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Inferências

AOS DOMINGOS TAMBÉM SE ESCREVEFragmentos
Por Paulo Calhau

Dramática a situação em África. Neste caso, no Zimbabwe.
A desistência de Morgan Tsvangirai da segunda volta das eleições presidenciais ilustra bem a difícil implantação de regimes democráticos naquele continente. E naquele país.
Mas a esperança não finda. Porque há sempre Homens e Mulheres disponíveis para lutar. Pelos Direitos Humanos. Pela Liberdade. Pela Democracia. Ficam para a História. Os outros – déspotas obscenos e ditadores sanguinários – também ficam. Pelas piores razões.

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AOS DOMINGOS TAMBÉM SE ESCREVE Fragmentos Por Paulo Calhau

Por Jornal Rostos

Pois é…
V. tem 8 anos. Sofre de Síndrome de Asperger – doença do espectro do autismo.
Grandes personalidades da História – Isaac Newton, Mozart, Charles Darwin, Stanley Kubrick, Andy Warhol e Bobby Fischer – possuíam fortes traços dessa síndrome.
V. é muito inteligente. Faz “xi-xi” na cama, isto é, tem enurese nocturna. Por isso o observei em consulta, na passada quarta-feira. Infelizmente, não melhorara grande coisa em relação ao nosso último encontro, continuando a ter muitas “noites molhadas”. Procuramos sempre o sucesso terapêutico. Mas nem sempre o alcançamos com facilidade.
Já para o final da consulta, falei-lhe da escola:
P: vai bem, V.?
R: já acabou, claro.
P: então estás de férias…
R: claro [expressão que utiliza a todo o momento], mas a minha mãe ainda não.
P: e onde ficas durante o dia?
R: no ATL, claro.
P: gostas?
R: claro... é o único sítio em que estou em segurança.
Arrepiante...

Quase cem
Mais de oitenta anos de carreira. Dezenas de filmes realizados. Palma de Ouro de Cannes. E Leões de Ouro de Veneza. Ele que até é portista de nascimento e dragão de simpatia clubista.
Gosta de filmar. Tem projectos – muitos. Incrível…
Gosta de viver – muito. “É uma coisa que recomendo aos meus amigos”. Tem toda a razão…
Não conheço em detalhe a sua obra cinematográfica. Não é o meu realizador de eleição. Mas é, para muitos, o “mais velho dos grandes realizadores do mundo ainda em actividade […] e um dos mais imaginativos e inovadores realizadores do cinema europeu”. (Expresso, 21 de Junho de 2008)
Que o tempo corra célere. Por uma vez. Para que chegue o 12 de Dezembro. E Manoel de Oliveira apague as cem velas. Que bem merece…

E depois do adeus
Vai partir. Com Scolari terminou um ciclo interessante da selecção nacional de futebol – escalão sénior. Com presenças nas fases finais dos Europeus de 2004 e 2008 e na fase final do Mundial de 2006. Registos desportivos dignos. Com mais disciplina e fair-play que em anos anteriores. Manchados, é certo, por si próprio, na agressão cínica e lamentável ao sérvio Dragutinovic.
Paradoxalmente, os resultados competitivos dos escalões sofreram um evidente e preocupante retrocesso. Ocasional? Acidental? Creio que não.
Scolari assumiu-se, durante seis anos, líder da Federação Portuguesa de Futebol – inaceitável!
Scolari foi, aqui e ali, arrogante e insultuoso – lamentável!
Scolari fez renascer um novo conceito de Selecção Nacional – elogiável!
Scolari ajudou a encher os cofres federativos – rentável!
Ou seja, a passagem de Scolari por Portugal teve aspectos contraditórios. Positivos e negativos. Por isso vai deixar algumas saudades. Mas parte sem dor.
Quem entra? Não sabemos ainda. Eu tenho uma preferência: Carlos Queirós.

Guimarães
Terra da fundação da nacionalidade. E da realização do XXXI Congresso do Partido Social-Democrata.
Que começou previsível. E acabou redundante. Porque a vitória de Manuela Ferreira Leite estava consumada à partida. Porque o(s) seu(s) discurso(s) nada trouxeram de novo.
Contos velhos, rumos novos? Parece-me que não. Diria antes que se esperam políticas velhas sem novos protagonistas. Isto é, mais do mesmo.
Estou a ser simplista e injusto? Admito que sim. Mas demonstrem-me que não tenho razão. Se quiserem. Se forem capazes…

Campos Magnéticos
Estiveram presentes na noite de quinta-feira na Aula Magna da Reitoria da Universidade Clássica de Lisboa.
Duas horas de canções. Muitas vezes tristes. Quase sempre de amor.
Os Magnetic Fields, banda nova-iorquina liderada por Stephin Merritt, protagonizaram um concerto minimalista, tranquilo, bucólico. A antítese do concerto-espectáculo, onde a encenação luminosa e sonora tende a ultrapassar e a dispersar a nossa atenção do essencial – a música e as palavras.
Soube muito bem ouvir algumas das baladas desse extraordinário “69 Love Songs” (álbum triplo de 1999) e as composições dos mais recentes “i” (2004) e “Distortion” (2008).
Um pormenor: a digressão europeia começou esta semana em Madrid e Barcelona, com bilhetes de 15 a 25 euros. Em Lisboa, os presentes tiveram de despender 25 ou 30 euros. Sintomático...

Porque não te vais embora?
Dramática a situação em África. Neste caso, no Zimbabwe.
A desistência de Morgan Tsvangirai da segunda volta das eleições presidenciais ilustra bem a difícil implantação de regimes democráticos naquele continente. E naquele país.
Mas esperança não finda. Porque há sempre Homens e Mulheres disponíveis para lutar. Pelos Direitos Humanos. Pela Liberdade. Pela Democracia. Ficam para a História. Os outros – déspotas obscenos e ditadores sanguinários – também ficam. Pelas piores razões.

Boa semana para todos. Até Domingo próximo.

Barreiro, 29 de Junho de 2008
Paulo Calhau
(paulocalhau@netcabo.pt)

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