“Prova de Vida– estórias e memórias do meu Barreirense”
A história está escrita na primeira pessoa
Por António Sousa Pereira
– estórias e memórias do meu Barreirense” - é um retrato de uma experiência de vida, de um modo de estar na vida de um clube, no viver de forma intensa o seu dia a dia – as suas dificuldades, as suas alegrias, as suas horas de dor, que, de facto, cada um vive de forma própria, mas, sempre, com esse sentimento de “família”- com memórias e com estórias.

Por Jornal Rostos
Apresentação do livro – “Prova de Vida – estórias e memórias do meu Barreirense”. Uma reflexão, com Paulo Calhau, sobre o associativismo e a sua dimensão intelectual na afirmação e vivência da cidadania.
1. Nota de Abertura
Paulo Calhau convidou-me para apresentar o seu livro “Prova de Vida – estórias e memórias do meu Barreirense”.
Recebi do meu amigo Paulo Calhau o convite para apresentar o seu livro, com uma agradável surpresa.
Aceitei de imediato o seu convite, até, porque, era para mim uma honra partilhar com ele este dia, que, tenho a certeza, ele vai guardar na sua memória.
Digo que foi surpresa porque, apesar de ser sócio do Futebol Clube Barreirense, desde os anos 80 e ter desempenhado funções de dirigente na Direcção, com Manuel Lopes, não sou um frequentador assíduo do clube e as minhas vivências associativas foram mais intensamente percorridas no Lavradio.
Digo que foi agradável porque, para mim tudo o que se ligue a pensar ou reflectir sobre associativismo, a importância e o papel do associativismo na comunidade desperta-me uma grande paixão.
Portanto, antes de mais, agradeço ao Paulo Calhau pela confiança que em mim depositou ao formular este convite de apresentação do seu livro e, naturalmente, espero, não o desiludir, nem vos desiludir e, acima de tudo despertar, em todos vós o interesse pela sua leitura.
Quero começar por sublinhar que li o livro, praticamente, sem parar, assim como quem lê um romance que o prende do princípio ao fim, e, à medida que vai percorrendo as páginas, mergulhando nas memórias do tempo, interiormente, vão emergindo interrogações e curiosidade, sobre qual o desfecho da “estória”.
Paulo Calhau consegue, prender-nos, emotivamente, dá-nos em cada momento do seu percurso uma dimensão epocal, das contradições que marcam o tempo, mergulhando-nos nas situações que viveu, e, nós, por vezes, até nos reencontramos, nos mesmos lugares, nas mesmas circunstâncias a reviver os mesmos acontecimentos, a recordar as mesmas pessoas – sim – porque a vida de uma associação é feita, acima de tudo, das pessoas que constroem a sua história e suas memórias.
O livro de Paulo Calhau é, portanto em primeiro lugar, uma afirmação do papel de um associado na vida de uma associação e o expressar de um amor que, afinal, não se explica, só faz sentido vivendo-o, partilhando-o – sente-se no coração.
2. Memórias de um associativista
O livro de Paulo Calhau é, portanto, um retrato de uma experiência de vida, de um modo de estar na vida de um clube, no viver de forma intensa o seu dia a dia – as suas dificuldades, as suas alegrias, as suas horas de dor, que, de facto, cada um vive de forma própria, mas, sempre, com esse sentimento de “família”- com memórias e com estórias.
Este é, na verdade, um livro escrito ao ritmo do pulsar do coração. Um livro que evoca e perpétua as memórias, procurando encontrar o fio condutor de uma história que faz parte de outra história – o Barreiro.
Por vezes, costumo dizer que o Barreiro tem sido ao longo da sua história, por razões de cultura local, uma terra que valoriza mais o “nós” – fruto da cultura da fábrica, da resistência - em detrimento do “eu”, e, tal facto, contribuiu, muitas vezes, para que se “esqueça” ou “ignore” qual o papel do indivíduo na história.
Neste livro, de facto, a história está escrita na primeira pessoa, por alguém que assume o seu papel de protagonista ou, meramente como espectador, mas, sempre, na verdade, como actor que vive um projecto que “não finda”, aquele que se diz, num só nome - Barreirense.
O livro de Paulo Calhau, nesta actualidade, quando o Barreiro, em resultado directo da desindustrialização, vive um tempo de “crise de identidade”, de ruptura com a “cultura de fábrica”. Uma cultura que moldou o modo de ser e estar de muitas gerações de barreirenses.
Este livro é, sem dúvida, um sinal emergente, entre muitos outros, deste tempo, que todos sentimos, o Barreiro vive na procura de uma “nova identidade”, talvez o recuperar a sua centralidade, talvez descobrir um novo sentido para a palavra solidariedade, que sempre foi vivida de forma natural nas suas vivências associativas.
Este livro é mais uma pedra, uma prova de vida, nessa procura de um novo caminho.
É, também, um sinal destes tempos, onde, afinal, cada vez é mais sentida a vontade de sermos “uma cidade com rostos”.
3. Um manual do dirigente associativo
Gostava de sublinhar que, lido com atenção, os associados e os dirigentes associativos, podem encontrar no livro de Paulo Calhau, um verdadeiro manual para a acção.
E, em primeiro lugar, existe uma ideia central que ser dirigente associativo é, acima de tudo e antes de mais – servir, com espírito de missão.
Depois, os dirigentes podem encontrar aqui lições de vida, os frutos de uma experiência.
Poderão perceber a importância de, enquanto dirigentes, em primeiro lugar, ser necessário elaborar um diagnóstico – consultar documentos, perceber a realidade, organizar documentação, sentir o pulsar da associação.
Depois, feito o diagnóstico, é preciso debater, discutir, com os outros dirigentes, com técnicos, com atletas, envolvendo todos no projecto.
O passo seguinte a programação. O definir objectivos. A distribuição de responsabilidades. O definir prioridades.
E, neste seu percurso, como dirigente associativo, Paulo Calhau, salienta a importância da comunicação, contributo essencial para forjar e desenvolver uma “cultura de associação”.
Iniciado o caminho, surgem as dificuldades. Torna-se necessário redefinir estratégias. Reorganizar. Readaptar à realidade.
Uma lição. Uma experiência partilhada. Aliás, este é o sentimento que atravessa todo o livro de “estórias e memórias do meu barreirense”.
4. A associação na comunidade
A vida de uma associação é indissociável da comunidade onde está inserida, este é, sem dúvida, um pensamento espelhado no livro de Paulo Calhau.
Evocando as memórias escritas nas páginas da imprensa regional, onde, afinal, ficam os registos, de muito que resta da nossa memória colectiva.
Paulo Calhau não ignora, nas suas memórias, os sentimentos de luta pela liberdade antes do 25 de Abril, que se sentia na forma de ser e estar da massa associativa do Futebol Clube Barreirense, os episódios que marcaram as vivências associativas nos tempos do PREC, colocando, sempre as cores alvi rubras, como energia mobilizadora de vontades.
Paulo Calhau recorda homens e mulheres que forjaram o Barreirense, os seus mortos, porque um clube também é feito da memória dos seus mortos. Homens e mulheres que deixaram a saudade crescer num canto dos nossos corações e que recordamos como exemplos de vida – Tonicha, Luis Mestre, Bento, Luis Mira ( que um dia lhe ofereceu a camisola 11, que Paulo Calhau envergava com orgulho nos jogo do Liceu). Mas recorda os vivos e os seus muitos exemplos. Recorda o Mike vivo ( que infelizmente, nestes dias partiu da nossa companhia).
O livro de Paulo Calhau é uma epopeia à amizade e à família barreirense.
Uma evocação da epopeia da construção do Ginásio Sede, um recordar momentos que ficam como um sorriso, ou nas vitórias das equipas de futebol, ou das equipas de basquetebol.
5. O FCB – entre o Futebol e o basquetebol
Paulo Calhau faz questão de, com intensidade, sublinhar duas correntes da história do FCB. Dois caminhos indissociáveis.
Aliás, esta parece ser uma tese central – o Barreirense foi construído e vivido sempre, tendo estas duas modalidades como referência - basquetebol e futebol.
Paulo Calhau assume-se como um associado com opinião, um associado activo, um homem que sonha e sente o Futebol Clube Barreirense como um valor essencial na valorização futura da cidade e concelho do Barreiro.
6. Notas finais
No final da leitura, depois de vivermos por dentro das memórias e sentirmos o pulsar da vida do clube e partilharmos os sentimentos de um associado, perguntamos : Que significa este livro ? Será um ajuste de contas com as memórias? Será a catarse de um dirigente associativo?
Sentimos que Paulo Calhau é um homem feliz. Feliz por partilhar as suas experiências e memórias. Feliz porque sente o futuro a emergir no presente. Feliz porque sonha. E, de facto, para se estar no associativismo é essencial sonhar, sonhar…
Paulo Calhau deixa um desafio – na nova cultura de cidade, no Barreiro novo que vai nascer no século XXI, o Futebol Clube Barreirense, tem, por direito próprio um lugar e um importante papel a desempenhar.
Paulo Calhau acredita e este seu livro, afinal, é um desafio, uma pedrada no charco, a lança de Mercúrio que procura colocar no centro do cérebro de cada sócio e dirigente barreirense a ideia – que é preciso honrar a história e que é possível construir um projecto com futuro.
Esta, afinal, é a sua forma assumida de tentar ajudar o seu clube de sempre, onde nasceu, cresceu e aprendeu a viver a amizade como um valor e a solidariedade como uma energia que move multidões.
Não quero esquecer de dar uma saudação à capa do livro, produzida por Luis Ferreira da Luz, uma capa onde pode verificar-se sempre, mesmo quando não se potencia essa realidade – um “nós” é feito de muitos “eus” . Um clube e uma cidade são feitos de muitos rostos.
Parabéns Paulo Calhau. Obrigado pelo convite.
Barreiro, 8 de Março de 2008
António Sousa Pereira













