Samuel Beckett ou (d)a Existência do HomemPor Manuela Fonseca

Por Jornal Rostos
Há uns meses, em Abril, no segundo semestre do ano lectivo transacto, quase a regressar a Portugal depois de uma actividade ligada à mobilidade Erasmus, na Katholieke Hogeschool Leuven, vi, em Bruxelas, através de um dos nossos canais televisivos, parte de um debate a propósito da chamada terceira idade no qual apreciei as opiniões, pertinentes, de Alice Vieira e Raul Solnado, como aliás é habitual nestes dois criativos quando abordam qualquer assunto. Comentaram aí o trabalho de um grupo de humoristas portugueses, “Gato Fedorento” num quadro que referia os idosos depositados como o lixo de uma sociedade talvez em perda de valores.
Através de tal quadro, interessante, expressivo e tragicamente cruel, interpretado com a argúcia e a qualidade a que nos habituou a equipa artística referida, pensei em Samuel Beckett – Fim de Festa, peça do chamado teatro do absurdo, tão ao gosto do mestre irlandês, dá-nos o universo infeliz de muitos velhos, ignorados e desprezados, sem esperança e como lixo de uma sociedade figurada (ou retratada) com tão cruel ironia que nos atinge, mesmo fisicamente.
Teatro do absurdo com que Beckett, cultivador exímio e plural de géneros textuais literários, nos faz quase não respirar, presos à descrição/interpretação da condição humana, nas suas grandezas e misérias, talvez perenes, talvez paradigmas do alfa e do ómega de todos e de cada um de nós.
Beckett, uma das figuras que mais admiro no mundo das Letras, escritor irlandês nascido em Dublin em 1906, menos de três décadas depois professor em França, nela radicado definitivamente a partir de 1945, Prémio Nobel da Literatura em 1969, chegou-me à memória pelo caminho do trabalho inteligente de críticos sociais que nos incomodam e fazem sorrir, portadores de ar fresco num género que, por cá, precisava de renovação.
Beckett e sua Irlanda natal: para quando, o autor como (pre)texto, conhecer a capital da República da Irlanda, visitar a velha Universidade (Trinity College) onde, tendo sido estudante brilhante, se diplomou, e fazer uma incursão pela obra deste mestre? A resposta chegou-me há duas semanas: pertenço a uma associação internacional ligada à investigação e ao ensino da literatura para crianças, cujos membros foram desafiados por Jane O’Hanlon, no Boletim Poetry Ireland News de Novembro/Dezembro, ao reencontro com o grande escritor, comungando de uma representação dedicada às comemorações feitas durante este ano no país que o viu nascer, na passagem do centésimo aniversário do seu nascimento. A caminho de Dublin então, com a nora, Aurora Mousinho, companheira, nos últimos tempos, de trilhos que a Cultura oferece.
Tive o imenso prazer, no Houston Lecture Theatre do Royal College of Surgeons in Ireland, de festejar, por coincidência de forma excelente, o meu aniversário em noite fria e cerrada às 18 horas: num exercício dramático com a força das palavras, dos gestos, dos sons conotando o insólito da vida, quatro homens, estimadas figuras públicas irlandesas, no ponto culminante de dezenas de representações aplaudidas nos últimos meses, ofereceram-se, no altar da representação, de forma vibrante para um público diverso, amante de palavras feitas estética, por elas conduzido e por elas (também) crente na Humanidade.
Crente nas palavras, nos gestos, movimentos e sons, arte de palco logo na antecâmara do anfiteatro, na comunicação primeira através de um copo de bom vinho dado na recepção e levado para os bancos daquele, desafio aos cartazes-proibição de qualquer forma de comida ou bebida, aliás esquecidos de imediato, apagados pelo rosto altaneiro, cáustico e sulcado de um Beckett já idoso, em fotografia das mais célebres, a olhar os admiradores e a convidá-los à transgressão possível, oriunda da História, da lenda, da religião, da filosofia, na construção da amenidade das relações entre as pessoas pelo néctar que, tomado com moderação, as aproxima.
A condição humana, rica umas vezes, miserável outras tantas, esta que nos faz únicos no Universo, no próprio acto de (e)levar um copo de fraternidade e cortesia enquanto nos íamos (re)conhecendo, amantes de Beckett confluindo daqui e dali, para, durante uma hora e dez minutos, a emoção nos tomar, palavras-facas, gestos e movimentos como espelho da nossa grandeza, da nossa pequenez, num Samuel Beckett lavrado vigorosamente por Donagh Deeney (responsável máximo por esta inesquecível representação), Ciaran McMahon, Frank Smith e Jonh Mulvill, o trecho de À Espera de Godot na apoteose da incerteza. Na honra e no orgulho de elevar um país, terra de gente instruída, fraterna e simples, pela força do Belo que nos deixou entre as vertentes da alegria e do terror .
Manuela Fonseca
(Dezembro de 2006)













