InferênciasAs Festas do Barreiro começam a superar a sua “crise de identidade”
É que as Festas do Barreiro têm que ser pensadas e dinamizadas no contexto de uma estratégia de promoção da imagem do concelho ( não sendo apenas um projecto de “animação sócio cultural das noites de Verão”).

Por Jornal Rostos
Uma nota curiosa que marca muitos dos “discursos” nos dias de hoje no concelho do Barreiro, é, aquela que tudo quer definir com “o antes e depois da gestão socialista.”
Uma coisa, de facto, não tenho dúvidas, que após a vitória do Partido Socialista nas eleições autárquicas, em 2001, no Barreiro nada será como dantes, dado que esta realidade colocou um ponto final na tese da “invencibilidade” do PCP e do “bastião comunista”.
No entanto, querer a partir deste facto, real, reduzir as memórias do Barreiro ao antes e depois de 2001, é querer passar uma esponja sobre as realidades epocais que marcaram gerações e gerações de barreirenses.
Vem isto a propósito das Festas do Barreiro, serem, ou não, uma tradição, integrando as memórias da cidade.
Uma tradição de 1780
As Festas do Barreiro remontam ao ano 1780 e durante séculos foram uma festa que marcou a tradição regional, ligando o Barreiro à outra margem, a Lisboa, onde a Irmandade da Nª Srª do Rosário tinha a sua sede, sendo o Barreiro a terra do destino do círio.
Segundo o Padre Rodrigo, a caminhada do “Círio” desde o ano 1736, era efectuada de Lisboa para o Rosairinho da Moita, até que, no ano de 1780, uma tempestade “empurrou” os peregrinos para o Barreiro, sendo recebidos na Ermida de S. Roque e S. Pedro.
A partir desse ano a “caminhada do Círio” de Lisboa para a margem sul, começou a ser efectuada para o Barreiro, começando a Irmandade de Nª Srª do Rosário do Barreiro a espalhar-se pelo mundo, com especial referência no Brasil – onde existe a cidade do Barreiro, que tem como Padroeira a Nª Srª do Rosário, tal como o Barreiro, onde existe a Igreja de Nº Srª do Rosário e, onde a sua principal Avenida é denominada Avenida do Lavradio. As Festas de Nª Srª do Rosário durante séculos são um tradição na região.
A cultura anticlerical
Com o desenvolvimento industrial e com o processo natural de emergência da cultura operária, de grupos anarquistas a comunistas, a religião ( mais concretamente o papel da Igreja) começa a ser questionado, forjando-se uma “cultura anticlerical”.
No Barreiro há o registo, nos anos 20, do “apredajamento” de uma procissão de Nº Srª do Rosário, um episódio que recordo, um dia, foi comentado por Belmiro Ferreira, artista plástico barreirense.
A s Festas da Nª Srª do Rosário realizaram-se, ao longo de décadas, regularmente. Eram as Festas do Barreiro.
Festas da República e de Outubro
Após o 25 de Abril, a nova realidade politica, no Barreiro, apostou na separação da vertente religiosa, optando, inicialmente, por realizar as Festas sem a componente religiosa em Outubro, sendo denominadas as “Festas do Barreiro”.
No ano de 1977 , por exemplo o tema foi “Festas da República e de Outubro”, em 1978, o tema central foi “Barreiro – Resistência, Trabalho e Luta”. Eram festas que tinham um tema.
Nestes anos, por iniciativa de Augusto Valegas, foi introduzida nas Festas a componente “Exposição Industrial” que chegou a funcionar num “insuflável” ( igual ao que, actualmente, está instalado o Mercado de transição 1º de Maio) no espaço lateral à Piscina Municipal do Barreiro.
A componente religiosa foi afastada das Festas, mas, sublinhe-se as Festas tinham uma dimensão regional, arrastando multidões e sendo, até, o leit motiv para a promoção de eventos internacionais ao nível do ciclismo e do basquetebol. As Festas do Barreiro procuravam um rumo.
As exposições BARRIND
A componente exposição industrial, nos anos 80, por iniciativa do Vereador Manuel Pina, com o pelouro das Actividades Económicas, eleito pelo Partido Socialista, ganhou uma dimensão própria, nascendo a BARRIND que, pela primeira vez, se realizou no Largo de Stª Maria, num insuflável e posteriormente, ocupou completamente aquela área.
A força do projecto BARRIND – Exposição Industrial e Comercial colocou em debate e reflexão se esta iniciativa deveria realizar-se separada das Festas do Barreiro ou se, na verdade, uma iniciativa e outra deveriam ser complementares.
Com a elevação do Barreiro à categoria de cidade e sendo destinada a data de 28 de Junho, como Feriado Municipal, a aposta foi promover as “Festas da Cidade” e, em simultâneo realizar-se a Barrind, tendo como data nuclear o “Feriado Municipal” .
O Vereador Luís Mateus, eleito pelo PRD, foi quem politicamente acompanhou a realização da BARRIND, já, então como complementaridade das Festas da Cidade, no mês de Junho.
Nesse primeiro ano da BARRIND, na Avenida da Praia, foram centenas de milhares de pessoas que visitaram o Barreiro. O trânsito chegava a fazer filas que se estendiam até ao campo do Galitos. Se têm dúvidas perguntem ao ex-Vereador Luís Mateus.
Nestes anos, 1988 e 1989, aliás a BARRIND, introduziu para além das componentes empresarias e institucionais, a Mostra de Artesanato, estendendo-se na Avenida da Praia até ao campo do Praiense.
Com a crise dos anos 90, que foi marcada pelo inicio da desindustrialização, naturalmente, todo o comércio e indústria da região sentem esses impactos.
A BARRIND – Festas do Barreiro enquanto projectos complementares são postos em causa. E, os custos-beneficio apesar de apontarem no sentido da sua realização, tornam-se insuportáveis para a autarquia.
Uma “crise de identidade”
As Festas do Barreiro continuam a realizar-se e a BARRIND ficou pelo caminho.
A realização das Festas do Barreiro sem a componente de exposição industrial perde o seu impacto.
As Festas começam de novo a realizar-se em Agosto, sendo de novo a componente religiosa uma referência na sua organização, a partir dos anos 90.
Neste período as Festas introduzem uma componente de exposição cultural, de artesanato, e, também, a componente de exposição do Movimento Associativo.
Na realidade, as Festas do Barreiro, quer devido às dificuldades económicas locais, quer por andarem à procura de um projecto que se dividia entre os modelos do pós 25 de Abril e as suas tradições centenárias, viviam o que se pode definir por uma “crise de identidade”.
Um modelo do século XXI
A gestão socialista, por ideia de Emídio Xavier, coloca como proposta que as festas anualmente, tenham um tema, evocando memórias, alertando para temáticas ( um pouco à semelhança das EXPO’s).
Uma ideia que introduziu, sem dúvida, um elemento criativo, na procura de um projecto que desse às Festas do Barreiro, uma dimensão especifica.
Outra ideia central, das Festas do Barreiro, introduzida com alguma dimensão, foi o retomar, no contexto do projecto das Festas do Barreiro, a sua vertente religiosa, que já se realizavam, regularmente, mas, apenas como complementaridade.
Por outro lado, sem querer ter uma dimensão da BARRIND, mas introduzindo um espaço de exposição, foi lançada a MEI – Mostra Empresarial e Institucional, retomando este espaço de complementaridade das Festas do Barreiro.
As Festas do Barreiro começam a superar a sua “crise de identidade” reencontrando-se com a sua componenente religiosa e a sua componente de exposição “industrial e comercial”, com tradições locais.
Já agora, recordar que as exposições industriais e comercias, no Barreiro, remontam aos anos 40, quando, as mesmas eram realizadas, com regularidade na SDUB “Os Franceses”.
Afirmar-se pela positiva
As Festas do Barreiro e MEI – Mostra Empresarial e Institucional, assim como a ideia de dar um tema anual a este evento, começou a desenvolver-se na gestão do Partido Socialista, sendo dada continuidade na gestão do PCP/CDU, após 2005.Este é um modelo que tem vindo a afirmar-se pela positiva.
Um pouco uma síntese de acumular de experiências, de discussões, de conversas, onde, refira-se os técnicos do municipio envolvidos, ao longo de anos, na sua concretização, têm sido um elemento chave, e, neste caso, servindo gestões autárquicas lideradas pelo PCP/CDU ou pelo PS.
Este é o problema central das “Festas do Barreiro” é que as Festas do Barreiro se foram um projecto da comunidade, que assentava em Comissões de Festas, com o apoio da Câmara Municipal, após o 25 de Abril, ao longo dos anos, têm vindo a transformar-se num “projecto de animação sócio cultural” e de “desenvolvimento económico”, promovidas pelos serviços municipais e pela gestão autárquica, faltando-lhe a sua dimensão de envolvimento da comunidade.
No entanto, sente-se que está a ser feito um esforço nesse sentido.
Sente-se que estão a envolver-se agentes económicos no apoio e patrocinios.
Sente-se que existe um sentimento claro de respeitar e introduzir a componente religiosa, no âmbito da programação global das Festas.
Mas, existe a dúvida, apontar para a consolidação de um modelo, o evitar que as Festas do Barreiro – MEI, na sua actual caracterização possam, cair numa rotina.
Debater as Festas do Barreiro
O Barreiro do século XXI exige que se discuta o projecto das Festas do Barreiro.
Apesar de gostar das Festas-MEI, e, de facto, sentir que, este ano, sem dúvida, atingiram um novo patamar, evoluindo pela positiva, fortalecendo e enriquecendo o seu actual projecto modelo-estruturante, acho que falta qualquer coisa, uma referência, uma marca, não sei se religiosa ( como acontece com as Festas da Moita) ou um evento que decorra em simultâneo que projecte a cidade na região.
É por tudo isto que fico perplexo quando se pretende olhar para a realidade e dar-lhe apenas uma leitura, quando, existem experiências e uma riqueza de vivências que não podem ser ignoradas, porque a vida é um processo e a realidade actual das Festas do Barreiro-MEI, não podem ser desligadas deste percurso e, acima de tudo, do papel que os técnicos municipais têm dado no seu desenvolovimento, e, naturalmente, da paixão que os eleitos têm, por diversas formas e contextos, abraçado a sua realização.
Tenho dúvidas se este é um “modelo” acabado se mais não pode ser construído. Tenho dúvidas e receio das rotinas.
Mas, sublinho, o projecto iniciado no ano 2002, neste modelo das Festas que entrou no século XXI, está, naturalmente, uma base de trabalho, um reencontrar com experiências vividas.
Talvez, seja importante, discutir, reflectir e repensar as Festas do Barreiro, não ignorando que elas já percorreram mais de dois séculos, envolvendo agentes económicos, culturais e religiosos.
Uma referência na região
É que as Festas do Barreiro têm que ser pensadas e dinamizadas no contexto de uma estratégia de promoção da imagem do concelho ( não sendo apenas um projecto de “animação sócio cultural das noites de Verão”).
As Festas são uma componente de comunicação e de promoção de uma estratégia cultural que contribuam para afirmar o Barreiro como uma referência na região – nunca percebi, por exemplo, porque no âmbito das Festas do Barreiro não se promove um Torneio Internacional de Basquetebol, com a colaboração de uma cadeia de televisão, sendo tantas vezes sublinhado que somos a “Capital do Basquetebol”.
As Festas do Barreiro e a MEI – Mostra Empresarial e Institucional são um caminho e, sempre ouvi dizer que a vida faz-se caminhando.
O Barreiro está de parabéns, porque está no bom caminho.
António Sousa Pereira













