A(nota)mentoSe não existissem autarcas não existia Poder Local
Será que alguma vez algum autarca usou uma ideia, apenas uma ideia, de um trabalhador das autarquias, para, com essa ideia, transformar a qualidade de vida ou enriquecer o quotidiano?

Por António Sousa Pereira
Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente.
Sem o ministro
da propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida.
Sem o Ministro
da Guerra
Nunca mais haveria guerra.
E atrever-se-ia a nascer o sol
Sem a autorização do Fuhrer?
Bertolt Brecht
Foi este poema de Bertolt Brecht que me ocorreu ao pensamento, no decorrer da reunião da última Assembleia Municipal do Barreiro, quando foi lida e posteriormente aprovada, por unanimidade, uma moção, apresentada pelo Partido Socialista, tendo como tema os 30 anos do Poder Local.
Uma moção onde se salienta – “a importância do Poder Local para a afirmação dos valores e práticas inerentes a uma sociedade aberta”.
Uma moção onde se salienta que – “os autarcas portugueses personificam o testemunho inequívoco do que a consciência cívica e o trabalho abnegado podem alcançar”.
Uma moção onde se salienta, a “sucessão de gestos altruístas” de homens e mulheres autarcas.
Uma moção onde se sublinha – “o papel desempenhado pelo Poder Local no desenvolvimento económico e social de Portugal”.
Uma moção onde se sublinha que – “não podemos negligenciar que o envolvimento dos cidadãos nos processos de decisão é ainda muito incipiente, dado que o exercício do poder no nosso país é tradicionalmente burocrático e pouco transparente”.
Uma moção onde se salienta que – “a participação tem que deixar de ser um flor retórica colocada em alguns discursos para assumir um carácter central nas práticas politicas”.
Uma moção onde se sublinha que vivemos “uma época de aliciantes desafios e novas dinâmicas”.
E por fim uma moção que a propósito de 30 anos de Poder Local saúda “o esforço e empenho dos autarcas que, numa base diária, contribuem para o incremento da qualidade de vida das comunidades em que se inserem”.
E, também, presta homenagem a “todos aqueles que desempenharam funções nos diferentes órgãos autárquicos do concelho, recordando com particular emoção a memória dos homens e mulheres que já não se encontram entre nós”.
Assim, tudo isto, tal e qual, e, na verdade, numa Assembleia Municipal, composta na sua maioria absolutíssima por partidos de esquerda – PCP/CDU, PS, BE e até, por um PSD que, no Barreiro, afirma-se de “centro esquerda”, ali, naquele órgão de soberania politica local, não houve, uma voz, uma única voz que, referisse, que, afinal, neste 30 anos de Poder Local, os autarcas que “tudo fizeram”, por acaso tinham, nesse labor diário de 30 anos, ao seu lado pessoas, que embora exercendo uma profissão, ou sendo pagas para cumprir funções, eles, talvez, durante estes 30 anos, devem ter dado algum contributo para prestigiar e dignificar o Poder Local.
Mas, afinal, que seria deste país se não fossem os eleitos?
Será que as ruas estavam pavimentadas? E teríamos nós água canalizada em casa, se não fossem os eleitos decidirem? E esgotos?
Alguma vez, neste país, algum eleito foi capaz de utilizar uma ideia de um trabalhador das autarquias e decidiu colocá-la em prática?
Alguma vez algum trabalhador de uma autarquia deu alguma ideia?
Mas, como é que é possível um trabalhador de uma autarquia ter uma ideia se não existir um eleito, que dê sentido a essa ideia?
E haverá, no cemitério, enterrado algum trabalhador das autarquias que tenha dado algum contributo para a valorização do Poder Local?
É bem verdade o que espelha o poema de Brecht, que se pode parafrasear da seguinte forma : “se não existissem autarcas, de certeza que a água nas nossas torneiras corria para cima em vez de correr para baixo”.
A água só corre para cima porque há autarcas que ensinam os piquetes de águas a fazer as coisas como devem ser feitas.
A pergunta que se coloca é se, de facto, vale a pena ter trabalhadores nas autarquias num país, onde os autarcas, se auto-elogiam como senhores de tudo, criadores do mundo, e, ao recordar a memória de percursos, são incapazes de olhar para o lado e reconhecer que houve homens e mulheres que trabalharam com eles na construção do mundo?
Feliz Natal e Bom Ano Novo...continuem a ser felizes!
António Sousa Pereira













