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Inferências

InferênciasPartido Socialista entre o “ser poder” e “ser oposição”

O PS assume o poder no Barreiro e, a partir de 2001, na verdade, no concelho do Barreiro o PS deixa de ser um partido vocacionado para ser oposição, tornando-se um partido com vocação para ser poder na cidade.
Esta é a responsabilidade histórica do Partido Socialista, nos dias de hoje, no concelho do Barreiro.

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Inferências Partido Socialista entre o “ser poder” e “ser oposição”

Por António Sousa Pereira

Durante anos, na verdade, o Partido Socialista no concelho do Barreiro foi um partido cujo destino era, efectivamente ser oposição, porque não tinha actividade política regular ao nível do concelho, dado que a sua estrutura concelhia era, fundamentalmente, uma “plataforma” de lançamento para cargos de âmbito regional ou nacional, em períodos que o PS ocupasse tal, ou tal, Ministério ou que fosse Governo.
Quem acompanhou de perto a vida politica concelhia, está consciente que, regra geral, na realidade, o PS não existia como partido com acção política permanente.
Era, na realidade, nas eleições autárquicas que, de facto, lá (re) surgia para “lutar” pela conquista de lugares na vereação e Assembleia Municipal, nas Assembleias de Freguesia e, naturalmente, limitava-se a evitar que ficasse um vazio no seu espaço político.
Terminadas as eleições autárquicas, o Partido Socialista “hibernava” e a sua presença na vida da cidade e acção politica, de facto, resumia-se ao trabalho que alguns Vereadores desenvolviam na autarquia (umas vezes com Pelouros, como foi o caso de João Pintassilgo, outras apenas com pelourinhos) e, naturalmente, à intervenção política que era desenvolvida na Assembleia Municipal do Barreiro.
Estes foram anos marcados pelas sucessivas conquistas de maiorias absolutas pelo PCP (FEPU/APU/CDU), que originava limitações de intervenção, mas que também dava melhores condições para que um partido, na oposição, se organizasse e projectasse o seu trabalho político.

A bipolarização e o “ciclo pendular”

A partir dos anos 80, começa a registar-se uma profunda alteração no tecido económico do concelho do Barreiro, quer devido ao encerramento de fábricas na Quimigal, quer pela crise da indústria naval e na Siderurgia Nacional.
Regista-se algum abandono de residentes que em situação de reforma, pré-reforma ou DLD’s partem para as suas terras.
Verifica-se um crescimento da importância do sector terciário no concelho do Barreiro.

Esta nova realidade sócio-económica, contribui a partir de determinada altura para dar início, na vida politica do Barreiro, a uma progressiva bipolarização entre o PCP/CDU e o PS, a qual numa primeira fase manifesta-se pelo surgimento do “ciclo pendular”.
Este “ciclo pendular” é bem um espelho da realidade politica local do Partido Socialista.
Na verdade, nas Eleições Legislativas o Partido Socialista vencia as eleições no concelho do Barreiro, mas logo a seguir, nas eleições autárquicas o PCP/CDU mantinha a liderança política no Barreiro.
Este “ciclo pendular” é um fenómeno cujo estudo seria interessante aprofundar, dado que, de alguma forma poderia permitir, também, ajudar a perceber algumas das razões que conduziram à derrota dos socialistas nas últimas eleições autárquicas.

A crise dos anos 90

Entretanto, nos anos 90 a situação politica internacional é marcada pelo “abalo do chamado mundo socialista”, numa primeira fase pela “Perestroika”, depois com o desabar do sistema.
O Partido Comunista Português, no Barreiro, na sua estrutura e essência não é, de forma substantiva abalado por esta crise, embora, ao nível nacional se registem diversas rupturas.
No entanto, com as mudanças sociais que se registam no concelho, alguma fragilidade do ponto de vista ideológico, o facto de a actividade partidária do PCP ser substituída pela acção autárquica e, até, pela inexistência real do “espaço CDU” verifica-se uma tendência para o aprofundamento da bipolarização e o aumento da base social de apoio do Partido Socialista.
O PCP/CDU, actualmente, está, sem dúvida, apostado em alargar o chamado “espaço CDU” e não vai voltar a cometer os erros de se isolar da cidade, ou até, confundir a vida municipal com a própria vida partidária.
Mas, quem tem dúvidas que o PCP é uma força politica no concelho do Barreiro e que, ainda hoje, após 30 anos de democracia, com a queda do Muro de Berlim, é uma força ideológica num movimento de pensamento ao nível mundial ( com o qual pode-se estar de acordo ou em desacordo), então, de facto, não conhece a cultura política da nossa cidade.
E, por outro lado, o anticomunismo primário, ou quadernário ( aquele que sofrem dos efeitos de o PS ter sido quatro anos poder) não será o caminho que conduzirá ao desgaste do PCP, se o PCP, de facto, souber gerir o diálogo e não impuser o “pensamento único” na cidade.

A revolução “airista”

O Partido Socialista não tinha, nos anos 80, intervenção concelhia de forma sistemática.
O desenvolvimento de alguma intervenção politica estruturada a partir da Secção do Lavradio do Partido Socialista, conduz a uma “guerrilha subterrânea” e, quase constante, entre as Secções do Lavradio e do Barreiro.
Estão em causa dois “modelos” diferentes de acção politica, mas também, dois “grupos” diferentes de carácter social.
O PS Barreiro tem por base uma certa “aristocracia” politica das esferas do poder regional e central, o PS Lavradio tem por base uma “pequena burguesia militante”que anseia por protagonismo político e que é, afinal, a base de sustentação socialista.
Aires de Carvalho, Coordenador da Secção do Lavradio – “a Jamba como ele gostava de referir” – parte para a conquista da concelhia do Barreiro tendo como objectivo dinamizar a vida partidária e por fim à realidade que caracterizava a intervenção do PS no concelho do Barreiro, ou seja, ser um partido que só (re) nascia nas autárquicas.
Na verdade, ao conquistar a Presidência da Comissão Politica Concelhia do Partido Socialista, Aires de Carvalho, que conhecia bem o partido socialista, as ambições pessoais, as relações de grupo, cultiva uma liderança “forte” e dinamiza de forma regular a intervenção politica do PS.
No seu projecto político, até por ser natural do concelho do Barreiro, coloca o sonho de conquistar a Presidência da Câmara Municipal.
O “airismo” transporta para a vida politica interna dos socialistas uma nova dimensão e, de alguma forma, o PS começa a marcar, por vezes, a agenda politica local.
Na Assembleia Municipal as intervenções dos seus deputados começam a ser estruturadas e objectivadas ao ponto de o PS abandonar as reuniões da Assembleia como protesto contra a “intolerância” da maioria absoluta.
Aires de Carvalho, pelo bem e pelo mal, é uma presença de referência na vida politica local, assumindo-se, igualmente, como um líder do PS ao nível distrital.
Ao nível local só um homem se colocou de facto, frente a frente, para se demarcar da “forma” de fazer politica de Aires de Carvalho, foi Eduardo Cabrita, acompanhado, entre outros, por António José Ferreira, mas, também, na realidade, apostando numa acção politica permanente por parte do PS.

A perda da maioria absoluta do PCP

No ano de ano 1993, numa fase de ascensão do PS ao nível nacional, sob a liderança de Aires de Carvalho, para surpresa de alguns socialistas, o Partido Socialista retira, pela primeira vez, a maioria absoluta ao PCP/CDU, alargando a sua base social de apoio no concelho do Barreiro, tendo Emídio Xavier, como candidato à Presidência da Câmara Municipal do Barreiro.
A partir deste resultado eleitoral começa, então, a nascer uma esperança nos socialistas, acreditando que estava ao alcance do PS conquistar a Presidência da Câmara Municipal do Barreiro e assumir-se como um partido com ambições de ser poder e gerir os destinos do concelho do Barreiro.
O PS começa a ser um partido com intervenção regular na vida politica local.
No entanto, curiosamente, nas Eleições Legislativas os socialistas continuam a ser o partido mais votado no concelho do Barreiro, distanciando-se do PCP/CDU e alargando de forma substantiva a sua base social de apoio.

PS a “cultura da mudança”

No ano 1997, o PS esteve a um passo de conquistar a Presidência da Câmara Municipal do Barreiro, na altura, tendo Leal da Silva, como candidato à Presidência da Câmara.
Nestas autárquicas de 1997, pela análise dos números verificava-se que existia uma franja eleitoral claramente socialista e social democrata que, nas eleições autárquicas, deslocava o seu voto para o PCP/CDU.
Era, portanto, evidente que o Partido Socialista, ao nível do concelho, não obtinha a confiança política de sectores do eleitorado que, na verdade, sendo eleitores da sua área politica optavam por manter o PCP/CDU na liderança do concelho do Barreiro.
Era o eterno “ciclo pendular” a funcionar…

Uma base eleitoral de esquerda

Nestes anos, a partir de 1997-2001, com a liderança de Aires de Carvalho, que conhecia bem e geria a vida interna do Partido Socialista, na verdade, o PS tornou-se um partido mais interveniente, mas activo e sua acção politica era regular na vida da cidade.
A situação de “isolacionismo” da gestão autárquica pelo PCP/CDU, nos anos 90, que se afasta dos agentes locais, promove acções elitistas, e, ignora a realidade cultural do Barreiro, ou seja, que o concelho tem uma base eleitoral de esquerda, que gosta de ser ouvida e de intervir criticamente na vida da cidade, são factores de desgaste do PCP, para além, das mudanças, acima referidas, que na época se verificaram na vida politica internacional, com a “Perestroika” e a posterior queda do Muro de Berlim, são fenómenos que abrem caminho ao avanço do Partido Socialista.
Após 1997, Aires de Carvalho, reconhece que o Partido Socialista, por si só, não tem força para conquistar a Presidência da Câmara Municipal do Barreiro.
A experiência nacional do chamados “Estados Gerais” tem expressão politica, no Barreiro, como o surgimento do BEM – Barreiro em Movimento, aliás, um “movimento” que nasce, ao lado do PS, mas à margem do PS.
O BEM caracteriza-se na sua acção por uma dinâmica de promoção de debates sobre os mais diversos temas da vida da cidade, tendo o Partido Socialista como uma referência e a base de sustentação para a criação de um sentimento de esperança e uma “cultura de mudança”, contra o “autismo”.
De certa forma, trata-se de uma abertura do Partido Socialista à cidade, nos debates e iniciativas do PS participam muitos cidadãos sem partido, outros que se afastaram do PCP, ou oriundos de outras correntes de pensamento.

Bipolarização sempre presente

Nas eleições autárquicas de 2001 o Partido Socialista lança propostas inovadoras, coloca desafios aos cidadãos, perspectiva um novo modelo de cidade, é a base de uma “cultura de mudança” de uma cidade que abre as portas ao diálogo e à vivência plena da cidadania.
Emídio Xavier, na Presidência da Câmara Municipal do Barreiro é, também, pela primeira vez, após o 25 de Abril, a liderança de alguém que não nasceu no concelho do Barreiro, que não faz parte de uma “cultura xenófoba” que, por vezes, emergia na vida politica local.
O “eu sou do Barreiro” é substituído por “o melhor do Barreiro são os barreirenses” e, neste caso, ser barreirense é gostar, amar e viver no Barreiro e pelo Barreiro.
Mas, estava o Partido Socialista preparado para ser poder? Esta uma pergunta que deverá merecer alguma reflexão e, talvez, na procura de uma resposta, se possa entender algumas razões da derrota do PS, em 2005.
Aires de Carvalho mantinha a sua liderança “forte” ao nível interno, mas, o seu falecimento, veio criar um vazio político e a emergência de uma multiplicidade de herdeiros do “airismo”
O PCP que inicialmente, ainda não estava refeito da sua derrota eleitoral, que de alguma forma não esperava, começa a recpmpor-se.
Mas, já agora, sublinhe-se, derrota do PCP foi, também, fruto de conflitualidades internas e de “conflitos de grupos” e de posturas diferentes na vida da cidade.
O PCP foi, pouco a pouco, recompondo-se, reorganizando a sua intervenção política e promovendo uma militância activa.
No ano 2003 começam a surgir os primeiros sinais que o PCP/CDU está na luta e a preparar-se para a reconquista da Presidência da Câmara Municipal do Barreiro, quer nas movimentações tendo em vista a eventual escolha do candidato, quer na assumpção de uma estratégia de “deixar o PS” na sua acção autofágica tratar de si mesmo ( por exemplo, o PCP nunca deu qualquer importância critica a comentar, de forma substantiva, as politicas autárquicas na área cultural ou do desporto. Porquê?).
O PCP/CDU inicia um trabalho político de reajuste de contas com os erros, no diálogo com as populações, no colocar de lado guerrilhas secundárias ( caso da Santa Casa da Misericórdia do Barreiro, que eram meros trocos) e colocando como objectivo a questão central – reconquistar o Barreiro.

Carlos Humberto foi subestimado

A escolha de Carlos Humberto como candidato para a Presidência da Câmara Municipal do Barreiro foi, totalmente, subestimada pelos socialistas.
Na altura, considerei um bom trunfo, porque contribuía para (re)estabelecer a “unidade” dos contrários dentro do PCP/CDU, reforçava a liderança de uma força politica e, simultaneamente, pela orientação estabelecida, verificava-se que estava em marcha um processo político que mesmo que não conduzisse o PCP à vitória, sem dúvida, ia colocar na luta, com os socialistas, um adversário com “objectivos e estratégia”.

A bipolarização uma realidade

Nas eleições de 2001 a bipolarização era uma realidade. As bases eleitorais de apoio do PCP/CDU e do PS continuavam verosimilhantes.
Aliás, era evidente, nos números das eleições autárquicas que, desta vez, tinha funcionado o voto útil no PS, quer de votos oriundos do PSD, quer de votos oriundos de socialistas que, desta vez, optaram mesmo por votar PS, colocando de lado a tradicional opção no PCP/CDU nas autárquicas.
Os socialistas e sociais democratas, eventualmente, “canaristas” optaram por retirar o beneficio da dúvida que mantinham em relação ao PS.
Esta uma realidade que os socialistas, no poder, não souberam compreender, ou não conseguiram, pelo menos, desenvolver uma estratégia que não afastasse estes sectores da sua esfera de influência.
E, não compreenderam de tal forma que o PSD se transformou, na sua acção politica, simultaneamente no partido “charneira” e no principal opositor ao PS, empurrando de forma consciente o PCP/CDU para a área do poder, embora tivesse dúvidas dessa probabilidade.

E agora PS?

O PS assume o poder no Barreiro e, a partir de 2001, na verdade, no concelho do Barreiro o PS deixa de ser um partido vocacionado para ser oposição, tornando-se um partido com vocação para ser poder na cidade.
Esta é a responsabilidade histórica do Partido Socialista, nos dias de hoje, no concelho do Barreiro.
E, na verdade, um partido que quer ser poder tem que ter “unidade interna nos seus contrários”, definir uma estratégia de curto, médio e longo prazo, ter intervenção politica estruturada nos fóruns de acção politica, agir na vida da cidade, colocar a cidade acima dos interesses partidários de grupos.
Ser capaz de avaliar as razões, causas próximas, remotas e actuais, que conduziram ao seu desgaste, perante a comunidade, em quatro anos que foi poder, assumindo os erros que foram muitos e ser capaz de compreender que as causas do fracasso e dos sucessos do PS, no Barreiro, ao longo dos anos, está dentro de si mesmo e não nos outros, quer por indefinição de objectivos, quer por opções erradas, quer pelos caminhos escolhidos, quer pelas atitudes, quer por ter sido incapaz de afirmar uma “cultura de mudança” que foi a principal motivação que levou muitos barreirenses a retirar o beneficio da dúvida e, de alguma forma, terem feito um interregno no “ciclo pendular”.
O desafio que os socialistas têm pela frente é serem capazes de quebrar de novo esse ciclo que, pode ser possível, mas que muito depende daquilo que for a capacidade interna dos socialistas desbravarem novos caminhos.
Não se trata de ter só um PS com uma nova liderança, trata-se de ter um PS com acção politica, com um projecto político.
Emídio Xavier, foi um capital politico que o PS desbaratou, não soube utilizar, ou então Emídio Xavier foi longe demais na ilusão de que era possível fazer renascer um novo PS, pelo facto de ser poder, sem que previamente, fosse feita a “catarse” e o “ajuste de contas com a história”.
O PS hoje está nessa encruzilhada de (re)encontro consigo mesmo, e, de facto, só quando se reencontrar consigo próprio e de novo, abrir a sua ligação à cidade, terá condições de retomar a liderança da cidade.
Até lá, vai gerir essa dimensão autofágica, pela qual o PCP/CDU já passou, porque, na verdade, quem não conseguir “unidade dos seus contrários” dificilmente se afirma numa cidade politicamente culta.
Pode liderar o PS, nunca vai liderar a cidade, se quiser impor o PS à cidade.
O PCP aprendeu essa lição.
Ou seja, quem liderar o PS tem que ser capaz de dialogar com a cidade e respeitar as diferenças que fazem, quer o PS, quer a própria cidade.
O PS está em eleições internas…voltaremos, sim, voltaremos a seguir, para continuar e reflectir sobre este tema..até já!

António Sousa Pereira

Nota - Este texto foi republicado, devido a gralhas.

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