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Inferências

InferênciasA propósito do Dia 16 de Dezembro de 2001

Um ano depois da derrota do PS, nas eleições autárquicas, regista-se que, na verdade, alguns sectores da “massa critica” da cidade, opta pelo silêncio, mas, vai comentando, aqui e ali, com uma espécie de “dúvida metódica”.

Por vezes, nota-se, assume o ponto de vista de ter muitas dúvidas em relação ao PS, como força política que, tinha a responsabilidade histórica de se afirmar como alternativa, sendo capaz de em primeiro lugar fazer avaliação dos seus erros, e, por outro lado, continua na expectativa em relação ao PCP/CDU…assim numa espécie de “Banho Maria”, ou, na postura de aguardar como querendo “ver para crer”…para participar!

E, já agora dizer que, essa “massa critica” refere que, muitas vezes, regista e comenta a presença e acção positiva dos partidos que são “franjas” do eleitorado como o PSD e o BE.

15 min de leitura
Inferências A propósito do Dia 16 de Dezembro de 2001

Por Jornal Rostos

No dia 16 de Dezembro de 2001, há cinco anos atrás, o Barreiro viveu um importante acontecimento político da sua história democrática, quando, na abertura do século XXI, se registou a vitória do Partido Socialista nas eleições autárquicas.
Uma coisa, a partir desse momento, parece ser um dado adquirido, a partir de agora, nada será como dantes, porque, pelo bem ou pelo mal, o PCP/CDU deixou de ter como dado adquirido que a caminhada para a vitória eleitoral era “canja”.
O PCP/CDU sabe que tem que abrir as portas à cidade, deixar a cidade respirar e cultivar um projecto de cidadania participado.
Uma participação que está em génese e, naturalmente, não se pode resumir a um “processo administrativo” de criar espaços de “diálogo” ou de onde se expõem “pontos de vista”.

O eterno “Ciclo Pendular”

Após algumas décadas de vivência do “Ciclo Pendular”, ou seja, aquele tempo, em que o eleitorado barreirense, nas eleições legislativas dava a vitória ao PS e, logo de seguida, nas autárquicas, optava por dar a vitória ao PCP/CDU, num ciclo que se repetia, eleições após eleições, na verdade, por fim, no dia 16 de Dezembro de 2001, esse ciclo quebrou-se com a vitória dos socialistas nas eleições autárquicas.
Um dia, certamente, a história será feita com os factos que vão sendo guardados na nossa memória colectiva, no sentido de se avaliar e interpretar as razões que conduziram ao 16 de Dezembro de 2001 e, naturalmente, ao posterior retrocesso, ou, ao regresso ao futuro.
De referir que o PS é uma força política, já, há algumas décadas, no Barreiro, com uma base social de apoio, muito próxima ou idêntica ao PCP/CDU.

Barreiro terra de muitas gentes

O PS venceu as autárquicas de 2001 porque se apresentou ao eleitorado com três ideias força: mudança, diálogo e propostas de modernidade.
O PS até conseguiu que um “estrangeirado” ocupasse a Presidência da Câmara Municipal do Barreiro, sendo esta, também, uma vitória da cidadania, na vida política local, contra aqueles que cultivavam e cultivam, algum “Chauvinismo”, nomeadamente quando afirmam, com alguma altivez : “Sou do Barreiro”, numa atitude, que, por vezes, parecia querer excluir do “ser barreirense”, todos aqueles que não nasceram na cidade.
Nunca se deve ignorar que a terra de um homem é, também, a terra onde nasceram os seus filhos ou a terra onde estão enterrados os seus mortos.
Aliás, sublinhe-se, foi uma nota inteligente de Emídio Xavier, ter introduzido aquele slogan : “O melhor do Barreiro são os barreirenses”, porque, alargou o conceito de “ser barreirense”, deu-lhe uma nova dimensão de pertença, afirmando o Barreiro como terra de muitas gentes, vindas de muitos lados ( foi assim ao longo de séculos, dos tempos da cortiça e ferroviários aos tempos da indústria química e da “aldeia cosmopolita”).

A mudança adiada

Mas vejamos, as tais ideias força com as quais o Partido Socialista galvanizou o eleitorado.
Em primeiro lugar a ideia de “Mudança”.
Os barreirenses estavam cansados do PCP e, muito mais, estavam cansados de um discurso autista que, se empedernia, senhor da razão, sendo incapaz de aceitar o direito à diferença, só porque se discordava era-se, muitas vezes, estigmatizado.
A opção pelo silêncio e pela aceitação paralisadora da “verdade do discurso dominante”, para evitar, a agressividade individual e institucional, era, muitas vezes, a forma mais fácil de agir assumida por muitos agentes locais ou dos cidadãos.
O PS veio dizer que faria uma aposta na mudança : que, o que é de todos por todos seria decidido.
Emídio Xavier que no início do mandato era um homem à solta nas ruas da cidade, que conversava nas esquinas e marcava presença em todas, no final do mandato, já evitava sair à rua, e, até, quase se esquivou ao combate de rua na campanha eleitoral.
Emídio Xavier era o trunfo do PS, mas, dentro do próprio PS, tinha mais conflitos que perante os seus adversários políticos naturais.
A pergunta que fica, para os políticos, aqueles ( a começar por Emídio Xavier) que são os protagonistas da política, é que, se interroguem, sobre as causas e as razões desta evolução.
Houve mudança no modo de viver na cidade?
Ou, começou a ser cultivado um “novo discurso dominante” perante o qual os cidadãos e os agentes locais, começaram a sentir que tinham, igualmente, que sucumbir?
A tal ideia de mudança, na verdade, em pouco tempo – quatro anos – foi metida na gaveta.

Da mudança à frustração

De facto, pouco a pouco, foi sendo gerado um “sentimento indiferença”, ou, talvez, até, “são todos iguais”, quando não mesmo, “voltem comunistas que estão perdoados”.
Do sentimento de mudança inicial, em projecto, e com dinâmicas, por vezes, inovadoras, sentia-se que, por razões exógenas à cidade, mas, endógenas ao Partido que liderava a autarquia, esse sentimento de mudança transformou-se em “sentimento frustração”.
A mudança desejada ficou pelo caminho, no entanto, a vitória do PS, lançou sementes.
O PCP/CDU percebeu que não podia impor-se à cidade, tinha que partilhar a cidade.
O PCP/CDU saiu para a rua e cultivou o diálogo, explorou fragilidades, fez um trabalho de formiguinha, guardando no Verão, para ter de comer no Inverno.
O PS era a cigarra que cantava, cantava, convencido, em alguns casos que – as pessoas tinham um preço – e que a “maioria absoluta estava no papo”, metendo, desta forma, ob jectivamente, na gaveta, a ideia força de mudança durante anos desejada, na promoção de uma cultura de cidadania, respeitadora de diferenças.

A bota não dizia com a perdigota

No que diz respeito ao diálogo, criaram-se instrumentos inovadores, novas tecnologias, promoveram-se os debates sobre o Plano Municipal do Ambiente, lançou-se a ideia de pensar o Barreiro, promoveram-se ideias estratégicas, projectando o futuro, partindo de conceitos do PROT ou de reflexões sistematizadas em estudos da CDR, de carácter supra regional.
Promoveu-se um discurso de cidadania com intencionalidade, mas, na própria força politica que liderava a autarquia, ou seja, no próprio PS, esse discurso funcionava como um “conflito de poder”.
Em vez de ser uma “arma” de mobilização da cidade, era uma “arma” ( e ainda hoje é, para alguns) para cultivar o anti-diálogo ou um diálogo de surdos.
A bota não dizia com a perdigota.
Emídio Xavier falava de TGV, de recuperar as tradições ferroviárias, de transformar o Barreiro num centro industrial de novas tecnologias, de alargar o centro da cidade, arrancava com o FORUM, modernizava, de forma brilhante o centro da cidade com uma nova pavimentação da Avenida Alfredo da Silva ( essa uma bela obra, que deu um novo sentido estético ao centro do Barreiro e que vai ficar como uma referência à sua passagem pelo executivo municipal).
A cidade não entendia este discurso porque, sentia, de dia para dia, que Emídio Xavier era um homem só, e, de trunfo, cada vez mais, tinha, apenas, o facto de ser um “joker” para o PS se manter no poder.
A imagem que existia cada vez mais, na opinião pública, era que existiam vários PS’s.
Se eles não conseguem dialogar, nas diferenças internas, como querem que a cidade acredite na possibilidade de dialogar, sem ter que se subordinar a “forças dominantes”.

PS e PSD de costas voltadas

O PS foi incapaz de promover o seu próprio compromisso eleitoral de aprofundamento da descentralização para as freguesias. Existiam ideias. Não venham dizer que era só pelo facto de as Juntas funcionarem como contrapoder, porque, certamente, haviam outras razões.
Que proposta final concreta foi apresentada às Juntas de Freguesia de forma a encostá-las à parede?
O PS foi incapaz de promover a reorganização interna dos serviços municipais e, não me venham dizer que a culpa foi do PSD ( como já se insinuou numa reunião da Assembleia Municipal).
Aliás as relações com o PSD forma caricatas.
O PSD garantia a governabilidade na Câmara e simultaneamente era ostracizado, como inimigo público nº 1.
Parece que nunca entenderam que o PSD, no Barreiro, há cerca de três ou quatro mandatos, é, tem sido, a força politica determinante – como aliado tácito - para dar a vitória à CDU, e, até mesmo para dar a vitória ao PS.
Não entederam, que, embora o PSD não tenha uma grande expressão eleitoral, no Barreiro, devido ao fenómeno da bipolarização, de facto, quem quiser governar contra o PSD, está a governar para cultivar um adversário que pode ser decisivo, no processo eleitoral, para definir a conquista da Presidência da Câmara.

O fenómeno BE

O fenómeno Bloco de Esquerda, no Barreiro, ainda não tem peso expressivo, embora possa vir a ter, no futuro e, na verdade, seja, já hoje, uma referência, no contexto, da avaliação do conceito de diálogo com as diferenças.
No entanto, no futuro, quer no caso do PSD, quer no BE, a importância destas duas forças de charneira, tudo vai depender das mudanças na Lei das Autarquias, quanto à forma de constituição dos Executivos Municipais.

Propostas de modernidade

Por fim, no que diz respeito às propostas de modernidade, sem dúvida, o PS lançou alguns reptos positivos.
Mas, de todas estas propostas, aquela que podia ter sido, um bandeira de futuro – Projecto Cidade do Cinema – não passou de um filme, cujos contornos, em nada ajudam, a valorizar o sentido das ideias estratégicas apresentadas perspectivando o Barreiro de 2020.
Estas foram ideias apontadas com inteligência sendo cultivadas, mas que nunca chegaram a ser assimiladas pela massa critica da cidade.
Hoje, sente-se um forte sentimento de vazio e desilusão.
Será que as ideias estavam cimentadas ou eram meros esboços conceptuais?
Se estavam implementadas ou se inseriam em programas de acção, afinal, porque existe tão grande silenciamento?
Mesmo o PS, até, hoje, um ano após as eleições, nunca mais pegou de forma objectiva nesta bandeira “Barreiro 2020”.

Emídio Xavier trunfo politico

Passou um ano sobre a derrota eleitoral do Partido Socialista.
O que se esperava do PS era que tendo sido um partido que lançou reptos, agitou as consciências, “propôs” uma nova concepção de cidadania – que o PCP/CDU entendeu e, agora, procura, por todos os meios estimular – dizia que, esperava-se que o PS, perante a derrota avalia-se os resultados, fosse capaz de pedir desculpa aos barreirenses por ter sido incapaz de levar mais longe as suas propostas.
O PS deveria ter reconhecido, igualmente, que os barreirenses são pessoas que votam em quem entendem e que, mais uma vez, nas últimas autárquicas, muitos PS’s, PSD’s ou sem partido – que, na verdade, nas legislativas votam PS, optaram, de novo, por votar PCP/CDU nas autárquicas.
Fizeram-no porque razões?
Não vale a pena as desculpas de politicas nacionais, o problema do PS é local, é um problema de credibilidade local.
Há pessoas que não gostam nada, mesmo nada do PCP, em termos de politica nacional – são PS - mas que no Barreiro, votam PCP, será que essas pessoas tomam essa atitude meramente por birras pessoais?
Sempre defendi o Emídio Xavier como um trunfo do PS, critiquei o facto de o terem “assassinado politicamente” após as eleições.
Mas será que o “assassinaram” ou foi Emídio Xavier que cometeu o “suicídio politico”?
Emídio Xavier ao abandonar a liderança da Comissão Politica Concelhia do PS, após a derrota eleitoral, por cansaço ou por não ter vontade de alimentar guerrilhas de terceira divisão, deixou o PS entregue a si próprio, a uma conflitualidade interna que se traduz na incapacidade de se afirmar como uma força politica capaz de mobilizar os cidadãos para gerar uma alternância ao PCP/CDU.
O Emídio Xavier que sendo “trunfo, afinal, demonstrou, na prática que era um “Joker”.

O PCP/CDU hoje, de novo, como, aconteceu durante algumas décadas, não tem grande oposição.
O PSD é a força politica que ainda vai batendo o pé e, no dia a dia, recorda ao PCP/CDU – “meus senhores o tempo do quero posso e mando já foi”, porque, “há eleições em 2009”.
Quanto ao PS, cada vez mais, na verdade, parece ser muito difícil que volte a unir à sua volta a “massa critica da cidade”, ou mesmo aqueles que, em 16 de Dezembro, lhe deram o benefício da dúvida, porque acreditaram no sonho da mudança, do diálogo e da modernidade.
O PS é hoje, infelizmente, para o desenvolvimento da cidade do Barreiro, de novo, um partido autofágico.
O PS, ou alguns sectores do PS, são incapazes de aceitar as diferenças, cultivam o estás comigo ou estás contra mim, e o “pensamento único”, com anticomunismo primário.
O novo líder do PS, Luís Ferreira, é um jovem que tem nas mãos uma “missão impossível”.
O novo líder do PS quer afirmar o PS como partido de acção constante.
Aliás, esta é uma das diferenças do PS de hoje, do PS de há alguns atrás, é que o PS, agora está, todos os dias, na vida da cidade, enquanto outrora hibernava, no período entre eleições.
Só que, por vezes, parece que se o PS hibernasse, talvez, até fosse melhor, porque não se desgastava, a si mesmo, como continua a fazer todos os dias.
No entanto, os PS’s, de hoje não vão hibernar, porque sentem o “caldo” da alternância de poder e cultivam essa alternância.
No entanto, o PS cultivando a alternância, ignora que deveria, isso sim cultivar a alternativa, Isso não o faz.
A alternativa é diferente da alternância. A alternativa provoca a multiculturalidade. A alternância provoca a bipolaridade.

PCP/CDU vai gerindo

Hoje, no Barreiro, o PCP/CDU parece mais aberto à cidade ( mesmo que por vezes se sinta que é cosmética e , que na verdade, o conceito de participação precisa de ser arejado).
Mas, o PCP/CDU cultiva, nos dias de hoje, mais a vontade de dialogar, de incluir, que, na verdade, o PS, sendo este um partido que tem, enquanto filosofia conceptual, na sua matriz genética, a pluralidade e o direito à diferença.
O PSD faz política e marca pontos. Abstém-se. Vota contra. Agita e apresenta trabalho de casa feito na gestão de pelouro.
O Bloco de Esquerda vai se mexendo nos bastidores recusa o silenciamento.
Na Assembleia Municipal peca pela “cassete” da participação, não aprofundando de forma objectiva o que pretende com esse conceito.
O BE devia caminhar por uma táctica de afirmação de causas – assuntos sociais, associativismo, cultura, ambiente, urbanismo.
É assim, um ano depois, o PCP/CDU vai gerindo, assim ao estilo – “deixa-os poisar”.
Avançou coma reestruturação dos serviços.
Avançou com a descentralização para as freguesias. Gere um orçamento sem hipóteses de recorrer a empréstimos, como o fez na gestão de Pedro Canário, e, também o fez Emídio Xavier.

Um ano depois …as opções

Enfim, passado um ano da derrota do PS, já era tempo de se sentir o PS a levantar-se do chão.
O PS, por vezes, parece que não foi poder quatro anos, que não deixou dossier’s em aberto.
E, um ano depois, o que se pode dizer é que, na realidade, no pulsar da cidade, sente-se que continuam em aberto expectativas em relação ao futuro, o estado de graça em relação ao PCP/CDU, começa a dar alguns tiques e parece que está a terminar.
O Presidente da Câmara, hoje, como nos tempos do PS, aconteceu com Emídio Xavier, é, a figura que tem um “capital de esperança e confiança” que, na verdade, vai para além das expectativas que tem o próprio PCP/CDU.

Uma espécie de “dúvida metódica”

Um ano depois da derrota do PS, nas eleições autárquicas, regista-se que, na verdade, alguns sectores da “massa critica” da cidade, opta pelo silêncio, mas, vai comentando, aqui e ali, com uma espécie de “dúvida metódica”.
Por vezes, nota-se, assume o ponto de vista de ter muitas dúvidas em relação ao PS, como força política que, tinha a responsabilidade histórica de se afirmar como alternativa, sendo capaz de em primeiro lugar fazer avaliação dos seus erros, e, por outro lado, continua na expectativa em relação ao PCP/CDU…assim numa espécie de “Banho Maria”, ou, na postura de aguardar como querendo “ver para crer”…para participar!
E, já agora dizer que, essa “massa critica” refere que, muitas vezes, regista e comenta a presença e acção positiva dos partidos que são “franjas” do eleitorado como o PSD e o BE.

E, para finalizar, vamos ver como vai ser o debate em torno das Grandes Opções do Plano e Orçamento, dado que, este documento, será o principal indicador dos próximos quatro anos.
Sejam felizes…até amanhã.

António Sousa Pereira

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