As coisas e as pessoas têm a importância que nós lhes damos, não aquela que elas querem ter!Por Nuno Banza

Por Jornal Rostos
Na verdade não falámos de nenhum tratado novo para a ciência nem da cura do cancro, e por isso quando digo assuntos mais sérios também têm de relativizar a coisa. Mas enfim, lá falámos de um ou outro assunto mais cabeludo e no meio disto veio à conversa o seu novo projecto de vida, que se constrói como ele mesmo diz, aos poucos, e com a ajuda de todos – os de dentro deste projecto e os de fora.
Eu, que me considero dos de fora por não ter nenhuma ligação directa além da amizade, e que fui acompanhando as decisões que ele foi tomando e a forma como fez o caminho até aqui, lá fui tentando na minha natural tendência para interferir – umas vezes com bons resultados, outras maus, mas a vida é assim – dar o meu contributo para esse caminho. Quando se refaz um percurso de vida, tem de facto de se pensar de novo sobre um conjunto de coisas que naturalmente abandonámos há uns tempos – uns mais, outros menos – e que se colocam outra vez na lista das prioridades. É como se a nossa lista de compras semanal mudasse de forma, passando a ter outra vez no inicio um conjunto de coisas que nos obriga a passar por um corredor do supermercado onde já não íamos há uns tempos. Esta mudança traz coisas boas, claro, como todas as mudanças. Mas traz também coisas menos boas, e algumas até verdadeiros dramas emocionais, que nos fazem estar sentados no WC mais tempo do que o habitual, sem nenhuma necessidade fisiológica correspondente, ou mesmo até sem nada interessante para ler. A soma destas coisas todas dá uma salganhada que põe qualquer vida de pantanas. E não é preciso mais nada para que eu me preocupe com este meu amigo!
Como também é natural, ao longo deste percurso, muitas foram as reacções e os comportamentos dos vários actores deste “filme”. Se em relação á família e afins eu me coíbo de comentar, não porque não tenha opinião, mas porque acima de tudo penso que a família, pelo seu património de relações entre membros, pode tudo (ou quase), já em relação aos amigos a coisa pia mais fino! É que já acho inadmissível ver alguém bater noutra pessoa, mas ainda mais se ela estiver caída no chão! Bom e para mim é disso que se trata. Quando temos um amigo em dificuldades, o que se me sugere pensar é numa forma de o ajudar, nunca de aproveitar a sua fragilidade para fazer sobressair a minha posição. Era discutível se esta oportunidade é a única forma de o fazer ou não, porque acho sempre mal alguém se aproveitar de outrem, independentemente do propósito. Pá, mas um amigo não, caraças! Então eu estou a reconstruir a vida, e ando à procura de razões novas para empurrar o barco, porque as que tenho só me fazem pensar em afundá-lo, e descubro que tenho no barco malta a remar para trás? Por favor! Que raio de amigo! E ainda por cima depois de lhe tentar explicar que das feridas se cuida com carinho e não com uma lição de karaté, ele finge que não é nada com ele e diz que até se portou muito bem, que mais há a fazer?
De um amigo esperamos sempre apoio, seja para carregar um frigorífico ou para construir uma roullotte. Com os amigos até a competição é saudável, seja numa corrida de carrinhos no lancil do passeio, seja numa partida de bilhar. Eu até podia aqui fazer uma alusão à definição de amigo para me ajudar a sustentar a tese que quero fazer passar, mas isso provavelmente ia pôr-me a pensar sobre outras coisas e pessoas, e isso agora não interessa nada. Não o vou fazer! Vou antes contar uma pequena história que me aconteceu quando andava na catequese, ai com seis ou sete anos. Mas não se assustem porque não vou fazer nenhuma revelação idiossincrática nem fui aluno do Padre Frederico – sempre vivi no continente e até nunca fui à Madeira! – mas tenho muito orgulho na educação católica que tive.
É que um dia, lá no meio de uma briga com outro puto da minha idade, fiquei em pior estado que o meu opositor e ele disse-me um monte de coisas que eu não gostei nada de ouvir, inclusivamente imaginem, em relação à minha mãe! Enchi-me de razões e fui ter com o Padre que nos dava a catequese e contei-lhe de chorrilho as coisas todas que o outro me tinha dito – claro que omiti as asneiras o que deu para ai metade da versão original! Com a calma que o caracterizava – e felizmente, embora noutras funções, ainda o caracteriza – ouviu tudo até ao fim sem me interromper. No final, ao contrário do que eu esperava – sei lá, que o outro fosse chamado e castigado ou que passasse uma vergonha qualquer em frente ao resto da turma – o Padre disse-me uma coisa que na altura me deixou furioso: “Filho, as coisas e as pessoas só têm a importância que nós lhes damos, não aquela que elas querem ter. Se deres muita importância ao que ele disse, então isso será muito importante para ti, mas se não deres, não terá importância nenhuma.” Como está bem de ver, eu não estava à espera de nada daquilo, e confesso que nem devo ter percebido bem à primeira o que ele queria dizer. Mas na verdade nunca mais esqueci este episódio e só mais tarde vim a conseguir enquadrar estas suas palavras, infelizmente em várias situações ao longo da vida.
Esta foi uma delas e por isso disse ao meu amigo:”Pá, se lhe deres muita importância, então ele será muito importante para ti, mas se não deres, ele não terá importância nenhuma.”
E cá estamos para ajudar os amigos.
Nuno Banza













