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Inferências

Inferências“Fazer Política” e capacidade de “Fazer Política”

O PCP/CDU, sem oposição, vai gerindo o “estado de graça”, que mantém, e prepara, com o estilo formiguinha, a gestão autárquica e o futuro processo eleitoral.

O PS pulverizou-se. O PS deu o golpe final na “herança airista” – o que é de todos por todos deve ser decidido! E vai gerindo o passeio pelo deserto.

O BE hibernou. O CDS/PP cumpriu a sua missão, habitual, marcou presença nas autárquicas. O PCTP/MRPP idem.

11 min de leitura
Inferências “Fazer Política” e capacidade de “Fazer Política”

Por António Sousa Pereira

Há um ano atrás, a vida estava ao rubro, no regresso de férias vivíamos em plena pré-campanha eleitoral para as autárquicas 2005.
A luta real, nas diferentes freguesias e no concelho, era saber se, de facto, de novo voltava o “ciclo pendular”.
Tratava-se de obter a prova dos nove, se, na realidade, ao nível autárquico, o PS consolidava a sua base eleitoral, e, naturalmente, saber se o PCP continuava a sua fase de descida eleitoral, ou se estancava (porque nas legislativas o PCP já tinha registado a sua estabilização eleitoral e uma ligeira subida).

“Ciclo pendular” marca vida eleitoral do concelho

Havia uma grande incerteza. Mas, sem dúvida, a luta entre o PCP/CDU e PS estava ao rubro e na batalha eleitoral a discussão era voto a voto.
Tal, era, sem dúvida, uma evidência para quem acompanhava a vida no dia a dia da cidade, sem estigmas, ou visões “clubistas”, ou ilusões que colocam os desejos acima da dimensão real dos números e dos factos.
Hoje, é cada vez mais um facto, que a leitura dos números pode demonstrar, que o PCP/CDU e o PS, no concelho do Barreiro, têm bases eleitorais muito próximas e a bipolarização sendo uma realidade, como tem sido desde que o PCP/CDU perdeu a maioria absoluta, pode apenas significar que o “ciclo pendular” vai marcar a vida eleitoral do concelho nos próximos anos, ou seja, o PS vence as eleições legislativas no concelho do Barreiro e depois perde as eleições autárquicas.

“Herança airista” foi desbaratada em quatro anos

O PS teve um líder local que, após alguns anos de anticomunismo primário e de “controleirismo interno”, percebeu que só dava a volta e quebrava esse “ciclo pendular” se dinamizasse duas acções: primeiro unir o PS na sua diversidade, colocando ao seu lado mesmo aqueles que eram seus ódios de estimação; segundo promover uma dinâmica de forma a abrir o PS à comunidade, gerando uma espécie de “estados gerais” de forma a atrair ao Partido Socialista, as classes médias locais e os grupos de interesses locais, que já manifestavam algum cansaço do autismo do PCP/CDU.
Aires de Carvalho percebeu uma coisa simples que de facto era líder e senhor no PS, com a lei dos “votitos”, mas, percebeu também que, apesar de ser “senhor” do PS, não era o “senhor” do Barreiro, porque encontrava a oposição, nas autárquicas, dentro do próprio PS e isso era uma barreira na luta pelo objectivo da conquista da Presidência da Câmara.
Portanto, esta lição de abertura e de humildade política, de um líder carismático e histórico, pode dizer-se, foi a “herança airista” que o PS ( ou alguns sectores do PS, que entretanto se tornaram fundamentalistas), desbarataram em quatro anos de poder e, ainda hoje, continuam a desfazer lentamente.

Entre a inclusão e a exclusão politica

O PS chegou ao poder no concelho do Barreiro promovendo acções de inclusão, mostrando desta forma a diferença em relação ao PCP/CDU que estava mais voltado para promover acções de exclusão.
A diferença que o PS anunciava em relação ao PCP/CDU estava plasmada num slogan – “o que é de todos por todos deve ser decidido”.
Depois, para dar mais força a esta ideia, o PS juntou propostas, sonhos, desejos – uma ideia de cidade moderna e participada.
Era esta a grande afirmação que o PS deveria ter conseguido dinamizar enquanto poder : um projecto estratégico de cidade e um modelo diferente na gestão da cidade.
Mas, o PS, em muitas áreas conseguiu gerir no essencial igual ao PCP e a visão de cidade que começou a conceptualizar foi, por vezes, mais objecto de combate da parte do aparelho socialista, do que das forças da oposição.
Hoje quando passamos na Avenida Alfredo da Silva, olhamos e sentimos, ali, real, a presença da gestão socialista. Está bonita aquela Avenida Alfredo da Silva.
Pois, mas, este melhoramento no centro da cidade, sofreu mais criticas dos socialistas do que das forças da oposição – o PCP criticava a prioridade deste investimento, o BE exigia um estudo mais global e que não se ficasse apenas por aquela obra de cosmética. E, no PS, coitado do Emídio Xavier era trucidado.
O PS perdeu mas a obra ficou ( acabada pelo PCP/CDU) a embelezar o centro da cidade.

Potenciar o capital político que o PSD

Mas, voltemos atrás, e, pensemos que, há um ano atrás, o PCP/CDU estava na rua, casa a casa, dialogando e procurando desenvolver uma dinâmica de inclusão.
Cheguei a ouvir, eleitores do PSD, referir ao actual Presidente da Câmara, na altura candidato : “Tenho uma grande esperança em si!”
E, já agora, dizer que outro erro estratégico do PS ( ou de alguns sectores) foi que, na verdade, não soube potenciar o capital político que o PSD colocou nas suas mãos, dando visibilidade Mendes Costa e comprometendo o PSD na gestão autárquica.
Alguns apostavam mais na exclusão, no combate ao PSD, ignorando, que num ambiente de bipolarização, no Barreiro, o PSD e as suas posições serão decisivas para fazer tombar a classe média nas suas opções de voto para um ou para outro lado ( o chamado voto útil, que deu a vitória a Pedro Canário e deu a vitória a Emídio Xavier, e, deu uma grande ajuda à vitória de Carlos Humberto).
Outro exemplo prático, o PS inaugurou uma obra importante e estruturante, talvez das mais importantes nas últimas décadas, a ligação viária de Casquilhos com Santo André.
Uma obra que pouco ao nada foi valorizada, aliás, o que se valorizou foi a “ciclovia” que, naturalmente, deu um grande gozo a Bruno Vitorino, desvalorizar, até porque, não se deu relevo sequer ao facto de ter sido Mendes Costa que acompanhou, enquanto vereador, a realização deste projecto estruturante.
Sempre presente a estratégia da exclusão que contrariava a vontade e a forma de fazer política de Emídio Xavier, que, desta forma perdia a sua dimensão de líder, sucumbindo nas malhas da “ciclovia”.

O “assassinato político” de Emídio Xavier

Portanto, há uma ano atrás, enquanto o PCP/CDU vivia uma táctica de inclusão, o PS vivia numa táctica de exclusão, que se estendia, ao universo blogueano, na ofensa aos seus militantes e autarcas e à difamação de todos aqueles que tinham opiniões criticas ou diferenças de opinião com o “status quo”, que ambicionava e ambiciona fazer do PS, um partido sem respeito pelas diferenças – quem não está comigo está na Atalaia!
O PCP/CDU venceu as eleições e iniciou uma “onda” de debates com a população, dando continuidade ao que fizera na pré-campanha e na campanha eleitora, e, naturalmente, de denúncia das dificuldades financeiras que encontrou na autarquia.
O PCP/CDU ganhou espaço e começou a marcar a agenda política na vida local.
Porque, afinal, casa onde não há pão, todos ralham…e há compreensão!
O PCP/CDU beneficiou, igualmente, de imediato, pelo facto de ter sido feito o “assassinato político” de Emídio Xavier.
O PS pulverizou-se. O PS deu o golpe final na “herança airista” – o que é de todos por todos deve ser decidido!
O PS tendo perdido as eleições não perdeu as políticas que implementou e que o PCP/CDU está a dar continuidade – FORUM, Quimiparque, POLIS, Cidade do Cinema, ou até, mesmo aquelas bandeiras, sobrevalorizadas por Emídio Xavier, do Projecto EscolasBarreiro.

E, sem dúvida, o PS só tinha ganho politicamente, se tivesse aprendido com os erros, e tivesse sido capaz, após a derrota, recuperar a estratégia de Aires de Carvalho : apostar na acção política partidária que aceitasse a unidade a diversidade e manter o diálogo com a comunidade, alargando de imediato a ponte ao Bloco de Esquerda, sendo, para este efeito, Emídio Xavier um importante capital para alcançar esse objectivo.
Mas isso era difícil. Porque os dados estavam lançados e Emídio Xavier, era, um líder a prazo, quer ganhasse, quer perdesse as eleições.
A prová-lo está, hoje, a ruptura de João Soares, assim como a abertura de uma nova sede do PS ( esvaziando a dimensão concelhia de um partido) abrindo brechas ao desenvolvimento da ineficácia de acção politica dos socialistas ao nível local.
Entretanto, o BE hibernou. O CDS/PP cumpriu a sua missão, habitual, marcou presença nas autárquicas. O PCTP/MRPP idem.

“Fazer Politica” e capacidade de “Fazer Política”

Carlos Humberto beneficiou do conforto politico que ganhou, por parte da classe média do Barreiro, que prefere, sem dúvida, ter o PCP/CDU no poder, que ter um PS fragmentado a dirigir os destinos da cidade e que poderia conduzir o Barreiro à vivência da “teoria do pântano”.
Carlos Humberto é um Presidente de Câmara que tem vindo a afirmar a sua autoridade moral, no diálogo, e na partilha do poder na gestão municipal.
O PSD marca presença. João Soares é um exemplo de solidariedade institucional.
E, hoje, o PS parece que existe. Aliás, há o PS liderado por Luís Ferreira. Há o PS liderado por Carlos Duarte ( o rosto visível da estratégia de Amílcar Romano, candidato à liderança do PS).
Carlos Humberto tem vindo a demonstrar que “fazer politica” é uma coisa, ter capacidade de “fazer política” é outra coisa, demonstrando que há quem mande, quem toma decisões e que, com “sentido de estado” não coloca em causa, antes pelo contrário, dá continuidade aos projectos e está aberto para desenvolver “ideias” ou “projectos” herdados da gestão socialista.

PCP/CDU continua a viver o “estado de graça”

O PCP/CDU tem vindo a gerir a cidade conquistando fazendo política com civismo.
Um ano depois, Carlos Humberto e o PCP/CDU continua, afinal, a viver o “estado de graça”.
O PS é liderado por Luís Ferreira que procura unir pontes, dar visibilidade a um partido que está fragmentado e que funciona sem unidade na diversidade.
E, aliás, acontece, para alguns sectores socialistas, nesta diversidade pulverizada, sentirem, ou pensarem que são os senhores do mundo e o melhor que o Barreiro tem, optam por cultivar o anticomunismo primário e promover o discurso que assenta na premissa : quem não está de acordo connosco é “comunista”, vendo o mundo a preto e branco.
O PSD vai esticando a corda em relação ao PS e ao PCP/CDU, separando-se dessas forças políticas, afirmando-se como força que intervém na gestão municipal sem que para tal tenha que abdicar da sua visão de cidade e estratégias.

PSD dá estabilidade e confiança à classe média

O PSD é um partido que conta com o protagonismo de Bruno Vitorino e, talvez, o pior erro que a CDU pode um dia fazer é entrar em conflito com o PSD, porque este partido é decisivo na correlação de forças e na estabilidade da confiança da classe média na gestão autárquica.
O PSD é, nos dias de hoje, no Barreiro, a força política que mais confiança dá á classe média local, dado que o PS ainda não arrumou a casa e continua voltado para o seu próprio umbigo.
Bruno Vitorino sabe isso por isso estica a corda, mas, simultaneamente, o que pretende é ter protagonismo e visibilidade na acção que desenvolve na autarquia, porque, na verdade, este protagonismo é essencial para que se veja a diferença do PSD e do PS na intervenção e contributo para a vida local.
Aliás, Bruno Vitorino está na linha de pensamento de João Soares, que entretanto, tornou-se vereador independente, sendo vítima da ausência de estratégia clarificada do PS, acerca da sua participação na vida municipal.
Aliás, João Soares, até contou com a solidariedade do líder socialista Carlos Duarte ( que politicamente cultiva o anticomunismo basista e denuncia as perseguições aos trabalhadores na autarquia).
Quanto ao BE, espera-se que saia da hibernação politica.
O CDS/PP parece que anda por aí…
E o PCP/CDU, sem oposição, vai gerindo o “estado de graça” e prepara, com o estilo formiguinha, o futuro e as mudanças no modelo de gestão autárquica.

PCP/CDU vai ter superar o discurso da “crise”

Mas, o PCP/CDU vai ter superar o discurso da “crise” para o discurso da “estratégia”…e, fazendo, como está a fazer, uma obra aqui, outra obra ali, não deixando para trás nenhum projecto herdado do PS
(caso Tanque do Lavradio), tal, como o PS fez na sua gestão, que deu continuidade às obras herdou da gestão CDU, vai retirando espaço de manobra à oposição.
E, um ano depois…o PCP/CDU está como peixe na água, com um PS, que voltou ao seu melhor nos anos 80, um PSD que se afirma como força de influência e de alternativa ao PS, e portanto, é uma boa ajuda ao PCP/CDU, um BE…que está à espera para colher as migalhas dos conflitos.
Ficamos por aqui, esta é uma mera reflexão para começarmos a pensar… um ano de gestão PCP/CDU.
Vamos continuar…

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