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Inferências

SALVEMOS ALBURRICA E OS SEUS MOINHOSPor Eugénio Silva

É urgente, salvar Alburrica e os seus moinhos. A população, infelizmente, não tem poderes para isso. Que o tentem as Entidades Camarárias, a Capitania, os donos se os tiverem, sei lá !... Mas salvem-nos !!.....É preciso conservar do Barreiro o pouco espólio de valor que ainda existe..
Salvemos Alburrica e os seus moinhos... antes que seja tarde !

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SALVEMOS ALBURRICA E OS SEUS MOINHOS Por Eugénio Silva

Por Jornal Rostos

Há locais eternamente ligados à nossa memória. A velha casa onde nascemos, o muro onde brincámos, o chafariz onde bebemos, são motivos que ficam para sempre gravados em nós. Fazem parte, não do nosso imaginário, mas de realidades bem vivas dum tempo passado. São partes da nossa identidade.
Os moinhos de Alburrica, tão silenciosamente calados, tão modestamente imóveis, também fazem parte da nossa identidade. São testemunhas ancestrais dum tempo que vem de longe, de séculos atrás. Habituámo-nos de pequenos a vê-los, como parte da nossa infância e da história desta terra que foi vila, e hoje é cidade.
Quem vem da capital, a primeira visão que tem do Barreiro são aqueles três moinhos, alinhados. mudos e brancos, uma visão que é já o “ex-libris” do Barreiro, e que corre o risco de desaparecer. A acção erosiva dos catamarans, tão forte, descobriu uma parte desconhecida do nosso passado, os alicerces da primeira ponte do Mexilhoeiro, mas mais adiante vai destruindo pouco a pouco outra parte desse passado. As águas estão minando, progressivamente, os alicerces daqueles três moinhos. E um dia, sem que ninguém se aperceba, eles já não existem, ou estarão reduzidos e um monte de ruinas.
É imperativo conservar o amor à nossa terra e a tudo o que lhe pertence. O progresso não implica, forçosamente, destruir o pouco que temos de valioso e antigo. É uma questão de amor, de dever, e de dignidade.
Os antigos moinhos de maré, alguns do século XV, estão já reduzidos a um monte de escombros, e deles apenas restam as aberturas das suas setias. O “Poço dos 16”, já com duzentos anos, desapareceu há anos, e muitos nem sequer o conheceram. Edifícios oitocentistas vão desaparecendo e dando lugar a frios e incaracterísticos edifícios de betão.
Um dia acordamos, olhamos à nossa volta e não conseguimos vislumbrar a bela vila piscatória que foi o Barreiro, e só conseguimos ver à nossa volta uma cidade-dormitório que nada nos diz. Para quê adulterar o pouco de histórico que temos ainda, sem, nalguns casos, tentar sequer tentar uma restauração honesta e cuidada ?... Se ele há tanto espaço para ocupar e desenvolver !... Quanto tempo durará a dignidade histórica dum recanto tão típico, como o Largo do Rompana ?
Outras localidades, como o nosso vizinho Seixal, têm sabido manter e conservar a sua antiga zona ribeirinha, sem a adulterar, estendendo para Sul as urbanizações modernas Porque não seguir esse bom caminho ?
Os moinhos de vento de Alburrica, do século XIX, foram outrora tão belos que os imortalizaram, nas suas obras, pintores como Silva Porto, João Vaz, Barradas... Os moinhos de maré, alguns com seis longos séculos de existência, uns desapareceram já, como o quinhentista Moinho da Verderena, outros estão reduzidos a montes de escobros. Quem se preocupou já em lhe erguer ao menos as paredes, conservar a sua dignidade ?
E a própria Alburrica, cujo nome de origem muçulmana, al-barriqâ ( “o brilho”, “o esplendor” ) estende a sua antiguidade a quase dez séculos, qual o valor histórico que se lhe dá hoje ?
Porque não transformar os moinhos em espaços lúdicos, informativos, didácticos ?... Porque não devolver aos três moinhos de Alburrica as suas velas ?... Sem mós nem entrosgas, que os moinhos hoje já não moem farinha. Apenas mastros e velas armadas girando simples e alegres ao sabor do vento, dando-lhes vida.. E cuidar mesmo das caldeiras, como recentemente se fez na Caldeira do Alemão !....
É urgente, salvar Alburrica e os seus moinhos. A população, infelizmente, não tem poderes para isso. Que o tentem as Entidades Camarárias, a Capitania, os donos se os tiverem, sei lá !... Mas salvem-nos !!.....É preciso conservar do Barreiro o pouco espólio de valor que ainda existe..
Salvemos Alburrica e os seus moinhos... antes que seja tarde!

Eugénio Silva

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