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InferênciasO “buraco da minha rua” e a “estratégia de desenvolvimento”

A propósito de uma “micro obra” que finalmente resolveram na minha rua quis tecer um breve comentário e, às tantas, estava a reflectir sobre a cidade que somos, a politica que fazemos…enfim sobre “Deus” e o “Diabo”, que alguns gostam de enfatizar!

12 min de leitura
Inferências O “buraco da minha rua” e a “estratégia de desenvolvimento”

Por Jornal Rostos

No decorrer da iniciativa promovida pela Câmara Municipal do Barreiro, denominada “Opções Participadas” assim como, nas visitas que já acompanhámos da Vereação às freguesias, no contexto da realização mensal das Reuniões Públicas da autarquia, verificou-se de facto que há, por parte do Executivo Municipal, uma preocupação de esclarecer, recolher informação, obter conhecimento daquilo que o Presidente da Câmara denominou os “micro obras” ou “micro problemas”.
Na verdade, os chamados “micro problemas” não são mais que aquelas situações diferenciadas, desde o buraco na estrada, aos problemas de abastecimento de água, problemas de saneamento básico, arranjos de passeios ou de espaços verdes, recolha de resíduos sólidos urbanos, problemas de trânsito, situações que tocam directamente com as vivências do quotidiano.

João Soares deu exemplos concretos

Intervir neste campo, na realidade, é contribuir directamente para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos.
Uma gestão autárquica tem que ter preocupações com esta gestão do quotidiano.
No mandato anterior, de gestão socialista, o Vereador João Soares, deu exemplos concretos, na prática, como certas situações que se arrastaram durante décadas podem ser resolvidas com eficácia e eficiência, contribuindo para a melhoria da imagem do concelho e da sua qualidade de vida.
Fica, como exemplo, a entrada no concelho do Barreiro, nomeadamente os arranjos e melhoramentos concretizados junto à Escola Álvaro Velho.
Durante décadas aqueles canteiros, foram uma lixeira, milhares de crianças foram entrando e saindo daquela escola sem conhecer mais nada, no seu dia a dia, que um lamaçal frente à entrada da escola.
Agora, graças à intervenção ali efectuada o espaço está bonito e aquela entrada no concelho do Barreiro está com dignidade. Foi difícil? Ou foi uma questão de opção, dinâmica e prioridade?
Pode, igualmente referir-se a importante obra que foi concretizada na Urbanização dos Lóios, de arranjo de passeios, zonas de estacionamento e melhoria do espaço urbano, aliás, uma obra que nunca foi tema de grandes notícias, nem mereceu acto inaugural (talvez porque foi acompanhada pelo Vereador Mendes Costa, ou, então, por não ser um Polidesportivo, mesmo tendo custos muito superiores).

São imensos o conjunto de “micro obras”

Quem tem memória do concelho do Barreiro, sabe, no entanto, o estado de degradação que existia, após o 25 de Abril, ruas sem passeios, dezenas de logradouros ao abandono, situação que, ainda hoje, em diversas freguesias, continuam a ter reflexos.
Mas, quem tem memória, também sabe que muita coisa foi feita, assim como sabe que muita coisa há para fazer. Quer nas gestões comunistas, quer na gestão socialista.
Há exemplos, como na freguesia de Santo André onde, na verdade, é a própria Junta de Freguesia que faz intervenções em logradouros, removendo os lixos, plantando relva, procurando, no mínimo, atenuar os impactos negativos ( e os votos nas eleições autárquicas reflectem essa intervenção).
Noutras freguesias, opta-se por remeter a solução desses problemas para a Câmara Municipal, porque não consideram ser matéria das suas competência.
Nas “Opções Participadas”, na verdade, foram muitos problemas desta natureza, colocados pelos munícipes, nomeadamente, no que diz respeito a situações existentes em logradouros de Escolas do Ensino Básico.
E são imensos o conjunto de “micro obras” que existem por solucionar.

Um concelho que numa década se descaracterizou

Portanto, nós, os munícipes, temos tendência para querer ver solucionados problemas que afectam o nosso quotidiano e exigimos que o nosso “drama” seja resolvido.
E, na verdade, quando um problema está resolvido, de imediato, surgirá outro para resolver.
No entanto, para além da resolução dos “micro problemas” existem outros, que são essenciais solucionar, ou seja, os problemas estruturantes, a definição de uma estratégia para o desenvolvimento do concelho do Barreiro e o seu papel quer na Península de Setúbal, quer na Área Metropolitana de Lisboa.
É verdade que, durante décadas, a acção autárquica andou a resolver problemas do quotidiano ( muitos esqueceram, porque não tem memória, quando há anos atrás, às seis da tarde, no Lavradio, no Alto do Seixalinho ou em Santo André, das torneiras não corria uma gota de água porque não havia pressão).
E, entretanto, desmembrou-se a Quimigal, a Equimetal, a Mompor e outras empresas, gerando desemprego, e, ao mesmo tempo foram criados elefantes brancos como o “Kowo Seiko”, o Forno Cal ou a Fábrica de Zinco.
Um concelho que numa década se descaracterizou, naquilo que eram as relações da fábrica com a cidade.
O Barreiro começou, pouco a pouco, a transformar-se num concelho adiado.
A Câmara Municipal do Barreiro absorveu imensa mão de obra tornando-se uma das mais empregadoras do concelho.
Não podemos esquecer este passado. Mas, o mais importante, a partir de agora é sermos capazes de construir futuro.

É preciso desenvolver o Plano Estratégico

O Barreiro, hoje, tem que potenciar o que tem no seu território, seja a sua “pedra preciosa”, seja a sua zona ribeirinha, seja a sua “centralidade de Coina”, mas, sem dúvida, para tudo isto, é preciso que o Barreiro desenvolva o seu Plano Estratégico, envolva a sociedade civil no debate, e, sejamos capazes de construir e legar uma cidade para os nossos filhos.
O Barreiro não se constrói cultivando ódios, o Barreiro constrói-se promovendo cidadania.
O Barreiro pode e deve construir-se com um projecto de cidade, com ideias para a cidade, e, tal, só é possível envolvendo os cidadãos e não excluindo cidadãos.
Esta é a discussão que está em aberto.
Esta é a discussão que urge fazer, recolhendo para o debate os contributos de conceptualizações, por exemplo, ensaiadas no âmbito dos debates do Plano Municipal do Ambiente, nas abordagens da revisão do Plano Director Municipal do Barreiro, no decorrer da gestão socialista, quer em ideias que estavam em emergência nos últimos anos da gestão de Pedro Canário ou expressas em diferentes Programas eleitorais.
Há por aí uns socialistas e também uns comunistas que, nas suas análises, fazem lembrar a guerra dos “cartooms”, só imaginam o mundo de duas formas ou estar com “Deus”, ou estar com o “Diabo”. Coitados dos Ateus que não têm por onde escolher?!
Ora o PS fez coisas boas. O PCP fez coisas boas.
Realizaram-se eleições o povo votou escolheu, e, na “teoria dos papeis” cada um deve cumprir o seu e dar o seu contributo para transformar a cidade.
Quem escolher o caminho do ódio e dos estigmas vai perder o futuro, porque o Barreiro já provou que tem maturidade politica e sabe escolher, optando sempre pela valorização da cidadania.
O Barreiro, nunca foi, nem nunca há de ser, repito, uma terra de caciques, porque é uma terra de esquerda, com uma cultura de esquerda, porque é uma terra de gente de trabalho, de empresários que trabalham.
Mas, é urgente dar um rumo ao Barreiro, para que todos possamos dar um contributo e empurrar para um caminho.

“Deus e o Diabo” podem estar juntos na acção

É de facto, este equilíbrio que é preciso encontrar, gerir os “micro problemas” do quotidiano e perspectivar o futuro.
Este não é um debate de hoje, durante a gestão socialista, esteve sobre a mesa, havia quem afirmasse que Emídio Xavier só tinha preocupações com “macro problemas” e esqueceu o quotidiano.
Tudo isto são falácias. Porque tudo isto pode ser demonstrado, com factos, num sentido ou noutro, depende do sentido que queiramos dar ao nosso discurso e das opções.
Dou um conselho, façam a “análise de conteúdo” da revista de balanço da gestão socialista, editada pela Câmara Municipal do Barreiro, e, até, talvez pudesse ser promovido um debate-reflexão tendo aquela revista como elemento “documental” para base de apoio ao debate e, então, seria fácil, de facto, concluir, como “Deus e o Diabo” podem estar juntos na acção e até como os ateus, ali, também, não têm lugar.
Ali está claro, por exemplo, que os problemas macro estratégicos têm um tratamento documental, ao mesmo nível, ou pior, que a gestão dos “micro problemas”.
É um olhar para a cidade com a pirâmide invertida!
A actual gestão da autarquia tem que ser capaz de dar um salto em frente, no modelo “herdado”, quer de gestões anteriores, quer da gestão socialista: propondo objectivos e definindo estratégia, não é possível viver mais tempo por impulsos e circunstâncias.
A Oposição, igualmente, tem que ser capaz de propor objectivos e apresentar estratégia.

Oposição significa o “direito à diferença”

É necessário o equilíbrio. Gerir os micro problemas. Definir estratégias de desenvolvimento.
A Oposição se quer ter um papel credível tem que ser capaz de criticar a gestão, ou ineficácia, quando não à resposta aos “micro problemas” e ser capaz de apresentar o seu contributo na discussão estratégica, perspectivando-se como alternativa, se não forem apontadas soluções.
O Barreiro não pode ficar adiado.
O Barreiro tem que ser construído por todos os que aqui vivem, no poder, ou na oposição.
Por isso, admiro a coragem de João Soares ao ter aceite pelouro, porque quer trabalhar pela cidade. Não aceitou um “pelourinho”, aceitou um “macro pelouro”.
Sou, sempre fui defensor que os socialistas deviam todos ter aceite pelouro, exigindo condições, mas não esquecendo que perderam as eleições.
Porque estar na Oposição, não significa estar contra, significa afirmar o “direito à diferença”, no estar e ser diferente.
Ser Oposição é ser cidadão de corpo inteiro – fazendo!
João Soares pode vir a provar essa realidade aos socialistas.
Apesar de alguns considerarem que ele quer estar de bem com “Deus” e com o “Diabo”.

Casa onde não há pão, todos ralham…

E, já agora, o actual Executivo Municipal vive um drama, talvez, mais uma vez, pode vir a acontecer, estarem em risco os salários daqueles que trabalham na autarquia.
E, meus senhores, não brinquem com coisas sérias, com a vida das pessoas.
Não se trata das dividas herdadas do Executivo Socialista, porque também o executivo Socialista herdou dividas do outro Executivo Comunista, nomeadamente leasing de milhares de contos ( como referiu, em 2002, Emídio Xavier, na Assembleia Municipal, que, talvez, alguns ainda estejam na lista de dividas a fornecedores actuais (embora, possa admitir e aceitar que houve “despesismo” na gestão socialista).
Tal como Pedro Canário herdou uma pesada divida de Helder Madeira.
Porque casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. E este é o problema do Barreiro.
Há dívida e há dificuldades.
Sempre assim foi na Câmara Municipal do Barreiro, salvo quando a construção civil deu receitas.
Mas, de facto, este Executivo tem um drama, que nem Pedro Canário, nem Emídio Xavier tiveram quando assumiram a presidência.
Porque, ambos, quer Pedro Canário, quer Emídio Xavier, tiveram recurso a empréstimos de alguns milhões de contos, para a aguentar o barco, garantir salários e a funcionalidade do município.
E, de facto, a verdade, é que este Executivo não vai poder concretizar empréstimos à banca.
Este é o drama. Não são as dividas, que essas (mais ou menos) são velhas e com barbas.
E, aqui, todos, poder e oposição, deveriam juntar as vozes, para dar a volta a situação, mais não fosse exigir ao Poder Central o apoio, em verbas, para os TCB’s que absorvem alguns milhares de contos da autarquia.

Construção da cidadania da modernidade

Tudo isto, afinal, veio a propósito de uma obra, uma “micro obra” que fizeram na minha rua.
Era uma reivindicação com mais de quatro anos e que foi promessa eleitoral. Está cumprida. O pessoal ficou feliz.
Mas, resolvida a promessa, como sempre, surgem outros problemas, agora o arruamento é uma verdadeira picada, coisa que uns “baldes alcatrão” poderiam resolver. O pessoal agradecia, igualmente, e ficava ainda mais feliz.
Tudo isto para dizer que há muitos “micro problemas” para resolver e que, resolvidos uns, outros surgirão…e depois, a verdade é que não há dinheiro.
Tudo isto, também, para dizer, que sei que o “buraco da minha rua” é importante para mim, mas, que como cidadão preocupa-me a cidade que vamos legar aos nossos filhos e a urgência de ser promovido o debate, participado sobre o futuro do Barreiro.
E tudo isto porque, mais que pensar nas eleições de 2009, considero que é importante todos contribuírem para transformar o Barreiro.
O PS dando força às ideias que lançou e apoiando o seu desenvolvimento, pondo de lado o anticomunismo primário ( ou quadernário, que é aquele que emerge de quatro anos de ter sido poder e agora viver com dor de cotovelo).
O PCP sendo capaz de prosseguir a abertura ao diálogo, demonstrar que de facto não vamos voltar atrás, aceitando, claramente, que ser cidadão não tem que ser obrigatoriamente ser comunista.
Falo só destas duas forças politica porque considero que ambas, têm, nas suas mãos a responsabilidade histórica de contribuir para a construção da cidadania da modernidade num Barreiro que se orgulha da sua história de luta pela democracia e liberdade.
O Barreiro tem que aprender a viver com o respeito pelas diferenças, com uma cultura de liberdade.
O PSD, o BE, o CDS/PP e outras forças politicas podem e devem continuar a ser a força motora que empurram estes partidos lideres da bipolarização para um salutar confronto democrático, assente em ideias, valores e princípios.
Tudo isto, repetindo, para dizer, que resolver problema do “buraco da minha rua” deixa-me feliz, pela eficácia e eficiência, mas, não é suficiente se for esquecido que há um problema “macro” que é preciso resolver.

Tempo “perdido não se recupera”

Porque, será pela definição de estratégia que passa a atracção de investimento, de criação de emprego e de renovação da cidade.
Seria bom, na verdade, não sermos acusados, pelos nossos filhos, de termos perdido oportunidades e tempo, esse bem que, como dizia Luis Tavares, “perdido não se recupera.”
Mas, é esta a realidade do Barreiro…tem milhares de micro problemas…que são um macro problema e um macro problema que é, na verdade, ser capaz de se reencontrar com o futuro.

António Sousa Pereira

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