Uma pedra redondaVale a pena viver pelo que sonhamos!
Por António Sousa Pereira

Por Jornal Rostos
Entrar no hospital com a incerteza no pensamento. Olhar ao redor. Observar aqueles corpos inertes. Sentir como, afinal, somos tão pouco.
Um amigo, está junto de um familiar. Enquanto aguardo a minha vez, ali, na Urgência, troco com ele breves palavras.
“Estou aqui à espera. Não há nada a fazer, se não esperar” – comenta. Trocamos breves palavras, sobre o sofrimento de quem sofre e sobre o sofrimento de quem vê sofrer e está, ali, de forma impotente, como ele dizia – “à espera”.
O tempo passa. Vou aguardando. Tenho no meu pulso aquela pulseira verde que me foi colocada na triagem.
Um sinal que não é urgente. Por fim sou chamado. Afinal o que não era urgente pareceu, de repente, tornar-se preocupante. O médico mandou-me de imediato para a enfermeira que me deu um comprimido para colocar por baixo da língua e espetou-me aquela agulha na veia que sulcava no braço. A tensão estava elevada. O sinal soou com o apito agudo, naquela maquineta, como um grito de alerta.
E por ali fiquei a aguardar. O médico entretanto teve que se deslocar para o Garcia da Horta, em Almada, para acompanhar uma emergência.
Enquanto estava por ali a aguardar, continuei a olhar em meu redor.
Nas conversas que se cruzavam registei que o SO estava superlotado. A opção seria ocupar os corredores.
Numa cadeira de rodas está uma senhora. Fala comigo.
“Olá, não me estás a conhecer?” – refere.
Respondo : “Olá. Não, não estou a conhecer.”
Ela responde : “Sou a Noémia”. Olhei. Fiquei sem palavras. Era de facto a Noémia. Uma colega.
“Não. Não te reconheci. Se não me dissesses quem eras, não te reconhecia” – comentei.
Voltei aos meus pensamentos iniciais. O tempo passava. Voltei a ser de novo observado. Sentia uma fome tremenda. Fui fazer um TAC. Um outro médico, entretanto, observou-me.
No meio de tudo isto, eu, naquele silêncio, entre a vida e a esperança, olhava e observava os corpos. Silenciosos. Vincados. Ligados a máquinas. Outros ali, sentados, aguardando.
Cerca das dez da noite começa a sentir-se a chegada de familiares na procura de informações.
O tempo continua a passar. Aguardo. Entrei pelas 15.45 horas, na Urgência do Hospital, entretanto, a noite aproxima-se de um novo dia.
Estou com fome. Pergunto à Enfermeira se posso comer. Diz-me para aguardar que vou, de novo, ser observado pelo médico.
O tempo passa. A minha fome afinal nada significa perante o sofrimento de pessoas que passam por mim. Uns com lágrimas de dor. Outros já sem lágrimas para aguentar as dores.
A Noémia está ali sentada. Silenciosa. Sorri. Sinto o seu sorriso como um gesto de ternura.
Por fim, chegou a hora de regressar a casa, já perto da meia noite. Despedimo-nos com um beijo. Toquei seu rostos. A Noémia sorriu. Um rasgo brilhante cintilou no olhar.
A Lurdes, que aguardava por mim, tinha uma sandes preparada para me saciar a fome.
A Noémia ficou para trás, a sorrir.
A vida afinal é tão curta, tão pequena. É assim, nesta azáfama dos dias, de repente, tudo pode terminar.
Somos tão pouco. Valemos tão pouco.
É, na verdade, nestes momentos, que nós sentimos o sentido da vida, como vale a pena viver e arriscar tudo pelo que sonhamos.
É, afinal, neste momentos, que nós damos valor aos dias coloridos e sentimos como eles são mesmo belos.
Vivemos. Lutamos. Sorrimos. Um dia, partimos.
Acreditem, vale a pena estar aqui, sentir o tempo, sentir que somos, porque a vida só vale e tem sentido se formos…sendo!
Sim, o sentido da vida pode ser para todos o mesmo. É para todos o mesmo.
Todos vamos construindo os dias com o mesmo rumo. Ninguém vai cá ficar.
Ali, na Urgência de um Hospital, sentimos essa penumbra e outro lado dos dias sem sol.
Estou aqui a pensar na Noémia. Recordo-a na sua jovialidade e na força dos gestos da sua vida. E agora ?!
“Desculpa, não te reconheci” – penso.
Que somos nós afinal? Que somos nós afinal?
Somos aquilo que construirmos de nós. Somos aquilo que legarmos de nós.
A vida só vale por isso, por essa sua beleza, por esse calor que dá força aos nossos dias, por termos essa consciência que somos “tudo” e somos “nada”...e que só temos esta vida para viver.
Vive hoje…amanhã pode ser tarde !
Por isso, enquanto o sangue pulsar nos teus nervos, nunca desistas de viver.
E, afinal, é preciso ter a coragem da Noémia : sorrir, sorrir sempre!
António Sousa Pereira













