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Inferências

InferênciasEntre o “Partido” e o “Barreiro” um novo caminho a percorrer…

A Assembleia Municipal do Barreiro é o fórum político, por excelência, por onde passa ou deverá passar, o debate sobre os problemas locais, o confronto de ideias da vida política local.

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Inferências Entre o “Partido” e o “Barreiro” um novo caminho a percorrer…

Por António Sousa Pereira

Um amigo meu, entregou-me um destes dias um pequeno folheto onde podia ler-se o seguinte:
“Um velho índio descreveu certa vez os seus conflitos internos.
- « Dentro de mim existem dois cachorros, um deles é cruel e mau, o outro é muito bom e dócil. Eles estão sempre a brigar.»
Quando então lhe perguntaram qual dos cachorros ganharia a briga, o sábio índio parou, reflectiu e respondeu:
« Aquele que eu alimentar».

Dois amores – “Partido” e “Barreiro”

Foi esta “estória” que me ocorreu ao pensamento, por diversas vezes, no decorrer da última reunião da Assembleia Municipal do Barreiro.
Por diversas senti que os nossos deputados debatem-se “dentro deles” com uma luta constante entre dois “amores” – o Barreiro e o Partido.
Umas vezes alimentam um, outras vezes alimentam outro. Tal, de facto, pode ser uma resultante do “trabalho de casa”, ou apenas um dilema meramente ideológico.
O PSD, tem a preocupação política de demonstrar que o seu partido coloca acima de tudo o Barreiro, que os governos sociais democratas investiram no Barreiro.
O PS tem outra preocupação política demonstrar que o Barreiro é muito diferente devido à gestão socialista.
O PCP por seu lado preocupa-se em demonstrar que os governos não privilegiaram o Barreiro e que o PCP é a melhor gestão para o Barreiro.
O Bloco de Esquerda é caso para dizer ainda agora chegou, mas não basta ficar, de forma permanente, por afirmar que o mal é dos outros, pois, como ficou provado, nesta reunião, com propostas concretas, produzem-se discussões concretas.
Em todos os discursos este binómio “Partido-Barreiro”, de forma directa, ou indirecta, está presente, o que é natural, pois tratam-se de discursos proferidos por políticos, com “Partido” e do “Barreiro”.
O problema é quando, por razões, meramente de “guerrilha partidária” se alimenta mais o “Partido” e se esquece o outro o “Barreiro”, porque, afinal, depois, o Barreiro é que paga…

É meu, é meu, é meu…

A Assembleia Municipal do Barreiro é o fórum político, por excelência, por onde passa ou deverá passar, o debate sobre os problemas locais, o confronto de ideias da vida política local.
Por exemplo, é curioso registar que foram as duas forças minoritárias na Assembleia Municipal do Barreiro, nomeadamente o Bloco de Esquerda e o Partido Social Democrata que trouxeram para debates dois assuntos de relevo para a vida política local.
O Bloco de Esquerda com a sua proposta sobre o eventual encerramento da Escola Profissional Bento Jesus Caraça.
O Partido Social Democrata sobre o facto de o Governo não considerar prioridade a construção da Unidade de Saúde de Palhais.
O Partido Socialista trouxe para debate a temática da “ETAR” mas apenas com uma preocupação de, tentar, de alguma forma, definir a “paternidade biológica” da dita.
O Partido Comunista/CDU optou por macro problemas, desde o desemprego, que é um problema real, até à temática da regionalização.

Abrir o debate político na Assembleia

Entretanto, num destes dias, foi apresentado o “Estudo Urbanístico de Alfredo da Silva Norte” e sobre este tema, não houve uma palavra, uma sugestão reflexiva sobre o sentido desta perspectiva de cidade.
Por exemplo, na referida apresentação o ex-Vereador Luís Pedro Cerqueira, sublinhou que este projecto vai contribuir para descaracterizar o Barreiro e que tal deveria ser assumido sem complexos.
Ora, seria interessante, ouvir os Deputados Municipais, proporem a realização de uma Assembleia Municipal Extraordinária para, como políticos eleitos, avaliarem o presente e o futuro da cidade, e, esta matéria ser tema de um debate neste órgão autárquico.
Igualmente, decorreu um debate, promovido pela FRATER, onde se salientaram problemas e perspectivas da Saúde no Barreiro, nomeadamente a urgência de ser construído um Hospital de Retaguarda, que deveria mobilizar todas as forças politicas locais, e, sobre estas preocupações da sociedade civil, os nosso políticos, fazem um absoluto silêncio.
Por exemplo, seria interessante ver os nossos deputados avançarem com a proposta de criação de uma “Plataforma Social pela construção do Hospital de Retaguarda”.
Sim, diz-se, que estará “agendada” a eventual realização de uma Assembleia Extraordinária para debater os problemas da Saúde, mas, entretanto, todos os contributos para o tema só enriqueciam o futuro debate.
Estes são só dois exemplos, outros poderiam ser referidos, do anterior mandato da gestão socialista, porque regra geral a Assembleia Municipal anda a “reboque” da Câmara ou das “agendas dos partidos”.

Órgão político de excelência

A Assembleia Municipal do Barreiro para além da “agenda” que emerge das propostas oriundas da Câmara Municipal do Barreiro poderia e deveria ter a sua própria agenda de iniciativas, de promoção de debates, de contactos com agentes locais, até porque é, na verdade, o órgão politico de excelência.
A vida politica local deve ter na Assembleia Municipal o seu reflexo vivo.
Na verdade, o chamado ponto “antes da ordem do dia” poderia contribuir para a abordagem de problemas locais e abrir caminhos para o seu futuro aprofundamento, nesse clima de afirmação de diferenças e, como bem diz Carlos Humberto – “precisamos do contributo de todos para fazer um Barreiro melhor”.

A Pedagogia da diferença

Mas o drama é como resolver esta briga entre o “Partido” e o “Barreiro”.
Um grande esforço político terá que ser feito por todos e, acima de tudo pelo PCP/CDU que, na verdade, tendo a maioria absoluta, tem que ser capaz de não querer transformar o órgão Assembleia Municipal do Barreiro, como um órgão com um “pensamento único” que, de facto não é, mesmo que sejam reprovadas moções que, de alguma forma, possam não corresponder ao pensamento da maioria da Assembleia.
E, a pedagogia do PCP será ser capaz, pela responsabilidade que lhe advém de ser maioria absoluta abrir espaços aos consensos, naturalmente, sem abdicar de princípios e valores.
Mas, não só o PCP, as outras forças também têm essa responsabilidade pedagógica.
“Não votei a moção de saudação a Cavaco Silva, porque diz que foi eleito um Presidente de centro-direita” – disse um deputado Socialista.
Ora, a verdade, é que Cavaco Silva é de centro-direita, e, se essa expressão feria “ideologicamente” propunha-se uma alteração.
Será que o Barreiro, a Assembleia Municipal do Barreiro, um dia, nos próximos anos, se o Presidente da República, eleito, vier visitar o Barreiro, numa qualquer inauguração, que até pode ser o Instituto Politécnico, não o receberá com a dignidade de mais alto magistrado da nação?
Certamente, não foi assim, que Mário Soares ou Jorge Sampaio foram tratados por esse país fora, em concelhos dirigidos por forças de direita?
Pois, de facto, é importante ver qual é que alimentamos mais o “Partido” ou o “Barreiro”.
Porque o Barreiro não pode continuar a ser visto, no exterior, como uma terra onde as diferenças não são respeitadas.

As “Opções” e as “Liberdades”

O debate na última reunião da Assembleia Municipal do Barreiro atingiu o “rubro” e a “agitação de cadeiras” com a discussão da moção com o tema “Liberdades”, apresentada pelo PSD.
Foi votada, esta moção, favoravelmente, pelo PSD, PS e Bloco de Esquerda, sendo reprovada com os votos contra do PCP/CDU, que nem sequer discutiu ou comentou o seu conteúdo.
Não vale a pena discutir? Ou nós temos a maioria absoluta já tratamos desse assunto?!
Até era interessante aprofundar esse debate.
De facto, também não ouvimos moções sobre liberdade, do PSD, quando foi denunciado que, na Holanda, por exemplo, portugueses vivem como verdadeiros escravos.
Mas era importante que a moção fosse discutida e , na verdade, se soubessem as razões porque o PCP votou contra.
Impor a decisão, pela decisão, deixa confuso quem está de fora e não se percebem as razões.
E, pelos vistos, a maioria dos barreirenses, até poderá concordar com o conteúdo da dita moção, porque PSD, PS e BE, conjuntamente tem um peso eleitoral muito superior ao PCP/CDU.
E, neste ponto do debate, o PCP demonstrou fragilidade política ( falta lá o Daniel Cabrita) e que o seu calcanhar de Aquiles, afinal, é este, quando as discussões passam apara a esfera ideológica.
As forças politicas locais se quiserem explorar esta matéria só tem que investir numa grande acção de propaganda, divulgando a moção reprovada na Assembleia, promovendo debates públicos sobre o seu conteúdo e, naturalmente, lá esvaziam o esforço político que foi feito e bem ganho, pelo PCP/CDU, com a iniciativa das “Opções Participadas”.
Por hoje, ficamos por aqui…

António Sousa Pereira

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