InferênciasA “guerra dos números” ou acerca da divisão da cidade nos “bons” e nos “maus”

Por António Sousa Pereira
Nos últimos tempos temos assistido no concelho do Barreiro a uma atribulada “guerra dos números”.
A CDU a encostar o PS à parede com a Auditoria e as contas da gestão socialista, uma táctica bem delineada, mas…
O PS a reagir, não de forma activa, mas de forma reactiva, contrapondo outra interpretação da mesma realidade e acusando a CDU de ter legado 2/3 do endividamento.
O PSD a sacudir a água do capote.
O BE a dizer quer perceber.
Os cidadãos a ficarem confusos e indiferentes.
Mas, afinal, onde vai conduzir esta “guerra dos números”? Afinal quem tem razão?
Todos sabemos, só não sabe quem não quer saber, que o concelho do Barreiro sempre foi e continua a ser, talvez, o que se pode classificar como um dos “concelhos pobres” do Distrito de Setúbal, dados os seus poucos recursos.
Depois, todos sabemos que existe um investimento fixo, anualmente, com a transferência de alguns milhares de Euros do Orçamento da Câmara Municipal do Barreiro para os Serviços Municipalizados dos TCB’s ( Transferências Correntes de 1.574.300 Euros, em 2005, e a previsão para 2006 aponta para 1.000.000 Euros), uma aposta na defesa de um serviço reconhecido como essencial no desenvolvimento do concelho do Barreiro.
Todos sabemos que nas Despesas Correntes, na Câmara Municipal do Barreiro, a rubrica com pessoal, de há anos, sempre significou mais de 50% do Orçamento da autarquia, para cima e nunca para baixo, com tendência a crescer.
Sem empréstimos não faziam obras
Todos sabemos que, para além de tudo isto, existem encargos financeiros, resultantes de empréstimos bancários ( ainda bem que os empréstimos foram feitos quer pela CDU, quer pelo PS) na ordem dos 700 mil Euros/ano.
Mas, é preciso que seja, na verdade, salientado que caso não fossem feitos estes empréstimos ( efectuados e bem pela CDU, efectuados e bem pelo PS) não existiria, talvez, no Barreiro, nem o Parque da Cidade, as Oficinas dos TCB’s, o Auditório Municipal Augusto Cabrita, o Mercado de Santo André, o Centro Comunitário do Lavradio, a escola dos Fidalguinhos, ou até, os parcos investimentos que são efectuados na rede de águas e saneamento, e no arranjo de logradouros, nem sequer, talvez, o Programa POLIS, só para registar algumas matérias de referência, porque, na verdade, sem o endividamento a Câmara Municipal do Barreiro não teria tido condições para apresentar candidaturas aos Fundos Europeus.
Aliás, pena é que a recente legislação do Poder Central tenha reduzido a capacidade de endividamento das autarquias, facto que não permitiu, agora, à gestão de Carlos Humberto, ou mesmo ainda no tempo de Emídio Xavier, a eventual renegociação dos empréstimos ou a feitura de novos empréstimos, situação esta que, todos sabemos, veio limitar, a já limitada situação financeira da autarquia.
PS nunca quis reconhecer as dificuldades financeiras
O PS acusa a CDU de ter sido a causadora da maior fatia do endividamento, como se fosse uma coisa má para quem gere, ou geriu a Câmara Municipal do Barreiro, ter efectuado empréstimos.
Que tem isso, é algo de mal ? Ainda bem que o fizeram. Quer a CDU, quer o PS.
Ou será que o PS não teria feito o mesmo se fosse poder, para poder beneficiar de Fundos Europeus?
Não foi também isso que a gestão socialista levou à prática, de forma a poder assumir o compromisso do POLIS e dar continuidade às obras que estavam no terreno lançadas pela CDU?
A verdade é que o PS, enquanto foi oposição, nunca quis reconhecer as dificuldades financeiras do município.
E, ainda por cima, quando chegou ao poder foi incapaz de colocar a nu essa realidade, vivendo, no decorrer da sua gestão como “novos ricos”, ou seja, gastar acima das possibilidades e sem dar a conhecer à cidade à realidade que vivia todos os dias : contar os tostões.
A verdade, é que, ao assumir o poder, o PS viu-se perante a realidade dos números, e, de facto, sentiu como era difícil gerir uma casa onde não há pão e, por isso, todos ralham e ninguém tem razão.
Na realidade, na altura, ao assumir o poder, o PS também poderia ter feito, se assim o entendesse, o “filme” das dificuldades financeiras e das dívidas que transitavam para o seu mandato.
Podia, igualmente, ter proposto uma Auditoria semelhante a esta que agora foi feita e, também, teria feito um bom número político.
Houve, recordo, quem alvitrasse esse cenário. O PS não o fez.
CDU quer demonstrar que há os “maus” e os “bons”
Mas, sublinhe-se, também, na verdade, o PS, durante o seu mandato nunca se preocupou em colocar o dedo na ferida das dificuldades reais da autarquia e estancar ou tomar medidas de algum rigor que evitassem o crescimento acelerado das dificuldades financeiras.
O PS deveria ter tido a coragem, enquanto poder, de colocar a nu a realidade económica e financeira do município, promovendo um debate sério e honesto sobre os problemas.
Porque a situação financeira da Câmara Municipal do Barreiro é uma situação difícil, sempre foi difícil, e vai continuar a ser difícil.
Talvez, o Partido Socialista, através da promoção de um sério debate sobre a situação financeira da autarquia, pudesse, então, ter a humildade política de reconhecer que, na verdade, perante as dificuldades financeiras da autarquia, de facto, sem dúvida, muita obra a CDU concretizou, ao longo dos anos da sua gestão.
Talvez, o PS, igualmente, pudesse reconhecer, com humildade, que se a CDU não tivesse recorrido aos empréstimos então este concelho estaria ainda mais, muito mais, atrasado, e, nem sequer o PS teria tido condições de pagar o AMAC e outras coisas mais.
Igualmente, a CDU, que conhece esta realidade, muito melhor que o PS, deveria deixar de lado este “filme” dos números e, por fim a esta “novela” de pretender com esta “guerra dos números” demonstrar que uns são os maus políticos e outros são os bons políticos e, também, assumir com humildade politica que o PS na sua gestão não foi o mau da fita.
E, todos sabemos, há maus e bons em todo o lado, foram feitos erros na gestão PS e foram feitos erros na gestão CDU.
Emídio Xavier o único que sofria a “ansiedade dos números”
O PS chegou ao poder lançando sugestões e propostas políticas que davam uma visão inovadora e dinâmica da cidade e, embora, fosse um projecto para uma geração, foi incapaz de dar a mão á palmatória e reconhecer as dificuldades de chegar tão longe e tão alto como prometeu nas eleições e deveria ter tido a coragem e a humildade de recuar.
O PS chegou ao poder lançando a ideia que iria fazer uma gestão diferente dos recursos do município e, certamente, o Emídio Xavier deve recordar os cabelos brancos que acrescentou na sua cabeça, para garantir, em primeiro lugar e, antes demais, os vencimentos dos trabalhadores da autarquia.
O Emídio Xavier, aliás, deve ter sido o único autarca eleito pelo Partido Socialista que viveu, quotidianamente, a dor de cabeça dos números, e, as dificuldades financeiras da autarquia, sem ter possibilidades de estancar, ou evitar, situações que, de certeza, em nada contribuíam para garantir o equilíbrio financeiro.
E, hoje, afinal, é ele, Emídio Xavier, quem mais viveu esta preocupação que, na verdade, está a pagar a factura política desta guerra dos números.
O PS ( Emídio Xavier) tinha noção das dificuldades financeiras e se não denunciou o “estado das coisas” é porque, talvez, esperava ganhar as eleições e, depois, eventualmente, arrumar a casa.
Que é caso para dizer, talvez sim, talvez não.
Hoje, Emídio Xavier, lá no fundo, no fundo, deve pensar que lhe saiu a sorte grande, a ele e ao Barreiro, pelo facto de o PS ter perdido as eleições, porque ele era o único que sofria a “ansiedade dos números” porque, para outros, os números eram reduzidos a “meras transferências orçamentais”.
E o resultado final está à vista, não vale a pena tapar o sol com uma peneira
A guerra dos números é apenas uma guerra politica
O PS elevou a fasquia muito alta e foi incapaz de recuar na altura própria e, como resultado, perdeu as eleições.
Por outro lado, a CDU de hoje, não quer pagar a factura do PS, nem a factura da CDU de ontem, e, como o mais fácil é arranjar um bode expiatório, até com alguma verdade à mistura, então há que fazer da gestão PS a vitima e a causa próxima de um uma realidade que todos sabem, é endógena, e vem de longe, de muito longe, e que, na verdade, carece de coragem para lhe dar a volta, muita coragem…
É por isso que esta guerra dos números é apenas uma guerra politica e que espremida não dá nada, só serve para justificar que há dificuldades. Uma verdade de “la palisse” .
A CDU marca a agenda politica com esta “guerra dos números” e está a fazer muito bem, com elevado desempenho, esse papel político, desviando a discussão de um nível “político estratégico”, para um nível “politico numérico”.
O PS em autodefesa dá respostas e alinha, ingenuamente, na estratégia da CDU, parecendo, por vezes, que não foi o PS que geriu os destinos da cidade nos últimos quatro anos, pois justifica números com números, em vez de justificar números com acções e projectos de desenvolvimento.
O PS se gastou só tem que assumir que gastou e porque gastou. Ponto final. Não tem que se envergonhar se o fez para o desenvolvimento do Barreiro.
O PS se, com a sua gestão, aumentou as dificuldades financeiras só tem que justificar as razões que conduziram a essa situação e porque o fez, para o que o fez, com que intencionalidade politica e estratégica.
Ao PS bastava afirmar : O PS estava a gerir para continuar à frente dos destinos da autarquia, não estava a gerir para deixar dividas para a CDU, eram dividas para resolvermos e tínhamos projectos para dar respostas a essa situação, dos quais a CDU vai beneficiar.
O PS em vez de andar por ai a afirmar que, em quatro anos, fez mais que a CDU em 27 anos, devia ter a humildade de reconhecer que vestiu umas calças mais pequenas que a perna, mas que estava consciente dessa realidade e que tudo isso era estratégico. Ponto final.
Ou será que não era? Ou será que era navegar à vista? Esse é talvez o problema. Mas Freud explica isto…
A CDU em vez de andar por ai a acusar o PS de uma situação que todos sabemos insolúvel devia, isso, sim, procurar encostar o PS, que agora é governo, na procura de uma solução e compromisso para os SM TCB’s.
E criar condições de diálogo com o Poder Central para que o projecto de Alburrica avance, e o projecto “Cidade do Cinema” não vá para a gaveta.
Faltam 3 anos para estarmos em clima de novas eleições.
Enfim, mas a politica tem destas coisas…e a guerra dos números ainda vão fazer correr muita tinta, em muitas batalhas, para justificar os “bons” e os “maus” e o Barreiro é que se lixa!
O PSD lava as mãos como Pilatos.
Nesta “guerra dos números” o PSD lava as mãos como Pilatos.
Assim, como se nada tivesse a ver com a gestão da autarquia nas últimas décadas, nem sequer como força política de charneira, que viabilizou Orçamentos na gestão CDU e na gestão PS, lava as mãos e parece que pergunta: Quem querem que nós condenemos? Canário ou Xavier?
A multidão, perante a Auditoria e actual “guerra dos números” responde em coro : “Xavier! Xavier!”
E pronto o PSD, sem entrar na “guerra dos números” capitaliza politicamente e prega Emídio Xavier e o PS na cruz, porque só tem a ganhar com esta guerra e colocar-se à margem.
Porque é que o PSD tem que se meter nesta “guerra dos números”?
O PS e a CDU que se matem um ao outro, desgastando as forças de esquerda no concelho do Barreiro e retirando-lhes credibilidade, que o PSD está de lado para a recolher os frutos.
O PSD só se credibiliza não entrando no alimento desta guerra e, basta-lhe, empurrar o PCP contra o PS e vice versa, ficando de lado para, no final, apanhar os despojos da “guerra dos números”.
A “guerra dos números” é manobra de diversão
O PS que devia saber sair desta guerra dos números, por cima, e de cabeça erguida, bastando-lhe para tal, apenas, reconhecer, com sinceridade, as dificuldades da autarquia, as dificuldades para gerir e a falta de recursos e dizer à CDU : “Pronto, os senhores têm razão, nós deixámos dívidas, vocês foram os melhores gestores que o Barreiro conheceu. Pedimos desculpa pelo endividamento e pelas dívidas que pagámos do empréstimo do Pedro Canário.”
PS está convencido que fez a melhor gestão
O PS, deixava, assim, a CDU a falar sozinha se tivesse a coragem e a humildade politica de afirmar: “Meus senhores nós quando fomos oposição não tínhamos consciência das dificuldades financeiras da Câmara.
Fomos poder e tomámos consciência dessa realidade e não agimos.
Cometemos erros. Como vocês cometeram erros e vão certamente cometer.
Sabemos que vocês vão ter dificuldades. Sabemos que também vão, no futuro, deixar dividas.
Mas, a partir de agora, vamos discutir ideias, diferenças, modos de pensar e projectar o Barreiro.
Nós acreditámos num Barreiro moderno, esperemos que não o façam voltar atrás”.
Só que o PS, está convencido que fez a melhor gestão de todos os tempos, que não deixou dividas, que a CDU é que estragou o Barreiro e que o PS não soube foi passar a mensagem porque – “até eram maus em marketing”.
E, acima de tudo, o PS considera que os barreirenses são uns ingratos e estúpidos, porque não votaram maioritariamente PS e cometeram essa coisa terrível de permitirem o regresso dos comunistas.
Percebe-se, portanto, que o PS ao alimentar a “guerra dos números” e ao alinhar de forma reactiva na estratégia da CDU, não está interessado em afirmar o seu projecto para o Barreiro, está interessado em autoprovar e autoconvencer-se que o Barreiro começou em 2001.
Enfim, o PS ao alimentar a “guerra dos números” com tem vindo a alimentar, talvez, até seja, para alguns, uma boa manobra de diversão, que serve, igualmente, para alimentar as outras guerras que o PS, internamente, gosta de gerir, e, assim, ajuda uns a autoflagelarem-se e, outros, que desta forma podem ter matéria para promoverem a autofagia permanente que caracteriza o PS Barreiro, pois vive uma prática politica que visa excluir e não incluir.
A cidade dividida nos “bons” e nos “maus”
Mas, afinal, politicamente quem ganha com esta “guerra dos números” é o PSD e a CDU, porque o PS…já perdeu esta guerra diga o que disser, porque números são números e nisto conta o que se deixa, quando nunca foi dito o que se encontrou e, agora, é tarde…
Por fim, com esta “guerra dos números” perde o Barreiro que em vez de se unir numa plataforma e compromisso de cidade, continua dividir-se nessa forma de pensar a cidade que divide o mundo nos “bons” e nos “maus”…porque, afinal, por vezes parece que a “guerra dos números” é a ponta do iceberg de outras guerras anunciadas.













