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InferênciasBarreiro - entre a “Autoridade Moral” e a “Autoridade Política” (II)

Hoje no Barreiro o PCP voltou a ser a “autoridade politica” e de facto com este PS, que todos os dias vai sendo conhecido nos seus contornos mais dramáticos”, tem o caminho aberto para voltar a afirmar-se como “autoridade moral”.
O PSD tem, sem dúvida, mais “autoridade moral” que o Partido Socialista.
O Bloco de Esquerda pode não ter mais “autoridade moral” mas é mais respeitado que o partido Socialista.
Infelizmente o PS parece ser um partido que está num beco sem saída.

12 min de leitura
Inferências Barreiro - entre a “Autoridade Moral” e a “Autoridade Política” (II)

Por António Sousa Pereira

Mas será que o PCP ganhou de novo a “autoridade moral”?
Ou será que o PS é um partido com dimensão para se afirmar como “autoridade moral”?
Foram as duas perguntas que ficaram para reflexão.
E, já agora, acrescentar, e as restantes forças políticas do concelho do Barreiro têm presença politica para assumir “autoridade moral”?
Há quem tenha como tese que o Barreiro é, aquilo que é, porque o Partido Comunista Português geriu os destinos do concelho durante 27 anos.
E, de facto, a pergunta que se coloca é a seguinte : E onde andou a oposição durante esses 27 anos? Que propostas apresentou de alternativa?
Será que os barreirenses são ou foram, todos, tão estúpidos durante 27 anos, que foram incapazes de não escutar os argumentos da oposição?
Mas, o que os factos demonstram é que no Barreiro durante 27 anos quase, praticamente, nunca existiu oposição.

PSD tem “autoridade moral”

O único partido, de oposição, que se pode vangloriar de sempre ter assumido, de forma consequente, uma atitude critica e simultaneamente participante na vida política local é o Partido Social Democrata.
Quando o Partido Comunista Português tinha maioria absoluta o PSD sempre aceitou assumir pelouros e, de forma discreta, procurava desenvolver uma “politica de influência”.
E, de facto, obteve alguns resultados, sendo o Partido ( de direita) que influenciou políticas de esquerda, nomeadamente, a implementação de refeições nas escolas ( num tempo que havia fome e salários em atraso), dinamizou o PER, contribuindo de forma decisiva para a abolição de barracas no concelho, e, deu contributos para que, de forma iniciática, fossem dados alguns passos no sentido de se avançar com a “regeneração urbana” no Barreiro Velho.
Depois, quando o PCP perdeu a maioria absoluta, o PSD foi assumindo, cada vez mais o seu protagonismo, como partido charneira na política local.
O PSD é, um partido que pode vangloriar-se, sem precisar de se colocar em bicos de pés, de ter sido ao longo dos anos, apesar da sua fraca influência politica, de facto um partido que tem sabido ser oposição.
E, mesmo na gestão socialista, o PSD assumiu o seu protagonismo e foi, talvez, a voz mais critica à gestão socialista, sendo, sem ser alternativa, uma das forças politicas que bastante contribuiu para “empurrar” de novo o PCP para a área do poder.
O PSD é, na verdade, um dos partidos que tem, pouco a pouco, sabido afirmar-se na vida política local, com protagonismo, com estratégia de curto e médio prazo, e, de alguma forma tem se assumido na sua acção com alguma “autoridade moral”.
É esta realidade política que, por vezes, dói na consciência de alguns socialistas que prezam por cultivar o ódio, a estigmatização politica e a intolerância, sem conteúdo ideológico, mas meramente por “partidarite aguda”.
Aliás, foi essa realidade política da presença e dimensão do PSD na vida politica local que, na realidade, o Partido Socialista nunca percebeu ( ou por outra, apenas quem percebeu foi Emídio Xavier, mas estava sozinho).
O PSD não podia ser tratado como um adversário mas, isso sim, como um aliado estratégico.
E este, na verdade, foi um dos grandes erros tácticos não de Emídio Xavier, que soube gerir esta dimensão e tinha esta visão, mas dos ditos socialistas que apostavam no populismo, porque achavam e continuam a achar, que as “pessoas têm todas um preço” e que o PSD “não conta”.
O PSD é um partido que, apesar de contrário ao pensamento dominante no concelho, é, hoje e tem sido ao longo dos anos, um partido que tem alguma “autoridade moral”, tem capacidade de intervenção e tem, acima der tudo, capitalizado uma liderança que, pode afirmar-se, “não brinca em serviço”.
Os resultados são visíveis e em politica o que conta são os resultados que, afinal, estabelecem o equilíbrio e a ponte entre o que se “diz” e o que se “faz”.

Bloco de Esquerda é o “grilo falante”

Outra força politica de referência na vida politica local é o Bloco de Esquerda que no Barreiro sofre um problema genético, ou seja o seu cordão umbilical com a UDP.
O Bloco de Esquerda herdou no Barreiro a sua relação com a UDP, força politica que chegou a ser aliada da APU e a ter lugar na Assembleia Municipal, eleito em listas da APU/PCP, talvez, por essa razão, por vezes, em relação ao PCP, assume uma atitude de ressentimento e em relação ao PS uma postura de “compreensão e benevolência”, dado que pretende “pescar” nas lacunas que encontras nas forças politicas de esquerda.
Mas, nos últimos anos o Bloco de Esquerda tem vindo a dar um salto e a ampliar a sua influência politica na vida local.
O Bloco de Esquerda ainda não deu a perceber à cidade qual é o seu projecto de cidade, vive a navegar entre o que critica como sendo a herança da gestão comunista e a indefinição das suas discordâncias em relação à gestão socialista.
O Bloco de Esquerda a certo momento pareceu ter todas as condições de se assumir como a “consciência critica da cidade” mas, na realidade, ficou pelo “parecer”, talvez porque, falta-lhe uma “estratégia própria”, uma “ideia própria” que permita entender a ruptura do cordão umbilical, com a sua “dependência” do espaço ideológico do PCP ou até mesmo do PS.
O Bloco de Esquerda tem vindo a ser uma força politica que, na verdade, tem vindo a ganhar terreno na vida politica local, a rasgar algum espaço de “autoridade moral”, mas ainda é olhada com desconfiança e alguma incerteza.
O Bloco de Esquerda, por vezes, sofre de afirmar atitudes um pouco de “autoconvencindos”, como que sendo quem tem nas mãos a capacidade de determinar o que é justo ou injusto, sofrem um pouco daquilo que outrora se definia como a “superioridade moral” e cultivam esse complexo de superioridade o que em nada os ajuda a atingir o reconhecimento de “autoridade moral”.
A “autoridade moral” não se conquista apenas por criticar as atitudes politicas do estilo “a minha boneca é melhor que a tua”, a “autoridade moral” conquista-se afirmando e cultivando a alternativa com o pleno respeito pelo direito à diferença.
O Bloco de Esquerda tem que ser capaz de afirmar a diferença e não se limitar a cultivar “ódios de estimação”, seja o PCP, ou seja o PS, só porque acham que são os melhores.
Se na Assembleia Municipal não lhe dão espaço para liderar a “Comissão de Participação e Cidadania”, então que avance para a cidade e lance aos cidadãos o repto de criar um “Grupo Cívico de Participação e Cidadania”, acima dos partidos, para além dos partidos, de contrário, também está a aceitar que a participação e cidadania pode “esgotar-se” na participação dos órgãos autárquicos.
O Bloco de Esquerda pode ir mais além, na vida politica local, porque tem, hoje, mais espaço de acção que o Partido Socialista, até porque continua a beneficiar do facto de nunca ter sido poder.
Mas será que o BE consegue ser mais que “grilo falante” enquanto não apresentar alternativas e limitar-se a ir atrás dos acontecimentos e da agenda politica local?
O BE tem condições de se afirmar com uma “autoridade moral” mas, falta-lhe uma coisa, “fazer” e não ficar apenas pelo “dizer”.

Pode o PS ser alternativa?

Voltemos então ao Partido Socialista que é a força politica que pode afirmar-se como alternativa na vida politica local, e, repetimos “pode” o que não significa que o eleitorado considere que o seja, porque para ser, não basta parecer é preciso “ser”.
Até porque, cada vez mais, na acção politica local, nos seus discursos e formas de intervir o Partido Socialista parece mais apostada em cultivar a alternância do que afirmar-se como alternativa.
E enquanto alternância os barreirenses já sabem, porque viveram quatro anos, qual é a diferença entre o PCP e o PS. Ou será que não dá para ver?!

O PS e vivência do poder

O Partido Socialista, no Barreiro, durante anos quase que apenas se limitava a concorrer às eleições autárquicas, depois hibernava.
Marcou pontos na autarquia com João Pintassilgo, que foi, por exemplo, o protagonista da elaboração do Plano de Emergência Externo da Quimiparque, uma acção pioneira no país, que esteve na base da posterior elaboração de legislação que veio a implementar a criação de Planos Municipais de Emergência.
Mas, já naquele tempo eram emergentes situações de vida politica interna dos socialistas que, ainda hoje, continuam a ser uma realidade na sua acção politica regular.
Na Assembleia Municipal do Barreiro, nos anos 90, período mais agudo da crise dos comunistas, de facto o Partido Socialista, deu alguns passos, com intervenções politicas marcantes, nomeadamente algumas protagonizadas por Caboz Gonçalves, por António João Sardinha ou, até mesmo, por Emídio Xavier.
E, na realidade o Partido Socialista aumentava de forma substantiva a sua base eleitoral de apoio.
Nas eleições legislativas o PS de forma quase permanente ganhava as eleições no concelho do Barreiro, mas, depois, nas autárquicas o eleitorado dava o seu voto de confiança ao PCP/CDU.
Havia eleitorado socialista e social democrata que, claramente, optava por dar a vitória ao PCP/CDU.
Foi assim em 1993, voltou a repetir-se em 1997.
Será que, até hoje, ninguém na esfera socialista reflectiu, seriamente, nas razões que levam os eleitores a tomar esta opção?!
De facto, em 2001, o Partido Socialista galvanizou em seu redor sectores diversos da sociedade barreirense que acreditaram num projecto de mudança.
Será que o Partido Socialista estava preparado para ser poder?
O problema principal do Partido Socialista no concelho do Barreiro é que ao longo da sua história nunca houve um PS, existiram PS’s.
O PS a maior parte das vezes pensa e vive PS, com os olhos em Lisboa e em Setúbal, sendo o Barreiro uma mera “plataforma giratória”.
O PS muitas vezes não vive Barreiro, vive ou Governo, ou a degladiar-se numa luta de titãs, que nada tem a ver com o Barreiro ou o projecto de cidade, mas apenas com ambições políticas e carreirismos.

Não há PS, há sim vários PS’s

O PS foi poder no Barreiro e perdeu uma oportunidade histórica para afirmar a sua “autoridade moral”.
Quem tinha dúvidas sobre as causas que conduziram á derrota do Partido Socialista na liderança do concelho do Barreiro, ficou sem dúvidas, quando o Partido Socialista optou por fazer de Emídio Xavier o “bode expiatório” da sua derrota eleitoral, o causador da perda da sua “autoridade politica”.
O PS ao destruir o capital político chamado Emídio Xavier perdeu a sua “autoridade moral”.
O Partido Socialista hoje no Barreiro perdeu a “autoridade moral” que foi ganhando até alcançar a “autoridade politica” com a sua vitória de 2001.
O PS perdeu tudo por culpa própria, por erros próprios e porque afinal, está provado, não existe PS, existem PS’s.

É preciso enterrar o ódio

Enquanto o PCP já percebeu que o Barreiro do futuro tem que ser construído com todos os barreirenses, que é necessário cultivar as diferenças, que é essencial não estimular a cultura do ódio, hoje, há sectores do Partido Socialista que apostam em cultivar o ódio, promover uma estratégia de “inimigo comum”, por vezes só lhes falta, pintar nas paredes – “Comunas fora do Barreiro!”
O novo Barreiro não pode ser construído sob o signo de uma cultura de ódio. O PCP já percebeu isso, mas o PS, alguns dos seus sectores, é isso que querem cultivar. E isto não é por acaso.
Este é o PS que quer fomentar a alternância, da ambição do poder pelo poder, só que este PS ( que não aprendeu a lição das autárquicas de 2005) não é capaz de verificar que uma coisa é o PS, outra coisa é o Barreiro.
Luís Ferreira, o novo líder do Partido Socialista tem pela frente grandes desafios, o primeiro que terá que vencer é afirmar a sua liderança e conseguir que o PS seja um partido que se afirme como alternativa e não como alternância.
O PS começou a construir a alternativa, mas ficou pelo começar e, por isso, tem que ser capaz de pedir desculpa aos barreirenses, dos seus erros, das suas incapacidades.
O PS tem pela frente o desafio de ser capaz de se afirmar como um partido com “autoridade moral”.
Mas como pode um partido ser “autoridade moral” quando as diferenças internas não são vistas como procura de caminhos, mas apenas como estratégias de poder, onde a arrogância prevalece sobre a democracia e o direito à cidadania?
Hoje no Barreiro o PCP voltou a ser a “autoridade politica” e de facto com este PS, que todos os dias vai sendo conhecido nos seus contornos mais dramáticos”, tem o caminho aberto para voltar a afirmar-se como “autoridade moral”.
O PSD tem, sem dúvida, mais “autoridade moral” que o Partido Socialista.
O Bloco de Esquerda pode não ter mais “autoridade moral” mas é mais respeitado que o partido Socialista.
O PS ainda conta com personalidades como Emídio Xavier, Eduardo Cabrita, Madalena Alves Pereira, Jorge Fagundes, Caboz Gonçalves, António João Sardinha, Fernanda Moreno, João Pintassilgo, que podem ajudar a levantar o PS do chão…mas que vai ser difícil, sem dúvida que vai…porque afinal há dois PS’s, quer queiram, quer não.
Infelizmente o PS parece ser um partido que está num beco sem saída, até porque o Barreiro, na fase actual, precisava de uma Oposição coerente, forte, interveniente e com uma actuação critica construtiva.

António Sousa Pereira

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