Ponto e VírgulaQuando comemorar o 5 de Outubro era sonhar LIBERDADE!

Por Jornal Rostos
Recordo, como se fosse hoje, ali, no Teatro Cine Barreirense (agora uma Igreja de culto), recordo a sua voz trovejante a erguer-se na noite. E, eu, por trás dele, perplexo, fiquei com aquela imagem a marcar, para sempre, o Dia 5 de Outubro.
Recordo as reuniões preparatórias das comemorações do 5 de Outubro de 1973.
Recordo a solidariedade, o sentimento que a todos nos unia, nesse sonho de comemorar a República e gritar LIBERDADE.
A sala encheu. Ao fundo da sala, por trás da mesa, lá estava, vigilante e atento um oficial da GNR. Como para medir as palavras, ou controlar os silêncios.
O Mestre Manuel Cabanas, o meu sempre amigo, conterrâneo e ilustre Manuel Cabanas (mesmo quando, depois, após o 25 de Abril, seguimos caminhos diferentes, nunca deixamos de manter uma solidária amizade), sim, era, naquela noite, o Mestre Cabanas que presidia a sessão evocativa comemorativa do 5 de Outubro.
As intervenções decorriam. Escutavam-se os aplausos. Na rua, por vários cantos, ao entrar, deparámos com olhares vigilantes e atentos. A cidade vigiada.
Estar, só estar ali, já era um acto de coragem e de luta contra o medo.
Mas, nada detém um homem, quando sonha liberdade, quando ama a liberdade e essa era a luta, esse era o sonho.
Os tiranos nunca foram capazes de entender esta coisa tão simples – “não há machado que corte, a raiz ao pensamento…”
Eu estava sentado ao meio da sala. Numa cadeira ao meu lado o Leonel Coelho, o resistente de Alhos Vedros ( o sempre e eterno candidato do PCTP/MRPP, para a Presidência da Câmara Municipal da Moita, ou cabeça de lista para Deputado da Assembleia da República, no Distrito de Setúbal), um homem que admiro e estimo, quer como dirigente associativo da Academia de Alhos Vedros ( da inesquecível Feira do Livro), quer como lutador e, sublinho, com quem sempre mantive e mantenho uma amizade solidária, que se estende a esses tempos que guardo na memória.
Eu era um jovem, prestes a ingressar na vida militar.
Dias antes, num encontro na Avenida da Praia, tinha tomado a decisão de não fugir, pois, se o quisesse fazer, poderia ter feito e teria apoios e contactos para dar esse passo.
Optei por ficar. Lutar. Sonhar que a LIBERDADE um dia iria passar por ali…e, talvez, nem tinha consistência ideológica e consciência política para dar esse passo de forma absoluta.
Sim naquela noite, em pleno Teatro Cine Barreirense, todos nós vivíamos com uma profunda paixão, a festa da República – um pretexto para sonhar e gritar LIBERDADE.
O Leonel Coelho chamou-me e disse-me : “Olha, vai ao palco. Diz ao Mestre Cabanas, que há uma proposta para que se faça um minuto de silêncio em memória de Catarina Eufémia.”.
Levantei-me. Dirigi-me pela ala lateral e subi ao palco. Passei junto ao oficial da GNR. Dirigi-me ao Mestre Manuel Cabanas, e, transmiti-lhe a mensagem que enviava o Leonel Coelho.
O Mestre Manuel Cabanas, de imediato, levantou-se do seu lugar, ao centro da mesa, de forma solene, ergueu a sua voz ( que muitos que o conheceram recordam) e disse : “Pedem que seja feito um minuto de silêncio em memória de Catarina Eufémia.”
De imediato um ruído ensurdecedor na sala, todos, um a um, ergueram-se, de pé, para guardar aquele minuto de silêncio. Fiquei especado por trás do Mestre Manuel Cabanas. E, mesmo ali partilhei, aquele gesto ( que sublinho, na altura, nem sequer lhe entendi a sua total dimensão política) de luta, de silêncio gravado no sangue da memória.
Foi um minuto que, ainda hoje, pulsa no meu coração. Um minuto de memória e de luta.
O tempo passou. Chegou Abril. E, desde esse dia, quando chega o 5 de Outubro, esse instante ocorre-me ao pensamento e sinto, afinal, que valeu a pena lutar, sonhar LIBERDADE.
Sim, afinal, é por isso, quando a LIBERDADE fica gravada no coração e nos nervos do pensamento, não há sorrisos, nem interrogações, nem adjectivações, que coloquem à frentes dos nossos olhos que nos perturbem ou desviem desse caminhar…e sonho!
Aliás, essas insinuações de pseudo purismos ideológicos, que escondem arrogância e intolerância, pelo contrário, dão-nos força e energia para continuar a sonhar, lutar e nunca abdicar desse direito que começámos a construir nos tempos do medo e do silêncio, prosseguimos nos dias de Abril que ajudámos a construir e continuamos a manter como ideal – a valorização da cidadania e a construção da democracia.
Admiro quem defende valores, mesmo que eu possa, por razões culturais, pensar e sentir de forma diferente.
Mas, causa alguns nervos, sentir quem, em nome de valores que se diz defender, usar essa capa, não como um fim, mas como um meio. E são tantos, de tantas cores feitas.
É talvez, uma das razões que me leva a admirar Carlos Humberto, actual Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, porque sei que luta e sonha por um ideal ( com o qual, ele sabe, eu rompi), mas que a afirma, a sua vontade, com honestidade intelectual, e, esse sonho de construir um Barreiro diferente e moderno, onde os cidadãos possam contribuir na construção da cidade. Pronto ! Estou feito.
Gostava de ver outros, com outros ideias, lutar com a mesma paixão e confiança, afirmando esses valores e cultivando as diferenças, não por estigmas, mas pela força da razão e pela vontade de mostrar que a política tem ética e valores ( acima do querer ser poder e só poder) e diferenças no fazer cidade.
Aliás, recordo Emídio Xavier, ex- Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, um homem que também vi, viver todos os dias, com um espírito de missão e a cultivar valores. Pronto. Também estou feito.
São dois exemplos. Diferentes. Mas, a vida constrói-se e aprende-se nessa descoberta do sentido das diferenças.
E, na verdade, dou estes dois exemplos, apenas porque são duas referências actuais, que permitem reflectir, sobre o ser poder, ou estar poder – nesta consciência da res publica - porque considero que, afinal, é assim, quando se é, ou está no poder, que podemos apontar caminhos e dar exemplos.
Só, se formos exemplo e referência, pela nossa acção, seremos capazes de ser uma força e um exemplo para FAZER CIDADE.
Acordar, olhar o espelho e olhando os olhos, sentimos, que, afinal comemorar o 5 de Outubro, nos dias de hoje, será, também, uma forma de manter viva essa esperança da LIBERDADE e esse sonho de FAZER CIDADE.
Liberdade que só é possível construir cultivando o direito à diferença, o respeito pelas diferenças.
Nos tempos de hoje quem faz jornalismo (tendo dentro de si, as memórias do medo e do silêncio, dos senhores que nos cortavam as palavras e impunham uma forma de pensar), certamente, sabe que, cada vez mais, é preciso saber estar de pé…e nunca abdicar de CONSTRUIR LIBERDADE!
António Sousa Pereira













