Diz que é uma espécie…de BLOGUE DE NOTAS do BarreiroGosto de viver no Barreiro e quero continuar a viver aqui...

Por Jornal Rostos
Neste período de férias vou deixar aqui algumas notas para reflexão, temas que poderão suscitar, debate, (re)encontro de ideias, procura de caminhos, enfim, formas de pensar os acontecimentos que vão fazendo os nossos dias.
Tema 1
“Partidarismo bom” e “Partidarismo Mau”
Vejamos, antes de mais, o que entendo por “partidarismo bom” e “partidarismo mau”.
Esclarecendo, entendo por “partidarismo mau” aquele que parte do principio que “os interesses do partido estão acima dos interesses da cidade, são superiores ao bem comum”.
Por outro lado, entendo que “partidarismo bom” é aquele que “coloca acima dos interesses partidários os interesses da cidade e valoriza o bem comum”.
Não acredito, que a identidade e os valores de um partido sejam anulados pelo facto de serem colocados acima dos “interesses partidários” os “interesses da comunidade”, aliás, considero que um partido se afirma mais, muito mais, na vida da comunidade se pela sua acção política, no poder ou na oposição, for capaz de se tornar o protagonista e o defensor das “ideias-força” que contribuem para a valorização da cidade e da cidadania.
Não me parece que para defender os valores partidários seja necessário ter de adoptar um “sistema de valores” que, no limite, conduza a um modo de ser e estar que afirma – “quem não é por nós está contra nós”, assim como quem produz uma espécie de “pensamento único”.
Acredito que o nosso sistema partidário valoriza a democracia pela sua pluralidade.
A luta partidária não tem que ser, obrigatoriamente, reduzida a formas de agir e estar na vida que, de forma permanente, nos impõe, pensar os factos a “preto e branco”.
Compreendo que 40 anos de fascismo, tenham contribuído para gerar esta cultura dos “bons” e dos “maus”, situação que, infelizmente, passados mais de 30 anos de regime democrático, ainda afecta as nossas vivências quotidianas.
Pelo que tenho verificado, na vida politica local e nacional, sempre que as forças políticas no poder se fecham dentro de si próprias e esquecem que há mais realidade, que, limitarem a sua acção à “defesa” do ser e estar no poder, então, nota-se que a oposiação ganha espaço, quando abre o debate à sociedade civil e mobiliza a vivência da cidadania activa.
Mas, o ciclo repete-se e depois, a dita oposição, ao chegar ao poder, volta, por razões culturais, a ser a protagonista daquilo que acusava os outros, quando era oposição.
Esta realidade politica local, ou nacional, que valoriza as tendências do “partidarismo mau”, tem conduzido, ao longo dos anos, à desmotivação e descrença dos cidadãos na vida politica e nos protagonistas da vida politica.
Esta realidade, tem desperdiçado muitas energias humanas e gerado muitas inércias na vida das comunidades.
Porque o “partidarismo mau” é a causa da perda da “autoridade politica” e da perda da “autoridade moral” que os partidos, pelos seus valores e programas deveriam protagonizar.
O “partidarismo mau”, no poder ou na oposição, move-se por razões de conveniência, só aplica, na análise dos factos principios de reflexão que assentam num “egopartidarismo”, empobrecendo o próprio sentido das causas e valores que caracterizam as diferentes dinâmicas partidárias.
Sempre que os partidos valorizam o “partidarismo bom” conseguem superar-se, geram forças que mobilizam ( dou o exemplo dos Estados Gerais ou do Movimento do BEM – Barreiro em Movimento, na prática política, ou a ideia conceptual das “opções participadas, hoje, defendida pelo presidente da Câmara Municipal do Barreiro).
O “partidarismo bom” faz mover forças que vão para além dos circuitos fechados das vidas partidárias, mobiliza vontades, dá uma visão positiva da vida politica, valoriza as relações interpessoais, coloca acima dos “ódios ideológicos” uma concepção de cidadania interactiva.
Este tema, só por si, deixa em aberto, muitas notas marginais para reflexão.
Pense nisto e talvez, seja capaz de descobrir que afinal : “Freud explica isto!”.
Tema 2
Uma terra que esquece a sua memória
Uma das teses que, por vezes, escuto com alguma perplexidade, é aquela que, afirma que o Barreiro só começou a ser falado, pela positiva, na vida nacional, principalmente durante os quatro anos de gestão do Partido Socialista.
Há quem afirme esta tese convicto que está a valorizar o Barreiro e a cidadania dos barreirenses.
E, dou comigo, neste contexto, a pensar que o Barreiro, durante décadas, foi uma terra apontada a dedo, como uma bandeira moral para um país oprimido.
Será que esta realidade, de o Barreiro ser uma cidade que lutou pela democracia e pela liberdade e ser conhecida como a “cidade do trabalho” ou, até mesmo, a “cidade vermelha”, é alguma coisa que envergonha os barreirenses?
Era isto uma coisa má, pela qual o Barreiro era conhecido, em Portugal e no mundo?
Mas, por exemplo, a grande referência nacional que foi para o país os Jogos Juvenis do Barreiro, que gerou um movimento voluntário de práticas desportivas e culturais, de dinâmicas envolventes da comunidade que colocavam em causa as “Mocidades Portuguesas” do regime e fazia brotar na comunidade as suas potencialidades criadoras.
Foi também uma coisa má, pela qual o Barreiro foi, e, ainda hoje, é reconhecido.
O Barreiro ainda está por fazer a devida e justa homenagem aos seus Jogos Juvenis do Barreiro.
Onde está no Barreiro a AVENIDA JOGOS JUVENIS DO BARREIRO? Onde está no Barreiro o monumento aos seus Jogos Juvenis do Barreiro?
Onde está o orgulho dos barreirenses nos seus Jogos Juvenis do Barreiro, estudado por historiadores ou outros investigadores?
E, que dizer, dos muitos nomes que o Barreiro deu ao futebol nacional, que tanto nos orgulhamos, mas, que, de facto, só os evocamos nos momentos que morrem, porque em vida são ignorados.
E que dizer, dos nossos artistas, como Augusto Cabrita ou José Cândido, para referenciar só estes dois. Podendo acrescentar Ferrer Trindade, ou a primeira Maestrina Portuguesa Natércia Couto.
Ou ainda, no fado Fernando Farinha, ou na tauromaquia Armando Soares. Enfim, são tantos!!
E que dizer, de nomes de barreireneses que marcaram a história do jornalismo português, dou só o exemplo de Manuel Figueiras.
E que dizer da CUF e seu exemplo empresarial, pelo bem e pelo mal.
Estas são só, apenas, algumas notas avulso.
Mas, nos tempos de hoje, quem não se orgulha do Barreiro ser referenciado como a “Capital do Basquetebol”, que, ano após ano, quer ao nível feminino, quer ao nível masculino, serem premiados clubes do Barreiro com maiores níveis de formação.
Ou, também do Programa de Desenvolvimento do Xadrez, que tem sido seguido como um exemplo pioneiro, em diversos pontos do país.
Ou, ainda, que dizer, das comemorações dos 500 anos da descoberta do caminho marítimo para India que teve o seu ponto alto no Barreiro, graças ao grande contributo de José Caro Proença que colocou, em boa hora, o Barreiro na Rota dos Descobrimentos.
E que dizer, do facto, num Congresso Internacional, realizado no Barreiro, ter sido reconhecido que o Barreiro é uma cidade de referência internacional no estudo da “rota do vidro” ao nível mundial.
E que dizer da BARRIND que, na época, por gestores da FIL, ter sido considerada uma experiência única no país com grandes potencialidades para se tornar uma referência a sul do Tejo, infelizmente, rapidamente superada pela experiência que, na época, também arrancou, em Lagoa, no Algarve : a FATACIL, que ainda hoje perdura, com grande prestígio.
E, se mergulhar na memória, sem dúvida, muitos outros exemplos serão encontrados, na riqueza humana e criadora desta cidade.
É pena que, tantas vezes, nós tenhamos mais como preocupação sublinharmos o que é mau, e, sublimarmos o que é bom e, ainda por cima, assumir essa arrogância de que o Barreiro começou a ser conhecido por coisas boas, a partir da gestão PS, como se fossemos uma terra sem memória e sem história.
Tema 3
O Barreiro sofreu um colapso
O último tema que vos deixo para reflexão sazonal é este, a triste realidade que o Barreiro ainda está submergido num processo, donde terá que emergir com novas energias.
O Barreiro sofreu um colapso, com o processo de desindustrialização.
E, hoje, o Barreiro vive um drama, está dividido, entre a saudade do que foi e a incerteza do que pode vir a transformar-se.
Uma terra que vivia na dependência da “fábrica” onde o pequeno comércio pulvilhava porque existia poder de compra, onde o associativismo era uma referência porque o homem sentia que havia mais vida para além do pão.
A coscuvilhice politica local mais preocupada em gerar “culpados” e “culpas” tem sido incapaz de promover um amplo debate sobre uma estratégia para a cidade.
A coscuvilhice politica local mais preocupada com jogos de poder e pseudo-lideranças, tem sido incapaz de motivar e mobilizar o capital humano do Barreiro.
O conflito residual entre a “cultura do nós” que marcou gerações e a “cultura do eu” que não percebe que um “eu” só existe com outros “eus”, tem contribuído para o constante adormecimento da nossa sociedade civil, porque não promove uma cultura de “emancipação da cidadania”, pois, muitas vezes, quer o poder, quer a oposição, vivem mais em recriminações, do que na procura de implementação de estratégias mobilizadoras dos cidadãos.
Quando será que percebem que há mais cidade para além dos partidos.
A cultura da solidariedade que marcou gerações está a esvair-se, porque continuamos com os olhos no passado e somos incapazes de pensar futuro.
A opinião pública local é muitas vezes confundida com “opiniões partidárias”, fazendo de novo, voltarmos a tempos que pareciam superados que existem os “bons”, que querem tudo de bom para o Barreiro, e, simultaneamente, os “maus” que só querem o mal do Barreiro.
Parece que somos incapazes de superar o “colapso” que nos afectou, mas, de forma positiva e construirmos uma cidade onde, existindo diferenças de opiniões e forças adversárias, os confrontos são feitos ao nível das ideias e de procura de modelos diferentes.
Verificamos que nas grandes opções o discurso é comum, mas, nos momentos, que deveria existir um debate com seriedade, de mobilização da cidade para o seu futuro – como deveria estar a ser feito neste momento, a propósito de uma discussão pública que está aberta – existe um total silêncio.
Sim, o mais importante é discutir a Estátua Alfredo da Silva, como se aquele elemento arquitectónico, ao longo dos anos, se tivesse afirmado como um símbolo da cidade ou do concelho.
Aliás, até se ignora, ou pretende ignorar-se que aquela estátua foi colocada no Barreiro, em plenos anos 60, após o rebentar da Guerra Colonial, num momento muito dificil para o regime fascista, que precisava de demonstrar ao país que o Barreiro estava vergado aos valores do capital e do regime.
E, acrescento, para que não haja dúvidas, que sou defensor que o Barreiro, tal como noutras coisas, também por cegueira, tem sido incapaz de chamar a si as potencialidades de investigação e estudo cientifico que herdou de Alfredo da Silva e do Grupo CUF.
Vivemos este clima de recriminação constante na busca de bodes expiatórios, sem sermos capazes de abrir caminhos rasgar horizontes e, sublinho, esta é uma responsabilidade de quem é poder ( que em justiça, diga-se, actualmente está a desenvolver um esforço positivo nesse sentido) mas, acrescento que também é, ainda mais, responsabilidade de uma oposição que queira ser alternativa e não alternância.
São muitos os que vivem no Barreiro e afirmam que gostam de viver aqui e querem continuar a viver aqui, mas, por favor, já é tempo de pensarmos – o que somos, donde viemos e para onde queremos ir, e, naturalmente, deixarmos de olhar para nós próprios com a saudade do que fomos, com estigmas,e, isso sim, assumirmos a energia do que queremos ser.
Pergunto : Será que em relação ao Barreiro, esta terra que vive, ainda hoje, um processo de grande gravidade, fruto do “colapso do seu sistema económico e social”, ao longo dos últimos anos, os sucessivos governos, não deveriam ter criado programas especificos, com a consciência da dimensão social da crise emergente?
Tendo o PROT- AML, nos anos 90, definido áreas do Barreiro como zonas criticas ( exemplo Bairro das Palmeira) ou áreas-criticas com potencialidades, não deveria ter sido pensado um programa especial de intervenção para esta região marcada pelas causas de uma desindustrialização?
Foi isto que eu ouvi defender, na SFAL, no decorrer da Presidência Aberta de Mário Soares, em 1993. Que foi feito? Zero.
Por aqui me fico...boas férias a todos!
António Sousa Pereira













