da Policia de Segurança Pública ( que o Bruno Vitorino teve importância nisso), por isso, Carlos Humberto irá fazer um mandato, que ele sabe bem fazer, ouvindo, o que é verdade que ele tem ouvido, vamos lá ver se com resultados.
Até digo, que ele já ouviu mais as pessoas, nestes dois meses, do ponto de vista folclórico ( sem ser ofensivo), já falou mais com as pessoas, do que o nós o mandato inteiro, mas esse, é um problemazito pelo qual pagámos.
Espero que o mandato seja bom, no interesse do Barreiro.
Se for bom e a CDU ganhar outra vez, paciência.
Eu estou cá para dar as minhas sugestões, pelo Barreiro, que é do Barreiro que eu gosto, nasci cá, os meus filhos nasceram cá, não quero estar noutro sitio, nem tenho pena de não estar noutro sitio.” – sublinhou caboz Gonçalves.
A CDU ganhou justamente
Humberto Candeias, começou por referir – “Esta coisa de se dizer que houve uma derrota do PS injusta, em democracia, isto não. É uma derrota justíssima. É uma vitória merecida da CDU, ponto final.
Essa coisa que é injusto é subjectivo. Tem se aceitar, democraticamente, é a medida da expressão da vontade das pessoas. Não há outra volta a dar.
É preciso, quando se fala das razões da derrota, aqui referidas pelo Pedro Gomes, que terá sido aquilo que foi prometido e que não foi cumprido, isso é apenas uma parte, porque teve, também, a ver com a acção, a intervenção e a relação dos próprios autarcas socialistas, com a população e com a resolução dos problemas.
A CDU ganhou justamente, mas é preciso perceber uma coisa, a CDU não criou nenhuma onda que tivesse galvanizado a sociedade e por isso ganhou, a CDU ganhou justamente, mas ganhou pela implosão do PS, de alguma maneira, de abstenção, e, também, pelo aparecimento do Bloco de Esquerda.
É preciso que haja esta clareza para se perceber que os eleitores que votaram agora e deram a vitória à CDU, foram os mesmos, praticamente, que deram a vitória ao PS, após 27 anos de marasmo que se viveu. Portanto, foi quase um acto de fé.
Pensar uma suposta onda, que existe e que foi conseguida pela CDU vai transformar o Barreiro, que fique claro que, isso, a nosso ver, não vai ser razão suficiente para produzir as mudanças.
As mudanças terão que existir pela confluência das oposições, pela participação e pela cidadania em geral e não por esta massa que já vota, e j+a votou, em circunstâncias diferentes…” – referiu Humberto Candeias.
“Vocês têm o PCP atravessado na garganta” – comentou Caboz Gonçalves.
“Não temos nada os comunistas atravessados na garganta e o eleitorado comunista merece toda a nossa consideração.
O meu pai era comunista, a minha mãe também, o meu avô também..” – referiu Humberto Candeias.
“Só tu é que degeneraste” – comentou Caboz Gonçalves.
“Não, a minha mãe já degenerou, também, entretanto.” – respondeu Candeias.
“Já a convenceste” – salientou Caboz.
Tradição de ligação entre a CDU e o PSD
“Continuando. Obviamente que estamos com dois meses, não há possibilidades de fazer qualquer espécie de avaliação da intervenção, nem é justo o momento, de qualquer maneira, a meu ver, há sinais, há alguns sinais, que são negativos.
Há um sinal que foi positivo, que foi o da participação, das “Opções Participadas” e do diálogo, é incipiente, mais foi algo que foi positivo.
Mas, há alguns sinais negativos, que podem indiciar que as mudanças, no Barreiro, só poderão ocorrer, não por energia interna da CDU, mas sim por intervenção de outras forças e outros movimentos de cidadania.
Quais são os sinais negativos? Foram a formação dos Executivos das Juntas de Freguesia, em que se manteve alguma tradição que existia de ligação entre a CDU e o PSD, quando havia outras possibilidades, em cima da mesa.
Nós, a nível local, contrariando uma linha mais geral do Bloco, contrariámos isso, porque somos 100% pela participação, achámos que devíamos assumir responsabilidades, onde quer que fosse possível, mas, a CDU, não aderiu, não mudou, relativamente a essa tradição…”
“Isso é uma critica à nossa ligação à CDU, ou é inveja por não fazer parte?” –perguntou Pedro Gomes.
“Inveja?! Isto é uma análise política de uma aliança e de uma ligação politica, que vocês repartem e, portanto, isto, é um sinal negativo.” – referiu Candeias.
Incapacidade de aproveitar virtualidades da Lei
“Tal como foi um sinal negativo a votação na Assembleia Municipal, no que diz respeito às taxas do EMI, em que a CDU votou ao lado do PSD, defendendo aquilo que é a situação tradicional, de não haver majoração, nem minoração, que está prevista na Lei e que penalizaria aqueles que têm casas devolutas, nomeadamente os senhorios.
E, diga-se, ao contrário, daquilo que até as mesmas forças politicas noutras localidades votaram, aqui no Barreiro, manteve-se, exactamente tudo na mesma.
Em Sintra, o PSD, aproveitou alguma coisa da Lei para ir buscar receitas e introduzir um factor de gestão do território, que favoreça a ocupação das casas que são devolutas e que favoreça os arrendamentos, em Sintra, isso foi possível, e, na Amadora, a CDU, também votou favoravelmente, uma proposta que ia no sentido das majorações e das minorações.
No Barreiro, manteve-se exactamente, tal e qual, o que foi durante muito tempo, e, isto, para mim, são sinais, preocupantes de imobilismo, de incapacidade de inovar, de aproveitar virtualidades da Lei, propostas que apareçam e de construir mudanças importantes. Estes são sinais negativos.” – sublinhou Humberto Candeias.
A forma como construímos as cidades
Depois, sobre as questões da Terceira Idade, esta é realmente uma matéria importante com a qual nos vamos confrontar, que é o envelhecimento da população, que tem muitas dimensões, uma delas tem a ver com o urbanismo, a forma como construímos as cidades.
O Barreiro não tem sido construído como uma cidade para as pessoas, nomeadamente para as pessoas de mobilidade reduzida, como são as pessoas mais velhas.
Uma cidade que não coloca as pessoas em conjunto, que coloca os carros no centro da cidade.
O Barreiro tem se construído muito contra as pessoas e não para as pessoas. Isso tem continuado.
Na Avenida Alfredo da Silva os novos candeeiros estão a iluminar a via pública, não estão a iluminar os passeios, tem uma luz para os carros, não para as pessoas”.
Barreiro tradições de cultura e dos saberes
José Encarnação, o novo participante no painel, em substituição de Rogélia Costa, começou por referir, que – “como estreante, faço como gosto de fazer na vida, vou vendo, ouvindo e aprendendo”.
“Começo por esta questão dos velhos. Acho que é uma tendência geral, que faz parte do discurso politicamente correcto, formatado, dar uma atenção muito grande à juventude, toda a gente tem a fobia de captar para o seu lado a juventude, isso, até poderá ter a ver com aspectos da natureza humana, nós gostaríamos de ser sempre jovens.
Mas, a nossa sociedade, no nosso país e particularmente o caso do Barreiro, é que nós vamo-nos confrontar com a inversão da pirâmide populacional etária.
Nós, daqui por 30 anos, vamos ter mais do dobro dos velhos que temos hoje, isto, levanta problemas, ligados com o urbanismo, mas todo um conjunto de outros problemas, que nos vão afectar a todos nós, desde problemas de Segurança Social, que foi excessivamente dramatizado, no debate, na Televisão.
Excessivamente, ainda que eu perceba que, alguém, algum dia, tem que dizer que o rei vai nú, para não precisarmos de bater com a cabeça na parede e sentirmos que temos os problemas à porta.
Mas, vejo a questão dos velhos noutra dimensão, os saberes e os conhecimentos dos velhos.
Se o Barreiro tem tradições, do ponto de vista, de cultura, dos saberes, aquilo que de certa forma nos caracteriza e que vamos herdando, eu acho que, tem sido um crime (e isto atravessa todos, quer os comunistas, quer todos os outros), ao longo de décadas, subestimar e desprezar ( para não usar outros adjectivos) as capacidades que toda esta gente tem em vários domínios.
Não é difícil envolver as pessoas. Há disponibilidade por parte das pessoas, quando os assuntos tocam as pessoas, as pessoas interessam-se, viu-se isso nas “Opções Participadas”.
Portanto, não é um problema meramente económico-financeiro.
Há diversas entidades, particularmente a Câmara, mas também a sociedade, que tem que se preocupar na forma como consegue, integrar essas pessoas, que vai ser, cada vez, em número maior no futuro.
Como se ocupa o tempo destas pessoas? É uma preocupação que todos temos que analisar” – referiu José Encarnação.
Habituar a fazer a soma das diferenças
“Quanto às eleições. No meu ponto de vista, surpresa seria a CDU não ganhar as eleições.
O desejo que tenho e o voto que eu faço é que esta não seja uma vitória, meramente, conjuntural, reflectindo interesses mais particulares e opções de outra natureza.
Outra coisa que gostava de colocar sobre a mesa, independentemente, desta lógica que é sadia, de opiniões, o que acho é que nós temos que nos habituar a fazer a soma das diferenças e não a separação das diferenças.
Acho que aquilo que é mais rico em nós, em todos nós, é saber conviver, saber viver, com a diferença.
Acho que o jogo da politica, da vida partidária, a luta pelo poder, tem as suas regras e, portanto, ninguém está aqui para perder. Toda a gente quer ganhar a Câmara, a Junta, a colectividade.
Põe-se o problema como as oposições vão funcionar e considero que é de todo o interesse, chamem naif, chamem o que quiserem, mas acho que era de todo o interesse para a população do Barreiro, que a CDU governasse bem, isso, para mim, é que é importante.
Como apoiante da CDU e como militante comunista, há muitos anos, não estando aqui como porta voz do PCP, nem da CDU…” – referiu José Encarnação.
Foi esclarecido que nenhum membro do painel, apesar das suas opções partidárias, está a participar como porta voz ou representante da sua força politica.
Encerramento da Escola Bento Jesus Caraça
“Eu gosto de ter uma visão de apoio critico, não regatear esforços, estendendo a mão e dando capital de confiança, mas, acho que era de todo o interesse para o Barreiro, para nós todos que cá vivemos, para os nossos filhos, para aqueles que possam vir a viver para cá, que a Câmara, que a CDU, que está á sua frente, governasse bem, que resolva, de facto problemas.
Acho que no Barreiro, como noutros sítios, faz falta a opinião critica, interveniente, no sentido de corrigir, atempadamente, eventuais desvarios, porque não se resolve tudo com dinheiro.
Gostaria ainda de alertar para o encerramento de uma escola, mais à frente falarei, que é uma escola única no Barreiro, a Escola Bento Jesus Caraça”.
E, por hoje, ficamos por aqui, neste recomeçar o painel da “Caldeirada de Palavras”, que esteve animado…e promete!
Por hoje…é tudo. Mas há mais…













