QUEIRADAS DE CINTASomos todos iguais, menos na cor da pele
Por Kira

Por Jornal Rostos
Há uns meses, porque não tenho emprego e não quero trabalhar nas obras, resolvi dar umas voltinhas pela zona onde vai ser instalada a Cidade do Cinema. Tive uma sorte do caraças: à sombra dum bife estava um grupinho que se dedicava, nas horas “livres” à plantação de vacas. Eu explico: horas “livres” chamamos nós (aderi ao grupo) às horas em que estamos fora da prisão. Plantação de vacas é uma forma airosa de, atormentados pela onda racista que invade o país, cultivar na zona da cal, uns pezinhos de vaca para, aos fins de semana podermos fornecer os humanistas que estão contra o aborto e desejam comer umas queijadinhas à sombra de uns bifes. É apenas uma distracção, esta de plantar vacas e uma forma de luta “anti-racista” já que as vacas são malhadas a preto e branco. No nosso meio, o assalto é o pão- nosso de cada dia. Porque me aceitaram sem mais perguntas? Sou um alentejano, muito moreno. E quais foram as condições impostas? Que todo o telemóvel, bomba de gasolina, cervejaria ou lojinhas roubados o fossem só a brancos. Isto para equilibrar com o grupo do Porto (só brancos) que assalta e ofende os negros. Foi o Mantorras que me contou.
Quero aqui provar, preto no branco, ou branco no preto que o racismo é uma das virtudes de todas as raças humanas. Digo virtude porque toda as pessoas são racistas. Todos nós. Foi Deus que o quis quando puxou da sua paleta celestial e coloriu o pessoal de amarelo, branco, castanho, vermelho e preto. Ao dar-nos cores diferentes talvez tenha pensado utilizar-nos para servir de picoletes nos jogos da Glória ou Monopólio com que os anjinhos no céu se entretêm. Lançados os dados, cada uma sabe sempre a que casa pertence, não podendo assim haver atropelos nem confusões. Houve um percalço e se Deus contou com isso não deixou de ficar surpreso: o aparecimento dos mestiços, criação portuguesa. Mas Deus nunca temeu a concorrência.
O problema a existir fica complicado na altura em que o tabuleiro do jogo é agitado pela ganância de alguns dos jogadores: os brancos invadem as casas dos pretos, os pretos invadem as casas dos brancos, outros invadem os vermelhos a que alcunham de índios e estes ripostam chamando-lhes caras pálidas etc. Os amarelos topando a jogada, constroem uma muralha que os livra dessas invasões. Ainda hoje está em moda.
Vejam o exemplo da misturada de raças que invadiu o Iraque debaixo da bandeira americana para tirar de lá um Saddam e matarem uns milhares com balas e bombas colaterais acabando com a guerra tradicional: os militares safam-se e quem morre são os civis. Aquela maldita arma colateral tem estragado o esquema todo. Os americanos que têm morrido são todos civis. Vestem uma farda mas só para disfarçar. Bush prometeu legalizá-los como americanos. E, vê-se logo que não são militares. Nem nunca foram. Já ganharam alguma guerra, por acaso? Vietname, Afeganistão, Somália, Iraque. Fora as outras que não me lembro. Os Ameríndios que tentam dominar há 200 e tal anos, ainda lha fazem frente. Com reservas, mas fazem.
O que pretendo dizer, contrariando a hipocrisia reinante, é que o racismo existe e ainda bem. Porque ser racista é, não ser daltónico e saber distinguir as cores que Deus nos deu: branco, preto, amarelo, castanho e, deve haver ainda mais. A essência do humano está por dentro. Somos todos iguais, menos na cor da pele. A inteligência, a sabedoria, o amor, a dor e o sofrimento e todos os sentimentos humanos são comuns. Qual é o problema afinal de chamar preto a um preto, branco a um branco, castanho a um índio e amarelo a um chinês? Tenho uma amiga que se chama Maria Azul mas é branca. Tenho outra que é Branca de nome e preta de pele. Tenho um amigo jornalista em Hong-Kong, branquinho de Londres chamado Steven Green. Porra, eles são absolutamente normais.
Devo excluir deste meu amor pelas raças humanas uma raça que está, felizmente em extinção: a monarquia. Sim, a monarquia é uma raça. E tão diferente de nós todos: pretos, brancos, castanhos e amarelos! Porque eles por dentro, são mesmo diferentes de nós. Têm o sangue azul. Ora aí…pára! Sangue azul não é normal nas pessoas de Deus. Só se encontra em alguns bicharocos e em certas plantas. Também são filhos de Deus? Não estou habilitado a fazer juízos sobre essa questão. Fica aqui, pois, o aviso: se querem ser considerados pessoas dirijam-se imediatamente à Robialac do Céu e façam uma transfusão de sangue. Sangue azul é que não!
A minha mulher é negrinha, negrinha, chama-se Rosa e tem o sorriso mais lindo do mundo. Filha de um rei africano (não posso dizer quem é por razões de estado!) demonstrou-me claramente que não tem sangue azul quando ao descascar uma batata, deu um corte no dedo. Eu vi. Verdade que o meu sogro nunca me disse que era de sangue azul mas como é rei…Podia, maldosamente pensar que a Rosa não é filha dele mas até são muito parecidos e as lágrimas são iguais. Até gosto dele… um bocadinho. E não digo “muito” porque, quando o visitamos, e ele nos recebe à porta do palácio, com o sorriso mais bondoso e feliz que conheço, comenta sempre: - lá vem o código de barras.
Kira
Novembro de 2006.













