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Inferências

A(nota)mento“O Barreiro foi uma terra de resistência e nós ajudamos a resistência”

Dulce Cabrita, barreirense, é um nome indissociável da obra de Fernando Lopes Graça, neste ano que se comemora o centenário do nascimento do Maestro, o Barreiro não devia ignorar esse facto.

Augusto Cabrita, produziu das mais belas fotos de Fernando Lopes Graça, quando o Maestro estava a produzir o “Requiem pelas Vitimas do Fascismo em Portugal”, um espólio que, neste centenário, devia ser tornado público e divulgado ao país.

4 min de leitura
A(nota)mento “O Barreiro foi uma terra de resistência e nós ajudamos a resistência”

Por António Sousa Pereira

No dia 17 de Dezembro de 1906, em Tomar, nasceu Fernando Lopes Graça.
Um pouco por todo o país, mas, muito particularmente no Distrito de Setúbal, as comemorações do centenário do nascimento de Fernando Lopes Graça, estão a evocar a obra, o homem e os factos históricos porque, é bem verdade, o homem é ele e a realidade que emerge do tempo que vive.

Penso que é, de facto, difícil dissociar o nome de Fernando Lopes Graça, do nome Dulce Cabrita.
“Ter eu por colaboradora, há umas duas dezenas de anos, a cantora Dulce Cabrita, que, tento em recitais públicos e radiofónicos, como em gravações de discos, tem sido intérprete eleita das minhas obras vocais, com uma seriedade e um profissionalismo exemplares” – estas foram palavras escritas por Fernando Lopes Graça, no dia 27 de Julho de 1983.

Dulce Cabrita, tem realizado, por diversos pontos do país, espectáculos de divulgação da obra de Fernando Lopes Graça.
Dulce Cabrita, editou três CD’s, editados quando do 90º aniversário do nascimento de Lopes Graça.
As obras de Dulce Cabrita, mezzo-soprano, acompanhada ao piano por Fernando Lopes Graça, são : Guirlanda para Federico Garcia Lorca; Canções e Piano solo; Romances tradicionais portugueses.
Quando da edição destes C D’s foi montada uma exposição evocativa da vida e obra do Maestro Fernando Lopes Graça, que percorreu o país, no Algarve, na Madeira, mas, de facto, infelizmente, nunca foi proporcionado a sua vinda ao Barreiro.
Dulce Cabrita, que entrevistei, nos anos 90, sentia alguma mágoa, pelo facto de a sua terra natal, que tinha muito a ver com Fernando Lopes Graça, e, onde, estavam instituídas as Bolsas de Estudo Fernando Lopes Graça, na verdade, nunca se ter lembrado da sua filha natal, nem de a convidar a trazer a exposição e o espectáculo ao Barreiro.

Nas comemorações do centenário, poderia ter sido, na verdade, um momento para convidar Dulce Cabrita, mais não fosse, por exemplo, para promover um Colóquio, com Dulce Cabrita, tendo como tema uma reflexão sobre os trabalhos editados nos três CD’s referenciados.
E, porque não, promover um espectáculo evocativo da obra de Dulce Cabrita e as suas relações com o Maestro Fernando Lopes Graça.

Mas, também, no ano de 1978, no Barreiro, foi realizada, na SIRB “Os Penicheiros”, integrada nas Festas do Barreiro, uma exposição de fotografia de Augusto Cabrita, com fotos que o nosso Mestre foi fazer, especialmente, para prestar uma homenagem a Fernando Lopes Graça.
Fotos espectaculares, com Lopes Graça, no seu ambiente de trabalho, no momento em que estava a produzir o “Requiem pelas Vitimas do Fascismo em Portugal”, que foi executado no 5º aniversário do 25 de Abril.
Estas fotos, poderiam, perfeitamente, ser utilizadas na realização de uma magnífica exposição, uma forma, muito própria de o Barreiro, assinalar o aniversário do Maestro Fernando Lopes Graça.
E, já agora, que belo livro estas fotos poderiam proporcionar…

O Barreiro foi uma cidade que esteve, diversas vezes, no roteiro de cidadania do Maestro Fernando Lopes Graça, uma terra, como ele me disse, quando o entrevistei, em 1978 : “O Barreiro foi uma terra de resistência e nós ajudamos a resistência”.

Por vezes, tenho pena, que o Barreiro deixe passar ao lado, em momentos históricos, as suas próprias memórias, as suas próprias raízes.

António Sousa Pereira

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