Desa(ponta)mentos em relação a a(nota)mentosPor Carlos Pires

Por Jornal Rostos
Caro Sousa Pereira,
Efectivamente parece-me que não estivemos na mesma Assembleia e sei que estivemos. Conheço a tua simpatia pelo actual Presidente da Câmara Carlos Humberto, da qual aliás tens feitos profusos registos, como também foi conhecida a que tiveste e registaste pelo anterior Presidente Emídio Xavier. São sentimentos e opiniões a que tens direito e cujas justificações só ao teu íntimo deves.
Contudo, por vezes, todos nós somos tentados a exacerbar os nossos sentimentos e "paixões", perdendo (ou não) alguma lucidez nas apreciações que fazemos em sua defesa. Permite-me que te diga que, na minha opinião e porque não o quero avaliar à luz de outras possíveis motivações/justificações, foi certamente o que te aconteceu no A(nota)mento que fizeste em relação ao que se passou na Assembleia Municipal em que se discutiu a eventual deslocação da Estátua do Sr.Alfredo da Silva.
Apesar de não concordar com o processo seguido, não só em relação ao modo como foi resolvida a questão do centro, em geral, como em relação a esta questão da estátua, em particular, como terei certamente oportunidade de justificar noutra altura, hoje preocupa-me o modo como anotaste (e portanto não se tratou da tua opinião e sim da tua descrição) o que se passou naquela Assembleia Municipal e que configura uma perspectiva para mim objectivamente tendenciosa e não verdadeira.
Que te identifiques com as posições manifestadas pelo actual presidente da CMB nada quero opinar pois, como referi, são-te legítimas as opções de sentimento e de consciência. Agora que anotes a posição de todas as forças políticas, minimizando a sua apreciação em generalidades, aduzindo-lhes mesmo elogios contraditórios com o que dizes defender e, ao mesmo tempo, rotules a postura do Partido Socialista (PS) como "posição fechada às mudanças, que quer manter o Barreiro, tal como está com aquele espaço no centro da cidade, completamente “inútil”, utilizado para skate e para mero ponto de encontro”, parece-me, no mínimo, uma incoerência em relação ao que te tenho ouvido/lido muitas vezes defender na defesa dos sítios da cidade, como pontos privilegiados de socialização, de agregação, de identificação, de referenciação. E quer se queira quer não, a estátua é hoje um desses sítios do Barreiro e não é despicienda a sua deslocação, como pareces fazer crer, mesmo utilizando aspas.
E se na pretendida avaliação da possível transferência da estátua tivesses ouvido, despreconceitoado de comparações, todas as razões expressas na proposta apresentada pelo PS, tê-la-ias contextualizado naquela perspectiva, entre os argumentos apresentados, a referência feita ao artigo da Pública. Não vale a pena distorcer as intencionalidades que a hermenêutica do texto (de que tanto gostas) certamente não lhe confere, subvertendo as verdadeiras questões que estavam em cima da mesa e que foram as razões do pedido do Partido Socialista para inserção daquela discussão na Ordem de Trabalhos daquela Assembleia Municipal, circunstância que por acaso não a(nota)ste.
E este sustentou-se na necessidade de se reflectir sobre a transferência ou não da estátua para outro local face ao seu valor como “sítio” da cidade, ao seu valor intrínseco e ao valor de quem a mesma representa na história e na identidade barreirense face à sua actual e/ou eventuais futuras localizações. E "só" isto, já que ninguém pareceu querer assumir a sua discussão em termos estético-artísticos para além do seu reconhecimento como conjunto uno ou como obra constituída nas três partes que lhe são identificáveis – a estátua propriamente dita, a peanha que a faz emergir e o fundo do espelho de água que a envolve – e que sabemos ter sido concebida cada uma por seu autor.
Por outro lado também não me parece que a posição defendida pelo PS – se houver consenso político para manter a estátua onde se localiza, que se mantenha ali, se não houver, que se oiça a população através de referendo – sustente uma posição imobilista ou de bloqueio ao desenvolvimento do centro da cidade. Ó Sousa, para inferir desta posição o que registaste e agora sublinhas é necessário… muita simpatia (ou antipatia) …
Podemos julgar desproporcionado a instituição do referendo a esta questão pelo formalismo e logística que lhe são inerentes, (e, na minha opinião pessoal, é-o na medida do que lhe está subjacente eventualmente não o justificar face às possibilidades que as novas tecnologias podem proporcionar meios mais expeditos para uma auscultação directa da população, mais fácil, potencialmente mais ampla no seu conteúdo e mais rápida e menos onerosa e formal, mas já não o seria se fosse aplicado às alterações que se pretendem promover no Centro do Barreiro), contudo não podemos esquecer que este é o instrumento promotor da democracia participativa previsto quer na Constituição Portuguesa quer na Lei da Autarquias Locais para auscultação vinculativa das vontades, motivações e ambições das populações.
Assim, ao contrário do que concludentemente explicitas e em relação a esta matéria, o PS, a não haver consenso relativamente à permanência da estátua, assumiu a sua disponibilidade e requeria a de outros para avaliar sentimentos, identidades, valores, funcionalidades, deixando o parecer relativo à profunda transformação daquele espaço aos que são e irão ser seus efectivos beneficiários e utilizadores – a população do Barreiro.
Será isto querer fechar o Barreiro às mudanças ou querer mantê-lo como está?
Não me parece e sinceramente não te reconheço na defesa de outras posições. Mas se dúvidas ainda tens, sugiro-te que faças o que eu fiz: solicita ao líder de bancada do PS a proposta e certamente tirá-las-ás.
Um abraço,
Carlos Pires
Cidadão do Barreiro, militante e autarca do PS
Breve Nota
Só para esclarecer que foram editados, no “Rostos”, dois textos: um de reportagem que nada teve de opinativo. Outro texto, este, que o meu amigo Carlos Pires refere – A(nota)mentos – o qual é um texto de reflexão, um texto de opinião, onde espelho o meu comentário à reunião.
Refiro isto, para que fique claro que não misturei “opinião” com “reportagem”, como, eventualmente, pode ser inferido do texto de Carlos Pires.
Esta é a leitura que Carlos Pires faz da Assembleia. Respeito.
A leitura feita no texto - “A(nota)mentos” - é a minha leitura que, sublinho, mantenho e donde não retiro uma vírgula.
Já agora, a propósito de simpatias. Procuro não misturar simpatias com factos. Simpatizo bastante contigo, considero-te meu amigo e sou teu amigo, mas isso não me obriga a ter que subscrever “ipso facto” as tuas opiniões.
Lembras-te: até cheguei a defender que tu eras um óptimo candidato, pelo PS, a Presidente da Câmara Municipal do Barreiro. E continuo a pensar isso. No entanto, isso, não afecta em nada a minha amizade e estima pelo Carlos Humberto, que considero um homem íntegro. Como tu.
Um abraço, com amizade
Sousa Pereira













