Diz que é uma espécie…de BLOGUE DE NOTAS do BarreiroDa Participação e da Cultura Democrática
Por António Sousa Pereira

Por Jornal Rostos
Pelas razões mais diversas, talvez, até, pela minhas vivências no mundo associativo e cooperativo, sempre senti e vivi o Barreiro como uma Vila ou Cidade, onde, efectivamente, encontrei espaços onde participar.
E, para mim, o conceito de “participação” foi sempre indissociável do conceito de “liberdade”, como um caminho de acção e de práticas de emancipação. Nunca desliguei a ideia de “participação” de uma vontade de co-operação.
Dou comigo a pensar sobre tudo isto, neste tempo em que se fala e, de alguma forma, se procura afirmar o Barreiro como a “Cidade da Participação”.
Da Liberdade e da Participação
Volto atrás no tempo, aos meus tempos nos Jogos Juvenis do Barreiros e procuro reflectir, encontrar raízes, do viver e participar.
Dou comigo a pensar numa ideia muito corrente que nos leva, muitas vezes a falar de “identidade barreirense” de modos de “ser” e “estar” nas vivências quotidianas da nossa cidade.
Não sou natural do Barreiro, mas aqui cresci, aqui descobri os sentidos da vida, as opções, as escolhas. Esta é a terra dos meus filhos.
Mas, quero sublinhar, que, naqueles tempos, antes do 25 de Abril, a ideia de participação, o viver a participar, era, sem dúvida, uma energia que movia os jovens e diferentes gerações. Participação era um sentimento de mudança.
As vivências de participação eram interclassistas, nos clubes e nas práticas culturais.
E, talvez, uma ideia estava subjacente, para todos, a ideia de liberdade. Existia uma consciência activa que unia vontades – o desejo de Liberdade e conquista da democracia.
A LIBERDADE e a PARTICIPAÇÃO eram indissociáveis.
Este era um tempo que, por razões óbvias, introduziam nas relações sociais sentimentos solidários, daí que, a palavra SOLIDARIEDADE, tenha marcado de forma profunda a cultura barreirense.
Neste tempo, obviamente, o pensamento era marcado por pensar a “preto e branco”, separando, muitas vezes as pessoas entre, os amantes da liberdade e os defensores da opressão.
Mas, o sentimento de solidariedade era real, unindo as pessoas, talvez, mais não fosse em torno do “inimigo comum”, de tal forma que mesmo pessoas, “consideradas do sistema”, não propriamente do regime, tinham práticas solidárias com os lutadores da liberdade, sendo rotuladas, por alguns como o”reviralho”.
Essas forças sociais solidárias emergiam desde a Igreja Católica, aos socialistas, tendo como principal força de expressão organizada o Partido Comunista Português.
Um tempo em que participar era um estado de consciência social, um sonho que forjava amizades e solidariedades.
Da Igualdade e da Participação
O 25 de Abril introduziu novas dinâmicas na vida local. Quem viveu de perto esses dias, certamente, tem a recordação das vontades populares que se uniam, em Comissões de Moradores, em Comissões de Bairro, unindo-se esforços e vontades na procura da melhoria da qualidade de vida e na tentativa de resolução de muitas carências. Um tempo em que a alegria de viver brotava do coração.
Foram Parques Infantis construídos com trabalho voluntário, foram energias que mobilizaram as populações.
É natural que sendo o Partido Comunista Português a grande referência da resistência tenha galvanizado, em torno de si, os movimentos sociais e exercido uma forte influência na vida local, com posterior expressão eleitoral.
Muitos recordam as situações que se viveram, desde, por exemplo, pessoas que eram reconhecidamente da ANP, de repente as encontrarmos, em franca confraternização, a cantar o “Avante Camarada”. Os GNR’s que dias antes eram um símbolo da repressão, dançavam nas ruas com os manifestantes, no 1º de Maio, como muito bem registou o saudoso Augusto Cabrita.
Mas, os tempos do PREC, foram geradores de estigmas, entrar num Café com o jornal “Expresso” debaixo do braço era, por vezes, o suficiente para ser rotulado de reaccionário.
Neste tempo, o conceito de PARTICIPAÇÃO estava indissociável do conceito de IGUALDADE.
A ideia de cidade era uma ideia marcada por uma visão socializante, e, também, neste tempo, o “ser do Barreiro” era “ser comunista”, gerando-se alguns comportamentos xenófobos, principalmente para aqueles que oriundos de outras paragens, agora, nesta via socializante, não optavam por “ser comunistas”.
O “sou do Barreiro” era, para muitos, quase como um sinónimo de “ser comunista”.
Neste tempo, a solidariedade começa a deixar de ter o mesmo sentido que, durante décadas teve, porque a solidariedade começa a ser vivida com base num “sentimento de pertença” : ser do partido, estar próximo do partido, isto, numa cidade, onde a ideia de “alianças de classe” que deveria ser protagonizada pelas siglas FEPU, APU ou CDU, era sempre esbatida pela força e dimensão da estrutura local do Partido Comunista Português.
A ideia de “frente” no Barreiro foi sempre, de alguma forma, um mero reflexo de estratégias nacionais, pois, na prática, todas as opções de acção política local, começavam e acabavam no PCP, sendo a “frente politica” meramente circunstancial e eleitoral.
Não, esquecendo a presença e a força da “fábrica” como elemento cultural e estruturante do “modos vivendi” da comunidade barreirense.
Esta realidade política local, as sucessivas maiorias absolutas, foram esbatendo o conceito de participação que, muitas vezes, acabava por se reflectir numa estratégia de “presta contas”.
Naturalmente, não podemos desligar esta realidade local, do contexto político nacional, nem internacional, num mundo marcado por dois blocos, onde, existiam uns mísseis eram democráticos e outros mísseis eram reaccionários.
A PARTICIPAÇÃO era portanto indissociável de uma praxis política, com uma visão revolucionária, de construção de um mundo melhor, sem exploração do homem pelo homem.
Da Participação e da Cidadania
A queda do muro de Berlim, o desmoronar do Bloco de Leste, introduziu novas dinâmicas na vida política nacional, internacional e local.
Sente-se, o desmoronar de um modelo, o desfazer-se um imaginário que marcou gerações.
Simultaneamente, a vida local é afectada por todo um processo de desindustrialização, de derrocada da fábrica, do modelo industrial que marcou gerações. Hoje, até se culpa, por vezes, as nacionalizações, como sendo a causa de um modelo que estava esgotado e em decadência.
Para não esquecer que, Portugal começou, entretanto, a viver os tempos áureos de fundos comunitários e era um país que vestia laranja, sendo esta a cor do sucesso.
Para uns estava a chegar-se ao fim da história, anunciado por Fukuyma.
Para outros era o recomeçar de novo e aprender com os erros.
Uma cidade onde a PARTICIPAÇÃO era sentida como uma força, algo endógena, como projecção da LIBERDADE, ou como reflexo do sentimento de IGUALDADE, nascido com o 25 de Abril.
As mudanças estruturantes geram, pouco a pouco, um esvaziamento desse modelo de “participação pela igualdade.”
Por outro lado, muitas vezes, fruto até de algum autismo das lideranças autárquicas, que viviam entre o aperto da “cultura de partido” e a vontade de distanciar-se por necessidade de abrir a novas ideias de cidade, abriam-se brechas entre as populações e os políticos locais.
Escrevi um dia que o Partido Comunista que tinha por razões históricas, no Barreiro, “autoridade moral” e autoridade política, começou, nesta fase a perder a “autoridade moral”.
Neste contexto, surgem movimentos sociais, ao nível do Movimento Associativo, por exemplo, que deixam de ser controlados, ganhando dinâmicas próprias, sendo travados nos seus ímpetos emancipadores.
O Partido Socialista torna-se, entretanto, a força política que vai catalisar, em torno de si, os sentimos de insatisfação, dando sentido aos desejos de PARTICIPAÇÃO.
O BEM – Barreiro em Movimento é uma expressão da acção política que transcende o PS, habitualmente fechado nas suas guerras de sacristia.
“Tudo o que é de todos, por todos deve ser discutido” – é uma das palavras de ordem.
O conceito de PARTICIPAÇÃO surge, então, fruto da oposição e do autismo do PCP, indissociável do conceito de CIDADANIA.
O PS vence as eleições. E, na prática, foi impotente para protagonizar uma estratégia de cidade emancipadora, apesar de todos os esforços e da ideia força – “O melhor do Barreiro são os Barreirenses”.
O PS auto-convenceu-se muito cedo que a cidade já lhe pertencia, colou-se mais à ideia de ser poder, do que à ideia de estimular a PARTICIPAÇÃO e CIDADANIA.
Convenceu-se, talvez, que o marketing político era suficiente para ser eternamente poder no Barreiro, e que o PCP estava definitivamente arredado.
O PS ignorou que esta cidade divide-se entre um sentimento cosmopolita – de cultura urbana - e a vivência de aldeia, onde, todos nos conhecemos uns aos outros, e, onde a politica, mesmo pelos cidadãos que em relação às práticas muitas vezes se colocam numa posição de indiferença, nunca estão de olhos fechados e não esquecem aquela canção de Francisco Fanhais – “vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar”.
Da Participação e da Relação
O PCP/CDU, após a derrota eleitoral, percebeu que numa cidade onde a PARTICIPAÇÃO, faz parte da sua cultura cívica, era necessário cultivar uma estratégia política com base no diálogo. Aprendeu com os erros.
O PCP/CDU cedo saiu para a rua. Foi falar com o eleitorado. E, na fase pré-leitoral, nasceu de forma emergente o conceito de PARTICIPAÇÃO que vai brotar, em força, nas novas dinâmicas da gestão autárquica, no actual mandato.
O conceito de PARTICIPAÇÃO ganha numa primeira fase uma dinâmica de “dialogicidade – de avaliação e de busca de conteúdos e propostas para a acção política.
O conceito de PARTICIPAÇÃO emerge indissociável da ideia de RELAÇÃO : relações com os cidadãos, relações com os trabalhadores da autarquia, relações com agentes económicos e sociais.
Esta prática política tem conduzido à realização dos mais diversos FORUM’s temáticos, ao programa OPÇÕES PARTICIPADAS, aos ROTEIROS DA FREGUESIAS, assim como à criação de diversos instrumentos de acção social – pontos de encontro – como Observatórios ou Conselhos Municipais.
Esta realidade vai ao encontro do sentir e viver na cidade do Barreiro, perspectivando o envolvimento na vida do local de cidadãos e instituições.
Esta é, sem dúvida uma etapa, necessária, pela qual deve passar um processo de desenvolvimento de uma “cultura de participação”, estimulando práticas de solidariedade.
Esta realidade pode permitir a liberdade de expressão, mas, obviamente, pode não traduzir a liberdade de fazer política de cidade.
Miguel Amado, na última reunião da Assembleia Municipal deu o tom, sobre a necessidade de se reflectir sobre o conceito de “participação”, salientando que o mesmo não pode ficar acantonado à ideia de “auscultação”.
Da Participação e da Pertença
Neste percurso, chegámos aos dias de hoje, aqui e agora – Barreiro Cidade da Participação.
Em primeiro lugar o “conceito de participação” tem que ser desenvolvido como um caminho de acção política que contribua para o FAZER CIDADE. Porque, já o escrevi uma cidade não é só obras.
E, para que cada cidadão ou agente local viva de forma activa o conceito de participação tem que oassumir como PERTENÇA.
Mas, o conceito de PERTENÇA tem que ser vivido para além do conceito de PERTENÇA PARTIDÁRIO.
O conceito de PARTICIPAÇÃO tem que estar ligado ao modo de estar e sentir a cultura e a identidade barreirense, através da palavra SOLIDARIEDADE.
A Participação tem que ser uma energia política que se afirma com um sentido de transformação, que gera afectos, que gera cultura, que gera cidadania.
A Participação enquanto modo de estimular a cidadania tem que apostar na defesa do BEM COMUM, no combate à exclusão ( isto é muito difícil, de facto, para quem viva a ideia de participação e cidadania com um sentido de pertença meramente de partido, de militância, seja ele qual for o partido ).
A ideia de PERTENÇA tem que ser uma ideia de pertença à CIDADE, no amor à cidade – uma cidade cujo modelo de vivência cívica tem por base a inclusão, a promoção de uma cultura de respeito pelas diferenças.
Da Participação e da Cidadania
Sei que estes tempos pré-eleitorais não são muito propícios ao respeito pelas diferenças.
Mas, penso que, nos próximos tempos, das forças políticas no terreno, aquela que melhor souber estrategicamente gerir o conceito de PARTICIPAÇÃO enquanto motor gerador de Cidadania e emancipação da cidade, certamente, será aquela que melhor respeito terá do eleitorado.
Será aquela que melhor contributo vai dar para a construção da modernidade do Barreiro do século XXI.
Nesse sentido, é necessário que a CIDADE da PARTICIPAÇÃO brote para afirmar o sentimento de PERTENÇA, não de pertença ao partido x ou y, mas nos sentimentos de pertença a uma cidade, com história e com memória.
Uma cidade que respeite o pluralismo e a sua multiplicidade.
Se o discurso político baixar ao confronto de carácter pessoal, aos jogos de pseudo conflitos ideológicos, isto, de nada servirá para ao desenvolvimento de uma cultura de participação e pertença.
Pode servir jogos partidários. Pode fazer baixar a discussão para o nível do pântano. Pode gerar clivagens e ódios de estimação, mas, em nada servirá o Barreiro nem o seu futuro, nem uma cultura de PARTICIPAÇÃO.
Da Participação e da Cultura Democrática
Todos temos a responsabilidade histórica de dar o nosso contributo para que, com base nas lições do passado, sermos capazes de construir uma cidade sem excluídos.
O que menos desejo é que esta cidade se transforme num guetto de comunistas, ou num guetto de socialistas, de contrário será caso para dizer valham-nos os sociais democratas.
“O melhor do Barreiro são os Barreirenses” – é verdade. Todos os barreirenses, aqui nascidos, ou que aqui construíram as suas vidas, os barreirenses comunistas, socialistas, sociais democratas, democratas cristãos, bloquistas, anarquistas, católicos, protestantes, budistas, todos aqueles que gostam de viver nesta cidade e querem o melhor para esta cidade.
O desafio ao nível da construção da CIDADE DA PARTICIPAÇÃO, reside na valorização de uma CULTURA DEMOCRÁTICA, da qual o Barreiro pode orgulhar-se, porque tem história e tem memória – com erros e virtudes.
O desafio é sermos capazes de cultivar as virtudes que herdámos de gerações.
Acima de tudo não acredito na PARTICIPAÇÃO sem ética, na política da invenção de factos, e, penso, que aqueles que optam por fazer política, do vale tudo, do estigmatizar, do excluir, não vão contribuir para forjar uma CULTURA DE PARTICIPAÇÃO que seja uma energia emancipadora.
“O fanatismo é a única força de vontade de que são capazes os fracos” – refere o filósofo Fernando Savater.
Fica esta frase para reflexão. E, já que estamos numa fase pré-eleitoral fico à espera, com o desejo de sentir na acção politica o desenvolvimento do conceito de PARTICIPAÇÃO – como dinâmica critica, como energia criadora, como instrumento essencial de construção da cidade, de superação das dificuldades e de valorização de uma cultura de emancipação e construção da Cidadania.
Se a Participação for apenas, um espaço de narração, de gestão de opinião, onde os políticos ditam as lições e os cidadãos escutam, onde os políticos “pensam” e os cidadãos escutam os pensamentos, está a criar-se uma ilusão de participação, porque é uma PARTICIPAÇÃO onde os cidadãos são apenas objectos e não actores.
É preciso cultivar uma PARTICIPAÇÃO para Cidadania, que seja o motor de uma cultura democrática.
Mas, também, quem optar por cultivar uma espécie de CONTRA-PARTICIPAÇÃO, nesta óptica de ouvir, escutar, denunciar, inventar, de forma a tornar os cidadãos meros objectos de estratégias partidárias, não vai ajudar a construir um Barreiro diferente, onde, de facto, a SOLIDARIEDADE e a CIDADANIA devem ser uma referência, na forma de estar e fazer política.
O direito à participação não é uma superioridade moral é uma forma de estar e ser barreirense, com a consciência que PARTICIPAÇÃO, DEMOCRACIA e CIDADANIA são indissociáveis.
Cá por mim, pelo que conheço do Barreiro, sei e sinto que os barreirenses sabem e sentem como viver a politica na cidade.
António Sousa Pereira













