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Inferências

O Mundo Cor de Rosa do Ministério da EducaçãoPor António José Ferreira

Na Educação e evidentemente, não só, funciona ,ou tenta-se que funcione ,uma espécie de ommertá siciliana, em que apesar de não estar oficialmente instituída a Lei da Rolha na Função Pública, a última vez foi no tempo de Cavaco Primeiro-Ministro não sei se estão lembrados; há assim uma espécie, nem sempre surda de intimidação que assenta no velho axioma que “a roupa suja lava-se em casa”.

Sou professor há 31 anos sou, pois, da geração da culpa , ou seja, tenho acompanhado a culpa na sua migração – quando era criança e adolescente, logo filho e aluno, a culpa era sempre minha, dada a minha condição, uma vez que a ordem então vigente culpabilizava sempre os jovens, os filhos e os alunos por todos os males da sociedade, da família e da escola.

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O Mundo Cor de Rosa do Ministério da Educação Por António José Ferreira

Por Jornal Rostos

“…Nada mais se exige do que a liberdade e claro está, a mais inofensiva entre tudo o que se pode chamar liberdade ,a saber, a de fazer um uso público da sua razão…”

I. Kant, “O que é o Iluminismo”,1784

Começo por citar o mestre de Koenigsberg porque, neste opúsculo com mais de dois séculos, caracteriza bem o problema das asserções falaciosas do termo liberdade-e não será preciso recuarmos assim tanto para encontrarmos o Sofisma de Salazar que enunciava, cinicamente, com um cinismo agora repristinado pelo poder de turno, que em Portugal existia liberdade de pensamento , não havia era liberdade de expressão.

Na Educação e evidentemente, não só, funciona ,ou tenta-se que funcione ,uma espécie de ommertá siciliana, em que apesar de não estar oficialmente instituída a Lei da Rolha na Função Pública, a última vez foi no tempo de Cavaco Primeiro-Ministro não sei se estão lembrados; há assim uma espécie, nem sempre surda de intimidação que assenta no velho axioma que “a roupa suja lava-se em casa”.

Ora, sendo a Escola Pública isso mesmo, Pública é óbvio que o que lá se passa deve ser publicitado e já que se fala tanto de accountability ,ou seja de prestação de contas, que não seja apenas para o que convém.
Isto a propósito dos recentes casos de indisciplina grave e de violência em meio escolar, que o senhor Secretário de Estado, Valter Lemos tentou , num exercício aliás, bem pouco elegante e que traduz que o politicamente correcto é ,para pelo menos alguns membros deste Governo,um dispositivo meramente utilitário e puramente retórico ,para usar quando e como il fault, circunscrever os incidentes do tipo do que ocorreu na Carolina Michaelis, às tais zonas e aos tais bairros ,ditos problemáticos. Talvez o Sr. Secretário de Estado estivesse a contar com a ignorância ou a mera distracção do auditório, que na sua maioria não conhecerá bem o Porto a ponto de saber que a citada escola é o antigo Liceu Carolina Michaelis de Vasconcellos, bem na zona nobre e frequentado em princípio, por uma população escolar tudo menos desfavorecida, com paralelo em Lisboa com a Pedro Nunes ou a Maria Amália Vaz de Carvalho todas antigos Liceus situadas em zonas privilegiadas das respectivas cidades.

Parece, assim, haver para este Governo um país cor de rosa, muito em especial na Educação, não sei se por ser a cor oficial do Partido que o apoia, se pela titular da pasta ser uma senhora, ainda que pouco meiga, se bem que esse mundo de diáfana fantasia não resista ao confronto com a nudez crua da verdade!
Assim e para que se perceba, o mecanismo de ocultação começa logo, como quase tudo aliás, ao nível da linguagem e da distinção reiterada por Valter Lemos, entre os conceitos de indisciplina e o de violência tão ao gosto dos teóricos do eduquês, até porque dá jeito e precisamente porque é conveniente; como se uma cena como a que nos foi dada a ver não constituísse uma violência, até para nós que a ela assistimos pelos media, quanto mais para quem, directamente, a sofreu. Esta distinção é, as mais das vezes, falaciosa e usada de má fé, no caso vertente era impossível negar o facto tornado visível a milhões de pessoas, logo, ficou inviabilizada a primeira das manobras típicas, a negação que é o que costuma acontecer quando uma ocorrência deste tipo se verifica, a primeira reacção dos responsáveis, quer do Ministério quer das Escolas, é dizer que não se passou nada; os Directores de Turma dificilmente encaminham as situações para os procedimentos que deviam ser normais, as próprias vítimas, quando professores, tendem a não apresentar queixa e a querer que a “coisa” seja abafada, pois a ligação a qualquer tipo de incidente desta natureza prejudica a imagem do professor, que é imediatamente estigmatizado e acusado de “não saber lidar com as situações” e de “não ser capaz de criar um ambiente de empatia com os alunos” e outras vacuidades do género que, se repararmos bem, constam em vários dos cerca de 50 itens( !!!) “propostos” ( modo oficioso de dizer impostos, tal como os sacrifícios “pedidos” são, de facto, exigidos, e mais uma vez, a arte do double speak se manifesta através do eufemismo; para o confirmar, basta ler Orwell, dizem que o muro caiu, mas muito do estilo ficou, só que agora é “democrático”) no modelo a aplicar na tal Avaliação de Desempenho do Pessoal Docente.

A indisciplina, que chega a ser apresentada pelo poder e pelos teóricos do eduquês que determinam a ideologia oficial da política educativa como uma espécie de direito do estudante
tal como uma famosa marca de detergentes numa recente campanha publicitária promove o direito das crianças a sujarem-se, estes teóricos que peroram sobre o direito à indisciplina para os outros enfrentarem, enquanto eles, no remanso dos seus gabinetes, redigem mais uma quantas teses em Ciências da Educação, o que quer que isso queira dizer.
De facto, a indisciplina constitui, não um direito, mas um sequestro dos direitos de quem não é indisciplinado, o comportamento turbulento e disruptivo de uns quantos, prejudica a todos, principalmente aqueles que não participam nesse tipo de atitudes e que são as suas principais vítimas porque vêem desperdiçadas as oportunidades assim, esbanjadas, pelos tais que exercem o tal pretenso direito . Se me vierem perguntar por casos reais , tenho um acervo monumental e poderei ilustrar apenas com um, para que se veja ao ponto a que as coisas podem chegar: a mãe de um rapaz de 15 anos, aluno do 10º ano, apanhado por uma professora a masturbar-se (!!!) numa aula, considerou que a professora devia ser “maluca” pois essas coisas eram “ normais para a idade”; talvez a senhora tenha razão, se omitirmos o facto de o ter feito em público e demais a mais, numa sala de aula com os e as colegas e a professora presentes ; claro está que tudo pode ser aceitável se omitirmos as variáveis de contexto, tal o estado a que chegou a popularização da cultura pós-moderna, que para além de na expressão de Allan Bloom ser uma “ Cultura Inculta” é, na sua versão popularucha e brejeira uma autêntica “cultura” obscena.

Sou professor há 31 anos sou, pois, da geração da culpa , ou seja, tenho acompanhado a culpa na sua migração – quando era criança e adolescente, logo filho e aluno, a culpa era sempre minha, dada a minha condição, uma vez que a ordem então vigente culpabilizava sempre os jovens, os filhos e os alunos por todos os males da sociedade, da família e da escola. Com a migração da culpa, algo ocorrido entre a segunda metade da década de 60 e a primeira da década de 70 e que medeia o espaço entre o Summer of Love de 67, o Maio de 68 até ao nosso 25 de Abril de 74, fez com que a culpa mudasse de campo e nós, que nos tornámos adultos por essa altura e logo pais e alguns como eu, professores, passámos a ser os culpados de todos os males da sociedade e note-se, que não estou a insurgir-me contra os factos, nem a maldizer a História, estou apenas a referir-me à caricatura ideológica que nos últimos 40 anos tem assolado e tem dominado as políticas oficiais por todo o mundo ocidental.

Com efeito, um rousseauismo de trazer por casa, uma psicanálise de pacotilha, um nietzschianismo de emprenhar pelos ouvidos e um pós-marxismo, agora rendido às maravilhas do neo-liberalismo mesclado de revolução tecnológica, constituem o caldo de cultura ideal para que estes campeões da irresponsabilidade nos impinjam o mundo cor-de-rosa que só eles conseguem ver , na crença de que todos os outros são estúpidos. Aliás, ultimamente, a maioria dos portugueses têm vindo a ser acusados de exagerados pelo poder e pelos seus apaniguados: o Procurador Geral da República mostra-se preocupado com o clima de violência que se vive nas escolas, com os gangs, as agressões (agora designadas por bullying, pelos mesmos que dizem que isso não existe e que apesar de tudo, a Escola é o mais seguro dos mundos), o tráfico de droga, etc., etc., e logo o set propagandístico do Ministério da Educação e do Governo (que vai desde o sr. Almeida da Confap, que até já foi professor mas já não é, resta saber porquê (não se reformou, portanto, aos 65 anos) e que, das duas uma: ou tem uma prole muito numerosa, ou os seus filhos têm sérias dificuldades de aprendizagem, tantos são os anos que já leva de porta-voz da organização, passando por alguns opinion makers que uns gostam das coisas boas da vida, mas defendem o seu exclusivo direito a usufruí-las e têm uma concepção de trabalho que passa apenas por portáteis e telemóveis, não lhes passando pela cabeça, por exemplo, abrir caboucos à picareta para a Barragem do Alqueva, acrescendo ainda, que consideram virtudes todos os vícios que têm e vícios todos os que os outros têm, são dos tais bichanos que nos fazem ter saudades dos tarecos; outros que tendo um passado mais do que nebuloso em matéria de hooliganismo que vão desde depredações juvenis até às histórias de berbequins, já em idade madura, ou seja, em idade para ter juízo, passando pela importação da maior imbecilização televisiva de que há memória em Portugal, com programas do tipo escova de dentes e quejandos, se arvoram agora em guardiães do templo, sabendo nós que nestas coisas a raison d’être tarde ou cedo se revelará e costuma ser como a Nau de António Faria, que traz no bojo escondida a cabeça do corsário que lhe quis tirar a vida, passando por uns quantos ex-esquerditas e ex-dirigentes do PCP que tendo abandonado o barco em tempo oportuno, quando entenderam que tinha começado a meter água, põem ao serviço dos novos patrões, o mesmo afã inquisitorial que tinham dedicado à velha causa; resta saber as sinecuras de toda essa gente, em vez do clássico cherchez la femme , talvez seja melhor procurar o tacho. Dos Secretários de Estado da Educação, um foi dirigente Sindical e promoveu, de facto, uma Greve aos Exames; outro, foi candidato do CDS à Câmara de Penamacor e tendo sido eleito para a vereação, esteve à beira de perder o mandato por faltas injustificadas, o que só não veio a acontecer, porque entretanto saiu uma daquelas leis milagrosas feitas à medida ; a própria Sr.ª Ministra e faz parte da sua biografia publicada, parece que, na sequência do 25 de Abril ,militou numa organização anarquista, ( eu também conheci o velho Emídio Santana e também fui, muitas vezes, à Angelina Vidal para ter o prazer de conversar com ele, mas, por acaso, nunca fui militante dessa organização). Fui sim, fundador da Secção do Partido Socialista do Barreiro, enfrentei as ameaças à liberdade que se fizeram sentir nessa época, enquanto muitos dos que agora se arvoram à nova nomenclatura, fizeram parte do coro que as tentou suprimir e se na altura o não conseguiram, agora, parecem estar a ter algum sucesso.

São todos uns exagerados, o Procurador Geral da República, a Associação da Defesa dos Consumidores que diz que cerca de 100 000 famílias portuguesas já não conseguem fazer face aos créditos contraídos, enfim, são o que dantes eram só os publicitários, uma cambada de exagerados, como o próprio Mark Twain considerou que tinha sido a notícia da sua morte.
Também não acredito no eclipse de Portugal, que oculto nas brumas, ressuscitou num domingo de Fevereiro de 2005 – que se terá passado nos mais de 30 anos anteriores? Não houve Assembleia da República eleita? Não houve governos em funções? Não houve Presidentes da República? Não houve Tribunal Constitucional? É que nos querem fazer crer que tudo isto aconteceu por obra de interesses corporativos ocultos, que parece terem governado o país durante esse obscuro período, em que toda essa gente que está hoje no poder, estava, certamente, em Alfa de Centauro a ver a banda passar. Ah, sim, o Sr. Primeiro Ministro estava na JSD, depois estudou engenharia civil, para assinar aqueles maravilhosos projectos último grito da estética arquitectónica e da aplicação meticulosa das Novas Tecnologias, mas isso, foi antes de se licenciar e de lhe terem passado o diploma a um domingo, o que prova que nessas Universidades de excelência, não são calões como nas públicas; só não se percebe é porque terá sido o seu governo a mandar encerrar a sua própria alma mater.
Deve ser por estas e por outras que, na primeira medida popular deste governo, a da tão propalada redução dos impostos, a mísera percentagem de 1%, vai ser abatida ao IVA, que é o mesmo que dizer que vai continuar a engordar os do costume, enquanto os consumidores vão ficar como de costume, a ver navios.
Enfim, coisas da esquerda moderna !

António José Ferreira
Professor do Ensino Secundário
tzferreira@gmail.com

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