Ponto e Vírgula“Afinal como é que o mundo avança?”
Tu sabes, eu sei que sabes, porque cultivaste a amizade durante toda a tua vida.
A amizade constrói-se com o coração.
Há amizades que nós guardamos na raiz dos nossos neurónios, ali, bem fundo, como algo que nos pertence, que nunca abdicamos, nem esquecemos e sabemos, conscientemente, que a partilhamos, nessa relação com o outro...
Sim, a amizade é, sempre, partilha de sentimentos e percursos.

Por Jornal Rostos
Olá Rosa. Pensei que hoje deveria ir ao Torrão visitar-te.
E, mais uma vez, adiei essa visita que está marcada no meu pensamento, porque, a vida, os acontecimentos, este andar de um lado para o outro, de novo, impediu que concretizasse esse desejo, de te reencontrar, agora, no silêncio da planície alentejana, onde descansas.
Sim, de facto, a nossa relação foi, muitas vezes assim, feita de momentos fugidios, de telefonemas, de reencontros adiados, de horas a conversarmos ao telefone, sobre os dias e sobre a vida.
Houve aquele tempo em que te reencontrava, semanalmente, nas páginas do jornal “A Capital”, onde as tuas crónicas, era pérolas de amor, paixão e construção de liberdade.
Sabes, agora, quando sinto o tempo passar, por vezes, dói o pensamento, e, digo-te, sinto uma mágoa enorme, por não ter partilhado mais, muito mais, contigo, aqueles momentos de convívio e gargalhadas, que ficam a perpetuar a nossa amizade.
Tenho pena de não ter parado nos dias e ter encontrado tempo e lugares, para conversar mais, muito mais, com uma “irmã” construída nessa viagem em torno da poesia.
Recordo aqueles dias, quando eu e a Manuela Fonseca, íamos visitar-te, em Almada, e, depois de conversarmos, ficávamos a petiscar aqueles sabores do Alentejo.
Recordo o dia em que fui a tua casa, ali para a zona da Costa da Caparica, onde comemos aquela magnífica açorda alentejana e o sabor do poejo que, como tu dizias, rima com Alentejo.
Tenho saudades da saudade que perdi, no tempo que já não volta…
Mas, a vida, por vezes, é assim, só quando fica para trás o que vivemos, só então, na verdade, sentimos, interiormente, o que ganhámos e o que perdemos.
Recordo quando recebia as tuas cartas pelo correio, dirigidas ao “Poeta”.
Pois, na verdade, foste tu quem me empurrou a cultivar esse prazer de escrever emoções vivas em tela branca e, até, pensar que um dia poderiam chamar-me poeta.
Quando abro o teu livro – “Almada : uma gaivota no vento” sinto um enorme orgulho e ternura, ao ler aquelas palavras, logo no primeiro texto, que dedicas ao Kira e a este teu “irmão” ( como sempre me chamaste).
Tu sabes, eu sei que sabes, porque cultivaste a amizade durante toda a tua vida.
A amizade constrói-se com o coração.
Há amizades que nós guardamos na raiz dos nossos neurónios, ali, bem fundo, como algo que nos pertence, que nunca abdicamos, nem esquecemos e sabemos, conscientemente, que a partilhamos, nessa relação com o outro...
Sim, a amizade é, sempre, partilha de sentimentos e percursos.
Um dia encontrei-te, num “Dia de Mulher”. Não foi encontrar-te foi reencontrar-te.
Disse-te que fazias parte das minhas memórias, de momentos inesquecíveis – porque as tuas palavras foram energia – de amor, de resistência, de sonho.
O teu livro “A Criança e a Vida” marcou gerações, foi o nosso ( dos portugueses) livro do “Principezinho”, que nos abria a porta ao coração das crianças e nos ensinava a cultivar o amor e a cativar a amizade, num tempo de escuridão e tristeza.
Descobri contigo esse sabor da palavra liberdade.
Descobri contigo o peso das palavras e a força das palavras.
Sim, tu minha irmã e amiga. Que contavas com um grande sorriso e ternura nos olhos brilhantes, aquela estória, que aconteceu, no aeroporto do Canadá, quando o “Espanta Pardais” foi despedir-se de ti…com um cante alentejano.
Estou a escrever para ti estas palavras, hoje, dia 13 de Outubro, data em que passam dois anos, em que partiste.
Sinto, cá dentro, que tenho muitas saudades de ti.
Tu a Mestra de meninos. Tu a escritora que tinhas um olhar sobre os dias, crítico, irreverente, inconformado, sonhador.
Tu que encontravas num sorriso a força para os dias sem sol.
As tuas palavras tinham todas as cores do mundo.
As tuas palavras voavam com as gaivotas e navegavam nas ondas do Tejo.
As tuas palavras tinham a força do sol, que se estende na planície.
Não te esqueci. Não te podia esquecer.
E, retomo, hoje aqui, para finalizar, estas palavras que te dirijo, aquelas tuas palavras que comentei, quando da apresentação do teu livro : “Não só quem nos odeia” ( no Auditório do PCP, no Barreiro, que estava repleto para partilhar os teus sonhos), escreveste tu irmã : “Sei apenas que existe uma razão qualquer, antiga, inicial, que me leva a bater-me, a lutar sempre, a estar do lado dos que considero verticais e destemidos mesmo que, também saiba que me bato por nada, que vou perder, porque não tenho esquemas, não sou premeditada, nem oportunista, nem acredito em qualquer valor terreno que me bata à porta, nem me interessa mais que uma franciscana maneira de atravessar os dias carregando apenas o mínimo dos mínimos. E mesmo esse tão pouco me pesa, me é excessivo, me envergonha, porque ainda choro com os noticiários do Afeganistão, e com a maldade dos tiranos da Líbia e com o esquecimento do que se passa em Timor Leste e com os massacres, e com os ventres dilatados e os olhos acesos de fome e a resignação das crianças esfomeadas, deste mundo indecente, deste mundo de escandalosas opulências, podre de inútil violência, rebentando armas nucleares, ridículo, com seus governantes obscenos e inconsequentes”.
Foram estas palavras que sempre foram o teu cartaz, o teu autocolante, o teu cravo, nas horas de luta, nas horas de amor, nas horas de amizade, nas horas de solidão…viveste com a vontade de ajudar a transformar o mundo e a tua marca está presente, viva, por tudo isso, hoje e aqui, não te podia esquecer.
Escrevo-te, hoje, porque, tenho saudades de ti e porque, na hora da tua partida…nem uma palavra rasgou o meu coração, nem uma lágrima chorei por ti…porque quis guardar o teu rosto iluminado de poesia.
Afinal, um poeta não morre é perene, na semente das suas palavras, na limpidez do seu olhar, e, quando acordamos e olhamos o sol, ou ao deitar, sentimos a luz do luar, somos capazes de sentir que o poeta está presente, ali, para nos despertar para os dias e interrogar : “Afinal como é que o mundo avança?”
Um beijo de saudade para ti
Minha irmã, Maria Rosa Colaço.













