Ponto e VírgulaBarreiro - o futuro e a influência do presente
Carlos Humberto irá afirmar aos seus netos que o FORUM BARREIRO, o MASTERPLAN, O POLIS, a ETAR, o Plano Estratégico do Barreiro e o Plano Municipal do Ambiente são obras suas…

Por António Sousa Pereira
Quando em Junho de 2005, entrevistei Emídio Xavier, então Presidente da Câmara Municipal do Barreiro e pré-anunciado candidato para as autárquicas de Outubro, ele respondeu-me, no final da nossa entrevista, sobre a experiência de Presidente da Câmara – “Acho que valeu a pena. Acho que foi algo decisivo na minha vida e gostaria, efectivamente de poder, um dia dizer, aos meus netos, que passei pela Presidência da Câmara Municipal do Barreiro e que influenciei o futuro desta cidade.”
Registei, na altura, com agrado, essas suas palavras : “um dia dizer aos meus netos” que “influenciei o futuro desta cidade”.
E, repito, digo que registei porque pensei que esse seu conceito de “influenciei” tinha a ver, de alguma forma, com uma visão estruturante de cidade, porque só se pode pensar que se “influencia” o futuro quando ou realizamos obras estruturantes, ou desenvolvemos ideias estratégicas estruturantes.
Influenciar o futuro
Efectivamente, na Presidência de Emídio Xavier, foram dados passos importantes que, sem dúvida, penso que o ex- Presidente da Câmara se pode orgulhar de “influenciarem o futuro”, nomeadamente, o debate e o arranque do Plano Municipal do Ambiente, a conceptualização, mesmo que iniciática de um Plano Estratégico para o Barreiro, o arranque do FORUM BARREIRO ( um projecto que está em marcha e que vai ter um impacto nas vivências e no modo de vida do centro da cidade), o diálogo com a Quimiparque que conduziu ao desenvolvimento do projecto MASTERPLAN ( que, cada vez mais me convenço, digam o que disserem, é um projecto irreversível), para não falar da “ideia”, repito ideia, porque ainda está muito por construir, a hipotética “Cidade do Cinema”, para não esquecer o seu esforço para que a ETAR seja um projecto em desenvolvimento.
Para, na verdade, não falar de uma pequena obra que, vai ficar, por alguns anos, como um emblema da sua gestão, o embelezamento dos passeios da Avenida Alfredo da Silva.
Hoje, digam o que disserem, aquele “centro da cidade” está mais bonito para o nosso olhar sobre o quotidiano.
Aliás, estou à espera que os fotógrafos ou os artistas plásticos da nossa cidade, sejam capazes de, com um olhar criativo, descobrir ali as ondas do rio e as folhas da natureza que se estendem pela distância em crescendo rumo ao nosso “Central Parque” e ligando “esteticamente” o “velho centro” com a “nova centralidade”.
Isto, sim, é “influenciar” o futuro.
Auditório Municipal Augusto Cabrita
Por essa razão foi com espanto que, quando esta semana, li numa entrevista, ao jornal “Voz do Barreiro”, Emídio Xavier, responder, quando questionado sobre “de todos os projectos onde colocou a sua assinatura qual gostaria de ver realizado, olhar e dizer : “Isto é obra minha!”
Emídio Xavier respondeu – “No domínio da cultura demos um salto qualitativo porque com a construção do Auditório criámos condições para que aqui se faça cultura e a Ilustrarte é um evento internacional.
Se há coisas onde vou poder ter orgulho de contar aos meus netos, será o Auditório, naturalmente!”.
Fiquei triste, por sentir que aquela resposta estava distante, muito distante, daquela visão estratégia de Junho de 2005.
Estava longe dessa visão estratégica por várias razões.
O Auditório Municipal Augusto Cabrita se, repito se, eventualmente, poder ser considerada uma obra estruturante para a cidade, não foi, de forma alguma conceptualizada por Emídio Xavier, nem pelo seu executivo, foi uma herança recebida da gestão de Pedro Canário que, na verdade, com “sentido de estado” a gestão socialista concretizou e, muito bem, foi paga pela gestão de Emídio Xavier. Tudo bem.
Mas, daí, a Emídio Xavier dizer ao seus netos que esta é uma obra sua, é, sem dúvida uma mera “agenda” política, um “fait divers” ( já agora Emídio Xavier devia dar uma parte da sua realização a Mendes Costa).
Para além de que, o Auditório Municipal Augusto Cabrita, ainda hoje, de facto, não se sabe qual vai ser o seu papel no futuro da cidade, nem se sabe, inclusivamente, qual o seu papel no presente cultural da cidade.
Se, por exemplo, na zona do actual Mercado 1º de Maio – Parque Catarina Eufémia, na próxima década, nascer um “Centro Cultural”, naturalmente, que o Auditório Municipal Augusto Cabrita, naquilo que é a sua actividade actual, terá um papel secundário.
Por outro lado, se a vida cultural de uma cidade se resume aos acontecimentos que ocorrem, ou ocorreram, no Auditório Municipal Augusto Cabrita muito mal, de facto, vai uma cidade.
Evocar Augusto Cabrita
Para além de, naquele espaço, o seu patrono, Augusto Cabrita, estar completamente ignorado, limitando-se, praticamente à referência ao seu nome.
Na verdade, já era tempo de, no Auditório Municipal Augusto Cabrita ser criada uma “Galeria Permanente” dedicada a divulgar o homem, a obra e a sua relação com o conceito de “identidade barreirense” e com o “Tejo” – o nosso Augusto Cabrita.
Uma Galeria que, bem divulgada, certamente, seria um pólo de atracção para os amantes da fotografia e colocava o Barreiro na “rota da fotografia internacional” e que, diga-se, até, poderia ser um “leit motiv” para a promoção de iniciativas de carácter anual ou bianuais, nomeadamente, um grande Concurso Internacional de Fotografia.
Ilustrarte e a política cultural
E, já agora, sobre a “Ilustrarte” não parece que o “Auditório Municipal Augusto Cabrita” seja a razão do surgir e desenvolvimento deste projecto.
Aliás, até, pelo que acompanhei da Ilustrarte ( e na sua presença noutras cidades do país) o próprio Barreiro não soube, até hoje, potenciar, nas suas vivências culturais, o esforço que tem sido desenvolvido pelos Comissários desta iniciativa, de forma a ligar o projecto ao Barreiro, evitando que seja, meramente circunstancial, ou para “dar nas vistas”.
Por exemplo, nada foi feito para ligar a Ilustrarte às memórias e aos criativos desta área que marcaram a vida cultural da nossa cidade.
Sim, podem não acreditar, mas a ilustração tem memórias na nossa cidade, nomeadamente, Manuel Cabanas, cuja actividade de ilustrador, marcou a obra de grandes vultos da literatura portuguesa.
Ou, mais recentemente Eugénio Silva que, é, o autor de diversas obras ilustradas, como é o caso da banda desenhada com a biografia de Eusébio...e h+a mais nomes de jovens barreirenses ligados ao mundo da ilustração.
Para não falar, igualmente, da Exposição de Arte Postal.
Ou seja, o Barreiro promoveu a “Ilustrarte” mas foi incapaz de conceptualizar esta iniciativa, enquadrando-a numa visão estratégica, de forma a dar-lhe continuidade e transformar este projecto como uma referência, com história, e, potenciando, em seu redor diversos projectos e nomes que fazem parte da sua história.
Mas, para que isso acontecesse a tal “paixão pela ilustração” desde a “ilustração para a infância” até, outras vertentes, a “Iustrarte” teria que existir um projecto, pensado para além, muito para além, de meras acções circunstanciais e de visões políticas estreitas que só olham para o próprio umbigo (e que não tem visão de cidade).
Um projecto de dimensão internacional
E a “Ilustrarte”, não fez, nem faz, parte de nenhuma visão estratégica de cidade, nem de qualquer conceptualização cultural ( mas, ainda estamos a tempo de potenciar o muito que este projecto pode dar ao Barreiro, desde que o mesmo seja estrategicamente dinamizado, como vertente de promoção de uma imagem de cidade e como projecto cultural animador de espaços, da escola, de associações e de promoção do Barreiro n a AML).
Por isso, no estado actual da “Ilustrarte” esta iniciativa, por não ter alicerces estruturantes, não vejo como vai influenciar o futuro.
Daí o espanto…ainda mais por aquele sentido provinciano da “dimensão internacional da Ilustrarte” que faz lembrar aquele torneios internacionais, de outros tempos, que eram internacionais porque vinha cá jogar uma equipa de Badajoz.
Isto não serve para contar aos netos como algo que influenciou o futuro!
Projecto de Cidade
Tudo isto para dizer que, achei que Emídio Xavier de quem sempre senti ser alguém com uma “visão de helicóptero”, ou seja com visão estratégica, nesta sua entrevista baixou a fasquia.
Ora, quem tem uma visão de cidade e um projecto para a cidade enquanto poder, agora, na oposição, ainda mais razões terá para se bater por esses projectos, pela sua valorização, pelo seu desenvolvimento.
Aliás, na dita entrevista, Emidio Xavier acrescenta, que “há uma coisa que para mim é essencial : o Partido Socialista, no Barreiro, tem um projecto de cidade e porque esse projecto de cidade está acima das tricas partidárias, tem que ser assumido porque os partidos existem para prestar serviço às populações e o PS tem que se bater pelo projecto que chegou a tocar no terreno”.
Então, porque esqueceu tudo o que fez de bom e que vai influenciar o futuro e deu relevo a coisas que, na verdade, foram circunstanciais, descendo a uma visão de “buraco da minha rua” ou a “dita política cultural”?
Porque, sem dúvida, se alguma coisa vai ficar da gestão socialista e vai influenciar o futuro do concelho do Barreiro são as ideias de cidade, é o projecto de cidade – o FORUM; o centro e centralidade; as ideias sobre Coina; a discussão da zona ribeirinha e a aproximação da cidade ao rio, o Masterplan… e, acima de tudo, a introdução da importância de uma cultura de participação e cidadania ( gerada mas não implementada de forma estruturante e que a agora e, muito bem, a CDU está a desenvolver).
A história julgará…
Emídio Xavier afirma que vai ter orgulho de afirmar aos seus netos que o Auditório Municipal Augusto Cabrita – “É obra minha!”. Enfim?!
Espero que Carlos Humberto possa afirmar aos seus netos que o FORUM BARREIRO, o MASTERPLAN, O POLIS, a ETAR, o Plano Estratégico do Barreiro e o Plano Municipal do Ambiente são obras suas…
O resto, um dia, sem dúvida, a história julgará…pois é o futuro que vai dizer o que ficou deste passado que nós legámos.













