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Inferências

Diz que é uma espécie…de BLOGUE DE NOTAS do BarreiroPor António Sousa Pereira
Os “pensa-listas” - as verdadeiras “carraças institucionais”

O mundo de hoje não seria o mesmo se, ao longo da história, não tivesse existido o conflito e a contradição.

Mas, o mundo de hoje, também não seria o mesmo se, em nome de verdades únicas, os poderes epocais e, muito particularmente, os “pensa-listas” não tivessem contribuído para castrar e parar o movimento da história.

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Diz que é uma espécie…de BLOGUE DE NOTAS do Barreiro Por António Sousa Pereira Os “pensa-listas” - as verdadeiras “carraças institucionais”

Por Jornal Rostos

Pode existir, como alguns defendem, uma “cultura de classe”.
Pode existir, como alguns defendem, “uma consciência de classe”.
Pode até, ser real, que a “luta de classes” é um dos motores da história.
Mas, cada vez mais, pela experiência de vida, tenho uma certeza que não basta afirmar, aos quatro ventos, que se é defensor destas teses, para na prática, ser um protagonista da afirmação destes conceitos nas vivências quotidianas.

A cultura de um homem ou mulher não reside, em substância, no cartão de partido que transportam ao peito.
A cultura de um homem ou mulher não reside, em substância, na religião que afirmam professar.
A cultura de um homem ou mulher não reside no seu estatuto económico ou social.
A cultura de homem ou mulher reside na sua formação humanista – liberdade, ética, integridade.

Um dia Bento de Jesus Caraça perguntou - “O que é o homem culto?”
E respondeu que, um homem culto : “É aquele que :
1º Tem consciência da sua posição no cosmos, e, em particular, na sociedade a que pertence;
2º Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência como ser humano;
3º Faz do aperfeiçoamento do seu interior a preocupação máxima e fim último da vida”.
Ser um homem culto é, portanto, ter uma dimensão da vida de forma plena.
Ser um homem culto é sentir que a vida é movimento, transformação, que nada do que é humano nos é indiferente.

Conheci homens e mulheres, conheço homens e mulheres, dos mais diversos partidos, religiões, na escola, na vida associativa, no cooperativismo, no quotidiano, que são pessoas cultas.
Vivem e lutam de forma plena pelos seus ideais, princípios e valores.
São pessoas cultas porque as suas ideias têm raízes. Emergem da história. Pensam o tempo que vivem. Sentem a vida como movimento. Um processo.
Posso discordar das suas ideias, mas respeito-os.
Eles, de facto, estão presentes nas vivências partidárias.
Eles, de facto, estão presentes na vida associativa, no cooperativismo, na escola, no quotidiano da cidade.
Eles estão presentes nas vivências religiosas.
São homens e mulheres que vivem em interacção, comunicam, afirmam valores.
São homens e mulheres que dão, na verdade, sentidos diferenciados aos movimentos da história.

Uma das coisas mais terríveis que, a humanidade, por vezes, ao longo da história, tem enfrentado, são os fundamentalismos.
Os fundamentalismos geram , normalmente, os “pensa-listas” , aqueles que pensam “à lista” epocal.
Aqueles que são as verdadeiras “carraças institucionais”, na acção e no pensamento.
Estes, por vezes, são os primeiros a acusar, a apontar o dedo, a lançar pedras.
São os criadores de “inimigos comuns”.
São estes que passam a vida a “catalogar” a “rotular”. Este é preto. Aquele é branco.
Eternos defensores do pensamento único de uma só cor – vermelho, rosa, laranja, azul…
Esta espécie não é um exclusivo de um partido, ou de uma religião.
Eles andam por aí e existem diariamente nas nossas vidas, nas associações, nas empresas, na vida política, nos blogues, na acção social.
São uma espécie de “perfeccionistas”, cuja perfeição reside na permanente repetição de “chavões”. Olham-se ao espelho, com narcisismo, e acreditam que são o centro do mundo. Umbiguismo total.
Aliás, eles acreditam, piamente, que se eles próprios não existissem, não existia autoridade moral.
Eles movem-se. Mas a Terra felizmente, também, hoje como ontem, continua a mover-se. Não é verdade, Galileo?

É, por tudo isto, que penso que o associativismo não é uma ilha isolada, que se pensa a si, por si próprio, sem se contextualizar, nas relações institucionais e com a comunidade.
É por tudo isto que penso, de facto, é castrador isolar o associativismo da sua relação com os vários actores locais, quando, na prática, pretende-se gerar dinâmicas promotoras de estratégia.

É por tudo isto que penso, não serve de nada, ter um cartão ao peito e repetir que se defendem certos ideais quando, na prática, se assumem posturas retrógradas e que em nada contribuem para que o mundo pule e avance.
É por tudo isto que penso que ser “culto” não é o mesmo que ter a dita “cultura” – partidária, religiosa, clubista.
É por tudo isto que penso que ser culto, é, acima de tudo, afirmar um “conceito de cultura”, um conceito de cidade e de cidadania, que tenha por base o respeito pelas diferenças.
Ser culto é, afinal, acima de tudo, viver e sentir, todos os dias, essa energia, essa força que estimula o conflito entre as diferenças, como força geradora de criação e progresso.
O mundo de hoje não seria o mesmo se, ao longo da história, não tivesse existido o conflito e a contradição.
Mas, o mundo de hoje, também não seria o mesmo se, em nome de verdade únicas, os poderes epocais e, muito particularmente, os “pensa-listas” não tivessem contribuído para castrar e parar o movimento da história.

António Sousa Pereira

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