InferênciasDistrito de Setúbal – terra de “lamentação” ou terra de “promissão”?
Os olhos do país vão estar voltados para a nossa região. Devemos ser um exemplo.
A “Agenda do Século XXI da Região de Setúbal” deve ter uma palavra central – progresso.

Por Jornal Rostos
“A nossa vida, quer queiramos quer não, é na sua essência mesma futurismo”
Ortega y Gasset
No ano de 1995 realizou-se o Fórum “Setúbal : 10 anos em retrospectiva”, uma iniciativa que permitiu que fosse efectuada uma análise sobre “o ambiente de crise e recessão económica” em que Setúbal se encontrava devido ao facto do aparelho produtivo, inspirado em modelos industriais dos anos 50/60, ter entrado em crise, devido aos choques petrolíferos iniciados nos anos 70.
Salários em atraso, despedimentos, desemprego, muita fome
Na década de 80, o Distrito de Setúbal viveu uma crise profunda, marcada por salários em atraso, despedimentos, desemprego, muita fome, pobreza envergonhada, devido a uma série de falências de empresas e ao processo de desindustrialização.
As situações dramáticas que afectaram o distrito de Setúbal, levou a que se erguesse a voz de D. Manuel, Bispo de Setúbal, em denúncia da fome, tendo o Governo Central lançado um Programa de Combate à Pobreza.
Nos finais dos anos 80, o Governo lançou a OIDPS – Operação Integrada da Península de Setúbal, canalizando alguns milhões de contos para investimentos, alguns que, na realidade, foram verdadeiros elefantes brancos.
Neste tempo, 1987, igualmente a AMDS – Associação de Municípios do Distrito de Setúbal empenhou-se na elaboração do PIDDS – Plano Integrado de Desenvolvimento do Distrito de Setúbal, que está na génese do actual PEDEPES.
A realização do Fórum “Setúbal : 10 anos em retrospectiva”, envolveu o Governo Civil de Setúbal, Governo central, autarquias, sindicatos e diversas instituições regionais, num debate enquadrado por docentes da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Foi uma experiência que deixou sementes e abriu portas à esperança.
Margem Sul um “parente pobre da capital”
Na altura, naquele Fórum, em 1995, Miguel Frasquilho, então Assessor do Secretário de Estado do Comércio, numa intervenção, sublinhava que – “o Distrito de Setúbal era o terceiro do país em termos de rendimento e poder de compra, logo atrás de Lisboa e Porto”, praticamente ao mesmo nível de Aveiro que era o quarto, dando relevo, ao facto, que o distrito “apesar da evolução menos favorável registada no fim da década de 80 e o princípio dos anos 90” conseguiu uma “performance menos negativa”.
Nesta iniciativa, em 1995, foi sublinhado que a inclusão de Setúbal na AML era essencial para o seu desenvolvimento, porque o peso de Lisboa e a sua dificuldade de ligações ao sul, transformava a Margem Sul num “parente pobre da capital”.
“Setúbal, terra de novas oportunidades”
Neste contexto, referia-se a importância do “crescimento da cidade de Lisboa para a margem sul”, criando-se novas redes de acessibilidades, de forma que a Península de Setúbal deixasse de ser uma região periférica da capital.
Uma das intervenções, no FORUM de 1995, tinha como título: “Setúbal, terra de novas oportunidades” e sublinhava, com ênfase, as condições naturais e estratégicas da região, lançando um forte apelo à confiança e coragem para que todos acreditassem no progresso de Setúbal.
“Há quem diga que o passado não volta. Não é verdade. O passado está presente e mal de nós, se assim não fosse” – sublinhou D. Manuel Martins, Bispo de Setúbal, na sua intervenção, na abertura daquele Fórum, tendo acrescentado – “Foi bom parar. Parar e olhar para trás. Olhar para trás, para podermos arrumar o presente e construir melhor o futuro”.
Um momento histórico para a região de Setúbal
Ocorreu-me à memória este Fórum de 1995, a propósito da próxima realização da Conferência “Novas Oportunidades de Desenvolvimento para a Região de Setúbal”.
Estou convicto que o Distrito de Setúbal tem pela frente um dos maiores desafios da sua história, transformar-se numa região motor de desenvolvimento do país e deixar de estar de costas voltadas para a Área Metropolitana de Lisboa.
Todos, os políticos, os agentes económicos, culturais, desportivos e sociais, as escolas, cada cidadão por si próprio, devem assumir a responsabilidade no papel importante que todos devem desempenhar, para fazer frente aos desafios que se colocam, ao Distrito de Setúbal, neste começo do século XXI.
A “concertação estratégica” , a “cooperação estratégica” são pilares essenciais das novas dinâmicas que se apontam para a região, onde, na realidade, é fundamental que cada agente interveniente, neste processo, seja parte integrante da solução e não se assuma como parte integrante do problema.
Foi com muito agrado e satisfação que registei o lançamento da Conferência “Novas Oportunidades de Desenvolvimento para a Região de Setúbal”.
Comentei, na circunstância, que, podíamos estar a assistir e viver a um momento histórico para a região de Setúbal, e, repito, esta sensação, porque, nos tempos de hoje, cada vez mais, é necessário e urgente injectar “esperança” e “confiança”, de forma que o distrito de Setúbal deixe de viver na “dimensão da tragédia” e passe a assumir protagonismo e capacidade de transformação, respondendo aos desafios dos tempos de hoje, nesta economia da globalização.
Esta é uma missão que se coloca a todos os agentes da região, pela região, com o país, pelo país.
E digo histórico porque, na verdade, quando se colocam acima dos interesses estratégico-partidários os interesses de uma região, estamos a “dar sinais” para que se aposte na mudança e todos somos, naturalmente, obrigados a assumir uma responsabilidade acrescida na defesa e valorização da “substância” e de um modelo de desenvolvimento sustentado.
Uma iniciativa “pedagógica” e “um exemplo para o país
A Governadora Civil de Setúbal, Euridice Pereira, no decorrer do encontro com os jornalistas, para apresentação da Conferência “Novas Oportunidades de Desenvolvimento para a Região de Setúbal”, salientou que esta é uma iniciativa “pedagógica” e “um exemplo para o país”.
E de facto, esta iniciativa pode ser um exemplo se for o ponto de partida para aprofundamento de um debate necessário, um debate responsável, com um cunho de progresso, de mudança, que possa, posteriormente, reflectir-se nas práticas da acção política, empresarial e cultural da região de Setúbal.
Está na hora de agarrarmos o futuro.
Está na hora de nos mobilizarmos para a construção de uma “Agenda - Setúbal Século XXI”, olhando para as riquezas da região, recolhendo os saberes acumulados da sua história e dando força aos novos projectos anunciados.
Esta iniciativa pode e deve ser pedagógica, pode e deve ser exemplar, porque há projectos e valores que estão acima de estratégias de ordem exclusivamente política pontual.
Não penso que vamos construir o “distrito da unanimidade”, nem penso, que, tal, será um objectivo desta conferência, mas, acima de tudo, é necessário unir esforços em torno da necessária e incontornável “concertação estratégica”, que mobilize, cative e una vontades.
Setúbal – terra de “lamentação” ou terra de “promissão”
No decorrer da conferência de imprensa, já agora, para finalizar, recordo que Fonseca Ferreira, presidente da CCDR-LVT, a determinado momento comentou que “na Península de Setúbal há muito de lamentação”, talvez a propósito das várias crises e situações que afectam o quotidiano da região.
Esta afirmação, levou Alfredo Monteiro, presidente da AMRS, a referir que na região o que existe “não é lamentação”, acrescentando que tem havido isso sim, ao longo dos anos, “falta de visão estratégica”.
A finalizar a conferência de imprensa, Fonseca Ferreira, comentaria que é preciso que o distrito de Setúbal seja “uma terra de promissão, não a transformemos em terra de perdição”.
Estas referências, quer de Fonseca Ferreira, quer de Alfredo Monteiro, de alguma forma, exprimem a subjectividade e a objectividade que marcam este acontecimento, “pedagógico” e “histórico” que, na verdade, pode ser decisivo, para que este debate forneça ideias, e, acima de tudo, que nas suas conclusões, existam mais pontos de encontro que divergências.
Uma ideia parece clara, ou pensando o passado como uma “lamentação”, ou olhando para o presente como terra de “promissão”, uma coisa será certa, os vindouros, não esquecerão os erros que, nos tempos de hoje possam ser cometidos, perante os muitos desafios que se colocam à região de Setúbal neste começo do século XXI.
Os investimentos hoje anunciados, podem dar corpo aos sonhos acalentados durante décadas – Governo, Poder Local, agentes da região, todos têm a responsabilidade histórica de promover um modelo sustentável para o desenvolvimento da região de Setúbal.
A “Agenda do Século XXI da Região de Setúbal” deve ter uma palavra central – progresso
A região de Setúbal tem nas suas mãos ser, sem dúvida, a região âncora do país no seu percurso ao longo do século XXI. Não temendo as heranças. Assumindo a reflexão sobre o passado de forma critica. Construindo o futuro, no presente.
Os olhos do país vão estar voltados para a nossa região. Devemos ser um exemplo.
A “Agenda do Século XXI da Região de Setúbal” deve ter uma palavra central – progresso.
E, de facto, se o caminho progressista for trilhado, mesmo que seja, entre a “lamentação” e a “promissão”, Setúbal, acredito, pode ter um papel de liderança e deixar, de uma vez por todas, de ser uma zona periférica da grande Lisboa, mas ser parte integrante dessa região que é e sempre foi o coração de Portugal.
Aos promotores da Conferência “Novas Oportunidades de Desenvolvimento para a Região de Setúbal recordo, de novo, as palavras de D. Manuel, Bispo de Setúbal, na abertura do FORUM, realizado em 1995 - “Há quem diga que o passado não volta. Não é verdade. O passado está presente e mal de nós, se assim não fosse.
Foi bom parar. Parar e olhar para trás. Olhar para trás, para podermos arrumar o presente e construir melhor o futuro”.
Que este, de facto, seja um ponto de partida para o futuro…mobilizador, catalizador da auto-estima e gerador de confiança, nas diferenças!
António Sousa Pereira













