A Paz na Europa e os Programas de Mobilidade SÓCRATESPor Manuela Fonseca

Por Jornal Rostos
Acerca do grande dramaturgo norte-americano Clifford Odets, autor de Desperta e Canta, peça datada de 1935, refere Orlando Neves, tradutor para a Língua Portuguesa, bem como adaptador e prefaciador da mesma, ter sido o criativo em questão “ o descobridor da terra comum e do homem comum americano, e das tensões sociais da década de 30”.
Tensões sociais, associadas a pessoais que seguimos com emoção aquando de apoio pontual e modesto que demos à representação da peça por uma Companhia Teatral de uma cidade deste Distrito, ainda vila, no fim dos anos setenta, o Teatro de Ensaio do Barreiro, pouco depois desse amado 25 de Abril que nos devolveu a Liberdade e a Democracia a nós, Portugueses (e a nós, Barreirenses, que tanto nos esforçámos por ela, no cumprimento da esperança que os antecedentes nos legaram, em terra de sacrifícios, fumos desgastantes, habitações e meio envolvente muitas vezes deploráveis, de perseguição política, nas ruas, nos locais de trabalho, sobretudo se com marca operária, bem como nas escolas, sim, até nas escolas, mas também nas associações cívicas, sociedades de cultura e recreio e a agremiações desportivas onde o olho pidesco não nos dava tréguas, mesmo nos campos de futebol onde desabafávamos contra os árbitros – que nos desculpem algum excesso, coitados! – gritando com as palavras possíveis contra o regime político opressivo que tentava atrofiar-nos e manietar-nos, afastar-nos da Europa, essa onde muita gente vivia na Dignidade que as democracias proporcionam enquanto nós apenas podíamos sonhar com ela).
Voltemos então a Desperta e Canta: os conflitos de uma família de origem social modesta, no turbilhão da Grande Depressão, onde uma jovem sonhadora, Hennie, lembra, ironicamente, o Príncipe de Gales como se ele tivesse sido o causador de um problema que a incomoda e se torna extensivo aos que a rodeiam. Que, amargamente, trata a mãe por Mussolini, aludindo ao ditador italiano para se rebelar contra a autoridade da progenitora no círculo fechado do lar , que, a caminho do refúgio, no quarto, clama: “Acordem-me quando as macieiras florescerem na Normandia.” Como anteriormente tinha exclamado, numa única palavra em comentário ao pai, Myron, que acabara de dizer que um casal conhecido tinha vindo para cá, aproveitando um prémio de jogo: “Europa!”
Esta Europa, misto de História que se cruza com a Mitologia, a Filosofia, a Geografia, a Sociologia, a Antropologia, a Arte, a Religião e a Laicidade, esta Europa que fez as Descobertas de Novos Mundos associadas a brutalidades várias e também ao conhecimento do Outro e da natureza nas suas ricas facetas, que fizeram muito pelas Ciências; este local onde, felizmente com alguma precocidade, a opressão criou o desejo de Liberdade, o desenvolvimento se casou com a Democracia. Esta Europa onde a Guerra, a Guerra, sempre terrível para a evolução e o bem-estar de cada um, individualmente e em comunidade, foi e vai gerando a luta pela Paz, esta Europa que tenta aprender a (con)viver, afastada já, em muitas das suas regiões, a resolução de conflitos pela voz grossa das armas e da humilhação de homens e mulheres por outros homens e mulheres, esta Europa, sonhada em outros Continentes, rota de outros Continentes, de migrações várias, esta Europa, sonho da minha infância, sonho de muitas infâncias, oprimidas ou mais felizes, como espaço de trabalho, de aprendizagem, de criatividade, de meditação, de lazer. Que vai sendo difícil, esperançosa e paulatinamente (re)feita, (re)encontrada, confluência de tolerância e culturas múltiplas, imaginada nos tempos, finalmente com condições para a consolidação. Para perdurar ao longo de gerações.
Esta Europa hodierna, enfim moderna, que queremos melhor, mais evoluída e, portanto, com mais voz dos cidadãos e que, na parte que nos diz principal respeito, pode contar connosco, profissionais de Educação que somos com competências específicas, medradas com saber e também com amor e solidariedade, agentes de desenvolvimento que, através da Formação, podemos contribuir para que seja melhor e mais justa, através da declinação de línguas, com muitos séculos ma até há pouco desconhecidas, da conjugação de formas de estar que promovam um melhor conhecimento entre nós, umas e outras promotoras de mais união entre os povos, quiçá fundamentada em espaços de conhecimento mútuo, das diferenças que, apreendidas e aceites, nos trazem mais cidadania e assim, mais riqueza e, por que não dizê-lo, mais felicidade. Adjuvantes que a enriquecem, agentes indelevelmente ligados a novas formas de comunhão entre os povos que somos. A uma História que ainda estamos, embora atrasados, a tempo de (re)construir, não podendo, é certo, apagar aquela que nos amesquinha e envergonha.
E que estes momentos de mudança que estamos a executar, com dor e satisfação, se liguem à Ode à Alegria, a Schiller, a Beethoven, ao quarto andamento da 9.ª Sinfonia que nos motivam para que, com o nosso labor, deixemos a inscrição, em vez da não-inscrição que em nós Portugueses, o filósofo, cidadão de Portugal, da Europa e do Mundo, José Gil identifica. Inscrição nas nossas vidas e na daqueles com quem, directa ou indirectamente, trabalhamos, chegada no fim do passado século, para mim iniciada em 1998, dois anos depois do grupo inicial, com outra colega que não eu, Raquel Guterres, que seguiu rota diferente na profissão. Um desafio que me fez deitar fora desconfianças provincianas e estreitas, exercitar e desenvolver mais competências (profissionais e relacionais), na senda, com colegas, belgas (da Flandres) e ingleses, do que temos tido em comum, enquanto membros de povos com partes do passado construídas em conjunto, enquanto pessoas individuais viradas para encontrar trilhos no presente que levem aos caminhos que os novos hão-de desbravar, certamente com êxito, em tempos vindouros.
O projecto, no âmbito Comenius: “ War and Peace in European Children’s Literature”, durou, oficialmente, até 2000 mas, na prática, com a publicação da antologia em Português, intitulada Lá Longe, a Paz: A Guerra em Histórias e Poemas , na qual tivemos apoio, para a edição, da saudosa intelectual e antifascista Marcela Torres, a quem a dedicámos, se prologou até ao inesquecível dia 15 de Novembro de 2001, com o lançamento da mesma neste anfiteatro, numa sessão dos Encontros à Quinta, e numa Livraria de Lisboa, a Bulhosa, uma e outra onde a Escola Superior de Educação se fez representar com o interesse, a alegria e a solidariedade habituais, tomando os colegas, os alunos e os funcionários como seus o que fazem os companheiros.
Foram três anos em que, sob a coordenação de Annemie Leysen, “Amiga para Sempre”, uma sábia em Literatura Infantil de que a Bélgica e a Katholieke Hogeschool Leuven, estabelecimento nosso parceiro, se orgulham, a docente e crítica literária na área dos mais novos (que acaba, com muito gosto dos participantes neste Encontro, de nos oferecer o seu contributo), a equipa constituída por ela própria e por Anne-Marie Devynck, também da sua instituição, pelos colegas ingleses Rob Batho, da University College of Chichester, Carol Fox e John Clay, da University of Brighton, à qual tive o prazer de me juntar, e a tradutora Irene Koenders, que chegou poucos dias depois de mim, uma conhecedora profunda das Línguas e Cultura Portuguesa e Inglesa, ela, cidadã nascida holandesa, habitante da Flandres que já viveu em Portugal, passou pelo Brasil e pela Índia, com segunda residência em Paris e que, durante algum tempo, foi a mediadora entre mim, faladora de silêncios terríveis quando estou pouco à vontade, seja em que faceta for da minha vida, e os outros companheiros. Três anos na busca, palavra a palavra, da produção de três antologias, a já referida, assim como as duas primeiras, Kom Vanavond Met Verhalen: Oorlog in Verhalen en Gedichten e In Times of War .
Leuven, Setúbal, Brigthon, Cascais, Ypres, pontos de confluência no conhecimento das literaturas que se expressam nas línguas dos intervenientes, trabalho árduo na pesquisa de textos de autores de vários países num contributo para a educação para a Paz. Palavras tecidas em tempos de guerra, a Educação para a Liberdade na abordagem da beleza feita letras, urdida em tempos de repressão, a exploração do Homem pelo homem-predador na esperança de dias de Fraternidade, na educação estética dos adultos (por que não?), jovens e crianças nos valores do respeito pelos outros. A majestade da reconstruída Catedral da histórica cidade de Ypres, durante a Primeira Grande Guerra, símbolo da vitória da exaltação do Bem, na Acção Internacional de Formação de Formadores que organizámos e gerimos, entre 11 e 16 de Setembro de 2000, colegas de muitos países da União Europeia de que fomos anfitriões e monitores. Nessa bela Flandres, crianças, professores e criativos, com a presença, entre os portugueses, dos nomes ilustres de Alice Vieira, Glória Bastos e José António Gomes, no Dia Aberto, 15, com o Seminário “War Game(?)” no objectivo comum da educação pelo som e pela forma das palavras, elementos primeiros na comunhão das nossas vidas.
No esforço e, por vezes, no sacrifício, pequeno, de situações pessoais, terá sido esse, quiçá, o ponto culminante dos nossos encontros de estudo e planificação nos três países (às vezes com membros das nossas famílias em acompanhamentos fugazes, saladas inglesas, marisco belga, sardinhas portuguesas de permeio), uma inesquecível e sentida visita ao Museu da última cidade referida, Ypres, denominado “In Flanders Fields Museum”, que conta, com pedagogia e elegância, a aflição da guerra na homenagem a um poeta, o tenente-coronel médico canadiano, símbolo da luta pela liberdade, Dr. Jonh Mc Crae, que, chegado à martirizada Flandres, relatou a tragédia desses campos de papoilas / sangue a ensombrar a Bélgica e a Humanidade. “In Flanders Fields”, poema que denominou um museu: – o terror que atingiu as populações, a natureza e as terras. Para que a PAZ nelas seja agora perene. Da Bélgica, do Canadá, anglófono ou francófono, dos falantes de Língua Materna Inglesa que têm nesse militar-poeta um modelo para a Europa e para o Mundo. Para que sejam, finalmente, uma Terra “Morena”, cada vez mais misturada, e de “Fraternidade”. Como Zeca Afonso, um dos nossos Mestres, e nós, neste país, idealizámos. E merecemos!
Escola Superior de Educação / Instituto Politécnico de Setúbal,
EUROMOB, 19 de Abril de 2007
Manuela Fonseca
(Departamento de Línguas)
1. Orlando NEVES, Prefácio, in Clifford ODETS, Desperta e Canta. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1965, p. 9.
2. Op. cit., p. 52.
3. Id., ibidem.
4. Id., p. 25.
5. José GIL, O Medo de Existir. Lisboa, Relógio d’Água, 3.ª ed., 2005, pp.15-23.
6. Manuela FONSECA et al. (Org.), Lá Longe a Paz: a Guerra em Histórias e Poemas. Porto, Afrontamento, 2001
7. Annemie LEYSEN et al. (Org.), Kom Vanavond Met Verhalen : Oorlog in Verhalen en Gedicheten. Mechelen, Bakermat, 1999.
8. Carol FOX et al. (Org.), In Times of War. London, Pavilion, 2000













