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- entre a “Autoridade Moral” e a “Autoridade Política” (I)
Mas será que o PCP ganhou de novo a “autoridade moral”?
Ou será que o PS é um partido com dimensão para se afirmar como “autoridade moral”?

Por António Sousa Pereira
Em política há, na verdade, duas dimensões que se cruzam nas vivências quotidianas nesta acção de ser e fazer intervenção política.
Por exemplo, antes do 25 de Abril, era uma realidade sentida por todos os portugueses que quem exercia a “autoridade política” não tinha, de facto, pela inexistência de democracia, “autoridade moral”.
Porque para se ter “autoridade política” e em simultâneo “autoridade moral” é necessário que o “plano do dizer” se consubstancie no “plano do fazer”.
Isto significa que não basta ter o poder político é necessário saber exercer o poder político, procurando levar à prática as ideias.
Uma vontade afirmar a liberdade
Antes do 25 de Abril, no Barreiro, por razões históricas, o Partido Comunista Português era a força que assumia a “autoridade moral”, envolvendo os cidadãos nas lutas pela liberdade, pela conquista de direitos e pela exigência da democracia.
Quem tinha a “autoridade política” para a exercer recorria à repressão, à perseguição, à criação de um sistema de denunciantes, impondo o silêncio e a obediência como regras que marcavam o quotidiano da cidade.
Forjou-se a nossa cidade numa “cultura de irreverência e protesto”, uma vontade permanente de afirmar a liberdade, como ideal e como projecto de vida, uma cultura onde ser de esquerda era, muitas vezes, conotado com o ser comunista, porque, quem assumia uma postura de contestação e de luta pela democracia, de imediato era rotulado de comunista, mesmo que não fosse essa a sua opção ideológica.
Ser do Barreiro era, em muitos lugares, ser rotulado como “ser comunista”.
O Barreiro assumia, e os barreirenses, aqui nascidos ou aqui vivendo, assumiam com orgulho, essa sua coloração vermelha, como símbolo de resistência e amor à liberdade.
O Partido Comunista Português era, sem dúvida, a “autoridade moral” do Barreiro e uma força respeitada e reconhecida como referência na luta pela liberdade.
Até o chamado “reviralho” tinha orgulho em dialogar e ter nos comunistas amigos.
Outras correntes de pensamento que, tal como os comunistas lutavam pela democracia e pela liberdade, “sucumbiam” ou eram, na realidade, completamente submergidas, na acção, pela capacidade de liderança e de organização politica do PCP.
Talvez, por essa razão, alguns teimam, por vezes, em confundir a história da resistência e a luta dos barreirenses e da sua classe operária como sendo a história do PCP, ignorando, o papel desempenhado por socialistas, católicos ou outros resistentes, meramente democratas, ao regime deposto com o 25 de Abril.
Uma cidade de esquerda.
Chegámos ao 25 de Abril e, naturalmente, por todas as razões históricas, o Partido Comunista Português como força que detinha a “autoridade moral” atrai, de forma natural, para si a “autoridade política”.
O Partido Comunista Português assume-se como a força política que, por grande maioria dos barreirenses, é reconhecida como a força que tem condições de assumir a “autoridade política”.
A história no pós 25 de Abril, certamente, ainda um dia será feita, porque se há quem considere que o PCP foi uma força “sectária”, também há quem afirme que no Barreiro, existiam correntes de pensamento abertas e disponíveis para o diálogo e o envolvimento de todos no processo revolucionário em curso ( o dito PREC).
Mas, sem fazermos juízos de valor, de facto, a realidade é que no Barreiro, nas urnas foi logo nas primeiras eleições, nas Legislativas de 1975, a força politica que obteve a maior votação no concelho do Barreiro e as forças de esquerda, para referenciar algumas, de forma expressiva foram referência desde o MES ( com 420 votos) a FSP (com 568 votos) a UDP ( com 768 votos) o MDP (com 4065 votos) o PS ( com 15939 votos) e o PCP ( obteve 24.839 votos). Isto enquanto o PSD obteve 1882 votos.
O Barreiro assumiu-se desde sempre, a partir desse acto eleitoral como uma cidade de esquerda.
Nas primeiras autárquicas o PCP, sob a sigla da APU, alcançou a sua primeira maioria absoluta, que foi renovando em sucessivas eleições, até ao ano de 1993.
A perda da “autoridade moral”
Que aconteceu para que a força política que, foi reconhecida como a “autoridade moral” antes do 25 de Abril e, obviamente, a “autoridade politica” após a Revolução dos Cravos fosse perdendo votos de eleição para eleição, até perder a maioria absoluta e, por fim, em 2001 ter perdido a liderança do concelho para o Partido Socialista?
Há diversos factores a considerar, desde a mudança do tecido eleitoral do concelho a partir dos anos 80, com o desmembramento das fábricas, passando pela queda do muro de Berlim, nos anos 90, mas, naturalmente, também, devido a um facto que, por vezes, não é comentado, nomeadamente, porque ao longo dos anos o PCP, era de facto a força com “autoridade política” mas que, no quotidiano, perante os cidadãos ia perdendo essa sua referência de “autoridade moral”, porque havia um distanciamento entre o “dizer” e o “fazer”.
O período do “ciclo pendular”
O Partido Socialista, de eleição para eleição, pelas diversas razões referidas embora não sendo a força com “autoridade politica”, de facto, também não se afirmava como a força alternativa com “autoridade moral”.
Foi nos anos 90, que o PCP começou a isolar-se das populações e a emergir um maior distanciamento entre o “dizer” e o “fazer”.
O Partido Socialista, apesar de tudo não conseguia afirmar-se como força alternativa na vida politica local.
Após a perda da maioria absoluta, o PCP continuou a ser a força politica maioritária no concelho do Barreiro.
E, na verdade, viveu-se um período que costumo definir como o “ciclo pendular” – o PCP vencia no Barreiro as eleições autárquicas, mas nas legislativas o Partido Socialista era o vencedor no concelho do Barreiro.
Ou seja, apesar de no tecido eleitoral do concelho do Barreiro o Partido Socialista ser uma forma politica de referência que lhe dava já alguma “autoridade moral”, não conseguia, ao nível do poder local, ser aceite como a força com “autoridade política”.
Uma cultura de mudança
O Partido Socialista só no começo do século XXI, no ano 2001, porque uniu à sua volta muitos descontentamentos, mobilizou esperanças e abriu expectativas, gerou uma cultura de mudança, que motivou muitos barreirenses ( mesmo aqueles socialistas e sociais democratas, ou outros, que votavam nas legislativas PS, mas nas autárquicas votavam PCP/CDU).
Ou seja, no ano 2001, o Partido Socialista, conseguiu, porque uniu à sua volta diferentes sectores sociais que, obviamente, o transcenderam localmente como partido, só então afirmou a sua emergente “autoridade moral” como “autoridade politica”.
Mas, será que o Partido Socialista, no poder, foi capaz de afirmar essa cultura de mudança?
É fácil empurrar as culpas para factores exógenos, mas, o interessante seria reflectir-se se, de facto, o Partido Socialista soube gerir a sua nova realidade na vida politica local, sendo capaz de estabelecer a ponte entre a “autoridade politica” e a “autoridade moral”, entre o “dizer” e o “fazer”.
Partido Socialista geriu a “autoridade politica”
O PCP na oposição parecia, inicialmente, que não tinha aprendido a lição, parecia que não queria perceber que tinha perdido as eleições e que já não era, nem a “autoridade moral”, nem a “autoridade politica” no concelho do Barreiro.
Mas, a verdade é que o Partido Socialista no poder que devia ter sido capaz de afirmar com a sua “autoridade politica” a “autoridade moral” da mudança que lançou como repto ao eleitorado, ao longo de quatro anos, esteve dividido entre o “populismo” e uma “visão futurista” e foi incapaz de afirmar de forma firme e convicta a sua “autoridade moral”.
O Partido Socialista em quatro anos no poder apenas geriu a sua “autoridade politica” e foi incapaz de se afirmar como “autoridade moral”, porque, na prática, foi incapaz de estabelecer a ponte entre o “dizer” e o “fazer”.
Em quatro anos aprendeu e viveu todos os erros que o PCP foi assimilando ao longo de 27 anos, aprendeu depressa demais.
E, ainda hoje, mesmo derrotado pelo eleitorado, não foi capaz de reconhecer que cometeu erros e, com verdadeiro autismo, continua a ser incapaz de pedir desculpa aos eleitores por os ter iludido com uma “cultura de mudança” que foi incapaz de concretizar, continuando a querer fazer crer que os comunistas é que são os culpados de todos os males do Barreiro, numa verdadeira cegueira politica e sectarismo doentio que faz lembrar o PCP no seu pior, de pleno PREC.
Recuperar a “autoridade moral”
Entretanto o PCP percebeu toda esta realidade e, pouco a pouco, com um “trabalho de formiguinha” foi dialogando, fez autocríticas, abriu expectativas, sabia que tinha muito para fazer tendo em vista restaurar a sua “autoridade moral” que é, sem dúvida, a alavanca necessária para se atingir a “autoridade politica”.
Em primeiro lugar o PCP percebeu que o Barreiro é uma cidade onde todos devem ter um espaço de participação, que não pode querer construir uma cidade para comunistas mas, sim, uma cidade onde se viva cidadania.
E, procurou, mesmo que de uma forma “estratégica” colocar em debate, em plena pré-campanha eleitoral e na campanha a ideia do pelouro da democracia, da cidadania e da participação.
O PCP apostava, e continua a apostar, em recuperar a “autoridade moral” perdida.
E, arranjem os argumentos políticos que quiserem o facto é que o eleitorado foi sensível a esta mensagem e, nas urnas, voltou a dar o voto de confiança ao PCP, dando-lhe de novo a “autoridade politica”.
Mas será que o PCP ganhou de novo a “autoridade moral”?
Ou será que o PS é um partido com dimensão para se afirmar como “autoridade moral”?
São estas perguntas que ficam para reflexão no próximo artigo…
António Sousa Pereira













