InferênciasDo “amor ao chefe” ao “amor à camisola”

Por António Sousa Pereira
Tudo aconteceu de forma súbita, com a vitória do PCP nas últimas eleições autárquicas, porque, afinal, parece que, alguns, não esperavam que essa vitória (outros a derrota), fosse possível e foram “apanhados” de surpresa.
Enfim, coisas de incautos, de quem não sabe que a política começa, em primeiro lugar na rua, junto às pessoas que fazem e vivem a cidade.
Abrir a “panela de pressão”
E, no meio de toda esta confusão, para que as coisas ficassem ainda mais baralhadas, logo a seguir à vitória eleitoral, a nova liderança da Câmara Municipal do Barreiro, promoveu as “Opções Participadas”, dando a palavra à população, abrindo espaço para debates, e, sublinhe-se que esta foi, sem dúvida, uma iniciativa que marcou pontos.
Quem acompanhou, uma a uma, verificou que, por todo o lado, parecia que se estava a abrir-se uma “panela de pressão” e as pessoas sentiam uma enorme vontade de despejar a ansiedade sentida e rasgar as “barreiras de silêncio”.
Claro que alguns eram militantes comunistas, ou simpatizantes, que rejubilavam com a vitória e sentiam que estavam de novo a jogar em casa.
Mas, não foram só comunistas ou simpatizantes que falaram, ali, estiveram presentes e falaram pessoas de diversas opções políticas, e sem opções, todos falaram de problemas e lançaram reptos. Acreditaram na força do diálogo.
Enfim, foi lançada para a opinião pública uma operação, com sucesso que, sem dúvida, deu á nova liderança da Câmara Municipal do Barreiro um importante capital político, de credibilidade e modernidade.
Esta foi, na verdade, a segunda vitória do PCP/CDU logo após a reconquista da Câmara, deixando, desta forma, KO, e pelas “ruas do silêncio” as restantes forças politicas.
O PCP a partir daqui e, de forma permanente, tem sido a força política que tem vindo a marcar a agenda politica local.
Manter a “estratégia da formiguinha”
Certamente, recordamos que, uma das situações que levou o Partido Socialista ao poder, em 2001, foi a existência de um sentimento, na vida local, de ausência de comunicação ( que não é o mesmo que ausência de informação), de criticas ao autismo que caracterizava a gestão municipal liderada por Pedro Canário.
Em 2005, o PCP reconquista a Câmara e a primeira medida estratégica que lançou foi de “ocupar o espaço do diálogo”, assumir uma gestão de participação, como que fazendo uma autocrítica ao passado mas, com esta estratégia, simultaneamente, encostando às boxes as restantes forças políticas que acusam o PCP de ser um partido antidemocrático e incapaz de dialogar.
Foi assim como quem diz : “Toma lá que é democrático”!
Ao nível do PCP a preocupação central da sua acção política é, na verdade, afirmar uma nova postura, dando na prática, sentido político (agora que está no poder), à sua “estratégia da formiguinha” que foi tecida, serenamente e diariamente, na rua, com as pessoas, durante um ano até à campanha eleitoral (realidade que só não foi vista, de facto, pelas cabeças que pensam por si próprias).
O PCP nos dias de hoje, no Barreiro, não quer voltar atrás, ou seja, quer apostar em manter o diálogo, procurar caminhos, não hostilizar, mas, sem dúvida, procurando de forma subtil, dar conteúdo programático e ideológico às acções que vão sendo concretizadas.
O calcanhar de Aquiles do PCP.
Aqui, na verdade, reside o calcanhar de Aquiles do PCP.
Na medida em que se aprofunda o diálogo, se abrem as portas à participação, se estimula a construção por todos, tem que se admitir a abertura ao respeito pelas diferenças e como costuma dizer-se – aqui a porca torce o rabo.
No PCP, como em todos os partidos ( apesar daqueles que pensam pelas suas cabeças, pensarem o contrário), há, de facto, diferentes “correntes de pensamento”, pessoas com olhares diferentes, com perspectivas diferentes, com sentimentos diferentes.
Em todos os partidos há autofágicos, sectários, fundamentalistas, perfeccionistas, puristas, bodes expiatórios, light’s, os do aparelho, os de fora do aparelho, os do poder os de fora do poder, os novos ricos da politica, as elites estabelecidas, os cortiças, enfim, tudo isto são realidades que podem ser encontradas em todos os partidos, porque os partidos são um espelho da vida real onde, afinal, todos nós existimos.
Haverá no PCP aqueles que anseiam pelo regresso ao passado, ao “ancien regime”, fazendo o ajuste de contas com aqueles que deram a cara pelo PS.
Haverá no PCP aqueles que apontam um caminho inovador, com os olhos no futuro e que não desejam que o PCP, ao fim de quatro anos, volte de novo para a Oposição.
Haverá no PCP quem sonhe construir um Barreiro para os comunistas, criando um clima de “indiscutibilidade” e, querendo voltar ao tempo que foi vivido, quando, quem criticava a CMB estava a criticar o PCP, logo era mau…
Haverá no PCP quem aponte novos caminhos e considere que tudo é discutível, que perspective o aprofundar a discussão, como caminho necessário para construir novos caminhos.
O PCP tem pela frente esse desafio de fazer acreditar às “elites locais” que estão baralhadas que, de facto, é possível construir uma cidade onde todos possam participar e viver, sem precisarem de mostrar o cartão, nem subscrever valores ideológicos que, na verdade, aqui, cada um pode e deve, pensar pela sua própria cabeça, sem medo de ser acusado de “desvios” de esquerda ou de direita.
Do “amor ao chefe” ao “amor à camisola”
O PCP tem hoje um trunfo chamado Carlos Humberto se souber geri-lo ( se não for feito ao Carlos Humberto, o que foi feito ao Emídio Xavier, que foi sendo queimado em lume brando. Mas, já agora, referir que Emídio Xavier também cultivou, em excesso, a “solidão do seu poder”, coisa que, parece, não faz parte do “modus vivendi” de Carlos Humberto ), de facto, esta é uma arma que pode ser imbatível.
Há uma grande diferença entre Carlos Humberto e Pedro Canário (usando uma linguagem futebolística do meu amigo Fernando Sobral) é uma diferença muito subtil, mas que marca rumos muito diferentes.
Pedro Canário, fazia política como se fosse um “treinador”, da velha guarda, definia a táctica e afirmava : “Vamos jogar!”.
Carlos Humberto, é, na verdade, mais um “manager”, mais profissional, com novas metodologias, funciona com uma equipa técnica, define regras de treino e afirma : “Vamos ao trabalho!”
Pedro Canário estimulava o “amor ao chefe”, gerindo ansiedades.
Carlos Humberto estimula o “amor à camisola”, gerindo vontades.
E, depois, há por aí quem fale que Carlos Humberto “não pensa pela própria cabeça”.
Cuidem-se ! Cuidem-se!
Mas, já agora, lá para as bandas socialistas, também deviam reflectir sobre esta realidade, se a opção do futuro também não passa por abrir novos rumos “esquecendo” essa cultura de décadas de “amor ao chefe” que também marcou a forma de fazer politica dos socialistas na cidade, começando a reflectir, na verdade, sobre esta estratégia que, sem dúvida, acima de “chefes” está, ou deveria estar o “amor à camisola”.
Mudanças na vida política local.
Enfim, a política barreirense ainda não “acordou” para a vida real, está numa espécie de “banho maria”, como se estivesse a viver este PREC (Processo de Reconstrução da Esperança Comunista) com uma atitude completamente ao contrário, sem ebulição, sem sobressaltos.
Parece que todos ainda não sentiram, de forma plena, que houve mudanças na vida política local.
Uns andam à procura de culpados.
Outros andam à procura das dívidas.
Outros andam procura de se encontrar.
Outros andam à procura de novos dias.
A “elite” política e social, barreirense, está baralhada e na expectativa.
Ao nível do PS há uma acção subtil de quem procura sair da letargia, retomar caminhos, e evitar que se caminhe para a balcanização do próprio partido, havendo quem procure evitar que se siga o caminho da procura de “bodes expiatórios” e “culpados”, mas também, havendo, aqueles que consideram que tudo será resolvido através de “teorias de conspiração”, descobrindo esses ditos “culpados” e esses ditos “bodes expiatórios”.
A procissão ainda vai no adro e, sem dúvida, ainda vai correr muita tinta.
O PS teve um erro central na sua gestão foi incapaz de rasgar com a cultura do “ancien regime” e cultivou, essencialmente, a cultura do tempo da “outra senhora”.
Enquanto o PCP, hoje, vai arrumando a casa, partindo para um novo caminho, fazendo a total catarse com o passado, mas, ao mesmo tempo, reagrupando as suas forças, o PS, por seu lado, ainda está a acordar do sonho e descobrir que na realidade foi poder, isso mesmo, foi poder, já não é, e, de facto, se não encontrar novos caminhos, com conteúdos e objectivos, certamente, vai manter-se, de novo, na oposição, por muitos anos.
“Antes do PS” e “Antes do PCP”
Os resultados das recentes eleições Presidenciais mostram essa realidade.
O PCP estabilizou a sua base eleitoral.
O PS tem um eleitorado dividido entre uma cultura de cidadania ( aquela que o levou ao poder em 2001) e o seu eleitorado mais fidelizado por razões ideológicas.
Fica claro que, no Barreiro, vai manter-se, por algum tempo ainda, neste quadro partidário, a bipolarização entre o PCP e o PS, no concelho do Barreiro.
Mas, nos tempos actuais, com uma grande diferença, ou seja, até 2001, os barreirenses só conheciam como força a exercer o poder na cidade o PCP, o PS beneficiava de apenas ter sido oposição, estava impoluto, e os barreirenses deram-lhe o beneficio da dúvida ( os tais que vivem a cidade e tudo decidem, que votam nas legislativas PS ou PSD e nas autárquicas CDU, mas que em 2001 votaram PS).
Agora, o PS já não está impoluto, também já foi poder na cidade, e, na forma de gerir, os barreirenses, já sabem, olhando para os protagonistas, comparar. Há factos.
Portanto, quer o PCP, quer o PS, já podem ser comparados na forma de estar e ser poder.
O PS já não vai contar com o benefício da dúvida.
O PCP já não vai contar com o benefício da dúvida.
Agora, já não há no pensamento político local a ideia – “no tempo do PCP era assim”, agora, na memória política local também existe – “no tempo do PS era assim”.
Agora há o “Antes do PS” e o “Antes do PCP”. Podem ser feitas comparações.
Estratégia de cidade e problemas do quotidiano
O que vai contar nestes quatro anos será, na verdade, a forma de estar e fazer política.
O PS no poder lançou caminhos importantes, nomeadamente, a necessidade imperiosa de desenvolver um Plano Estratégico para o concelho do Barreiro.
O PCP no poder foi impotente para gerar uma ideia de cidade, andou sempre pelas factualidades.
O desafio do futuro do Barreiro será ganho por quem, no poder, ou na oposição, conseguir demonstrar e trabalhar em duas direcções que são indissociáveis: desenvolver um projecto estratégico de cidade e de cidadania, e, agir dando resposta aos problemas do quotidiano, com eficácia e eficiência.
Estar no Poder, ou estar na Oposição, não significa de forma, clara, ser, ou não ser capaz, de influenciar estas estratégias politicas.
Basta olhar para o PSD, que sabe, e vai caminhando, apostando neste caminho, serenamente, e sem, traumas, por ter ou não ter pelouros.
A eterna força de “charneira”
Na verdade, nesta vida politica local, o PSD, esse, então, tem mais que fazer, vai continuando a arrumar a casa, organiza os bastidores, cultiva a sua presença de proximidade do poder, plenamente assumida, sem problemas de consciência ou dramas de “ajuste de contas”.
Entretanto, presta homenagem a figuras históricas, como Mendes Costa, potenciando o capital do partido, lançando para a cidade as virtudes do seu “ancião”, como referência e como exemplo de quem faz politica para servir a cidade. O PSD semeia futuro, nunca negando o seu passado.
O PSD tem um problema para resolver como ser capaz de cultivar, no Barreiro, uma estratégia de “centro esquerda”, sendo um partido de direita?
É que o eleitorado do PSD Barreiro, na vida local ainda vai fazer um percurso no deserto até sentir que o PSD é uma alternativa e, ou amplia a sua influência, ou vai continuar a ser a eterna força de “charneira”, mesmo que a legislação mude, porque, poderá ter esse papel na Assembleia Municipal em disputa com o Bloco de Esquerda.
Bloco de Esquerda - o grilinho falante
O Bloco de Esquerda lá vai indo, com a sua irreverência, contestando, e, pouco mais. Existe. Está vivo, já não é mau de todo.
E, sem dúvida, será no futuro a força que pode capitalizar os descontentes, como, em parte, em 2005, aconteceu, contribuindo para a derrota do PS nas autárquicas.
Aqui está um bom “bode expiatório” para os socialistas analisarem.
Mas, o Bloco de Esquerda, pode ter um papel na vida local se em vez de querer continuar a ser a força moral, o grilinho falante, apostar em ter uma intervenção politica que cultive a “cultura de cidadania” de forma activa e menos verbalista.
Quanto ao CDS/PP esse, então, evaporou-se.
Em suma, e ficando por aqui por hoje, que esta reflexão já vai longa, ficam estes comentários, neste regresso das Inferências, que, digam lá, já estavam a fazer falta…para animar as conversas.
Até já..













