Saltar para o conteúdo
Inferências

Ponto e VírgulaQuando comemorar o 5 de Outubro era sonhar LIBERDADE!

Há datas que não esquecemos. Dias que nos marcam a memória. Ficam gravados no pensamento, no fundo coração e, depois, por vezes emergem, como sinais que nos fazem sentir vivos e, nesse instante, ao pensarmos no tempo vivido, olhando para trás, afinal sentimos, que valeu a pena lutar, sorrir, e, cultivar esse sonho de liberdade.

6 min de leitura
Ponto e Vírgula Quando comemorar o 5 de Outubro era sonhar LIBERDADE!

Por Jornal Rostos

Recordo, como se fosse hoje, ali, no Teatro Cine Barreirense (agora uma Igreja de culto), recordo a sua voz trovejante a erguer-se na noite. E, eu, por trás dele, perplexo, fiquei com aquela imagem a marcar, para sempre, o Dia 5 de Outubro.
Recordo as reuniões preparatórias das comemorações do 5 de Outubro de 1973.
Recordo a solidariedade, o sentimento que a todos nos unia, nesse sonho de comemorar a República e gritar LIBERDADE.

A sala encheu. Ao fundo da sala, por trás da mesa, lá estava, vigilante e atento um oficial da GNR. Como para medir as palavras, ou controlar os silêncios.
O Mestre Manuel Cabanas, o meu sempre amigo, conterrâneo e ilustre Manuel Cabanas (mesmo quando, depois, após o 25 de Abril, seguimos caminhos diferentes, nunca deixamos de manter uma solidária amizade), sim, era, naquela noite, o Mestre Cabanas que presidia a sessão evocativa comemorativa do 5 de Outubro.
As intervenções decorriam. Escutavam-se os aplausos. Na rua, por vários cantos, ao entrar, deparámos com olhares vigilantes e atentos. A cidade vigiada.
Estar, só estar ali, já era um acto de coragem e de luta contra o medo.
Mas, nada detém um homem, quando sonha liberdade, quando ama a liberdade e essa era a luta, esse era o sonho.
Os tiranos nunca foram capazes de entender esta coisa tão simples – “não há machado que corte, a raiz ao pensamento…”

Eu estava sentado ao meio da sala. Numa cadeira ao meu lado o Leonel Coelho, o resistente de Alhos Vedros ( o sempre e eterno candidato do PCTP/MRPP, para a Presidência da Câmara Municipal da Moita, ou cabeça de lista para Deputado da Assembleia da República, no Distrito de Setúbal), um homem que admiro e estimo, quer como dirigente associativo da Academia de Alhos Vedros ( da inesquecível Feira do Livro), quer como lutador e, sublinho, com quem sempre mantive e mantenho uma amizade solidária, que se estende a esses tempos que guardo na memória.
Eu era um jovem, prestes a ingressar na vida militar.
Dias antes, num encontro na Avenida da Praia, tinha tomado a decisão de não fugir, pois, se o quisesse fazer, poderia ter feito e teria apoios e contactos para dar esse passo.
Optei por ficar. Lutar. Sonhar que a LIBERDADE um dia iria passar por ali…e, talvez, nem tinha consistência ideológica e consciência política para dar esse passo de forma absoluta.

Sim naquela noite, em pleno Teatro Cine Barreirense, todos nós vivíamos com uma profunda paixão, a festa da República – um pretexto para sonhar e gritar LIBERDADE.
O Leonel Coelho chamou-me e disse-me : “Olha, vai ao palco. Diz ao Mestre Cabanas, que há uma proposta para que se faça um minuto de silêncio em memória de Catarina Eufémia.”.
Levantei-me. Dirigi-me pela ala lateral e subi ao palco. Passei junto ao oficial da GNR. Dirigi-me ao Mestre Manuel Cabanas, e, transmiti-lhe a mensagem que enviava o Leonel Coelho.
O Mestre Manuel Cabanas, de imediato, levantou-se do seu lugar, ao centro da mesa, de forma solene, ergueu a sua voz ( que muitos que o conheceram recordam) e disse : “Pedem que seja feito um minuto de silêncio em memória de Catarina Eufémia.”
De imediato um ruído ensurdecedor na sala, todos, um a um, ergueram-se, de pé, para guardar aquele minuto de silêncio. Fiquei especado por trás do Mestre Manuel Cabanas. E, mesmo ali partilhei, aquele gesto ( que sublinho, na altura, nem sequer lhe entendi a sua total dimensão política) de luta, de silêncio gravado no sangue da memória.
Foi um minuto que, ainda hoje, pulsa no meu coração. Um minuto de memória e de luta.

O tempo passou. Chegou Abril. E, desde esse dia, quando chega o 5 de Outubro, esse instante ocorre-me ao pensamento e sinto, afinal, que valeu a pena lutar, sonhar LIBERDADE.
Sim, afinal, é por isso, quando a LIBERDADE fica gravada no coração e nos nervos do pensamento, não há sorrisos, nem interrogações, nem adjectivações, que coloquem à frentes dos nossos olhos que nos perturbem ou desviem desse caminhar…e sonho!
Aliás, essas insinuações de pseudo purismos ideológicos, que escondem arrogância e intolerância, pelo contrário, dão-nos força e energia para continuar a sonhar, lutar e nunca abdicar desse direito que começámos a construir nos tempos do medo e do silêncio, prosseguimos nos dias de Abril que ajudámos a construir e continuamos a manter como ideal – a valorização da cidadania e a construção da democracia.
Admiro quem defende valores, mesmo que eu possa, por razões culturais, pensar e sentir de forma diferente.
Mas, causa alguns nervos, sentir quem, em nome de valores que se diz defender, usar essa capa, não como um fim, mas como um meio. E são tantos, de tantas cores feitas.
É talvez, uma das razões que me leva a admirar Carlos Humberto, actual Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, porque sei que luta e sonha por um ideal ( com o qual, ele sabe, eu rompi), mas que a afirma, a sua vontade, com honestidade intelectual, e, esse sonho de construir um Barreiro diferente e moderno, onde os cidadãos possam contribuir na construção da cidade. Pronto ! Estou feito.
Gostava de ver outros, com outros ideias, lutar com a mesma paixão e confiança, afirmando esses valores e cultivando as diferenças, não por estigmas, mas pela força da razão e pela vontade de mostrar que a política tem ética e valores ( acima do querer ser poder e só poder) e diferenças no fazer cidade.
Aliás, recordo Emídio Xavier, ex- Presidente da Câmara Municipal do Barreiro, um homem que também vi, viver todos os dias, com um espírito de missão e a cultivar valores. Pronto. Também estou feito.
São dois exemplos. Diferentes. Mas, a vida constrói-se e aprende-se nessa descoberta do sentido das diferenças.
E, na verdade, dou estes dois exemplos, apenas porque são duas referências actuais, que permitem reflectir, sobre o ser poder, ou estar poder – nesta consciência da res publica - porque considero que, afinal, é assim, quando se é, ou está no poder, que podemos apontar caminhos e dar exemplos.
Só, se formos exemplo e referência, pela nossa acção, seremos capazes de ser uma força e um exemplo para FAZER CIDADE.

Acordar, olhar o espelho e olhando os olhos, sentimos, que, afinal comemorar o 5 de Outubro, nos dias de hoje, será, também, uma forma de manter viva essa esperança da LIBERDADE e esse sonho de FAZER CIDADE.
Liberdade que só é possível construir cultivando o direito à diferença, o respeito pelas diferenças.

Nos tempos de hoje quem faz jornalismo (tendo dentro de si, as memórias do medo e do silêncio, dos senhores que nos cortavam as palavras e impunham uma forma de pensar), certamente, sabe que, cada vez mais, é preciso saber estar de pé…e nunca abdicar de CONSTRUIR LIBERDADE!

António Sousa Pereira

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção