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Inferências

InferênciasHá mais Barreiro para além das “guerrilhas partidárias”

Naquilo que é o “bloco central” dominante no distrito de Setúbal, formado pelo PCP/CDU e PS, é óbvio que, no Barreiro, o PS lançou, em 2001, uma onda de esperança, uma lufada de ar fresco.
Podem crer, nos dias de hoje, é bem claro, que após a vitória do PS, no Barreiro, nada será como dantes.
O PCP/CDU, percebeu isso e sabe isso. O PS é que não percebe isso.

22 min de leitura
Inferências Há mais Barreiro para além das “guerrilhas partidárias”

Por Jornal Rostos

As férias estão a chegar. Antes da partida para férias, todos nós, já, de facto, sentimos no ar o “aquecimento” das próximas eleições autárquicas, legislativas e europeias. Elas andam por aí...a pré-campanha está aquecer os motores.
E, talvez, por essa razão, seja, este, um bom momento para deixarmos, por aqui, um tema para este período de “reflexão sazonal”.
É um facto que os partidos são a essência da vida democrática, são eles que espelham as diversas expressões de pensamento e visões sobre a actualidade e projectos de futuro.
São os partidos que propõem os nomes dos políticos que assumem a responsabilidade de dirigir os destinos das nossas terras, do país e da Europa.
Nós votamos nos partidos. E, naturalmente, os líderes também são uma referência.
Mas, ao nível autárquico, muitas vezes, também “olhamos” para os nomes e escolhemos com base nos diferentes candidatos, porque, pela proximidade, nós conhecemos as “personagens” que se apresentam ao eleitorado.

O eterno ciclo pendular

Uma coisa que tenho, diversas vezes, ao longo do tempo referido é o que defino, no âmbito dos processos eleitorais, o chamado - “ciclo pendular”.
Ou seja, o facto de, no Barreiro, nas eleições legislativas, em sucessivas eleições, o Partido Socialista ser vencedor, e, posteriormente, nas autárquicas ser vencedor o PCP/CDU.
Esta tem sido uma realidade constante. Tal, não se deve, naturalmente, a uma atitude esquizofrénica do eleitorado, de optar por ser governado ao nível nacional por socialistas ( ou sociais democratas – ou já esqueceram que, no Barreiro, o PSD conquistou o 2º lugar numas legislativas de Cavaco Silva) e ao nível local pelos comunistas.
Há quem diga e quem defenda, que, se nas eleições autárquicas baixar a abstenção o PS vence. Talvez não seja assim tão factual.
Porque será que o eleitorado não se mobiliza para “correr” do Poder Local esses, tenebrosos comunistas, tantas vezes acusados de destruidores do Barreiro.
E, porque será que o eleitorado deu a vitória pela primeira vez ao PS e, depois, de imediato, voltou ao “ciclo pendular”, renovando a vitória do PCP/CDU.
Será que são os eleitores que não sabem o que querem? Ou foi mesmo uma resposta do estilo – voltem comunistas estão perdoados!
Será que todos os eleitores, uns porque não se mobilizam, outros porque votam erradamente, querem mesmo o pior para a terra onde vivem?
Esta uma matéria que deveria ser pensada e ponderada.
Conheci e conheço eleitores, que sendo socialistas, ou sociais democratas, durante anos nas autárquicas votavam no PCP/CDU, enquanto nas legislativas votavam nas suas opções partidárias. Porque não sentiam, localmente, no PS uma alternativa.
Alguns desses eleitores nas autárquicas, que o PS venceu, deram o seu voto pela primeira vez ao PS, porque sentiram um “vento de mudança”. E acreditaram que estava em marcha uma alternativa.

Bloco central do distrito de Setúbal

Esses mesmos eleitores, que pode ser apenas um micro mundo, nas últimas autarquicas voltaram de novo a dar o voto ao PCP/CDU. Muitos disseram – para pior já basta assim! Porque o PS deixou de ser alternativa e era uma alternância em conflitos e sem “autoridade moral”.
É por isso, que acho que, na verdade, não está em questão um mero aumento de eleitores a votar, mas, no facto, que defino como o “bloco central do distrito de Setúbal”, o PS não ser capaz de se afirmar como alternativa credível ao PCP/CDU.
Porque, onde, quando o PS se afirma como alternativa credível, então, os eleitores mobilizam-se e optam na mudança. Há exemplos no distrito de Setúbal. E, o Barreiro foi um exemplo.
É que nestas coisas, os eleitores não são assim tão burros, também pensam, também têm ideias, também conhecem as pessoas e, não tenham dúvidas, nas autárquicas as pessoas contam.
Porque as autárquicas tocam o quotidianos, os nossos vizinhos, nós conversamos. O mundo não é fechado.
É por isso que costumo dizer, no caso do PS, certos líderes podem com os seus “sindicatos de voto” ser “donos” do PS, mas dificilmente serão donos do eleitorado de uma cidade, ou ganharão o respeito do eleitorado de uma cidade, porque há mais vida para além das “guerrilhas partidárias”.

Emidio Xavier era um alvo a abater

Quero sublinhar que, com a vitória do Partido Socialista nas eleições de 2001, parecia, de facto, que esse ciclo pendular tinha chegado ao fim.
Cheguei, no começo do mandato, a acreditar que tal seria um facto e que, na verdade, dificilmente o PCP/CDU voltaria a reconquistar a Câmara Municipal do Barreiro.
Embora, pelas circunstancias diversas, comecei a admitir, posteriormente, que a luta seria travada taco a taco, com mais possiblidades de ser alcançada uma vitória pelo PS, que pelo PCP/CDU, dado que o PS era poder e estava a exercer e concluir o seu primeiro mandato, podendo, eventualmente, ser bafejado pelo benefício da dúvia.
Mas o eleitorado preferiu o “regresso ao passado”, até porque, o PCP/CDU fez uma excelente pré-campanha eleitoral, autocriticando-se e assumindo os erros, afirmando-se com um discurso pela positiva.
O PCP/CDU saiu para a rua um ano antes para dialogar com a população, desbravar problemas, debater projectos, discutir ideias.
Pouco se preocupou em criticar o PS, dirigindo criticas para questões macro, como o Masterplan.
Aliás o PCP/CDU não precisava de se incomodar com o PS, porque o PS, de forma autofágica, tratava de si mesmo.
Emidio Xavier era um alvo a abater e, no entanto, era o principal trunfo que ainda dava alguma almofada política e sustentabilidade moral ao PS.
A história da derrota do PS, um dia certamente será feita, sem o calor de gerar “bodes expiatórios”, ou justificar os acontecimentos, por tal ou tais razões, muitas vezes marginais aos fenómenos sociais.

Bipopolizarção do eleitorado continua a ser uma realidade

O tecido eleitoral do Barreiro, actualmente, coloca de forma muito próxima o PS do PCP/CDU.
A bipopolizarção do eleitorado, à esquerda, continua a ser uma realidade.
No entanto, hoje, a pouco mais de um ano das próximas eleições autárquicas, estou convencido que o “Ciclo Pendular”, pelas mais diversas razões, é muito provável que vai voltar, por mais algum tempo, a marcar a vida política local.
O PS ganha as legislativas no Barreiro, ou fica numa posição muito próxima do PCP/CDU, enquanto nas autárquicas a disputa será taco a taco, vencendo quem ganhar não a “autoridade política”, mas quem merecer mais respeito e afirmar a sua “autoridade moral” perante o eleitorado.
É óbvio que o PCP/CDU já não tem, nos dias de hoje, a “autoridade política” que herdou das memórias e lutas de antes do 25 de Abril, basta observar os resultados dos sucessivos actos eleitorais.
No entanto, apesar dessa realidade política, o PCP/CDU continua a ter força, energia e inteligência para manter uma forte a “autoridade moral”, hoje, muito consubstanciada pela figura de Carlos Humberto, presidente da Câmara Municipal do Barreiro.
O PS teve nas mãos as condições para conquistar a “autoridade moral”, mas deixou-a escapar-se por entre os dedos, pulverizando-a nos seus jogos de poder.
Em quatro anos de exercicio do Poder Local, infelizmente, o PS perdeu um capital acumulado ao longo de anos de resistência e luta contra a força dominante.

Os três PS não são alternativa

O PS ao ganhar em 2001 as eleições autárquicas tinha criado todas as condições objectivas e subjectivas para retirar ao PCP/CDU a “autoridade moral”, e, diga-se, tal era decisivo para dinamizar a sua expressão sócio-política no tecido civico do concelho. Não conseguiu.
O PS chegou ao poder afirmando-se como alternativa. Era de facto uma alternativa e não uma alternância.
Mas, infelizmente, viveu no poder meramente como se tivesse sido uma alternância, ainda por cima, muitas vezes, quase como sendo uma alternância que, na prática, mais não era que “fotocópia muito desfocada”.
O PS não chegou a ganhar autoridade moral, ou seja, não chegou sequer a erguer os olhos e afirmar convictamente as suas diferenças do PCP/CDU. Por vezes as suas politicas, por exemplo, ao nível cultural eram um verdadeiro plágio do pior que o PCP/CDU tinha, por vezes, protagonizado.
É por isso que, acho piada, quando escuto algumas posições que se baseiam apenas na “guerrilha política” de ataques políticos, querendo, afinal, transportar para a cidade o modo de fazer politica que, em certa medida, caracteriza a vida interna e constante dos três PS’s que marcam a vida partidária dos socialistas no Barreiro.
O PS liderado por Júlio Freire, protagonizado por Pedro Mateus, líder concelhio.
O PS liderado por Amílcar Romano, que tem a sua base na Secção do Lavradio.
O PS sem liderança de diferentes opiniões, onde existe alguma vontade de gerar uma alternativa ao PCP/CDU, mas que não tem força politica suficiente e acaba por estar metido nas guerrilhas internas de permanente coscuvilhice e politiquice.
É por isso que, por muito que isto doa aos socialistas penso que, por este caminho, repito, por este caminho, o PS dificilmente será alternativa, quanto muito poderá surgir como alternância. E, como alternância, será uma cópia desfocada do PCP/CDU. Portanto, é caso para dizer : para pior já basta assim!
Talvez, até, diga-se, na verdade, seja fácil, mesmo muito fácil, ser alternância, basta manter a actual estratégia de política de “guerrilha urbana” que, no final, até pode ser que resulte e, se resultar... depois, se esta forma de fazer política se transferir para gestão da cidade, enfim, será caso para dizer : Nª Srª da Misericórdia acuda ao Barreiro.
A política tem que ter por base ideias, valores. O poder pelo poder gera sempre a intolerância.

A luta politica com base nos “fait divers”

O PS parece, nos dias de hoje, que ainda não percebeu que o PCP aprendeu algumas coisas com os erros que cometeu, e, a prova que o PS não percebeu que algo mudou no Barreiro, é que continua a travar a luta politica com base nos “fait divers”, como se ainda estivesse no PREC, retomando velhos e estafados “discursos politicos” do tempo das “palmeiras e dos camelos” que, de facto, por mais de uma vez, conclui-se, na prática, que era apenas fogo de artificio para satisfazer as conflitualidades do próprio PS, numa necessidade imperiosa de autoafirmação.
Mas, por outro lado, o PCP/CDU, no Barreiro, tem um problema político por resolver, porque não consegue dar vitalidade ao espaço politico “CDU”, por razões estruturais e históricas.
No entanto, o PCP/CDU já percebeu, de há muito, que não pode contar, somente, consigo próprio para afirmar a sua estratégia de liderança da cidade, por essa razão, a estratégia conceptual das “opções participadas, foram um instrumento que visou potenciar novos espaços de diálogo.
O drama é, até onde, uma estratégia conceptual, só por si, sem resultados práticos, pode afirmar uma onda de cidadania que galvanize a cidade para os seus desígnios de construção do futuro.
O PCP/CDU carece, com urgência, que nasça uma dinâmica motivadora de forças exógenas ao seu espaço politico, que lhe demonstre afectos para não cair no isolacionismo.
O PCP/CDU tem que abrir mais à cidade, lançando uma ampla discussão sobre a elaboração de um Plano Estratégico para o concelho, em torno da revisão do Plano Director Municipal, em torno da implementação do Plano Municipal do Ambiente.
Até, existe uma experiência adquirida em torno do debate do Plano Estratégico para o território da Quimiparque, que pode ser uma base de trabalho.
O PCP/CDU tem que ser capaz de demonstrar que faz política para a cidade ( sente-se que quer estar nesse caminho), mas tem que consolidar essa estratégia e ganhar a confiança, envolvendo os cidadãos e os agentes locais na vida pública.
Felizmente, para o PCP, conta com uma oposição que, em vez de promover politicas alternativas e apontar novos caminhos, anda mais preocupada com os seus “sindicatos de voto”, com as suas diversas “lideranças” e faz politica com base numa estratégia de criar “factos politicos” e “fait divers”.

Os Roteiros das pobrezas

Por exemplo, o PS “inventou” agora essa coisa do fenomenal do “Roteiro da Pobreza do Barreiro”.
Se calhar, esquece o PS, que há por aí, nos dias de hoje, muitas casas, em prédios chiques, onde o endividamento das familias é terrível, e, naturalmente, também deveria contemplar essas situações nos seus “Roteiros da Pobreza”.
Falem com o Padre José Manuel, da Igreja de Nª Srª do Rosário, que ele, certamente, pode dar a conhecer a muita fome escondida que existe por aí, com lágrimas e tristeza.
É culpa da Câmara Municipal do Barreiro? Ou será um facto resultante da situação nacional e internacional?
E, já agora, o PS esteve quatro anos no poder, será que nunca se apercebeu desse “Roteiro de Pobreza”? Descobriu agora os bairros dos pobres? Não, isso foram os outros, de outro PS, que esteve no poder.
Esta é uma diferença marcante daquilo que está a ser a pré-campanha do PS, que está em marcha, daqulo que foi a pré-campanha do PCP/CDU, nas últimas eleições autárquicas.
O PCP/CDU nunca regeitou o seu património do passado. Admitiu os seus erros.
O PS não quer admitir que cometeu erros e afirma a sua gestão como a melhor de todos os tempos e que nada herdou das gestões do PCP/CDU, por isso, hoje passa a vida a discutir “paternidades”.
O PS devia estar, hoje, a apontar as diferenças de modelo de cidade e de cidadania, aquilo que o separa do PCP/CDU, em vez de estar a clamar que o PCP é uma nulidade, ou que tudo o que está a ser feito é sua paternidade.
Esquece, por exemplo, que quase tudo o que foi obra do seu mandato, foi herança que recebeu do PCP/CDU.
É que numa terra onde não há pão... e, naturalmente, será sempre assim enquanto a situação económica e financeira da CMB, se mantiver na sua actual realidade.

Apontar o dedo ao Poder Central

O PCP/CDU teve a humildade de reconhecer que errou, o PS, limita-se a acusar o PCP/CDU de todos os males do Barreiro, sendo incapaz de reconhecer as suas insuficiências, os seus erros de gestão, e, já agora, apontar o dedo ao Poder Central que, tem muitas, mesmo muitas, responsabilidades por ter deixado o Barreiro sofrer os impactos da desinsdustrialização sem ter potenciado qualquer apoio ou intervenção estratégica.
A própria Quimiparque brotou da inteligência e vontade criadora de homens que tinham vivido a vida na CUF e Quimigal e, sentiam com dor, ver aquele território degradar-se e transformar-se, aos poucos, numa cidade fantasma. Partiram à aventura sozinhos e, diga-se, aqui, sem a própria compreensão atempada do PCP/CDU, que, nem sequer era capaz de afirmar as linhas estratégicas definidas no PDM. Só tardiamente (ao estilo Cidade do Cinema, em vésperas de eleições) apresentou a proposta de Manuel Salgado.
Existem Bairros em situações dificeis, alguns com situações problemáticas, mas será que, tal como foram aprovados programas para alguns bairros da AML - na Amadora, Oeiras, Loures, Moita - também o Barreiro, que sofreu um brutal impacto da desindustrialização não merecia ter sido motivo de aplicação de um “Plano de Emergência”?

Câmara do Barreiro abriu a porta aos desempregados

Quando começou a crise da Quimigal, Lisnave, Setenave, Siderurgia Nacional, foi a Câmara Municipal do Barreiro ( e outras autarquias) quem absorveu muita mão de obra, no Barreiro, com a criação do seu Serviço de Obras, e iniciando a realização de muitos trabalhos por Administração Directa.
Se não fosse a Câmara Municipal do Barreiro, na época, talvez, nem os Planos de Combate à Pobreza da Governadora Civil de Setúbal, Irene Aleixo, nem os apelos do Bispo D. Manuel, tinham dado resposta à crise estruturante que se abateu sobre o Distrito e sobre o Barreiro, talvez, hoje, o tal “roteiro de pobreza” fosse de outras dimensões.
Gostava de ver o PS a falar desses “Roteiros de Pobreza” e, a exigir, com força moral, de quem quer ser alternativa, ao Governo que estude um Plano de Emergência para o Barreiro, para reconversão do Bairro das Palmeiras, da Quinta da Mina e de outros bairros do concelho. Isso não se faz só com Creches! Embora, seja uma boa ajuda. Sublinhe-se.
Não. O PS vem acusar o PCP/CDU de “insensibilidade” para as questões sociais. Valha-nos a Nª Srª da Misericórdia!

O PS lançou no Barreiro uma onda de esperança

Uma coisa quero reafirmar. É indismentível que o Partido Socialista ganhou as eleições autárquicas porque se superou a si próprio, cativou para a sua causa, eleitores habitualmente votantes do PCP/CDU e até mesmo do PSD.
O PS ganhou as eleições autárquicas porque apresentou ao eleitorado uma nova proposta de fazer cidade e de viver a cidadania.
Por vezes, há quem diga que o PS prometeu mundos e fundos e depois não cumpriu, por isso perdeu as eleições.
Nunca concordei com esta tese. Penso e considero convictamente, que o PS ganhou as eleições porque cativou o eleitorado, porque lançou propostas de mudança, gerou um movimento de opinião, que rasgava, no concreto, com o tradicional mutismo do PCP/CDU e, até, com o autismo que se tinha instalado.
O PS lançou no Barreiro uma onda de esperança. O PS lançou no Barreiro uma lufada de ar fresco e podem crer, de facto, após a vitória do PS, no Barreiro, nada será como dantes. O PCP/CDU sabe isso. O PS é que não percebe isso.
Porque afinal o PS enterrou, por si mesmo, essa bandeira da esperança. Ou por outra, não foi o PS, foram as várias “lideranças” do PS, que mais preocupadas com o próprio umbigo e ambições pessoais, ignoram que a cidade, apesar de tudo continua a mover-se.
Sim, a cidade está viva, mesmo com os seus “roteiros de pobreza” , herdados de gerações.

PCP/CDU tinha virado as costas à cidade

É preciso, recordar que, era muito claro que o PCP/CDU tinha virado as costas à cidade, preocupando-se mais nas suas estratégias partidárias.
O PCP tinha virado as costas às vivências da cidadania.
O PCP colocou, de facto, na gaveta, a necessidade imperiosa de manter uma regular ligação aos eleitores e ao eleitorado e aos agentes locais.
Entretanto, o PS lançou debates temáticos. O PS saíu de si próprio e galvanizou vontades. Os eleitores acreditaram que era possível construir um Barreiro assente na sua cultura, uma cultura de Liberdade.
O PCP/CDU pagou, nas eleições de 2001, a factura de se ter fechado dentro de si próprio de, muitas vezes, colocar as visões de partido acima das visões da cidade.
O PS apresentou-se com um paradigma alternativo. Abriu à cidade. Apostou nos barreirenses.
O PS, igualmente, que, até aí, era um partido que só renascia nas autárquicas envolveu-se de forma activa, cativando e sensibilizando a opinião pública.
Naturalmente, lançou propostas que, todos sabemos, eram propostas que assentavam em sonhos, em lançar caminhos que, afinal, hoje, o tempo, demonstrou não são ilusões, são propostas possíveis de construir. Emidio Xavier tinha razão era um projecto para uma ou duas gerações. É o que está hoje em marcha.
Só que, na verdade, o PS no poder, pouco a pouco, começou a viver o “síndroma do partidarismo”. Começou a esquecer a cidade e a voltar-se para os seus problemas internos, como, aliás, acontecia, sempre, ao longo de anos, nos períodos do “ciclo pendular”. Tornou-se um partido autofágico.

Há mais Barreiro para além do PS e do PCP/CDU

O PS esqueceu rapidamente a lição que Aires de Carvalho aprendeu. De facto, o líder carismático do PS Barreiro, faça-se justiça, percebeu e BEM, que podia ser “dono do PS”, como efectivamente era, mas, nunca seria poder no Barreiro se continuasse a ignorar que “há mais Barreiro para além do PS e do PCP/CDU”.
Mas, o PS no poder passou a ser o centro de tudo, tornou-se, muitas vezes, nas relações de cidadania, verosimelhante ao PCP/CDU que tanto criticara.
Isto, enquanto a cidade estava ali ao lado a ver, e a sentir, que nem tudo estava bem no “reino da Dinamarca”.
Por outro lado, o PCP/CDU começou a sair para a rua, a dialogar com a cidade, a fazer, muitas vezes a “autocritica” e a expressar uma nova forma de estar na cidade, colocando a cidade acima dos interesses partidários.

O bom e o mau partidarismo

Um partido não precisa de perder a sua identidade, nem os seus valores, para se afirmar na cidade. É por isso que refiro que há o “mau partidarismo” e o “bom partidarismo”.
O “mau partidarismo” é aquele que coloca os interesses do partido acima dos interesses da cidade.
O “bom partidarismo” é aquele que coloca os interesses da cidade acima dos interesses do partido.
O PS ganhou as eleições em 2001 porque foi capaz de fazer e promover um “bom partidarismo”.
O PCP ganhou as eleições em 2005 porque foi capaz de apresentar um projecto de “bom partidarismo”.
O “bom partidarismo” não assenta numa cultura de grupo, nem de ataques pessoais, tem por base um projecto, modelos de referência de viver a cidadania, homens que se apresentam com o espirito de missão.
Emidio Xavier foi disso um exemplo, enquanto, por razões epocais ( entre elas o falecimento do líder carismático) acabou por se transformar num “bombeiro” a apagar os fogos do seu partido, ficando a cidade para segundo plano.
Carlos Humberto, foi e continua a ser um exemplo de “bom partidarismo”, como homem íntegro, honesto e que coloca os interesses da cidade acima dos interesses do partido.
Falta saber até quando a cultura do PCP aceita esta visão estratégica de fazer cidade e cidadania.

O PS falhou porque ignorou esse valor essencial do “bom partidarismo”

Hoje, o PS anda pela cidade, quase parecendo que quer fazer uma “mimesis” daquilo que foi a acção politica do PCP/CDU, na oposição, no decorrer do seu mandato autárquico.
Só que, de facto, pelo que nos temos apercebido, existe uma grande diferença.
O PCP/CDU nos seus contactos avaliava os problemas, tecia comentários e fazia a autocritica dos seus erros. Tinha um discurso pré-eleitoral de quem tinha vontade de corrigir os erros. Agia com um discurso pela positiva.
O PS, nos dias de hoje, pelo contrário, imputa todos os males ao PCP, faz comentários pela negativa e, até hoje, em nada, foi capaz de assumir um pedido de desculpas ao eleitorado por não ter cumprido, não as promessas porque essas, sem dúvida, eram e continuam a ser para uma geração, mas por ter falhado o projecto de construção de uma nova forma de fazer politica na cidade. Faz um discurso pela negativa. Divide o mundo nos “bons” e nos “maus”. Parece que quer construir uma cidade para os socialistas e criar um gueto onde serão colocados os comunistas. Esse foi, por vezes, o erro do PCP.
O PS falhou porque ignorou esse valor essencial do “bom partidarismo”, colocar os interesses da cidade acima dos interesses partidários, que, até, faz parte da sua matriz genética.

Para além do “Bloco central” de esquerda

Já agora, quanto ao PSD continua serenamente a desenvolver no seu papel de partido charneira, sem subserviência ao PCP/CDU, e, pouco a pouco, a afirmar -se como uma força politica com crediblidade.
O tal Bruno Vitorino que era “um jovem”, continua a crescer e vamos ver até onde o PSD vai, continuar, neste Barreiro dominado pelo “bloco central” da esquerda e cada vez mais bipolarizado.
O PSD não é um aliado do PCP/CDU, mas, na verdade, ao PSD não interessa que o PS reforce as suas posições nas autárquicas. Esta é uma realidade que beneficia o PCP se a souber gerir ( nisto Pedro Canário foi perito).
Quanto ao Bloco de Esquerda, já percebeu que para crescer tem que contar com a derrota do PCP/CDU, porque tendo o PCP/CDU na oposição está de igual para igual num determinado espaço politico, daí, que, hoje, apareça, cada vez mais, colado aos discursos do PS.
Não é que vá ao colo do PS. Não, não é nada disso. O BE precisa, hoje, naturalemente, das sinergias do PS para combater o PCP. Dá com uma mão ao PS e tira com a outra mão ao PCP.
O Bloco de Esquerda está a perder o seu papel de “grilo falante”, de discurso inovador, porque quer colocar-se na esfera do poder e afirmar-se como alternativa ao PS e ao PCP, rasgando espaço no “bloco central” dominante no distrito de Setúbal, mas, vai mal se não se afirmar por si próprio.
Nesta fase, de facto, o principal adversário do BE, é, naturalmente, o PCP/CDU.
O CDS/PP anda por aí, vai andar sozinho, porque o PSD, no Barreiro, só perde se contar com o CDS/PP como aliado. Os outros podem, ou não, surgir nas autárquicas.
Quanto a listas de independentes no Barreiro parece que, tal, será muito pouco provável, só se existirem cenários de ruptura no seio do PS ou PCP/CDU, o que não parece estar em emergência, porque, na verdade, se existissem já estavam a ter reflexos na vida local e tinham começado a ter eco social.
Qualquer lista de independentes pode estar vetada ao fracasso, embora, consta, existe, por aí, quem acalente esse sonho.
A realidade politica actual está traçada, os dados estão lançados, agora, vai ser a gestão dos “conflitos”. A Campanha está quase na rua...
Em suma, parafraseando Emidio Xavier, como “o melhor do Barreiro são os barreirenses”, serão eles que terão que escolher.
As politicas são mais ou menos conhecidas. As formas de fazer politica, também as vamos conhecendo.
Falta conhecer os rostos e os programas, até lá, vai ser uma luta aguerrida...lá isso vai!
Boas férias.

António Sousa Pereira

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