Ponto e VírgulaArte Viva «Justamente» : o que é do Barreiro é… bom
Por António Sousa Pereira
Portanto, em conclusão, fiquei a pensar, que se “o que é nacional é bom”, então, também, “o que é do Barreiro é bom!”.
Este espectáculo é um exemplo.
Gostei. Vale a pena voltar de novo. Vou voltar.

Por Jornal Rostos
Quando o espectáculo findou uma frase ocorreu ao meu pensamento – “Os dados estão lançados”. Aliás, foi esse comentário, que fiz para Jorge Cardoso, ao sair, quando fui convidado para comer uma maça.
Senti essa ideia “sartreana” fluir, no meu pensamento, talvez, porque a “história” se repete em ciclos de inclusão e exclusão, ou talvez porque, quando olhei aquelas raízes da árvore no cenário, projectadas para o “infinito”, senti que tudo naquele espectáculo podia ser lido ao contrário, ou visto de pernas para baixo, ou dito de trás para a frente.
Afinal, o fim do espectáculo, poderia, de alguma forma, ser o seu recomeço.
No centro da história lá está a “trágica-cómica-dramática” maça, que marcou a nossa “origem humanizada”, com o afastamento do “divino”, para onde, depois, tentamos nos reencaminhar como se vivêssemos no tal “eterno retorno”.
Uma postura de intervenção e de responsabilidade social
Um dia, num texto que li sobre teatro, o autor, Carlos Porto, referia que o trabalho de um Grupo de Teatro começa na escolha do texto, pois, será este que vai dar significado ao seu trabalho, e, obviamente, vai dar sentido à “construção” com que se apresenta ao público.
Um Grupo de Teatro, sabe, naturalmente, que a escolha do texto é, por um lado, a opção que vai determinar o espectáculo, mas, simultaneamente, essa opção, reflecte, também, uma linha “discursiva” da acção do Grupo no seu percurso de criatividade e propostas de reflexão que apresenta à comunidade.
Uma das coisas que me desperta a atenção quando vou ver as peças encenadas pelo Arte Viva, sob a direcção de Jorge Cardoso ( neste caso também com a participação de Carina Silva) é, de alguma forma, procurar sentir a “mensagem” e enquadrar essa “mensagem” nas vivências epocais, no hoje e aqui, do nosso Barreiro e do nosso país.
Vim sempre, dos mais diversos espectáculos, com a sensação que nada é feito com ingenuidade e que, por trás, das opções de escolhas dos textos existe assumida, de forma consciente, uma vontade inequívoca do Arte Viva - Jorge Cardoso - de propor temas para reflexão, apontar criticas às vivências quotidianas.
A Companhia Arte Viva, tem assumindo, desta forma, ao longo dos anos, uma postura de intervenção e de responsabilidade social, dando, portanto, através da sua acção teatral, uma acrescida importância ao papel que o teatro pode desempenhar, numa dimensão cultural e formativa, demonstrando, objectivamente, que o teatro não é alheio ao mundo que o rodeia e, naturalmente, pode, e deve, ter uma presença activa nas mudanças e valorização da comunidade.
Uma encenação a três dimensões
A encenação deste espectáculo é ela mesma “arte viva”, que nos surge em três dimensões – o palco, o palco por cima do palco e o palco por baixo do palco.
O palco uma rua. Uma paragem de autocarro. Uma árvore, cujas raízes fluem na nossa imaginação e perdem-se no espaço. Numa sensação de infinitude.
Por baixo do palco - da rua - uma prisão. Ou talvez as caves dos circos romanos. Ou, porque não, as jaulas de um jardim zoológico.
Afinal, aquele é um espaço que nos conduz a olhar para o ser humano, no instante em que perde a sua dimensão humana e demonstra a sua natureza instintiva – “o homem que é lobo do homem.”
Mas, o palco por cima do palco, está cercado por uma vedação. De repente tive a sensação que aquela “arquitectura cénica” pretendia dar-nos a projecção de uma cidade cercada, por dentro de si mesma.
Não sei se os muros de uma fábrica que nos afasta do rio. Ou os muros que nos separam da linha férrea. É, afinal uma rua que tem dentro e tem fora, porque os personagens – cidadãos e cidadãs – movem-se por dentro dos dois espaços, em movimentos que os transformam em protagonistas e, simultaneamente, também, em observadores. Sempre críticos. Sempre distantes. Sempre em coro. São as vozes da multidão.
A personagem “multidão”
Uma multidão exuberante. Na sua actuação em bloco. Na sua diversidade de personalidades, que se traduz num registo de visual, espelhado na plasticidade dos figurinos. Caricatural. Absurda.
Uma multidão que tem um papel uno, sendo, no seu conjunto, uma diversidade de personagens, mas, simultaneamente, um personagem especifico – os habitantes da cidade.
Por vezes quase apenas como simples figurantes, sem voz, outras agindo num coro que espelha sentimentos comuns. Um coro que, ao estilo do tragédia grega, funciona como a “voz da consciência critica” ou, então, os tais “velhos do Restelo”.
Imaginei as esquinas da cidade. Onde há sempre alguém, em grupo, na “individualidade colectiva” a apontar o dedo aos acontecimentos, a apontar os erros.
A tal multidão que, é, de facto, a mesma que nas “caves” ou nos “bastidores da consciência” se deiladia consiga própria, mas, que na praça pública “tapa” os ouvidos aos palavrões. Mas Freud explica isto…
O cenário permite que exista “funcionalidade” e “interligação” entre os diferentes níveis que marcam os discursos do personagem “multidão”.
O guarda roupa é soberbo. A representação da “multidão” – Ana Matos, Ana Samora, Andreia Ribeiro, Catarina Serra, Carla Vieira, Emidio Caboz, Helena Cruz, Ilidio Pina, Maria Matos, Maria do Rosário Soares, Manuel Alpalhão, Patrocinia Cristovão e Susana Marques ( de acordo com o programa) – é excelente.
A personagem “multidão” é excelente nas marcações, nos cânticos ( estilo opereta), na vitalidade que colocam nas vivências dos papeis, na expressividade, do olhar e tiques, quer ao nível individual, que ao nível do conjunto. Muito trabalho certamente existiu para atingir a excelência do conjunto, não perdendo a força da individualidade.
Comam maças !
No centro do espectáculo, a percorrer toda a peça, as personagens: Vitória – interpretada por Joana Pimpista – e Alberto, interpretado por Ricardo Guerreiro, ambos, têm beleza e identificam as suas personagens psicologicamente de forma eficiente.
Aliás, ambos, em crescendo, ao longo da peça, sente-se, que vão dominando a personagem e assumindo a dimensão trágico-cómica dos seus papeis.
São dois actores que marcam o espectáculo pela positiva. Com momentos de riso. Com momentos de angústia. Com uma dicção perfeita que permite uma plena “descodificação” do texto e contra-texto, onde o texto contribui para enriquecer as personagens e as personagens enriquecem o texto. Há teatro.
Um momento de forte intensidade, neste espectáculo, é vivido no instante cénico quando Joana Pimpista transporta o palco para a plateia, quando coloca o público, subitamente, como “personagem” – sendo então, este, mais um actor presente e ausente, tornando-se o público, mais um “dado” na dialéctica de inclusão-exclusão, do dito e não-dito, que, afinal, está patente ao longo da peça, na linguagem, no guarda roupa, no cenário.
“Comam maças!” – mais que uma sugestão, é levar o espectador a sentir que, sem dúvida, o que está a acontecer no espectáculo, não é nada de absurdo e irreal, ou mera fantasia – é a cidade.
Esta é uma concepção de encenação que nada tem de gratuito, antes pelo contrário, tem a força e a intencionalidade de colocar a peça fora da peça, e o público ser transformado num prolongamento da personagem “multidão”. Um bonito momento de encenação e criatividade, que tem a sua continuidade, no final, quando ao sair da sala, todos os espectadores são convidados a comer uma maça.
Pois, o espectáculo vai continuar…pelas ruas da cidade.
Vale a pena voltar de novo. Vou voltar
A “Senhora Justa” – Justa Mente – é interpretada pela veterana Célia Figueira, com nobreza e sobriedade, espelhando o seu domínio do espaço teatral, marcando de forma viva a presença e a importância da sua personagem no espectáculo.
Foram muitas as emoções vividas neste espectáculo. Momentos de riso. Momentos de angústia.
Por vezes, dei comigo a pensar, na vida real, nas coisas que fazem o quotidiano da nossa cidade.
As paternidades. A estátua Alfredo da Silva. A vida política. As facas nas costas. Os maus da fita. Os bons da fita. As conversas nas paragens de autocarro.
Afinal, onde está a justiça? Está justa-mente, na certeza que tudo ficará, sempre, resolvido se existir um culpado ( ou culpada).
Portanto, em conclusão, fiquei a pensar, que se “o que é nacional é bom”, então, também, “o que é do Barreiro é bom!”.
Este espectáculo é um exemplo.
Gostei. Vale a pena voltar de novo. Vou voltar.
António Sousa Pereira
“Justamente” em cena até 20 de Dezembro
Com encenação de Jorge Cardoso e Carina Silva, “Justamente” estará em cena no Teatro Municipal do Barreiro – Centro Comercial Pirâmides, na Rua Vasco da Gama, até ao dia 20 de Dezembro, às sextas-feiras e sábados, às 22 horas.
A peça foi escrita em 2005 para o Festival NT Connections (projecto do National Theatre of London) e integrou o Festival PANOS (Palcos Novos Palavras Novas), em Portugal, organizado pela Culturgest, em 2006.
Este espectáculo conta com o apoio da Câmara Municipal do Barreiro e os bilhetes têm o custo de 7,5 euros e 5 euros para menores de 25 e maiores de 65 e 3 euros para grupos de 10 ou mais pessoas. A Bilheteira está aberta de quinta-feira a sábado, das 18 às 22 horas e o telefone é: 21 206 0860.
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