Ponto e VírgulaDever deontológico de “neutralidade” e de “honestidade

Por António Sousa Pereira
Quem faz jornalismo nos dias de hoje tem pela frente um constante desafio, ou seja, ser capaz de assumir, em todos os momentos, a identificação das opções.
Quem faz jornalismo, naturalmente, também tem opções.
É uma ilusão ignorar essa realidade.
Cada vez, é óbvio que a “teoria da objectividade” é um mito.
Porque, sem dúvida, a “objectividade” é fruto de uma “subjectividade”.
Um dia, há alguns anos, fui convidado para numa aula falar sobre jornalismo.
Um jovem questionava sobre o conceito da “objectividade”.
Dei-lhe como exemplo, se na rua, existisse um confronto entre dois grupos, e, num dos grupos estivessem um amigo dele e, posteriormente, fosse convidado a relatar os factos, se, de forma natural, ele, mesmo distanciando-se da situação real, não colocaria alguma carga da sua “subjectiva amizade” para relatar o acontecimento.
Portanto, os factos, são interpretados e se são interpretados, têm um intérprete, que tem uma cultura, uma história e memória.
Ser e parecer em jornalismo
Uma das matérias que tem levantado algum debate e que, na verdade, tem sido motivo de algumas situações graves na vida de pessoas que se dedicam a “ser” ou “fazer” jornalismo, é, sem dúvida, essa matéria se um jornalista deve, ou não ter opções políticas partidárias.
E, por outro lado, no caso de as assumir se deve ser uma “correia de transmissão” do seu partido.
Esta semana no jornal “Expresso” a jornalista Judite Jorge, da Antena 2, escreve um artigo intitulado : “Ser e parecer em jornalismo”.
Neste seu texto refere : “Há, na generalidade da comunicação social portuguesa, um preconceito quanto à participação dos jornalistas na vida pública e politica. Um preconceito que só se pode explicar pela tenra idade da nossa democracia e pelo entendimento distorcido, para não dizer hipócrita, do que é a seriedade jornalística.”
Acrescenta, Judite Jorge – “Alguns jornalistas anunciam-se abstencionistas. Não votam dizem, para assegurar a sua imparcialidade! Ora tudo isto é triste! Triste por evidenciar o estado de menoridade em que se colocam e em que colocam a profissão que exercem.
Um jornalista só pode exercer com dignidade a sua profissão se não alienar os seus direitos e os seus deveres de cidadania. Um jornalista não é nem mais nem menos do que qualquer outro cidadão.”
“Neutralidade” e de “Honestidade”
Ao ler este texto ocorreram à minha memória factos que marcaram a minha vida neste “fazer” jornalismo.
Quem faz jornalismo, naturalmente tem as suas opções e deve ser respeitado, como cidadão de corpo inteiro, de ter o direito de ter opções, de viver e assumir a sua cidadania.
Aliás, sabendo o leitor quais as opções do jornalista, melhor, naturalmente, poderá descodificar as suas mensagens.
No entanto, ter opção, não pode demitir um jornalista, ou um quem faz jornalismo, do seu dever deontológico de “neutralidade” e de “honestidade”.
Será pois no cultivar a “seriedade intelectual” e no rejeitar a “desonestidade intelectual” que o jornalismo se afirma, sem dúvida, como instrumento de construção da cidadania.
O jornalismo tem que ser encarado como missão e serviço, contribuindo, na verdade, pela sua acção para o desenvolvimento das comunidades e protagonizando o respeito pelas diferenças.
Mas mesmo, tendo opções não significa, nem pode significar para quem faz jornalismo “engajamemto”, subserviência ou arrogância.
Mas, quem faz jornalismo deve ter o direito de assumir as suas opções, um direito constitucional.
Como pode assumir o seu papel de respeito pelas diferenças, pela democracia e liberdade, quem não assume, para si mesmo, esse direito?
O jornalista não é o “dono da verdade” nem é “correia de transmissão”, nem “porta voz do dono”.
Os julgadores de consciência
No entanto, há quem considere que aqueles que fazem jornalismo devem, na sua acção, colocar-se de um lado da barricada. São opções e critérios.
Pessoalmente, já senti na pele, de forma dura e dolorosa, essa opção de ter partido e ser capaz, de forma firme, de manter distanciamento – neutralidade e honestidade.
Portanto, já não me incomoda esse filme feito por julgadores de consciência, que se julgam donos da consciência dos outros.
Por exemplo, foi com orgulho que, quando deixei para trás o cargo de Director do “Jornal do Barreiro” que, nesse dia, no jantar de despedida, recebi um abraço e os cumprimentos de Emídio Xavier, então candidato pelo PS, Carlos Maurício, então candidato pelo PCP/CDU; Mendes Costa, candidato do PSD e Mário Durval, candidato do Bloco de Esquerda.
São factos que não esquecemos e que permitem cultivar o respeito pelas diferenças.
A opção de respeitar as diferenças
A seriedade intelectual é, acima de tudo, ser capaz de tendo opções, respeitar as diferenças, assumir a identificação das opções, transmitindo o que se vê, o que se faz, o que se diz, interpretando com imparcialidade, nunca abdicando do direito de ser cidadão.
Como escreve e bem Judite Jorge : “Que legitimidade tem um jornalista para dizer, escrever ou perguntar o que quer que seja, se ele mesmo não cumpre o seu dever e ainda por cima o anuncia como se se tratasse de um bom exemplo?”
É por isso que quem faz jornalismo também tem o dever cívico e o direito de votar, exercendo a sua cidadania e as suas escolhas.
É interessante é ver, depois, defensores da liberdade e da democracia ( que pelos vistos só eles têm o direito de exercer) apontarem o dedo a quem faz jornalismo, por, como cidadão, afirmar : “Eu voto!”.
Quem faz jornalismo não tem que andar a gritar aos sete ventos qual é a sua opção politica.
Porque, afinal, quem julga quem faz jornalismo, são os leitores que, naturalmente, retirarão sempre as suas próprias “inferências”, usando o legítimo direito de serem cidadãos livres que exercerem a sua cidadania.
Como sublinha, e citando, mais uma vez, a finalizar Judite Jorge : “os ‘consumidores’ de informação sabem bem distinguir a seriedade intelectual da desonestidade. A seriedade intelectual não se prova com o não-voto, assim como a desonestidade intelectual não se desmente com alegadas objectividades”.
Cá por mim, pode ser defeito, mas não pretendo abdicar do direito de ser cidadão, ter opções…porque a vida já me ensinou que a liberdade não se conjuga com intolerância!
António Sousa Pereira













