InferênciasO libelo acusatório à gestão socialista

Por António Sousa Pereira
Sofia Cabral é, agora, em substituição de Emídio Xavier, a nova Vereadora do Partido Socialista na Câmara Municipal do Barreiro.
É, talvez, muito provável que fique a desempenhar o mandato porque, naturalmente, Emídio Xavier, por diversas razões, o mais certo é que irá redimir-se do seu “erro” proporcionando a Sofia Cabral a legitimidade politica que lhe retirou ao não aceitar a sua inclusão, como chegou a ser referido, nas listas das autárquicas, em lugar de eleição.
Aliás, certamente, não foi por mero acaso, que Emídio Xavier no seu discurso, no acto de posse da nova Comissão Política, referiu que a “decisão em relação à Sofia não foi a mais acertada” e expressou a sua satisfação de ter lido na comunicação social – “que a Vereadora Sofia Cabral substitui Emídio Xavier”.
Uma jovem que afirma convicções
Conheço, na vida politica Sofia Cabral, quer como Deputada na Assembleia Municipal do Barreiro, quer em jornadas promovidas pela Juventude Socialista e pela sua forma de intervenção, considero que é uma jovem com garra e daqueles jovens que, se nota, “tem o sangue na guelra” e quase que poderá dizer-se “nasceu para viver de forma activa a vida politica”.
Sofia Cabral foi a jovem designada, merecidamente, no ano 2004, como o “Rosto Jovem do Ano” pela sua intensa forma de intervenção e até, pela forma brilhante como substituiu Eduardo Cabrita, na Presidência da Assembleia Municipal.
Reconheço em Sofia Cabral, uma jovem que afirma convicções e vive de forma apaixonada os seus ideais.
Por estas razões, fiquei um pouco perplexo com as suas recentes intervenções politicas na última reunião Pública da Câmara Municipal do Barreiro.
Um verdadeiro “libelo acusatório” à gestão socialista
Sofia Cabral não precisa de ir pelo caminho que está a seguir para marcar a diferença.
Para se marcar a diferença o primeiro gesto que deve ser assumido, de forma firme, está no respeito pela diferença.
As interrogações colocadas por Sofia Cabral na última reunião da Câmara Municipal do Barreiro foram, na verdade, dois verdadeiros tiros no pé.
Ao comentar o site da Câmara Municipal do Barreiro, nomeadamente, ao facto de na secção de “Cultura” não existir qualquer conteúdo ao fim de seis meses de gestão do PCP/CDU, acabou por, com essa pergunta, fazer um verdadeiro “libelo acusatório” à gestão socialista porque, na verdade, durante todo o mandato aquela secção esteve sempre, isso mesmo, como a Sofia Cabral referiu “em branco”.
Os factos políticos assentam em estratégia
Uma pergunta que se virou contra ela mesma e foi, na verdade, um verdadeiro tiro no pé.
Sofia Cabral, por este caminho, perde credibilidade, as suas perguntas podem começar a ser interpretadas como mera saga politica.
É que a ideia que a política é feita de guerrilhas, de tacticismos, de estrategismos, para separar as águas, e criar factos políticos, se for meramente por este caminho de atirar tiros para o ar, pode gerar um perigo de ficar a ideia que, afinal, o Partido Socialista, quer de tal forma criticar o PCP/CDU, que até usa as suas lacunas e deficiências, para gritar que “o rei vai nu”.
Os factos políticos para serem criados têm que ter por trás, uma estratégia de curto e médio prazo, mas essa estratégia tem que estar cimentada em valores, em razões, em perspectivas de um modelo de acção alternativo.
Quando os factos políticos são de mera guerrilha urbana, fazem estilhaços, causam vítimas e, por vezes, até os guerrilheiros são vítimas das suas próprias armas.
Vazio de conteúdo ideológico de quatro anos
Com a sua pergunta, de facto, a Sofia Cabral, colocou o dedo na ferida, alertando para a ausência de estratégia e de um discurso cultural na gestão socialista.
Talvez, sem querer, ou por desconhecimento, colocou a nu o vazio de conteúdo estratégico ou ideológico de quatro anos de gestão, nesta área da vida autárquica.
É bom que exija, à actual gestão, que defina e divulgue as suas orientações politicas, mas, gostava de ouvir a vereadora Sofia Cabral afirmar que gostava que, antes de tais orientações serem colocadas no site da Câmara Municipal do Barreiro, as mesmas fossem discutidas e analisadas num reunião de Câmara, debatida com os eleitos, até, para, eventualmente, se expressar a concordância ou as divergências.
Uma politica cultural para a cidade
É que uma politica cultural para a cidade, não é uma politica cultural para comunistas ou para socialistas, é uma politica cultural para a cidade, onde vivem e trabalham comunistas, socialistas, bloquistas, democratas cristãos, sociais democratas, homens e mulheres sem partido, mas que são cidadãos do Barreiro e querem ou gostam de viver nesta cidade.
A politica, ou as politicas culturais da cidade, deverá ser uma área onde, na verdade, na óptica perspectivada pela actual gestão autárquica, de debate de ideias, procura de caminhos, de estimular “opções participadas”, naturalmente, deverá ser uma matéria que a aprofundar não numa, nem em duas, mas em várias “Opções Participadas”, de forma a envolver os cidadãos na compreensão e na discussão dessa dimensão essencial para a construção da cidadania.
Até porque, chegado a um caminho, outro caminho surgirá e novos problemas surgirão, numa área que está sempre sujeita a inovação a mudanças e transformações, porque ela é um espelho da evolução e desenvolvimento de uma comunidade.
Ora este é o caminho que o Partido Socialista, como oposição, com o sentido crítico e construtivo deve intervir, exigir, e, então, no confronto de ideias ser capaz de afirmar o que faria diferente e porque o faria diferente, se é que o faria, porque em quatro anos, em muito, limitou-se a dar continuidade ao que já existia no terreno.
E, se na verdade, o PS teve a coragem de colocar em debate a ideia estratégica de cidade, nunca nessa estratégia, por razões, que não se perceberam, foi equacionada dimensão cultural da cidade.
Carlos Humberto mudou a forma de fazer politica do PCP
Só que, na verdade, como a Sofia Cabral salientou, no site da Câmara Municipal do Barreiro, a “cultura” está em branco…
E, na verdade, será no aprofundar das ideias, no debate, que essa diferença será assumida como cultura da cidade.
Será no debate das ideias que, pouco a pouco, se saberá se a cultura da “optocracia” – as “opções participadas em curso – é uma estratégia ou é um modelo de intervenção politica.
É talvez isto que o PS está temer, este novo PCP.
Parafraseando Maria Nogueira Pinto que há dias afirmava, mais ou menos, isto, cito de memória : “Sócrates mudou a forma de fazer politica do PS e isso causa problemas à oposição”, ora, na verdade, no Barreiro, Carlos Humberto, também mudou a forma de fazer politica do PCP e isso está a causar problemas á oposição. Será isto que está a acontecer?
Ou será que o PS não tem ideias e prefere outro modelo de “optocracia” que é a guerrilha, sem conteúdo, e meramente tacticista e irresponsável.
Sofia Cabral você é uma jovem promissora não se desgaste em perguntas inúteis, e, comece a ser exigente no fazer perguntas sabe porquê : porque uma pergunta contém sempre uma resposta.
E não esqueça que a sua pergunta deu origem a outra pergunta, aquela que Regina Janeiro lhe fez : “Será que nunca houve política cultural no anterior Executivo?”.
Aprofundamento da democracia e superação dos estigmas
A Sofia Cabral e os políticos da sua geração têm sobre os seus ombros uma responsabilidade politica, trazer à política uma cultura de respeito pelas diferenças, de aprofundamento da democracia, de superação dos estigmas.
Sou daquela geração que vivemos, com demasiada paixão, as opções politicas e ideológicas, vivemos de forma intensa e, por vezes, sectária a cultura politica, até porque viemos de um tempo que, culturalmente nos marcou a pensar a preto e branco.
Sofia Cabral é eleita por um partido que assume a liberdade como um valor e o direito á diferença como essência dessa liberdade.
Ora, por essa razão, não se percebe ( mesmo com os argumentos que utilizou) a sua pergunta a propósito do vencimento do Presidente da Câmara.
Foi outro tiro no pé desnecessário.
Foi meter-se na boca do lobo desnecessariamente.
E, já agora, quero referir, a dignidade e sentido elevado, com nobreza politica, com que, de facto, Carlos Humberto, a esclareceu e lhe deu a necessária resposta.
Esta, foi outra pergunta “tacticista” que se esvai na sua temporalidade, não conduz a lado nenhum e é conduzir o debate político para níveis que, de certeza, em nada beneficiam a afirmação do Partido Socialista, nem como alternativa, nem sequer como alternância.
Fiquei mais estupefacto com as perguntas, até porque, na verdade, considero Sofia Cabral, uma jovem inteligente, com dimensão politica e com garra para acção politica, sem precisar de ir por esses caminhos beligerantes e de banalidade politica.
António Sousa Pereira













